Ainda estamos evoluindo?

Este é o título de um artigo recente (‘Are we still evolving?, publicado no dia 20 de novembro de 2011 pelo The Guardian), escrito por Robin McKie, que começa por questionar se os avanços na medicina e a existência de um suprimento estável de alimento e água teriam abrandado a seleção natural no mundo ocidental, ‘congelando’, desta maneira a  nossa evolução. Esta, aliás, é a opinião de alguns geneticistas, como Steve Jones que afirma: “A seleção natural, se ela não parou, pelo menos tem sido mais lenta.” que para apoiar essa tese nos pede que consideremos as taxas de mortalidade desde a época de Shakespeare, comparado-as com o seu atual patamar. Jones, então, comenta: “Apenas cerca de um bebê Inglês em três chegavam à idade de 21 anos. Muitas dessas crianças morreram por causa dos genes que carregavam, mas agora cerca de 99% de todos os bebês nascidos chegam a essa idade.”. Assim, como atualmente quase todos sobrevivem até a idade adulta não haveria diferenciação entre os ‘mais’ e ‘menos’ adaptados ao meio-ambiente, não havendo maneiras, portanto, de nossa espécie mudar em termos biológicos. Este raciocínio bastante equivocado é logo remediado pela introdução, no artigo, da perspectiva de outros autores e da importante lembrança que as taxas de mortalidade, e, portanto, a ‘sobrevivência do mais apto’, são apenas parte da história. No final das contas, o fator preponderante são os diferencias reprodutivos entre os indivíduos que, por sinal, ainda existem nos dias de hoje, podendo variar bastante entre os diversos grupos humanos. Além destes detalhes, fica claro que essas discussões são um tanto míopes e até etnocêntricas pois envolvem basicamente as populações dos países mais abastados, deixando de lado boa parte do resto do mundo.

Como outros pesquisadores entrevistados não nos deixam esquecer, como é o caso de Chris Stringer, o mundo têm quase 7 bilhões de habitantes, a maioria dos quais não vivem vidas tão despreocupadas como as dos ingleses, sendo constantemente assolados por doenças e outras condições que podem fazer variar bastante suas taxas de natalidade, mortalidade e o número de descendentes que deixam e que conseguem chegar a se reproduzirem. Mas outro fato que não fica muito claro no artigo, ainda que seja mencionado bem de passagem, é que a seleção natural não é sinônimo de evolução biológica. Existem outros fatores e mecanismos evolutivos que continuam a atuar, mesmo que não houvessem variação genética associada a fenótipos mais ou menos vantajosos durante as interações sócio-ecológicas entre os indivíduos e entre eles e seu meio, bastando para isso que haja variabilidade hereditária e reprodução diferencial.

Desta maneira as freqüências genéticas e as das características fenotípicas que tenham uma base hereditária que varie continuarão a mudar com o tempo ao longo das gerações. Essa mudança transgeracional das características hereditárias de uma população através das gerações é a evolução em seu sentido mais básico, isto é, o de descendência como modificação.

O mais interessante, entretanto, é que fatores como a deriva genética aleatória que devem sempre ter sido de grande importância na evolução de nossa linhagem – em função do baixo tamanho efetivo de nossas populações ancestrais e dos vários gargalos de garrafa, isto é, drásticas diminuições do contingente populacional, pelas quais passamos – talvez agora seja ofuscada pela seleção natural e sexual.

Esta é exatamente o raciocínio por trás de alguns trabalhos do paleoantropólogo John Hawks. Já que o grande número de seres humanos torna mais difícil que flutuações estatísticas causem desvios significativos na representação genética de cada geração (a deriva genética), isso faz com que a seleção negativa ou purificadora acabe sendo mais eficiente e abre mais espaço para outros regimes de seleção natural positiva e seleção sexual. Alguns estudos iniciais têm sugerido que a evolução por seleção natural teria, de fato, até se acelerado.

Indagado sobre qual seria a direção do processo evolutivo em nossa linhagem, Stringer responde: “Isso é muito difícil dizer, dada a taxa com que a evolução ocorre – através de muitas gerações”, mas ao mesmo tempo deixa claro que alguns dos esteriótipos populares, como o que iríamos evoluir em direção à criaturas com cabeças aumentadas para que coubessem nossos enormes cérebros, parecem se opor aos dados e as tendências que parecem ter se estabelecido nos últimos milhares de anos.

Segundo o artigo, esta diminuição no volume craniano pode ser parcialmente explicada pelo simples fato que os corpos humanos atuais são mais leves e menores que os de nossos predecessores, ou parentes próximos como os neandertais. Corpos menores em geral demandam também cérebros menores para controlá-los, mas outros fatores podem também ter colaborado com essa redução e Stringer acrescenta:

Os cérebros de animais domesticados são invariavelmente menores do que os das versões selvagens. Isto ocorre devido ao processo de domesticação. O animal não precisa de seu repertório completo de comportamentos para sua sobrevivência. Os seres humanos provêem isso para eles. Como resultado, os energeticamente dispendiosos cérebros desses animais ficam menores. E isso agora é verdade para o Homo sapiens. Nós temos efetivamente domesticados nós mesmos e por isso não precisamos de cérebros tão grandes. Eles podem, assim, continuar a ficar cada vez menores. Cérebros menores não significam que vamos nos tornar estúpidos, no entanto. Nós armazenamo uma grande quantidade de informações exteriormente agora e o nosso processamento mental poderia se tornar mais rápido e mais ‘afiado’, se os sinais elétricos em nosso cérebro tiverem que viajar por menores distâncias ao longo das sinapses.”

Mesmo que a perspectiva de Stringer pareça um pouco exagerada e, como ele mesmo admite, fazer previsões de tendências em biologia evolutiva (especialmente humana) seja um trabalho bem ingrato – já que seria muito difícil saber se essas tendências se manterão ou de seleção poderá mudar de direção contingentemente ou se a dinâmica cultura e fatores estocásticos outros poderão interferir -, alguns resultados preliminares, também de John Hawks, mostram que a variação absoluta do volume endocraniano de amostras de H. sapiens dos últimos 10000 anos são significativamente maiores do que seria previsto a partir de mudanças observadas na massa corporal ou estatura. Esse fato levou-os a concluir que a evolução dos cérebros menores em muitos populações humanas recentes  devem ter resultado de seleção natural agindo sobre o tamanho do cérebro em si (ou, pelo menos, em alguma outra característica mais altamente correlacionada com o tamanho do cérebro do que as dimensões do corporais), o que ajuda a sustentar a hipótese de Stringer. O problema é que não sabemos se as demandas metabólicas e as restrições de recursos do holoceno que possivelmente serviram de pressão seletiva, se mantem até hoje, e possam assim dar continuidade a esta tendência.

No entanto, o tipo de dados necessários aos estudos de evolução humana em populações modernas que permitiriam testar (se não exatamente esta, mas outras, hipóteses) e fazer certas predições já existem. Estudos de longo prazo multigeracionais que contam com amostras de milhares de indivíduos, originalmente elaborados para obter-se dados clínicos e epidemiológicos, podem ser utilizados para  tentar estimar a herança de algumas dessas características e medir a seleção natural caso ela esteja atuando sobre essas características nessas coortes transgeracionais.

Os resultados desses trabalhos, como outro do próprio Stearns, apontam que certas mudanças trans-geracionais específicas em populações humanas modernas vem ocorrendo, particularmente em mulheres,  sugerindo que as mulheres estariam ficando menores e mais pesadas, mesmo que bem sutilmente [Este trabalho já foi discutido aqui em um post do Eli].

As evidências, em conjunto, sugerem fortemente, segundo Stephen Stearns da universidade de Yale e os outros cientistas envolvidos na pesquisa, que continuamos evoluindo e, portanto, que nossa “natureza é dinâmica e não, simplesmente, estática”.

Outros estudos virão e, alguns com delineamentos mais específicos, nos revelarão cada vez mais detalhes não só sobre nosso passado, como sobre nosso presente e possível futuro.

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Referências:

  • McKie, Robin (2011) Are we still evolving? The Guardian guardian.co.uk, Sunday 20 November 2011.
  • Byars, S., Ewbank, D., Govindaraju, D.R. & Stearns, S.C. 2010. Natural selection in a contemporary human population. Proceedings of the National Academy of Science 107: 1787-1792. [pdf]

  • Hawks J, Wang ET, Cochran GM, Harpending HC, Moyzis RK. Recent acceleration of human adaptive evolution. Proc Natl Acad Sci U S A. 2007 Dec 26;104(52):20753-8. Epub 2007 Dec 17. PubMed PMID: 18087044; PubMed Central PMCID: PMC2410101. [pdf]

  • Stearns, S.C., Byars, S.G., Govindaraju, D.R., Ewbank, D. 2010. Measuring selection in contemporary human populations. Nature Reviews Genetics doi:10.1038/nrg2831. [pdf]

Referências adicionais:

  • Amos W, Hoffman JI. Evidence that two main bottleneck events shaped modern human genetic diversity. Proc Biol Sci. 2010 Jan 7;277(1678):131-7. Epub 2009 Oct 7. PubMed PMID: 19812086; PubMed Central PMCID: PMC2842629.

  • Curnoe D, Thorne A. Number of ancestral human species: a molecular perspective. Homo. 2003;53(3):201-24. Review. PubMed PMID: 12733395.

  • Curtis W. Marean et al. (2007) Early Human Use of Marine Resources and Pigment in South Africa during the Middle Pleistocene. Nature, Vol.449, pages 905-908; October 18, 2007.

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