Sobre o texto “Evolucionismo” do site Brasil Escola

*** Parabéns ao BrasilEscola.com por ter mudado o texto criticado por mim abaixo.***

Há anos, por algum motivo, o Google tem dado como primeiro resultado para a busca da palavra “evolucionismo” o texto curto abaixo, de autoria de Rainer Sousa e hospedado no sítio Brasil Escola. O título do texto é “Evolucionismo – A Teoria do Evolucionismo” [sic]:
“A teoria evolucionista é fruto de um conjunto de pesquisas, ainda em desenvolvimento, iniciadas pelo legado deixado pelo cientista inglês Charles Robert Darwin. Em suas pesquisas, ocorridas no século XIX, Darwin procurou estabelecer um estudo comparativo entre espécies aparentadas que viviam em diferentes regiões. Além disso, ele percebeu a existência de semelhanças entre os animais vivos e em extinção.

A partir daí ele concluiu que as características biológicas dos seres vivos passam por um processo dinâmico onde fatores de ordem natural seriam responsáveis por modificar os organismos vivos. Ao mesmo tempo, ele levantou a idéia de que os organismos vivos estão em constante concorrência e, a partir dela, somente os seres melhores preparados às condições ambientais impostas poderiam sobreviver.

Contando com tais premissas, ele afirmou que o homem e o macaco teriam uma mesma ascendência a partir da qual as duas espécies se desenvolveram. Contudo, isso não quer dizer, conforme muitos afirmam, que Darwin supôs que o homem é um descendente do macaco. Em sua obra, A Origem das Espécies, ele sugere que o homem e o macaco, devido suas semelhanças biológicas, teriam um mesmo ascendente em comum.

A partir da afirmação de Charles Darwin, vários membros da comunidade científica, ao longo dos anos, se lançaram ao desafio de reconstituir todas as espécies que antecederam o homem contemporâneo. Entre as diferentes espécies catalogadas, a escala evolutiva do homem se inicia nos Hominídeos, com mais de quatro milhões de anos.

O Homo habilis (2,4 – 1,5 milhões de anos) e o Homo erectus (1,8 – 300 mil anos) compõem a fase intermediária da evolução humana. Por fim, o Homo sapiens neanderthalensis, com cerca de 230 a 30 mil anos de existência, antecede ao Homo sapiens, surgido há aproximadamente 120 mil anos, que corresponde ao homem com suas características atuais.

Mesmo cercada por uma larga série de indícios materiais sobre as transformações da espécie humana, a teoria evolucionista não é uma tese comprovada por inteiro. O chamado “Elo Perdido”, capaz de remontar completamente a trajetória do homem e seu primata original, é uma incógnita ainda sem resposta.”

ResearchBlogging.org

A primeira metade do texto está boa, porém do quarto parágrafo adiante o que se vê é confusão. Em primeiro lugar, a biologia evolutiva, como as publicações do Evolucionismo.org divulgam, é uma área muito maior do que simplesmente a busca por espécies que “antecederam o homem contemporâneo”. Os interesses dos biólogos evolutivos vão da história das plantas da família do maracujá a mostrar que eram infundadas as acusações contra cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino, na Líbia, de terem supostamente contaminado as crianças de um hospital com HIV. Foi uma análise evolutiva das linhagens do vírus que inocentou o médico e as enfermeiras. [1] Estudar a origem da espécie e populações humanas é apenas uma das coisas que um biólogo evolutivo pode fazer.

Árvore de Darwin

Em segundo lugar, a ideia de uma “escala evolutiva” foi abandonada pelos biólogos há mais de um século. É a imagem de uma árvore, como a árvore desenhada por Darwin, que se deve ter em mente quando se fala em descendência com modificação de seres vivos, incluindo o ser humano. Não uma imagem de escala, escada, corrente ou aquela famosa fila de hominídeos com o homem na frente. (ESQUEÇA aquela imagem quando pensar em evolução!)
O último parágrafo destrói completamente qualquer tentativa de imparcialidade neste texto.
O autor fala em “tese” e “comprovada” demonstrando ignorância em filosofia da ciência, em que estes termos, principalmente o termo “prova”, caíram em desuso há pelo menos 40 anos.
Prova é um recurso da matemática (teoremas são provados com deduções). Em ciências usa-se o acúmulo de evidências e corroborações experimentais para hipóteses, e aquelas hipóteses que mais se corroboram e resistem a tentativas de refutação geram teorias científicas, que são as melhores explicações que a atividade científica é capaz de gerar [2]. A adequação das teorias científicas à realidade é o que está por trás da eficácia da tecnologia e da medicina, por exemplo. Inclusive, muitas atividades médicas, principalmente as de controle de epidemias, dependem da teoria da evolução.
O autor está mal informado sobre o nível de aceitação da teoria da evolução entre cientistas da área. A teoria da evolução é tão aceita entre biólogos quanto a teoria da relatividade é aceita entre físicos.[3]
Colocar um parágrafo dizendo que a teoria da evolução é uma “tese não comprovada” é desinformar o leitor por duas vias: passar a ideia equivocada de que ciências empíricas trabalham através de provas, e ignorar o consenso da comunidade de cientistas que trabalham com os seres vivos.
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Sobre a diferença entre teoria da evolução e evolucionismo, ver o manifesto de lançamento do Evolucionismo.org. Sobre o termo obsoleto “darwinismo”, conferir esta resposta no ‘Pergunte ao Evolucionismo’.
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Eli Vieira
Biólogo e estudante de pós-graduação em genética e biologia molecular pela UFRGS

Referências


1 – de Oliveira T, Pybus OG, Rambaut A, Salemi M, Cassol S, Ciccozzi M, Rezza G, Gattinara GC, D’Arrigo R, Amicosante M, Perrin L, Colizzi V, Perno CF, & Benghazi Study Group (2006). Molecular epidemiology: HIV-1 and HCV sequences from Libyan outbreak. Nature, 444 (7121), 836-7 PMID: 17171825

2 – Gregory, T. (2007). Evolution as Fact, Theory, and Path Evolution: Education and Outreach, 1 (1), 46-52 DOI: 10.1007/s12052-007-0001-z

3 – Confira o “Projeto Steve“, que numa ironia à famosa lista de cientistas criacionistas (nenhum deles biólogo), juntou um número exorbitante de cientistas que se chamam ‘Steve” e aceitam a evolução. O nome é uma homenagem a Stephen Jay Gould.

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