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Mason Liang e Rasmus Nielsen, em uma sessão de perguntas e respostas da revista BMC Biology, resume
m o que realmente sabemos (e, principalmente "como" sabemos) sobre Homo sapiens, até o momento. As oito perguntas e respostas inspiraram esta série de posts rápidos que começam hoje aqui no evolucionismo. Segue uma versão baseada das mesmas perguntas de respostas que tomam como base as respostas de Liang e Nielsen (2011) e em que acrescento mais informações e considerações, além de fontes bibliográficas adicionais.
"1) É verdade que humanos modernos tem ascendência direta dos Neandertais e outras espécies arcaicas?"
A resposta mais direta é sim. Pelo menos é o que podemos concluir a partir de dois estudos bem recentes publicados por Green e colaboradores e Reich e colaboradores, ambos em 2010. Na realidade a presença e a porcentagem de material genético dessas linhagens humanas arcaicas, como os Neandertais, em seres humanos modernos, depende da origem étnica das populações humanas.
O primeiro artigo relata que de 1 a 5% do genoma de indivíduos de populações de ascendência não-africana da Eurásia seria originário de Neandertais, enquanto, o segundo artigo mostra que de 4 a 6% do genoma de Melanésios teria sua origem de populações de um outro representante do gênero Homoarcaico. Este segundo artigo refere-se aos resultados de amostras genéticas recuperadas de fósseis pertencentes a um tipo anteriormente desconhecido de seres humanos arcaicos que foram encontrados em uma caverna remota nas montanhas Altai, na Sibéria. Os Denisovanos, como ficaram conhecidas estas populações, em função da caverna onde foram achados devem ter habitado estas regiões por volta de 30.000 a 50.000 anos atrás.
A possibilidade de contaminação foi bastante reduzida através da utilização de uma série de procedimentos de coleta e testes usando o conhecimento prévio dos
genomas mitocondriais e do cromossomo Y que são empregados como maneira de identificar eventuais contaminações com material genético dos cientistas.
Os Neandertais e Denisovanos são as únicas linhagens investigadas até o momento, e por causa disso ainda é possível que em um futuro próximo contribuições de outras espécies arcaicas venham a ser descobertas. De fato, alguns estudos bem recentes têm estendido essa questão para potenciais misturas ocorridas entre populações de Homo sapiens com outras linhagens de humanos arcaicos na África. Um desses trabalhos, de Hammer e colaboradores publicado no PNAS em 2011, utilizou dados de seqüência de DNA coletadas a partir de 61 regiões não-codificadoras autossômicas (i.e. do genoma nuclear e de cromossomos não-sexuais) provenientes de amostra de três populações africanas subsaarianas (Mandenka, Biaka, e San) como forma de testar modelos de intercruzamentos ancestrais entre populações de espécies de Homo arcaicas e Homo sapiensafricanas.
As análises levaram os pesquisadores a concluírem que populações contemporâneas africanas contém uma pequena proporção de material genético (cerca de 2%) que se originou por introgressão por volta de 35 mil anos de uma população arcaica que se separou dos ancestrais de humanos anatomicamente modernos há 700 mil anos atrás.
Essas descobertas vem fazendo com que os pesquisadores modifiquem o modelo de origem das populações dos seres humanos modernos, como veremos nas questões que seguem e que serão apresentadas em outros posts aqui no evolucionismo.org. Ainda que os resultados da análise dos O primgenomas mitocondriais e do cromossomo Y sejam completamente consistentes com a hipótese de
origem 'para-fora-da-África' ('Out of Africa' ou OOA) recente e não compatíveis com a origem multi-regional, o padrão exibido pelos genes e marcadores genéticos presentes nos cromossomos autossômicos é menos claro, ainda que em grande parte sugira uma origem africana recente da maioria de nossos locie regiões genômicas autossômicas, ou seja, dos nossos genomas nucleares e não envolvidos com nossos cromossomos sexuais, ao mesmo tempo indicam que algum grau de miscigenação com outra linhagens humanas deve ter ocorrido, o que é corroborado por estes novos estudos. Desta maneira, uma atualização do modelo de origem fora-da-África, ainda que pequena, é necessária.
Essa é a aurora da Paleogenética, uma disciplina que até poucas décadas considerávamos apenas ficção científica e que tem nos permitido recuperar informação genética que até pouco tempo julgávamos para sempre perdidas.
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Referências:
Liang M, Nielsen R. Q&A: who is H. sapiens really, and how do we know? BMC Biol. 2011 Mar 31;9:20. PubMed PMID: 21453556; PubMed Central PMCID: PMC3068989.
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Literatura adicional recomendada:
Green RE et al. A draft sequence of the Neandertal genome. Science. 2010 May 7;328(5979):710-22. PubMed PMID: 20448178.
Hammer MF, Woerner AE, Mendez FL, Watkins JC, Wall JD. Genetic evidence for archaic admixture in Africa. Proc Natl Acad Sci U S A. 2011 Sep 13;108(37):15123-8. Epub 2011 Sep 6. PubMed PMID: 21896735; PubMed Central PMCID: PMC3174671.
Reich D et al. Genetic history of an archaic hominin group from Denisova Cave in Siberia. Nature. 2010 Dec 23;468(7327):1053-60. PubMed PMID: 21179161.
Gibbons A. Paleogenetics. Close encounters of the prehistoric kind. Science. 2010 May 7;328(5979):680-4. PubMed PMID: 20448163.
Gibbons A. Paleoanthropology. Who were the Denisovans? Science. 2011 Aug 26;333(6046):1084-7. PubMed PMID: 21868646.
Crédito da figura:
Credit: VOLKER STEGER/SCIENCE PHOTO LIBRARY
Credit: RIA NOVOSTI/SCIENCE PHOTO LIBRARY
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Comentário de Rodrigo Véras em 29 dezembro 2011 às 11:56 Muito obrigado pelos elogios e agradecemos sempre seus comentários e suas contribuições que sempre primam pela qualidade que é o que mais damos valor por aqui.
Um grande abraço meu e do Eli e feliz 2012.
Rodrigo, desculpe a demora ( disponibilidade de tempo reduzida devido à essa louca corrida de todos os finais de ano ). À parte os habituais elogios às suas postagens, em especial às quatro últimas, gostaria de encerrar este 2011 desejando à voce e ao Eli um bom final de ano e um ótimo 2012 e tambem uma mensagem pertinente e sincera : mantenham sempre a chama acesa e jamais desistam de divulgar as incríveis descobertas do comportamento do mundo natural como nos são revelados pelas investigações de caráter científico e pela matemática. Penso que a apatia é o primeiro passo para a morte da mente. Sinto não poder colaborar mais do que me é possível fazê-lo, pois apesar de possuir uma boa quantidade de material eu não possuo internet em minha residência nem qualquer outro instrumento de acesso além deste de meu local de trabalho, o que restringe bastante minhas ações. Mais uma vez, um grande abraço à você e ao Eli e até 2012, pois o tempo não pára. Até lá.
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