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Tenho lido nos últimos tempos, em especial pelas idéias difundidas por Amit Goswami e pelo sucesso do, se é que podemos chamá-lo assim, documentário Quem somos nós?, de 2004, algumas idéias sobre o que seja a mente humana que me parecem quando não simplesmente tolas, até contrárias ao próprio evidente funcionamento do que seja o nosso cérebro.

Primeiramente, gostaria de apresentar uma questão: o cérebro humano e a mente humana podem ser comparados, até de maneira didática e útil, com o par hardware-software da informática, mas de maneira extremamente limitada. Exemplifiquemos. Quando leio que a massa molar da água é 18 gramas, posso até memorizar e "decorar" para toda minha vida, como agora apresento, que o sei, e o saberei provavelmente, a não ser em caso de algum acidente/intoxicação, logo dano ao meu cérebro, que tal dado apresenta tal valor. Este mesmo dado se guardado num HD de um computador, a menor consulta, por mais disperso e desorganizado que seja seu operador, ou mais primitivo seu sistema de organização de dados, lá estará até a falha final e irrecuperável deste computador e de seu sistema de armazenamento de dados.

Mas notemos, que similarmente, quando apresentado à variável gim (a bebida) e perguntado de onde este se origina (do que é produzido), poucos dias atrás, veio-me a lembrança o aguardente que o dissolve, forma principalmente, que era originário dos países baixos, especialmente da Holanda, que ganhou grande popularidade na Inglaterra, que ganhou o mundo pelo domínio Inglês, posteriormente, o norteamericano, que era a bebida preferida da rainha-mãe, que possui sabor marcante, que tem perdido espaço principalmente para a vodka, até o episódio de Missão Impossível onde banham pelo chuveiro um personagem nele para ser caracterizado como alcoólatra, até mesmo os dias em que tomava gim-tônica e gostava, lembrei de seu odor característico e de seu sabor, mas de forma alguma o que já tinha lido em revistas, assistido em documentário e relembrado vezes sem conta: a presença inseparável em sua produção do zimbro.

Aqui já percebemos a diferença. O cérebro não é um máquina lógica, eletrônica, digital, nem mesmo um computador analógico clássico. Ele não opera por balanço entre variáveis eletrônicas, como os computadores analógicos, nem tampouco opera por memorizações teoricamente permanente em um meio de gravação/memorização, ele é um sistema dinâmico de fluxos de impulsos, instável e plástico (no sentido fisiológico) sempre em associações de conceitos, de imagens, de "impressões", e o termo aqui é psicologicamente mais amplo, e inclusive, causa forte impressão - perdão pelo forçado trocadilho.

O cérebro e sua mente, e mesmo os mais místicos, terão de assumir que é um sistema com a capacidade de processamento de eventos físicos no tempo, como se mostra mesmo o meu, quando tenho uma bola de basquete arremessada numa certa velocidade no espaço, e minhas mãos vão de encontro à esta bola com precisão milimétrica naquela posição do espaço e tempo. Igualmente, é um "coordenador robótico" de altíssima capacidade, pois após dois ou três arremessos, minha memória neuro-muscular me fará mais e mais acertar arremessos da linha de três pontos, até o momento que minha máquina biológica muscular, movida a glicogênio e um tanto de gordura, pelo menos por enquanto assim a limita nossa tecnologia e muito limitará nossas contas bancárias, apresentar exaustão, e a taxa de acertos decair vertiginosamente. O que se dizer então de um saltador olímpico, ou um ginasta, esportes imensamente mais complexos, ou um atirador de arco e flecha, muitíssimo mais preciso.

Logo, o cérebro-mente é um processador do comportamento do físico, e um coordenador do físico (nosso) no espaço e no tempo, e tal não pode ser negado.

Mas somos um processador lógico, matemático? A resposta é claramente não.

Temos a capacidade, e alguns de nós imensamente mais, como os gênios da matemática Euler e Gauss, de fazer processamento lógico-matemático, e até matemático puro, aritmético, mas mesmo cérebros-mente anômalos, como os "autistas sábios", que podem fazer cálculos mais rápidos que eu com uma calculadora, não são capazes de fazer, nem na verdade o fazem, computação propriamente dita. Fazem uma emulação cerebral de computação. Assim, qualquer calculadora de poucos reais fará cálculos a mesma velocidade de qualquer expoente fracionário com seu limite de número de dígitos, mas mesmo o mais capaz dos autistas sábios fará apenas bem cálculos para determinado número de dígitos e para determinados expoentes, ou "raízes", sejamos mais populares. O autor Oliver Sacks descreve casos interessantes desta natureza em seus livros.

Igualmente, eu possuo um excelente raciocínio espacial, mas seria incapaz de fazer uma simulação do vôo de mesmo um besouro em minha sala, fluidodinamicamente falando, embora mentalmente, possa até considerar que o esteja fazendo. A história da ciência está cheia de erros dos mais poderosos cérebros em casos similares, como Aristóteles, que por raciocínios, chegou aos resultados hoje ridículos de que corpos de massas diferentes cairiam com velocidades diferentes, ou que a velocidade de um corpo na horizontal encerra-se quando este começa a cair na vertical (do ponto de vista físico, este erro é tão grosseiro que chega a me ser difícil apresentá-lo, dado, que até como quero provar, meu cérebro-mente é uma "máquina" extremamente instável e limitada).

Não pensem de forma alguma que desejo pegar o exemplo de Aristóteles como destacado em erros, até porque mais adiante, voltarei a citá-lo indiretamente, exatamente por muito do que o pensamento dos filósofos foi prejudicial nesta área, pois mesmo físicos, já propriamente ditos, como Galileu, perderam-se em negar, por puro raciocínio errôneo, a influência da Lua nas marés, por exemplo, ou Einstein as implicações e afirmações da mecânica quântica.

Como dissemos, o cérebro não é um processador lógico, e nem mesmo, como pretenderam os filósofos gregos e outros, pensa por mecanismos transcendentes ao biológico, ao instável, ao efêmero e até ao tendencioso, e assim, não por lógica perfeita e formalizável, e aqui nasce muito de nossa criatividade, ao fundir conceitos completamente separados, e praticamente toda nossa arte.

Citando arte, os grandes compositores e músicos são os grandes mestres do planejamento de fenômenos no tempo, e os grandes mestres do que chamamos harmonia, das construções sonoras que encantam pelos efeitos agradáveis ao nosso cérebro. Mas também, exatamente por sua grandeza e qualidade, são os maiores destruidores disto, exatamente no que chamamos em música de "acordes dissonantes" (lembre-se da trilha de Psicose e já vai descobrir o que isto seja, se não sabe ainda), e como mostram os compositores já posteriores a Beethoven, em criar "imagens musicais" (aqui este absurdo foi proposital) que não são de forma alguma agradáveis, bucólicas, mas sim, agressivas e até assustadoras. Arte não é só o belo, mas expressar muitas vezes nossos piores sentimentos, inclusive, porque humanos somos, e nada mais. Aqui já temos que a máquina cerebral não é apenas voltada ao belo e perfeito, e sim, a um tanto de nossas necessidades mais primitivas e fundamentais, herança de nosso processo evolutivo.

Encarando com um pouco mais de moderação até aqui o que já percebemos que não é uma maravilha o que seja nosso cérebro, poderíamos tratá-lo como um processador em desenvolvimento pela evolução há milhões de anos, partindo, por exemplo, do cérebro de um mamífero insetívoro contemporâneo dos dinossauros, quase um IBM XT, até chegar ao digamos, processador poderoso de última geração que este é hoje. Desculpem os mais empolgados, mas se uma indústria de hardware progredisse como a evolução, e no seu rítmo, já teria falido nos anos 80.

Nosso mais poderoso computador de mesa hoje é um roedor de pequeno porte em termos de processamento, mas tal não se deu por um processo evolutivo biológico. Mas nosso cérebro, ainda um tanto distante em vantagem de nossos mais poderosos computadores, no que tange a coordenar um robô (no sentido aqui apenas de componentes mecânicos) executar tarefas variadas e complexas, relacionar a partir do nada questões pouco similares (como álgebra e sabor de um suco) e processar desde poemas até sons, evoluiu, e tal se deu em capacidade a taxa muito baixa.

Uma das poucas vantagens que nosso cérebro tem (na verdade, qualquer cérebro), e isto é tratado de maneira magnífica por Raymond Kurzweil, apresenta geometria não plana de construção, e sim, volumétrica. Mas tal se deu por absoluta economia, não por um designer que assim o fizesse econômico, pois cá entre nó, somos apenas, junto com todo os animais cerebrados, um modificação de uma "planária" que decide para que lado vai ou alimentar-se ou fugir de ser devorada. Nosso cérebro pode ser comparado a um fígado ou coração, apenas com finalidade específica. Logo, não é um processador retangular harmonioso e cartesiano, econômico em formas e sem problemas de se encaixar numa base perfeita, mas também não é como outros órgãos também não o são um eficiente reator químico com catalisadores, nem tampouco uma poderosa bomba centrífuga.

Somos biológicos, não máquinas newtonianas-maxwellianas-bernoullinianas, citando o físico base para o mecânico, o básico para o elétrico e o respectivo para o hidrodinâmico. Não somos produto de física, somos a sobrevivência das modificações possíveis.

Acredito que até aqui, apresentei problemas demais ao que seja nosso cérebro, e não apresentei ainda, além disto, o que ele não seja. Mas desculpem-me, pois sou, infelizmente, outro cérebro-mente a produzir a apresentação de um conjunto complexo de conceitos, logo, não lógico e plenamente funcional, mas caótico e "bifurcante" como todo sistema biológico.

Nosso cérebro opera, e tal é claro e evidente na medicina, por impulsos nervosos que são operação conjunta de neurotransmissores e íons. Tal conjunto de sinalizações entre os neurônios não se dá ao nível subatômico e sim, a um nível molar, e aqui o conceito de uma unidade mínima para o que seja o funcionamento cerebral me é extremamente útil. Mas notemos que esta "partícula" não é um elétron ou um próton, mínimas cargas no mundo bioquímico, e sim, um lote enorme de moléculas de neurotransmissores ou íons. O mesmo se dá quando chegamos ao um nível de informação que forme uma unidade mínima de memorização, e adiante desta escala, o que passamos de mente à mente, pela linguagem e vida social, que seria o objeto da memética.

Logo, como vimos, o cérebro não é quântico, ou microscópico, mas apenas o resultado macroscópico do microscópico, e nem apenas de cada componente microscópico, mesmo suas células, imprescindivelmente. Depende sim de seu mais amplo conjunto e seu momentâneo estado.

Acrescento, depende até, como eu, que sou hipoglicêmico, da quantidade de carboidratos que comi há umas duas horas atrás.

Mas focando-nos neste processo multimolecular de funcionamento, e agora integrado ao corpo que o abriga e sustenta em recursos energéticos, e lembrando-nos que o cérebro é bastante difuso e não pode ser comparado à uma bobina, é bom também alertar que não é um receptor de rádio, que capte informações de um processamente (que tal como vimos, é bastante caótico) de uma supra-realidade onde habite os pensamentos, ou imagem olímpica similar. O cérebro está aqui, e nele, biogicamente, está sua mente, e tanto está e nele funciona, que ao menor acréscimo de uma substância como os fluorados Prozac e seus similares, muda de "estado de espírito", ao acréscimo de substâncias como as encontráveis no chocolate, ou no café e no chá; muda seus rítmos. Então se o químico o altera, químico é, ou teríamos de também acrescentar que o químico mudaria o comportamento deste "rádio para outro mundo". Que aliás, por quem o defende, que seja apresentado, pois até agora não o evidenciamos em nível algum, e como agora apresento, também como hipótese apresenta seus graves problemas.

Se o químico altera o funcionamento do "rádio", também o afetam danos de diversos níveis. Mas igualmente, o cérebro não é um projeto de operação compartimentada, tal como nos lembra os saudosos computadores Amiga. Não existe aquela região perfeitamente delimitada que opera a emoção, ou o movimento da perna, ou a visão do olho direito, ou a lembrança da forma de uma flor determinada ou o que raios seja uma baga de zimbros. Existe sim regiões biológicas, difusamente delimitadas, e espero que tal seja bem entendido, onde "por ali" são processados a emoção do reencontro com um amigo íntimo de muitos anos, noutra, a coordenação de uma passada firme e bem dada para executar um arremesso bem feito, noutra fica armazenada a memória de uma bela flor, noutra que jasmim me causa enjôos, noutra, o sabor de gim-tônica, que lembra a maravilhosa paquera de vinte e tantos anos atrás, que por sinal, anos mais tarde soube que era relacionado com exótica fruta dos países baixos. E as fronteiras destas regiões se interpenetram, sutilmente, daí um jogo me lembrar um odor, ou uma música um sabor, ou a mesma música me motivar.

Assim, o "radinho" dos mais místicos e crentes num valhala cósmico, onde abrigam-se os pensares, é difuso num cérebro um tanto padronizado, e recebido numa máquina biológica que varia da minha para meu amigo Eli, ao ponto que cérebros não são iguais, tanto como não são iguais as nossas digitais. Mas ao primeiro acidente que soframos, menos iguais serão, e talvez o meu se recupere de maneira fantástica, assombrosa, quase milagrosa, e o dele não, ou o meu, com pequena lesão (e notemos que aqui, mais e mais, a hipótese de um "cérebro-rádio" vai-se com o vento) talvez fique impossibilitado do mínimo processamento matemático, coisa que hoje não é, e o dele, com lesão muito maior, agora recupere-se bem, mas por um acaso, um talento que hoje não possuo, que é mesmo tendo um bom processamento mental para música, seja incapaz de tocar a mínima música infantil ao teclado com mão esquerda, surja "por milagre". E um talento nem um pouco brilhante como esse pode emergir num cérebro lesado agora incapaz de lembrar da pessoa que cumprimentou há dois minutos ou de realizar uma simples conta de somar.

Assim, ao contrário de um computador, ou um rádio, que após um tombo, ou mesmo um pico de corrente, perca sua capacidade e dados, o biológico, limitado e não lógico cérebro é plástico, adapta-se a novas funções a partir de um resíduo suficiente, o que está distante do tecnológico ainda por muito tempo, e tal me parece muito mais magnífico que um cérebro reduzido à uma caixa receptora de um xangrilá sobrenatural ou de um compartimento onde vai se adaptando com o amadurecimento (e definhando com a decadência biológica, nem sempre padrão) um fantasma imaterial originalmente perfeito mas inverossímil.

Logo, não há uma "mente quântica", não há um cérebro receptor do além natural, não há um receptáculo para uma alma, nascido por milagre pela modificação de uma cria tão amada por sua mãe quanto eu ou você foi pela minha ou pela sua, emanado nesta injustiça sabe-se lá por que criatura assim injusta.

Há um cérebro biológico operando, composto por unidades biológicas imperfeitas e instáveis, de quantidades de partículas quânticas iguais a de qualquer pedra de mesmo peso/volume/densidade, sujeitas ao erro, operadoras de um sistema que sobrevive há milhões de anos, capaz de aprendizado com o meio, coordenador de uma máquina em permanente marcha para a morte, e nisto seu impulso pela vida, tão justo e fraterno como o foram os de seus pais, e tão falho quanto estes, tentando entender o mundo e a si mesmo, inclusive em ser exato ao arremessar uma bola, ou se lembrar o que compõe o gim, ou mesmo, escrevendo este texto para você, ainda num corpo bastante hábil.

Só não diga que esta mente é mais que isto, pois não é. Não somos o universo tentando entender a si mesmo, mas sim, apenas uma região de organização do universo, que se entende como aproximadamente uma unidade, tentando entender inclusive o que seja o universo onde se encontra, ou mesmo, o cérebro-corpo em que opera.

Se desejar chamar este processo neste cérebro não de mente, mas de alma, confesso que minha mente não achará ruim.

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Comentário de Eli Vieira em 18 agosto 2009 às 20:17
Meu caríssimo Francisco,
tive que voltar até aqui para dizer o quanto me agrada seu estilo "bifurcante" de escrever, aos atropelos que elegantemente avançam sem cair, numa marcha tão espirituosa que não me tira o sorriso do rosto em momento algum.

Muitas coisas, tantas, achei dignas de comentar neste texto, que elas acabaram por atropelar a própria volição de digitar antes.

Por exemplo, quando você fala em delimitação nebulosa de áreas cerebrais responsáveis por estados mentais específicos, me faz pensar nas teoria de conceitos de Eleanor Rosch: o que é uma "coisa"?

- na concepção clássica, uma "coisa" é uma "coisa" porque tem as características x, y e z. E tudo o que tiver x, y e z terá o suficiente para ser uma coisa - ou seja, x, y e z são as condições necessárias para algo ser uma "coisa".

- na concepção prototípica, só são "coisas" aqueles elementos que minimamente se assemelharem à primeira "coisa" observada, que é o protótipo.

- ou então são "coisas" tudo aquilo que responder a um corpo teórico psicológico sobre que são "coisas".

Estados mentais merecem este arcabouço filosófico sobre conceitos, dada a sua complexidade. Conceitos complexos para fenômenos complexos.

(Dificilmente eu me fiz entender neste comentário, mas o que vale é a intenção de um cérebro-mente sonolento.)
Comentário de Alex Altorfer em 11 agosto 2009 às 14:30
Salve Chico!
"Não somos o universo tentando entender a si mesmo, mas sim, apenas uma região de organização do universo, que se entende como aproximadamente uma unidade, tentando entender inclusive o que seja o universo onde se encontra, ou mesmo, o cérebro-corpo em que opera".
Estritamente falando concordo contigo, mas quando se diz que "somos o universo tentando entender a si mesmo", o sentido é metafórico e não literal. Mas é claro que pancadas como esses caras que produziram o filme "Quem somos nós?" não servem como referência pra nada.
Abração,
Alex

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