Sendo humano: linguagem: uma história social das palavras

por Eörs Szathmáry¹ & Szabolcs Számadó¹

1. Eörs Szathmáry e Szabolcs Számadó são do Instituto de Biologia da Universidade Eötvös Loránd, Budapeste, Hungria. E.S. é também do Collegium Budapest e do Centro Parmênides para o Estudo do Pensamento, Munique, Alemanha.

A linguagem evoluiu como parte de um grupo de características exclusivamente humanas, cuja interdependência demanda uma abordagem integrada de estudo das funções cerebrais, argumentam Eörs Szathmáry e Szabolcs Számadó.

Nossa habilidade de nos comunicar usando a língua é frequentemente citada como o elemento que nos separa dos outros animais. Embora a língua não seja exclusivamente humana em todos os aspectos – cães e grandes macacos africanos, por exemplo, podem aprender o significado de muitas palavras – ela quase certamente merece um status especial. Isso porque, mais do que qualquer outro atributo, a linguagem foi provavelmente imprescindível no desenvolvimento do conjunto de características que fazem dos humanos seres únicos.

A evolução da linguagem provavelmente ocorreu em sinergia com a evolução de muitas das outras características que definem o humano, como a habilidade de fabricar ferramentas ou uma forte propensão a aprender. Se isso é verdade, é uma sugestão de que não deveríamos tentar entender um atributo caracteristicamente humano isolado dos outros. Além disso, em vez de o cérebro ser ser um apanhado de módulos separados, cada um dedicado a uma capacidade específica, humanos provavelmente têm uma arquitetura cognitiva complexa que é altamente interconectada em níveis múltiplos.

A comunicação refinada teria ajudado os humanos no mínimo desde o Pleistoceno tardio, cerca de 120 mil anos atrás. A este ponto, os humanos já eram proficientes em grandes caçadas. De fato, as vantagens que grupos de caçadores teriam com a comunicação melhor podem ter ajudado a guiar a evolução da linguagem no princípio. Mas a linguagem foi quase certamente co-optada para uma gama de atividades mais tarde. A diversidade de comportamentos que apareceram durante o Pleistoceno tardio, incluindo pesca, uso de pigmentos, e manufatura de ferramentas e armas, e também a taxa em que emergiram, sugerem que naquele tempo os humanos adquiriram o conjunto completo de habilidades, e podiam também se comunicar usando linguagem complexa.
Muitos desses desenvolvimentos tiveram um contexto social claro: fazer pontas de lança ou usar pigmentos, por exemplo, pode ter dependido do aprendizado a partir de outros membros do grupo. Estudos com chimpanzés mostram que, sem a linguagem, o conhecimento em tarefas básicas de uso de ferramentas, tais como usar pedras como martelo e bigorna para quebrar uma noz, se espalha de forma altamente ineficiente.

“A evolução cultural nos mostrou que uma palavra pode valer mil genes.”

De fato, a maior parte do nosso maquinário gramático nos permite engajar nos tipos de interação social dos quais depende o aumento na frequência dessas tarefas. Conseguimos combinar frases sobre quem fez o quê a quem, quem fará o quê a quem, e assim por diante, de um modo rápido, fluente e em grande parte inconsciente. Isso apóia a noção de que a linguagem evoluiu num contexto altamente social e potencialmente cooperativo, envolvendo e demandando ao menos três atributos: atenção compartilhada, intencionalidade compartilhada e teoria da mente. Em outras palavras, os indivíduos teriam sido capazes de prestar atenção à mesma cena ou objeto que os outros; se atentarem de que deviam agir como um grupo para alcançar uma meta comum; e atribuir estados mentais aos outros tão bem quanto a si mesmos.

Singularmente humano

A provável emergência da linguagem moderna no contexto dessas outras capacidades indica a evolução de um conjunto singularmente humano de características. Nós mal começamos a perscrutar a arquitetura dessa ‘série’, mas há pouco para se sugerir que cada capacidade evoluiu uma por uma, ou que cada uma poderia ser perdida independentemente sem prejudicar ao menos alguma outra característica no conjunto.

Tomemos a cooperação. Em humanos, práticas como a fidelidade a um parceiro sexual e o compartilhamento de comida suprimem a competição dentro dos grupos. Estes podem ser agregados mais facilmente com a linguagem, porque linguagem quer dizer que pode haver concordância em detalhes e que os conflitos podem se resolver. Caçar em bandos é mais eficiente se as caças podem ser planejadas e os planos comunicados. E ambas cooperação e comunicação com o uso da linguagem são mais fáceis se as pessoas podem focar atenção na mesma coisa, saber que os outros têm estados mentais que podem diferir de seus próprios, e perceber que precisam agir em grupo.

Além disso, algumas das características na série demandam tipos bem similares de operação. A linguagem não é crítica para fazer ferramentas; os passos envolvidos podem se espalhar por ensinamento não-verbal e imitação, ou aprendidos através da experiência individual. Mas, do mesmo modo que a sintaxe, a ‘gramática da ação’ de manipulações complexas envolve o processamento hierárquico. Quando fabricamos uma ferramenta, bem como quando formamos uma frase, a construímos a partir de unidades mais simples.

Desenvolvimento conjunto

Evidências que corroboram uma evolução entrelaçada dessas características vêm, por exemplo, de experimentos que mostram que pessoas que brigam com a gramática também têm dificuldades ao desenhar estruturas hierárquicas, tais como combinações dispostas em camadas.

Além disso, os registros de atividade cerebral sugerem que as mesmas estruturas cognitivas estão envolvidas no processamento linguístico e manufatura de ferramentas. Num estudo recente, pediu-se a um grupo de pessoas que fizessem um tipo antigo específico de machado de pedra, que precisava de tipos diferente de trabalhos feitos numa ordem específica. Imagens cerebrais tiradas durante o processo revelaram a ativação de uma região no hemisfério cerebral direito. Esta região é análoga a outra no hemisfério esquerdo chamada área de Broca [pronuncia-se “brocá”], que é envolvida na linguagem. A área do hemisfério direito é também conhecida por participar de funções de processamento de linguagem quando o hemisfério esquerdo é lesado numa idade jovem.

Estabelecer a forma como os genes subjacentes a vários traços interagem pode igualmente dar base para a idéia de que os traços humanos são intimamente inter-relacionados. Obviamente, os genes não codificam para a linguagem ou para a capacidade de fazer ferramentas. Eles codificam para proteínas e moléculas de RNA que desempenham papéis estruturais, funcionais e regulatórios. Tomemos o gene FOXP2. Quando mutado, ele perturba o controle motor da boca e da face, e a forma das palavras, tais como as do pretérito dos verbos regulares do inglês. O FOXP2 é expressado em outros vertebrados além dos humanos, e em outros tecidos humanos além do cérebro. Em aves e mamíferos, ele parece estar envolvido no desenvolvimento geral da circuitaria neural que garante a descarga rápida e contínua de movimentos sequenciais.

Que os genes envolvidos numa característica cognitiva afetem outras características, e tenham efeitos que interagem entre si, é o normal para o comportamento complexo. Mas o resultado é provável que seja uma rede de efeitos interagentes, em que a evolução em uma característica monta um atributo já modificado como um subproduto da seleção atuando em outra. A natureza das redes de genes subjacentes ao comportamento complexo sugere que muitos genes teriam sido selecionados porque melhoram a proficiência numa variedade de tarefas – em domínios sociais, linguísticos e do uso de ferramentas.

A análise da possibilidade de os genes envolvidos em, digamos, cooperação, influenciarem outros traços na série é uma estimulante trilha para pesquisas. Como um primeiro passo, seria útil esclarecer as funções dos hormônios oxitocina e arginina-vasopressina. Certas variantes genéticas dos receptores desses hormônios foram ligadas ao autismo, um transtorno cerebral que dificulta a interação social por prejudicar o desenvolvimento da linguagem e a capacidade de prestar atenção à mesma coisa que outras pessoas. Mudanças genéticas no gene do receptor de vasopressina também são correlatas ao modo como as pessoas reservam fundos para outros jogadores num jogo de economia experimental que investigou o altruísmo.

Cortando o canivete

A interdependência funcional de traços cognitivos caracteristicamente humanos, mais as redes interligadas de genes subjacentes apontam para uma arquitetura cognitiva complexa. As distintas redes genéticas e regiões cerebrais que subjazem a cada traço podem ser comparadas às torres separadas de um castelo, que são conectadas por salas comuns e corredores. Essa imagem poderia potencialmente substituir a tão usada visão “canivete-suíço” do cérebro. Defendidas há tempos na psicologia evolutiva, essas propostas que separam os módulos cognitivos desempenham funções específicas. Várias observações que estão em contradição com o modelo do canivete poderiam ser explicadas pela visão mais holística do castelo.

Por exemplo, como mostrado por pessoas com deficiências de sintaxe desenhando pobremente estruturas hierárquicas, as capacidades podem ser sinergísticas, onde a proficiência em um domínio significa proficiência em outro. Além disso, a perturbação em um elemento específico de uma característica é frequentemente acompanhada por um problema em outra capacidade. Por exemplo, pessoas que têm problemas em formular frases gramaticais tendem a se sair pior que a média em testes de QI por causa de uma memória de curto prazo pobre. Isso é consistente com a visão de que os genes que afetam uma combinação de capacidades cognitivas são muito mais comuns que genes que quando prejudicados afetem uma única característica.

O transtorno conhecido como prejuízo específico de linguagem [specific language impairment] também impõe problemas à perspectiva de canivete suíço. Como o nome sugere, considera-se geralmente que essa condição afeta apenas a linguagem. O QI não-verbal é deixado aparentemente intacto. Mas, embora na faixa ‘normal’, crianças com essa síndrome tendem a mostrar pontos de QI significativamente inferiores aos de seus irmãos. E até portadores adultos têm problemas frequentes em capacidades além da linguagem, por exemplo, no processamento auditivo e habilidades motoras.

Juntas, essas observações sugerem que se a imagem modular de canivete suíço do cérebro é de alguma forma aplicável, pode sê-lo apenas ao resultado final do desenvolvimento. As associações de regiões cerebrais específicas com certas características são claramente evidentes, mas estas devem ser avaliadas em diferentes estágios no desenvolvimento e investigadas como parte de uma rede multifacetada de interações. Uma abordagem mais holística é provável que revele ‘capacidades intermediárias’ que emergiram como um resultado da seleção evolutiva agindo sobre múltiplas características. O raciocínio de analogia – a capacidade para transferir informação de um objeto para outro e deduzir algo sobre o segundo objeto a partir do primeiro – pode se encaixar nessa categoria, como crítico no uso e na fabricação de ferramentas, mas provavelmente também na abertura de possibilidades para a linguagem complexa.

As evidências sugerem fortemente que a linguagem evoluiu até sua forma moderna embutida num grupo de características sinergísticas. Entretanto, a linguagem quase certamente tem um status especial sobre as outras características no conjunto. Mais que qualquer outro atributo, a linguagem provavelmente desempenhou um papel-chave em guiar as evoluções cultural e genética humanas.

A linguagem nos permite passar adiante informação cultural mais eficazmente que qualquer outra espécie. Foi preciso cerca de 40 milhões de anos, por exemplo, para cinco sistemas de agricultura aparecerem em formigas cultivadoras de fungo. A agricultura humana se diversificou numa escala gigantesca em apenas alguns poucos milhares de anos. A linguagem facilita para as pessoas a vida em grandes grupos e ajuda a impelir a evolução cultural cumulativa – a acumulação de sistemas de crença complexos, e o estabelecimento de leis e teorias ao longo de várias gerações. Ela nos permitiu construir um mundo social e físico altamente alterado, que por sua vez moldou nossa evolução. A evolução cultural nos mostrou que uma palavra pode valer mil genes. A linguagem foi a chave da inovação evolutiva porque trabalhou sobre pré-requisitos cognitivos importantes e assim abriu a porta para muita coisa.
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Nature 456, 40-41 (6 de novembro de 2008) Publicado online em 5 de novembro de 2008

LEITURA COMPLEMENTAR

Hurford, J. The origins of meaning (Oxford University Press; 2007).

Karmiloff-Smith, A. Cogn. Affect. Behav. Neurosci. 6, 9–17 (2006).

Fisher, S. E. & Marcus, G. F. Nature Rev. Genet. 7, 9–20 (2006).

Számadó, S. & Szathmáry, E. Trends Ecol. Evol. 21, 555–561 (2006).

Tomasello, M. & Carpenter, M. Dev. Sci. 10, 121–125 (2007).

Cobras peçonhentas, enguias escorregadias e Harun Yahya

por Richard Dawkins (07/07/2008)

Em 2006, eu fui um dos dezenas de milhares de cientistas acadêmicos ao redor do mundo que receberam, sem solicitarem e completamente de graça, um livro enorme e ricamente ilustrado chamado Atlas da Criação, da autoria de Harun Yahya, um turco que faz apologia ao Islamismo. A tese do livro, que foi publicado em onze línguas, é que a evolução é falsa. A principal ‘evidência’ disso consiste em página após página de belas fotografias de animais fósseis, cada uma acompanhada de sua contraparte moderna que o livro diz não ter mudado em nada desde o tempo do fóssil. É um livro de grande formato, um livro de mesa espesso com mais de 700 páginas coloridas com alto brilho. O custo de produção de um livro assim deve ter sido extremamente alto, e pergunta-se, obrigatoriamente, de onde veio o dinheiro para produzi-lo e distribuí-lo grátis em tantas cópias e tantas línguas.

Dado que toda a mensagem do livro depende da semelhança alegada entre os animais modernos e seus correspondentes fósseis, eu achei graça quando comecei a folheá-lo ao acaso e encontrei na página 468, devotada às “enguias”, uma fóssil e uma moderna. A legenda diz,

“Há mais de 400 espécies de enguias na ordem Anguilliformes. Que elas não tenham passado por mudança em milhões de anos uma vez mais revela que a teoria da evolução é inválida.”

A enguia fóssil mostrada pode ser mesmo uma enguia, não sei dizer. Mas a “enguia” moderna retratada por Yahya (ver à esquerda) sem dúvida não é uma enguia mas uma serpente marinha, provavelmente do gênero bastante peçonhento Laticauda (uma enguia, é claro, não é mesmo uma serpente, mas sim um peixe teleósteo). Eu não vasculhei o livro por outros erros desse tipo. Mas dado que essa foi quase a primeira página que olhei… que validade tem a tese central do livro, de que os animais modernos são os mesmos desde o tempo de suas contrapartes fósseis?

Incidentalmente, em maio de 2008 Harun Yahya, cujo nome real é Adnan Oktar, foi sentenciado num tribunal turco a três anos de prisão por “criar uma organização ilegal para ganho próprio.”

P.S. adicionado em 8 de julho de 2008

Agora vi mais algumas páginas desse livro absurdo. As pranchas de página dupla nas páginas 54-55, 368-369 e 414-415 estão todas rotuladas como “crinóide”, e todas pretendem mostrar o quão similares são os crinóides antigos fossilizados aos modernos. Os crinóides são parentes pedunculados das estrelas-do-mar, membros do filo Echinodermata. As três pranchas têm legendas quase idênticas. Aqui está uma da página 54:

“O fóssil crinóide de 345 milhões de anos, idêntico a seus correspondentes modernos, invalida a teoria da evolução. Crinóides que se mantiveram sem mudança por 345 milhões de anos refutam a teoria da evolução, manifestando a criação de Deus como um fato.”

E todas as três pranchas mostram uma bela fotografia colorida de crinóides modernos para ilustrar a proposição. Entretanto, em todos os três casos, o animal moderno retratado não é um crinóide. Sequer é um equinodermo. Não é nem mesmo um deuterostômio (o sub-reino ao qual pertencemos nós e os equinodermos). Os zoólogos os reconhecerão como um verme anelídeo que habita tubos, um sabelídeo.

Na página 402, há quatro fotos de fósseis, corretamente rotuladas como ofiúros. Os ofiuróides são uma das maiores classes de equinodermos, outras sendo estrelas-do-mar, ouriços-do-mar e crinóides. De novo, temos uma legenda-padrão criacionista:

“Este fóssil de 180 milhões de anos revela que os ofiúros têm sido os mesmos por 200 milhões de anos. Esses animais, não diferentes dos que vivem hoje, novamente revelam a invalidade da evolução.”

Aqui temos não apenas uma, mas duas fotografias de animais viventes para ilustrar a falta de mudança desde os fósseis. Um desses animais modernos é de fato um ofiúro. O outro é uma estrela-do-mar! Membro de uma classe completamente diferente de equinodermos e obviamente muito diferente até à menor olhadela.

Finalmente, algo que P. Z. Myers já observou no Pharyngula, e eu incluo uma foto para um relato completo. Na página 244, Yahya deseja mostrar que as tricópteras não mudaram desde alguns insetos preservados em âmbar há 25 milhões de anos. Novamente, a legenda:

“Essas coisas vivas sobreviveram por milhões de anos sem a mais leve mudança em suas estruturas. O fato de que esses insetos nunca mudaram é um sinal de que nunca evoluíram.”

A essa altura, esperaremos alguma coisa realmente muito boa quando olharmos a foto do animal vivo. O que será a ‘tricóptera’ moderna? Uma piaba, talvez? Uma lesma de jardim? Um camarão-rei? Não, de uma maneira é muito melhor que isso: é uma isca de pesca, completa com um anzol protuberante!

Estou perdido em tentar conciliar os valores de produção desse livro caro com a “inanidade de tirar o fôlego” do seu conteúdo. É realmente inanidade, ou é pura preguiça – ou talvez uma consciência cínica da ignorância e estupidez do público alvo – a maioria de criacionistas muçulmanos. E de onde vem o dinheiro?

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Escrito especialmente para RichardDawkins.net. Ver também: post de Forbidden Music a respeito; e fotos de iscas de pesca de Graham Owen.

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Nota do tradutor

Em setembro de 2008, Harun Yahya conseguiu através de seus advogados que um tribunal turco bloqueasse o site de Richard Dawkins na Turquia. A resposta do portal de Dawkins foi traduzir o presente artigo para a língua turca. Em 23 de setembro, Yahya declarou que “todos os terroristas são darwinistas”. Em outubro, Dawkins proferiu uma palestra sobre o ‘Atlas da Criação’ de Oktar (Yahya) numa conferência do Conselho de Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha.

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Publicado também em Tetrapharmakos in vitro.

Levedura revela seleção sexual em ação

por Natasha Gilbert

Por que os pavões desenvolveram caudas tão elaboradas? Um estudo que detecta como um gene se espalha por uma população de levedura pode finalmente ajudar a responder tais questões espinhosas da evolução.

Como as leveduras poderiam ajudar a desvendar os mistérios do rabo do pavão?

Os biológos evolutivos conceberam vários modelos para explicar como a competição na reprodução afeta características como o rabo do pavão. A maioria concorda que uma característica que dê aos indivíduos uma vantagem na competição pela cópula se espalhará pela população. Mas discordam quanto à origem da preferência por essa característica. Alguns argumentam que caudas brilhantes, por exemplo, poderiam indicar que o macho está forte e saudável; outros dizem que as preferências por tal atributo aparecem arbitrariamente. Chegar a uma conclusão é difícil porque as características biológicas já evoluíram, e dependem de vários genes.

David Roger, um biólogo molecular do Imperial College de Londres, Reino Unido, e seu colega Duncan Greig, um biólogo evolutivo do University College de Londres, desenvolveram agora um sistema que permite ver como a preferência por um atributo afeta a frequência de um gene na população. Seu organismo modelo: a humilde levedura.

“As pessoas têm feito modelos teóricos de seleção sexual há anos como um modo de explicar como as características [traits] evoluíram,” diz Rogers. “Mas ao menos que você possa medir a aptidão [fitness] – isto é, como os genes se espalham pela população – você não pode realmente testar esses modelos.”

“No sistema que desenvolvemos, perseguimos um único alelo de um gene e vimos como ele se espalha pela população”, acrescenta. A pesquisa foi publicada em Proceedings of the Royal Society B1.

Competições Sexuais

Os cientistas escolheram a levedura porque ela se reproduz rapidamente, e tem sua genética bem entendida – o que é ideal para estudar a seleção sexual.

A levedura é um micróbio que pode se reproduzir assexuadamente, dividindo-se em dois organismos filhos que são geneticamente idênticos ao pai. Mas pode também fazer sexo, com duas células de levedura se fundindo para misturar seu DNA, criando um indivíduo novo e geneticamente único.

Algumas células de levedura secretam um feromônio que atrai outras para parceria sexual. Concentrações mais altas desse feromônio fazem uma célula ser mais atraente – então, em teoria, o gene que expressa o feromônio se espalhará na população.

Os pesquisadores modificaram um grupo de leveduras ‘sinalizadoras’ para secretar feromônios a mais e misturaram-nas com leveduras que sinalizavam em níveis normais.

Depois de um ajuste genético posterior para garantir que não pudessem se reproduzir assexuadamente, os micróbios foram postos em competição entre si em duas competições sexuais.

Você está me recebendo?

No primeiro cenário, os cientistas puseram um excesso de células de levedura sinalizadoras entre um número menor de células ‘receptoras’ que respondem ao feromônio, de modo que houve forte competição para encontrar uma parceira. Os cientistas descobriram que o gene para a produção do forte sinal de feromônio se espalhou rapidamente pela população.

Inversamente [no outro cenário], um excesso de células receptoras encontrou mais facilmente uma parceira, e o gene não se espalhou tão rapidamente.

“Os resultados do nosso experimento são bem simples e óbvios. O que é importante é que nós mostramos que a levedura pode ser usada para estudar a seleção sexual. Deve permitir progressos rápidos ao testar os modelos,” diz Rogers.

“É um avanço importante sobre o que conseguimos fazer antes,” concorda Malte Andersson, um ecólogo evolutivo da Universidade de Gotemburgo na Suécia. “Permite a nós olhar os detalhes genéticos de como a seleção funciona.”

Apenas a intensidade do sinal foi alterada nessa pesquisa, mas experimentos futuros podem criar ‘receptoras’ com maiores ou menores preferências pelo feromônio. O gene da preferência também pode ser ligado a um marcador genético (um pedaço conhecido de DNA facilmente observável) que também enfraquece a vitalidade da levedura.

Isso permitiria que os cientistas testassem teorias alternativas sobre por que as preferências evoluem. Por exemplo, um argumento sugere que a preferência por uma característica particular de um macho evoluirá e se espalhará pela população apenas se a característica oferece um benefício direto à fêmea. Rogers espera que outros pesquisadores usarão agora o sistema da levedura para enfrentar tais questões.

  • Referência

    1. Rogers, D. W. & Greig, D. Proc. R. Soc. B doi:10.1098/rspb.2008.1146 (2008).

Traduzido de Nature News.

Penas: marcas indeléveis da evolução das aves

VES são animais fáceis de se reconhecerem. Mesmo nos centros urbanos, fazem ninhos à nossa volta. São conhecidas popularmente por sua beleza, inteligência, fidelidade, destreza e, por que não, sabor.

ResearchBlogging.orgEncontrada uma pena, ou uma única pluma, já temos evidência suficiente para afirmar presença de ave sem sombra de dúvidas. Mas, se as aves são também resultado da evolução, encontraríamos numa viagem ao passado um momento em que suas características, por exemplo as penas, poderiam pertencer a criaturas bem diferentes do que chamamos hoje de ave? Por exemplo, alguma criatura com dentes?

A resposta é afirmativa segundo o registro fóssil. As penas, bem como muitas outras características, trazem consigo marcas indeléveis de que aves evoluíram.

“Descobertas de estruturas em forma de ‘fibra’ em Sinosauropteryx, Beipiaosaurus, e Sinornithosaurus e em dois dinossauros controversos com penas estimularam debates sobre a origem das penas além da origem das aves. Similaridades foram encontradas entre o apêndice integumentar alongado do arcossauro Longisquama, do Triássico tardio, e penas de aves modernas. O Protopteryx preservou alguns tipos interessantes de penas com características intermediárias de escamas e de penas modernas, assim fornecendo evidência fóssil para a origem das penas em escamas alongadas de répteis. (…) O Protopteryx tem o tamanho aproximado de um estorninho, com impressões de penas claramente preservadas.”

É o que dizem Fucheng Zhang & Zhonghe Zhou, da Academia Chinesa de Ciências, em publicação na revista Science de dezembro de 2000.

Zhang & Zhou concluem:

“As penas modernas provavelmente evoluíram através dos seguintes estágios: (1) alongamento das escamas, (2) aparecimento de um veio central, (3) diferenciação de ramificações em barbas, e (4) aparecimento de bárbulas e barbicelas.”

Traduzindo os termos técnicos, a evolução das penas, segundo as evidências fósseis, se deu assim: escama reptiliana -> escama reptiliana alongada -> escama alongada com ramificações -> protopena -> pena.

Essa ordem é consistente com estudos histológicos do crescimento das penas, como diz Alibardi (2007):

“Aqui se hipotetiza que em arcossauros pré-avianos com uma pele escamosa, escamas tuberculadas e posteriormente coniformes se formaram na pele sem penas em expansão. As escamas coniformes se alongaram em apêndices finos e pilosos que podem ter funcionado como apêndices isolantes para a termorregulação em arcossauros pró-avianos. (…) A morfogênese da coluna de barbas foi uma novidade evolutiva necessária para a origem de penas em aves e, provavelmente, em [dinossauros] terópodes. (…) Esses processos morfogenéticos podem explicar a ramificação simples nas penas modernas tão bem quanto em apêndices parecidos com penas primitivas encontrados em fósseis tais como Sinosauropteryx, Beipiaosaurus, Shuvuuia e Sinornithosaurus.”

Uma mudança gradual que transforma lentamente escamas em penas nada tem de projetada, muito menos de inteligente. Um projetista inteligente que precise ajustar a todo momento a sua criação não passa de um projetista pouco inteligente. E ele tem nome: seleção natural, deriva genética, ou seja, todos os verdadeiros mecanismos evolutivos já descobertos.

A transição entre outros dinossauros e aves (porque aves ainda são dinossauros) é clara. Basta ver fósseis como Archaeopteryx, Protopteryx, Confuciusornis, Yixianornis grabaui, entre outros.

Quanto a este último, é descrito por Julia A. Clarke, Zhonghe Zhou e Fucheng Zhang (2006) como um animal do cretáceo com claras impressões de penas e ainda dotado de dentes (ou seja, outra característica além das penas mudando gradualmente na transição terópode-ave [ornithurines]).

Ainda hoje, como relatou a revista científica Current Biology em 2006, quando acontece uma certa mutação pintinhos podem desenvolver dentes na fase embrionária – o que chamamos de atavismo, o reaparecimento de características ancestrais.

Não são poucos nos museus os exemplares de dinossauros fossilizados com penas, como o descrito por Ji e colaboradores na revista Nature de abril de 2001 (em muitos, inclusive, como se vê na foto à direita, membros anteriores se parecem com asas de ave, mas têm três dedos com garras). Dos dinossauros dotados de penas, apenas um dos já citados revelou-se um engano: o que parecia ser penas no Sinosauropteryx, na verdade era a impressão de fibras de colágeno no fóssil.

Cuervo e Moller (1999), finalmente, explicam como podem surgir as penas mais complicadas dos ornamentos mais belos dos pássaros em função de um caso especial da seleção natural:

“Ornamentos extravagantes de penas evoluíram independentemente ao menos 70 vezes em aves, e o contexto desses eventos evolutivos foi investigado estatisticamente. A aquisição de ornamentos de pena foi significativamente associada com uma mudança no sistema social de acasalamento de monogamia para poliginia ou lekking. Essa associação é consistente com o mecanismo Fisheriano da seleção sexual.

O que é de dar pena é que todas essas evidências são absolutamente ignoradas por aqueles que pretendem atacar a validade científica da teoria da evolução.
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Referências

Zhang, F. (2000). A Primitive Enantiornithine Bird and the Origin of Feathers Science, 290 (5498), 1955-1959 DOI: 10.1126/science.290.5498.1955

Alibardi, L. (2007). Cell organization of barb ridges in regenerating feathers of the quail: implications of the elongation of barb ridges for the evolution and diversification of feathers Acta Zoologica, 88 (2), 101-117 DOI: 10.1111/j.1463-6395.2007.00257.x

Clarke JA, Zhou Z, & Zhang F (2006). Insight into the evolution of avian flight from a new clade of Early Cretaceous ornithurines from China and the morphology of Yixianornis grabaui. Journal of anatomy, 208 (3), 287-308 PMID: 16533313

Harris, M., Hasso, S., Ferguson, M., & Fallon, J. (2006). The Development of Archosaurian First-Generation Teeth in a Chicken Mutant Current Biology, 16 (4), 371-377 DOI: 10.1016/j.cub.2005.12.047

Ji Q, Norell MA, Gao KQ, Ji SA, & Ren D (2001). The distribution of integumentary structures in a feathered dinosaur. Nature, 410 (6832), 1084-8 PMID: 11323669

Cuervo, J., & Moller, A. (1999). Ecology and evolution of extravagant feather ornaments Journal of Evolutionary Biology, 12 (5), 986-998 DOI: 10.1046/j.1420-9101.1999.00100.x

Manifesto de lançamento

VOLUCIONISMO tem sido usado pejorativamente por pessoas de cosmovisão sobrenaturalista para tratar injustamente a aceitação da Teoria da Evolução como se fosse uma doutrina paralela a outras, como se fosse uma aceitação acrítica de dogmas e postulados inverificáveis acerca dos processos que se passam nas espécies vivas deste planeta.

Não há, neste sentido, tal doutrina. A aceitação de um fato da natureza não implica num “ismo” que concorra com outros na sedução de mentes como se houvesse outra alternativa válida a ser aceita.

Não há alternativa científica à Teoria da Evolução, pois ela perpassa transversalmente todos os campos de estudos sobre os seres vivos, e é bem-sucedida na explicação de origem das entidades e fenômenos biológicos como nenhuma outra abordagem.

Quando se fala em EVOLUCIONISMO aqui, o aspecto posto em foco é outro: o poder explicativo desta forma de pensar divulgada por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace.

Por poder explicativo, entende-se solidez como teoria filosófica. E em Filosofia sim, todas as alternativas têm lugar, não porque todas explicam bem, não porque todas são críveis, mas porque a mente filosófica admite considerar todas (o maior número possível) antes de descartar a maioria (porque o número de explicações plausíveis é evanescentemente pequeno em relação ao número total de explicações concebíveis).

Portanto, EVOLUCIONISMO não é doutrina. É um modo de pensar. Além de ser uma boa teoria filosófica, alcança sua expressão na teoria científica que é a espinha dorsal da Biologia moderna.

“Se recusas todas as sensações, não terás mais possibilidade de recorrer a nenhum critério para julgar as que, entre elas, consideras falsas. (…) Cingindo-se bem aos fenômenos, podem fazer-se induções a respeito do que nos é invisível. (…) Deve recordar-se sempre o método da multiplicidade [de causas possíveis para os fenômenos naturais].”
Epicuro de Samos

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