Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade – Questões Epistemológicas (Parte II)

Hierarquização de Teorias

Como podemos dizer que uma Teoria Científica, como modelo de explicação de um fenômeno observável, é melhor ou nos confere um conhecimento superior a qualquer outra explicação teórica que possamos dar? Não temos uma régua absoluta que nos diga isso a priori.

Balizar a ciência como última palavra nas explicações que dá pra o mundo é querer que ela nos balize em toda nossa totalidade e na própria totalidade da realidade. Mas como querer isso se, conhecendo um pouquinho de ciências, sabemos que ela não pode sair do que pode ser observável se o fim dela, em nosso sistema político-econômico é a produção de tecnologia?
Ou abrimos mão desse finalismo da ciência dado pelo sistema a qual fazemos parte, ou encontramos outras epistemologias que respondam aos outros âmbitos de nossas vidas. Não me parece coerente tentar balizar a totalidade de minha existência a partir de conhecimentos que se reduzem a recortes modelares da realidade, abarcando apenas os aspectos que podem ser observados, controlados e reproduzidos. Nem tudo em nós pode ser observado, controlado e reproduzido, logo, nem todo conhecimento que podemos ter de nós mesmos pode ser reduzido ao conhecimento científico.
Claro é que se a totalidade da realidade pudesse ser reduzida a esses critérios, tudo estaria resolvido. Mas na impossibilidade da ciência abarcar essa totalidade, nos resta a percorrer terrenos não seguros balizados por outros critérios. Isso não significa ir contra a ciência, mas sim ir totalmente a favor daquilo que ela se presta a nos dar. Para o que foge de seu âmbito temos outros campos epistemológicos dos quais podemos nos servir.

Mais uma vez citando Gould, ele fala isso em seu livro Pilares do Tempo, quando introduz a palavra magistério em seu conceito de MNI (Magistérios Não Interferentes). Vale a pena lê-lo, até porque não é penoso, o que daria também outro artigo para falarmos sobre esse assunto. O fato é que a ciência é tanto mais digna quanto mais assume na figura de seus cientistas esclarecidos, que não tem todas as respostas e possivelmente não as terá. No entanto isso não interfere na pertinência e segurança do conhecimento que postula a partir do método que criou para cumprir suas intenções.

Se eu quero um propósito para viver, um sentido para a minha existência ou mesmo solucionar meus problemas sentimentais, preciso entender que a epistemologia científica trabalha com recortes modulares da realidade observável e não se presta a me fornecer isso, quanto mais talvez alguma tecnologia como ferramenta para que eu possa buscar através de outros magistérios.

É óbvio que aqui falo sobre as chamadas ciências naturais, mas mesmo nas humanas o aspecto modular descritivo não nos fornecerá o sentido que cada um de nós, como construtores de sentidos que nos valham para a vida, temos a responsabilidade e autonomia de construir.

Parece-me que o problema fundamental em torno dessa discussão é a tutela que o senso-comum precisa ou foi convencido que precisa para balizar sua forma de ser. Não queremos fragmentar nossa busca em caminhos distintos que nos dê uma resposta razoável naquilo que podemos construir de nexos por nós mesmos. Queremos coisas prontas, magistérios absolutos que nos dêem todas as respostas. Por isso temos de um lado positivistas absolutizando a ciência como resposta última de todos os problemas humanos e de outro as numerosas crendices que assolapam o bom senso para dizer, numa pretensão megalomaníaca, que o que ela diz é a verdade absoluta. Em suma, um exercício incoerente de interferências entre magistérios distintos.

Por termos sido convencidos que somos fragmentados e dicotômicos, nos recusamos a buscar nossas respostas em lugares distintos; queremos um kit epistemológico completo para nos suprir a fragmentação que a civilização nos faz sentir desde dentro de nosso ser.

Por fim, não me parece coerente estabelecer hierarquização entre explicações do mundo, desde que não haja interferência nos magistérios a que se prestam os diferentes ramos epistêmicos em que possamos nos basear para compor os nexos que tornam nossa vida suportável. Não abriremos mão do mais avançado antibiótico feito com base na amplamente corroborada Seleção Natural de Darwin, assim como não precisamos abrir mão do conforto psicológico ao ouvir palavras afáveis e que nos faz sentido de um clérigo qualquer.

Falemos então da Teoria Científica, cuja validade e prevalência entre as outras, que fique claro, se circunscreve naquilo a que ela se presta, sem invadir magistérios epistemológicos dos quais estariam fora de seu âmbito.

O que é Teoria Científica?

Pudemos, juntos, construir um certo entendimento do que significa Teoria em sua acepção real, original e como ela foi usada para designar uma Teoria Científica. Construímos também um entendimento do que viria a ser um fato. Agora precisamos responder o que diferencia uma Teoria, nesse sentido grego que agora entendemos, de uma Teoria Científica.

Em ciência não basta apenas teorizar, mesmo no sentido grego do termo. Em ciências é preciso não só descrever, interpretar e explicar um fato, mas torná-lo, em seus princípios, “apreendido”; de forma a poder prever a partir dele outros fatos e/ou reproduzi-lo e controlá-lo. Vale lembrar que tudo isso é feito dentro de um recorte epistemológico que se vale da pedra basilar chamada “observação”, mesmo que esse termo possa nos dar margem para duvidar daquilo que podemos ver.

Não importa que não vemos tudo, em ciência vale o que pode ser visto. E quando se diz “ser visto”, muitas vezes não se vê o agente da ação e apenas seu efeito no espaço-tempo. A teoria científica entra para conjecturar como é esse agente a partir dos efeitos fenomênicos que podem ser detectados. Se essa conjectura prediz comportamentos que a observação do fenômeno reproduz, então é uma Teoria válida, e científica, corroborada.
A ciência pura constrói teorizações que podem prever fenômenos a partir de outros fenômenos, isto é, fatos de outros fatos a partir da explicação teórica de um fato. Exemplo é a física teórica. Por outro lado, a ciência aplicada constrói teorizações que podem prever fenômenos através da apreensão e controle do fato, manipulando-o e construindo a partir desse controle aplicações práticas, como por exemplo; a tecnologia e a produção de bens e serviços.
Logo, para uma Teoria ser científica, ela precisa fazer predições que possam ser verificadas e submetidas a testes empíricos que corroboram sua veracidade e acuracidade. A forma de tornar uma Teoria em científica é a aplicação do método científico, que a testa empiricamente naquilo que ela diz, tornando-a válida. Isso não significa que a torna eterna ou imutável (isso seria transformá-la numa doutrina), mas sim a estabelece como a melhor explicação de um fato até que surja outra. Uma Teoria Científica então é uma Verdade Provisória.

Teoria Científica é o ápice da prática científica e não tem nada acima dela hierarquicamente em termos de ciências. E isso não invalida de forma alguma qualquer outro tipo de conhecimento construído em outros campos epistemológicos. Mas não existe, em ciências, um conhecimento que seja mais alto do que uma Teoria.

É impossível falar em Teoria Científica no século XX sem falar de Sir Karl Popper. A demarcação popperiana do que seria um conhecimento científico não exclui a metafísica, por exemplo, como conhecimento legítimo, mas não a coloca na demarcação de cientificidade se submetida à lógica do critério de falseabilidade. Isso não significa que não seja conhecimento teorizarmos sobre alma ou mundo além túmulo para explicarmos algumas coisas que vemos e percebemos, mas jamais será um conhecimento científico enquanto não predizer fenômenos que possam ser falseados, isto é, contraditos pela observação. Se a predição não puder ser colocada à prova para que algo observável a corrobore, não possui cientificidade, mas não deixa de ser um conhecimento de um magistério distinto do científico.

Todas as críticas que recaem sobre a ciência, suas bases epistemológicas e seus critérios de verdade enquanto explicação do mundo, de Carnap a Kuhn, Lakatos, Derrida, Bachelard, Habermas, Feyerabend, servem apenas para apurá-la em sua prática. No entanto, em meu entender, o núcleo popperiano que requer corroboração naquilo que se fala (não importa como e de onde se falou), será por muito tempo paradigmático no fazer científico.

Com Popper, as teorias científicas deixaram de ter um status de verdade absoluta ou definitiva e passaram a ser verdades provisórias, determinadas pela capacidade preditiva daquilo que poderia ser observado. A questão da cumulatividade do conhecimento e das limitações dos modelos epistemológicos em que se baseiam, podem se constituir em dificuldades para novas abordagens que explicariam melhor a realidade, mas a questão aqui é que, independente do corpo teorético-base de um conhecimento, havendo rupturas ou não para outros campos, o novo campo deverá ser corroborado por fatos observáveis. Logo, Kuhn e Lakatos não anulam Popper; o complementam de maneira brilhante para quem se coloca acima de partidarismos reducionistas.

Posto todas essas considerações introdutórias, podemos então falar sobre a Evolução como Fato e Teoria Científica.

Teoria da Evolução e o Fato Evolução

Desde antes da formulação da Teoria da Evolução de Darwin, a evolução era tida como um fato. Isto é, os seres vivos mudam ao longo do tempo e isso é observável. Várias teorias tentaram explicar e interpretar esse fato e elas foram se sucedendo conforme sua capacidade de explicação não dava conta de explicar um olhar mais abrangente do fenômeno evolução.

Conforme a ciência e o método científico vão avançando, assim como as técnicas e instrumentos que podem corroborar as predições de uma teoria, elas vão caindo conforme não conseguimos as corroborações naquilo que elas predizem. Isto é, vão sendo falseadas. Cada teoria ao ser lançada é testada exaustivamente por todo cientista e por toda a comunidade científica, até que, corroborado de fato as coisas que ela prediz, ela seja considerada válida. Isso pode durar anos até, e ao longo desse tempo, mesmo se tornando robusta, fatos concretos que a contradiz podem derrubá-la.

Portanto, ao se ampliar nossa capacidade de observação e de testes, se as implicações do que ela diz não abarcar o novo escopo de realidade aberto, ela cai em desuso ou recebe complementações e novas interpretações, podendo ser substituída por outra que explique melhor o fenômeno e seja corroborada pelo método científico.

Assim se sucedeu com as teorias evolucionistas de Lamarck, Spencer e outros. Cada uma delas, em algum momento, deixou de explicar algum aspecto da realidade que fazia parte de seu escopo epistemológico. No entanto a Evolução nunca deixou de ser fato. Ela sempre foi um dado do mundo corroborado pelo fato dos seres mudarem ao longo do tempo.

Nesse contexto é que Darwin, como naturalista, após ter lido a Teoria das Populações de Malthus e mesmo sem ter lido os experimentos de Mendell com as ervilhas, começou a contrastar esses conhecimentos com sua observação da natureza, e após sua viagem a bordo do Beagle, começou a construir um entendimento, uma explicação, uma descrição do mecanismo em que se dá a evolução como fato.

Há lacunas? É bem possível que haja. Nenhuma teoria pode ser considerada completa. E não porque se for completa ela vira fato (já falamos que não existe relação hierárquica entre fato e teoria), mas sim porque a realidade é multifacetada e a própria existência é um conceito histórico e tudo o que fazemos é relativo a esse conceito. Mas ao longo de 150 anos desde sua reformulação, com corroborações constantes e complementos que ampliaram sua abrangência, ela se consolidou como a explicação mais completa que temos em mãos.

Se ela parte de pressupostos ou de uma visão de mundo que muita gente não concorda, ela não deixa de ser válida naquilo que ela se propõe, apenas deixa de ter a abrangência possível na cabeça dessas pessoas. Mas enquanto científica, ela goza de toda credibilidade que se espera da ciência.

Darwin nunca negou Deus. Alias, era teólogo formado em Cambridge e se não tivesse tido a guinada que teve em sua carreira, muito provavelmente ele teria se tornado um pastor ou presbítero (sacerdote), que era o desejo de sua esposa extremamente religiosa. Mas segundo seus diários, sempre o incomodou o dogma que dizia que os seres vivos tinham sido criados separadamente. E talvez esse fundo religioso tenha sido o mote de sua pesquisa que culminou em sua brilhante teoria.

Darwin explica o fato evolução através do mecanismo (teórico – estrutura de idéias explicativas) da Seleção Natural e do postulado de que existam mudanças constantes nos seres vivos de uma geração a outra. A Seleção Natural seria responsável pelo caráter cumulativo das mudanças na medida em que conferissem vantagens e possibilidade reprodutiva aos indivíduos que as tivesse. Tanto o mecanismo como o postulado estão amplamente corroborados e tem aplicação prática nas mais diversas áreas biológicas e médicas.

A conseqüência lógica de sua Teoria, isto é, o que ela prediz implicitamente, é que descendemos de um único organismo vivo e que toda a diversidade se deu no fenômeno chamado ESPECIAÇÃO; que em resumo é a mudança filogenética de um Ser em outro Ser que pudesse ser classificado em espécies diferentes. Lembrando que a classificação dos seres vivos em espécies é um critério histórico e não absoluto, e foi contestado por Darwin em sua obra máxima.

Logo, a Mudança “aleatória” filogenética, a Seleção Natural e a passagem de uma espécie a outra teriam que ser corroboradas por fatos e testes observáveis para que essa Teoria enquanto explicação do fato Evolução pudesse ser considerada científica. O avanço da pesquisa genética e o mapeamento do genoma, e testes reproduzindo com sucesso o mecanismo de Seleção Natural corroboraram em larga escala com esses postulados e suas conseqüências lógicas e hoje ela é Científica e comprovada.

É interessante notar que até mesmo as controvérsias das últimas descobertas científicas que colocam o gene de forma ativa sendo influenciado pelo ambiente, encontram guarida no livro de Darwin. Mais notável ainda é saber que à época em que escreveu ele nem fazia idéia do que seria a ciência que mais corroboraria com o que ele disse a partir de uma minúcia ímpar de sua diligente capcidade de observação a bordo do Beagle.

Por isso o criacionismo não é ciência, nem o DI pode ser considerado enquanto tal, por mais que esperneie os teístas e outros crédulos que querem que o mundo se encaixe em suas crenças. Eles podem ter uma teoria, mas não é cientifica. Enquanto eles se negarem a submeter ou proporcionar meios de testar e corroborar o que as idéias deles predizem, elas ficarão na instância teorética de outro magistério; da religião, do misticismo, seja lá o que for, menos do científico.

Por isso não tem o menor sentido tentarem empurrar o ensino do criacionismo nas escolas fora do escopo do ensino religioso, pois não é ciência e enquanto não cumprir o método científico nunca será. O método científico, por mais imperfeições que tenha, por mais reducionista que seja no que ele permite entendermos da realidade e por mais enrijecimento que promova nas diversas abordagens possíveis que um fato pode ter, é ele que garante, por exemplo, que eu suba num avião sem precisar contar com os poderes místicos de levitação do piloto.

Apesar de ameaças infundadas de processos em virtude do trabalho em apontar problemas de verissimilhança na argumentação da maioria dos que questionam Darwin, a luta pelo esclarecimento precisa continuar, sabendo que ele é dialético e não absoluto, e que nesse meio tempo podemos sim mudar nossas idéias.

Dica de leitura

Post de Osame Kinouchi no Blog SEMCIÊNCIA: Alguns pensamentos soltos sobre Ciência e Pseudociência.

Obras de Referência para esse artigo

DARWIN, Charles. A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural. Tradução: André Campos Mesquita. Vol. I. São Paulo, SP: Editora Escala.

GOBRY, Ivan. Vocabulário Grego da Filosofia. Tradução: Ivone C. BENEDETTI. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2007.

GOULD, Stephen Jay. “Evolution as Fact and Theory.” Stephen Jay Gould Archive. Maio de 1981. http://www.stephenjaygould.org/library/gould_fact-and-theory.html.

—. Os Pilares do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida. Tradução: F. Rangel. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2002.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Edição: Coleção os Pensadores. Tradução: Valério Rohden. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1996.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução: Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo, SP: Perspectiva, 2007.

LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Edição. Tradução: Fátima Sá COrreia. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Souza. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.

POPPER, Karl R. A Lógica da Pesquisa Científica. Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo, SP: Cultrix, 2006.

QUAMMEN, David. As Dúvidas do Sr Darwin: o retrato do criador da teria da evolução. Tradução: Ivo Korytowsky. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2007.

Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade – Questões Epistemológicas (Parte I)

Não é raro lermos ou ouvirmos de quem não concorda com a TE de que ela é “apenas” uma teoria. Esse tipo de desdém com a palavra Teoria é curioso e tem origem cultural. Em geral falam dessa forma por que atribuem um fato como um evento hierarquicamente superior a uma Teoria, como se ambos fizessem parte de uma escala de valores de credibilidade frente à realidade. Para esse tipo de olhar atribui-se fato ao conceito de LEI e Teoria a algo que precisa de comprovação, como se fosse uma mera hipótese ou suposição.

Gosto muito da abordagem sobre esse assunto dada por Stephen Jay Gould no artigo “Evolution as Fact and Theory” o qual os leitores podem ler no original e conhecer um pouco mais sobre esse evolucionista heterodoxo que não só ampliou a compreensão sobre a Teoria da Evolução de Darwin, mas pôde ampliar a própria teoria abarcando fenômenos que ela não contemplava em sua versão original.

O que é Teoria?

O vernáculo “Teoria” vem do grego Theoria e significa contemplação. Embora filosoficamente tenha ganho significado em Platão (que usou esse termo poucas vezes, na República, em lugar de noésis que significa pensamento; ambas no mesmo sentido), o termo ganha estatuto conceitual em Aristóteles; que a usa tanto para descrever a contemplação dos Princípios Primeiros, quanto para fundamentar a ciência política. Aristóteles nos explica que a própria Metafísica (que nele é chamada de Filosofia Primeira) é teorética, isto é, contemplativa.

É nesse sentido grego que o vernáculo “Teoria” ganha estatuto de verdade em ciências. No entanto, ele tem, no senso-comum, outra conotação, que antropologicamente tem origens nos EUA e é nesse sentido que se pronuncia também entre os criacionistas o desdém da Teoria da Evolução ser “ainda” uma teoria.

A cultura americana e anglo-saxã (boa parte protestante, pragmática e criacionista) usa o vernáculo “Teoria” dentro de uma escala de confiabilidade que vai de adivinhação, hipótese, teoria e fato. Para esse senso-comum, que inclusive é adotado por nós no Brasil (apesar de nossa influência também européia), teoria se relaciona com fato numa escala de valores credíveis, fazendo parte de uma hierarquia crescente de certeza. Essa acepção e conotação da palavra “Teoria” não tem a ver com a utilizada em ciências e nem ao seu sentido etimológico grego e enquanto o senso-comum não entender isso, ainda continuará a desdenhar as Teorias Científicas e se apegar a certezas não justificadas impostas por autoridades; sejam elas religiosas ou meramente ideológicas e doutrinárias.

Em ciência, Fato e Teoria são coisas diferentes e não fazem parte de uma escala hierárquica de certeza crescente. Tentemos esmiuçar mais… Teoria tem a mesma raiz etimológica grega que a palavra Teatro. Ambas sugerem significados ligados a contemplação e imaginação internalizadas mentalmente. Em Teoria (Theorein) temos uma contemplação ativa, que significa ver algo em seus aspectos mais abrangentes; o que significa compreender esse algo e dar-lhe um sentido, uma explicação.

Quando essa palavra se latinizou e transformou-se em “contemplare” houve um notável “downgrade” em seu sentido original, assim como aconteceu com as palavras ética e moral, que têm o mesmo significado original, no entanto quando ética se latinizou em moral mudou seu sentido de “modo de ser” para “norma” (isso dá até outro artigo para falarmos a respeito).

Nesse “downgrade” o contemplar ganhou um sentido passivo que não busca um conhecimento daquilo que se está olhando, mas apenas a apreensão sensível daquilo que se vê. O teórico passou a ser contemplador, ganhando sentidos diferentes quando, originalmente, significavam a mesma coisa.

Na Grécia antiga comitivas e embaixadas dos países helênicos eram enviadas às Olimpíadas e nas festas religiosas de Atenas para que “teóricos” pudessem contemplar os espetáculos e narrá-los aos que os enviaram da melhor maneira possível. E a narração não era mera descrição, mas sim um entendimento e construção de sentido daquilo que era visto.

Era um contemplar ativo que explicava o fato contemplado. Assistir peças de teatro na Grécia não era apenas iludir-se com o que estava sendo representado, era contemplar o espetáculo para abstrair da representação seu sentido pedagógico e ético. A peça, enquanto fato, fenômeno, necessitava de um olhar teorético para entendê-la em toda sua dimensão. Após a latinização do termo, contemplar transformou-se em apenas ver e deixar-se iludir com as aparências que o Teatro mostrava, sem “teorizar”; explicar e apreender seu sentido. Essa noção explica muito da forma como concebemos e usamos a palavra Teoria hoje em dia no senso-comum.

Essas colocações acima são de suma importância para desconstruir a noção do senso-comum que conota “Teoria” como um nível de confiabilidade abaixo do fato. Como eu disse, em ciência, fato e teoria são coisas distintas e não participam de graus de certeza sobre a realidade. Teorizar, portanto, não é colocar algo percebido abaixo do fato, é explicar o fato em suas possíveis e perceptíveis dimensões além da mera afecção dele: é descrevê-lo de forma a explicar como ocorre e por que ocorre.

Em suma, como diz Stephen Jay Gould: “Teorias são as estruturas de idéias que explicam e interpretam os fatos.” Logo, não é possível, nem coerente, afirmar que um fenômeno observável descrito numa teoria é menos real do que um fato, pois a teoria transcende o fato, sem negá-lo, para explicar-lhe o mecanismo fenomênico de sua existência e atribuir-lhe um sentido.

Bem, mas precisamos pontuar sobre o que viria a ser um Fato.

O que é Fato?

Fato é um fenômeno observável. Quando falamos que algo é fato, estamos atestando sua existência pelo que conceituamos/intuimos como existência. Há controvérsias epistemológicas entre fato e verdade; na eterna discussão entre realismo x anti-realismo. Fato é uma verdade, seja ela relativa ou absoluta, não deixando de ser uma verdade que diz e atesta a existência de algo.

A questão da existência merece até um artigo à parte também. Existência parece ser uma daquelas palavras conceituais das quais Kant atribuiu às características do tempo e espaço. Existência, portanto, não é um conceito e sim é uma intuição racional a priori a qual sabemos identificar, mas temos imensa dificuldade em conceituar.

Não vou entrar no mérito se a idéia de Kant em relação ao tempo e espaço faz sentido, mas percebo que caracterizamos a existência por que simplesmente nos vemos como existentes, e intuitivamente identificamos coisas que participam de uma mesma condição nossa. Merleau-Ponty chama isso de “carnalidade”. É uma espécie de pré-cognição que a razão apreende a priori por comungar da mesma condição daquilo que lhe afeta. Kant atribui isso a uma razão pura que independe dos sentidos, já Merleau-Ponty a coloca como uma pré-cognição advinda de nossa própria condição de ser-no-mundo.

Meu entendimento é que seja a percepção de um fato que nos afeta enquanto fenômeno, sendo uma realidade que se relaciona ao nosso conceito de existência, que é histórico e consensual, logo relativo a ele. Há quem diga que seja uma verdade absoluta, mas não cabe aqui essa discussão. De qualquer forma, e espero que concordemos com isso, fato é definido como um fenômeno, um evento observável ou sentido ou mesmo percebido que atenda aos nossos critérios intuitivos de existência; localizado espaço-temporalmente.

Com tudo isso, podemos dizer resumidamente que fatos são os dados do mundo como se apresentam a nós, sendo possível tecer uma relação epistemológica entre teoria e fato, e por que eles não estão imbricados numa hierarquia de graus de confiabilidade. Teoria é uma estrutura de idéias que explicam e interpretam os dados do mundo; os fatos.

Toda explicação que, atribuindo sentido ou não, descreve e esmiúça em graus variáveis de minúcia um fato observável, poderia ser chamada de Teoria. Teorizamos sobre as coisas o tempo inteiro. Aliás, parece ser o que nos resta enquanto humano, pois como sujeitos, apartados do objeto, num dualismo que caracteriza a própria civilização ocidental, jamais poderemos nos arvorar conhecer e atestar algo sem que nos apartamos dele para tentar explicá-lo conforme nosso ponto de vista.

É nesse sentido que Teoria, então, precisa ser categorizada frente àquilo a que se propõe sua construção. Os positivistas postularam que existe um grau hierárquico entre as teorias e que as científicas, por seu caráter controlável e empírico merecem maior credibilidade. Poderíamos enveredar por considerações exaustivas para defender um ou outro lado dessa questão. No entanto, em meu entender, só vejo sentido em hierarquizar um conhecimento a partir daquilo a que ele se presta, isto é, seu fim. Nesse ponto me coloco como pragmático.

Na continuidade voltaremos às questões sobre Teoria, Teoria Científica e a Teoria da Evolução.

Morre o biólogo brasileiro Crodowaldo Pavan

Cientista lutava contra complicação de uma cirurgia de câncer. Pesquisador foi um dos mais destacados geneticistas do Brasil.

Do G1, em São Paulo

Morreu em São Paulo, às 12h30 desta sexta-feira (3), aos 89 anos, o biólogo brasileiro Crodowaldo Pavan. Um dos mais importantes pesquisadores da ciência brasileira, ele estava internado no Hospital Universitário, da USP, por causa do agravamento de uma cirurgia de câncer.

O corpo do cientista será velado no prédio da Administração do Instituto de Biociências da USP, na Cidade Universitária, zona oeste de São Paulo. O enterro será neste sábado, às 14h, no cemitério Getsêmani Morumbi

Pavan foi um dos mais destacados cientistas brasileiros na área da genética. Foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entre 1981 e 1986 e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), entre 1986 e 1990.

Nascido em Campinas, formou-se em História Natural pela Universidade de São Paulo, em 1941. Logo a seguir foi contratado como assistente de André Dreyfus e, em 1943, iniciou trabalho de colaboração científica com Theodosius Dobzhansky, da Universidade de Columbia, em Nova York.

Em 1945 concluiu seu doutoramento na USP e nos dois anos seguintes, como bolsista da Fundação Rockfeller, fez pós-doutorado na Universidade de Columbia.

Ele foi responsável pela descoberta, no litoral de São Paulo, de um inseto que se mostrou bastante favorável ao estudo da ação gênica e de citologia (estudo da vida na escala celular), o que veio a abrir um novo campo de pesquisa.

Em 1964 e 1965 foi contratado como pesquisador da divisão de Biologia do OAK Ridge National Laboratory, nos EUA, onde montou um laboratório de estudos de ação gênica e efeitos biológicos das radiações.

De 1968 a 1975 foi professor titular de genética, com vitaliciedade, na Universidade do Texas em Austin. Em 1975, desistiu da posição e regressou ao Brasil.

Entre outros feitos, Pavan integrou a delegação brasileira no comitê científico para estudos dos efeitos das radiações atômicas, junto às Nações Unidas, e foi presidente da Sociedade Brasileira de Genética.
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Currículo do Professor Pavan.

Darwin 200: ciclo de palestras em Brasília

Uma ótima oportunidade para quem mora em Brasília para aprender sobre a mais importante teoria da Biologia moderna em palestras ao longo do ano de 2009. Tudo num clima de comemoração pelos 200 anos de nascimento de Charles Robert Darwin.

As palestras acontecerão na Universidade de Brasília (UnB), entre março e novembro, e serão proferidas por especialistas (confira na imagem as datas, títulos das palestras e quem serão os palestrantes).

25 de março, 16h, Anfiteatro 2, ICC Sul: O que é vida?

Prof. Waldenor Barbosa da Cruz (Instituto de Ciências Biológicas, UnB)

14 de abril: A evolução como uma visão revolucionária do mundo

Prof. Francisco Salzano (Instituto de Biociências, UFRGS)

26 de maio: A origem das espécies pela seleção natural: de Darwin a nossos dias

Prof. Louis Bernard (Instituto de Biologia, UNICAMP)

30 de junho: O ensino da evolução

Profa. Rosana Tidon (Instituto de Ciências Biológicas, UnB)

25 de agosto: Comportamento animal e sociobiologia

Profa. Regina Macedo (Instituto de Ciências Biológias, UnB)

29 de setembro: Evolução, sociedade e cultura

Prof. Nélio Bizzo (Faculdade de Educação, USP)

27 de outubro: Darwin e a mente

Profa. Maria Luísa Gastal (Instituto de Ciências Biológicas, UnB)

24 de novembro: Evo-Devo: uma ponte entre macro e microevolução

Prof. Klaus Hatfelder (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP)

A seleção natural no estudo do câncer

Textos integrais da Scientific American (Sciam) especial sobre câncer – março/2009

A ALVORADA DO CÂNCER

Em sua raiz, o câncer é uma doença de multicelularidade. Para se reproduzir, nossos ancestrais unicelulares se dividiam em dois. Depois que os animais surgiram, cerca de 700milhões de anos atrás, as células em seus corpos continuaram a se reproduzir por divisão, empregando o maquinário celular que herdaram das progenitoras. As células também começaram a se especializar à medida que dividiam, formando diferentes tecidos. O que tornou possível o complexo corpo multicelular dos animais de hoje foi a emergência de novos genes capazes de controlar a forma da divisão celular – por exemplo, parando a reprodução das células assim que um órgão alcançasse o amanho adulto. Os milhões de espécies animais evidenciam o enorme sucesso evolutivo que veio com a aquisição de um corpo. Mas este também apresenta grande risco. Quando ocorre a divisão celular no organismo, o DNA é passível de adquirir uma mutação causadora de câncer. “Cada vez que umacélula se divide, ela core o risco de desenvolver câncer”, diz Judith Campisi, do Laboratório Nacional Lawrence Berkley.

Mutações extraordinárias por exemplo, podem provocar a multiplicação descontrolada da célula. Outras agravam mais o problema ao permitir que células desorganizadas invadam os tecidos circundantes e se espalhem por todfo o corpo, ou se esquivem do sistema imune ou ainda atraiam vasos sangüíneos que forneçam oxigênio fresco.

O câncer em outras palavras, recria em nosso próprio corpo oprocesso evolutivo responsável pela adaptação dos animais ao seu ambiente. No nível dos organismos, a seleção natural opera quandomutações genéticas conferem mais sucesso reprodutivo a alguns deles que a outros; as mutações são “selecionadas” de modo que persistam e se tornem mais comuns nas gerações futuras. No câncer, as células representam o papel dos organismos. Alterações em DNA causadoras de câncer fazem algumas cpelulas se reproduzir mais efetivamente que as normais. Dentro doproprio tumor, as células mais adaptadas podem derrotar as malsuscedidas. “É semelhante à evolução darwinisana, exceto que acontece dentro de um mesmo órgão”, explica Natalatia Komarova, da Universidade da Califórnia em Irvine.

LIMITES PARA AS DEFESAS

Embora seja vulnerável ao câncer, nosso organimo tem muitas maneiras de detê-lo. Essas estratégias provavelmente resultaram da seleção natural, porque as mutações que tornaram nossos ancestrais menos propensos ao câncerna flor da idade podem ter aumentado seu sucesso reprodutivo. as considerando muitos milhõesde caos anuais de pessoas que desenvolveram câncer, éóbvio que essas defesas não erradicaram essa doença. Com o estudo da evolução dessas defesas, os biólogos tentam entender por que elas não estão à altura da tarefa.

As proteínas supressoras de tumor estão entre as defesas nais eficazes contra o câncer. Estudos sugerem que algumas dessas prteínas previnem o câncer monitorando omodo de reprodução da célula. Se esta se multiplica de maneira anormal, as proteínas a induzem a morrer ou entrar em estado de senescênciam uma espécie de aposentadoria precoce. A célula sobrevive, mas não consegue mais se dividir. A supressão de tumores tem papel vital em nossa sobrevivência, mas o cientistas descobriram recentemente algo de estranho: em certos aspectos, estaríamos melhor semelas.

Norman E. Sharpless, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, alterou camundongos geneticamente a fim de estudar o efeito de uma dessas proteínas hamadas de p16 (ou, mais corretamente, p16-Ink4a). Ele e os colegas criaram uma linhagem de camundongos que não tinha um gene funcional da p16 e, portantom não poderiam produzi-la. Em setembro de 2006, o grupo ublicou três estudos sobre os camundongos. Como esperado, os animais eram maispropensos ao câncer, que poderia surgir quando estavam com apenas um ano de idade.

Mas a perda do gene p16 teve um lado positivo. Quando os camundongos envelheceram, suas células ainda se comportavam como jovens. Em um experimento, os cientistas estudaram camundongos mais velhos, alvuns portadore se outros não-portadores de genes p16 funcionais, e destruíram as célulasprodutoras de insulina no pâncreas dos animais. Os roedores normais não conseguiam mais produzir insulina e desenvolveram diabtes fatal. Mas aqueles sem a proteína p16 tiveram apenas diabtes leve e sobreviveram. As progenitoras das célualsprodutoras de insulina ainda eram capazes de se multiplicar rapidamente e repovoaram o pâncreas com novas células. Os cientistas obtiveram resultados semelhantes ao examinar as céluas do sangue e do cérebro dos caundongos: a p16 os protegeu contra o câncer,mas também as envelheceu.

Esses resultados corroboram uma hipótese recente de Capisi. A seleção natural favorece proteínas anticancerosas como a p16, mas apenas moderadamente. Se essas proteínas se tornarem excesivamente agressivas,poderão se converter em ameaçã à saúde por fazer o corpo envelhecer rápido demais. “É ainda um hipótese de trabalho”, confessa Campisi, “mas os dados estão cada vez mais fortes.”

Jovens dinossauros morreram juntos num atoleiro

Uma manada de dinossauros jovens similares a aves morreu nas margens lamacentas de um lago há 90 milhões de anos, de acordo com uma equipe de paleontólogos chineses e norte-americanos que fizeram uma escavação num sítio paleontológico do deserto de Gobi, Mongólia Interior. A morte repentina do grupo numa armadilha de lama permite uma imagem rara de comportamento social. Composto inteiramente por indivíduos juvenis de uma única espécie de dinossauro ornitomimídeo (Sinornithomimus dongi), o grupo indica que indivíduos imaturos arranjavam-se sozinhos enquanto os adultos se ocupavam de outros comportamentos como fazer ninhos e cuidar de filhotes.

“Não havia adultos nem filhotes recém-nascidos,” disse Paul Sereno, professor da Universidade de Chicago e explorador em residência da National Geographic. “Esses jovens estavam passeando sozinhos,” observou Tan Lin, do Departamento de Terra e Recursos da Mongólia Interior.

Dentro de um extraordinário par de esqueletos, preparados para mostra no laboratório de Sereno e transportados de avião de volta para a China no final de fevereiro, pedras estomacais e as últimas refeições dos animais estão preservadas.

Sereno, Tan e Zhao Xijin, professor da Academia Chinesa de Ciências, lideraram a expedição de 2001 em que foram encontrados os fósseis. Incluíam-se como membros da equipe também David Varricchio da Universidade do Estado de Montana (MSU), Jeffrey Wilson da Universidade de Michigan e Gabrielle Lyon do Projeto Exploração. Os achados estão publicados na edição de dezembro de 2008 da Acta Palaeontologica Polonica, e o trabalho foi financiado pela National Geographic Society e pela David and Lucile Packard Foundation.

“Achar uma manada atolada é extremamente raro entre animais vivos,” disse Varricchio, um professor assistente de paleontologia na MSU. “Os melhores exemplos são de animais com cascos,” tais como o búfalo aquático da Austrália ou os cavalos bravos do oeste dos EUA, disse.

Os primeiros ossos da manada de dinossauros foram vistos por um geólogo chinês em 1978 na base de uma pequena colina numa região desolada e ventosa do Deserto de Gobi. Cerca de 20 anos depois, uma equipe sino-japonesa desenterrou os primeiros esqueletos, batizando o dinossauro com o nome Sinornithomimus (que significa “imitador de ave chinês”).

Sereno e associados então começaram uma busca extensa, seguindo um esqueleto após o outro colina adentro. Ao todo, mais de 25 indivíduos foram encontrados na escavação do sítio paleontológico. Eles variam de um a sete anos de idade, como determinado por anéis de crescimento anual em seus ossos.

A equipe registrou meticulosamente a posição de todos os ossos e os detalhes das camadas de rocha para tentar entender como tantos animais da mesma espécie pereceram em um só lugar. Os esqueletos mostraram uma extraordinária preservação similar e estavam em sua maioria voltados para a mesma direção, sugerindo que morreram juntos e num intervalo curto.

Os detalhes forneceram evidências-chave de uma tragédia antiga. Dois dos esqueletos caíram um sobre o outro. Embora a maioria dos esqueletos estivessem num mesmo plano horizontal, suas pernas traseiras estavam atoladas fundo na lama abaixo. Apenas seus ossos do quadril foram perdidos, o que aconteceu provavelmente por conta de algum carniceiro que tirou a parte mais carnuda dos corpos pouco depois que os animais morreram.

“Esses animais tiveram uma morte lenta numa armadilha de lama, o que só serviu para atrair algum predador ou carniceiro que estivesse por perto,” disse Sereno. Geralmente o intemperismo, os carniceiros ou o deslocamento dos ossos apagam toda evidência direta da causa da morte. O sítio paleontológico fornece algumas das melhores evidências até hoje da causa da morte de algum dinossauro.

Marcas na lama ao redor dos esqueletos registraram que eles tentaram escapar. Varricchio relatou que ficou tanto empolgado quanto entristecido pelo que a escavação revelou. “Fiquei triste porque eu sabia como os animais morreram. Foi uma sensação estranha e a única vez que me senti assim numa escavação,” disse.

Além de composição e comportamento de manada, o sítio também fornece um conhecimento enciclopédico sobre até os menores ossos do crânio e do esqueleto. “Nós sabemos até o tamanho do globo ocular,” disse Sereno. “O Sinornithomimus está destinado a se tornar um dos dinossauros que melhor se compreende no mundo.”

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Clique aqui para ver um vídeo de Paul Sereno falando sobre sua pesquisa. (Em inglês. Formato de Quicktime Player.)

O artigo científico está publicado em Acta Palaeontologica Polonica e disponível em http://www.app.pan.pl/article/item/app53-567.html.

Para mais informações sobre os membros da equipe e sobre a expedição acesse http://www.projectexploration.org/mongolia.

Traduzido de EurekAlert!.

Abuso infantil deixa ‘cicatrizes’ duradouras no DNA

Marcas no DNA podem amplificar respostas a estresse.

por Heidi Ledford, em Nature News.

Vítimas de suicídio com histórico de abuso durante a infância têm maior probabilidade de serem portadoras de mudanças químicas em seu DNA que poderiam afetar como elas respondem ao estresse na idade adulta, um estudo descobriu.

Aquelas sem histórico de abuso infantil não mostraram o mesmo padrão de modificação do DNA, e tiveram expressão normal de NR3C1, um gene ligado às respostas ao estresse.

Mas as descobertas não significam que o efeito do abuso infantil é indelével, ressalta Joan Kaufman, uma psicóloga da Yale School of Medicine em New Haven, Connecticut, que não estava envolvida no novo estudo. “Os efeitos de longo prazo do abuso infantil não são inevitáveis,” ela diz, “e quanto mais você entende sobre os mecanismos de risco, mais você pode inventar tratamentos.”

Os resultados, relatados hoje em Nature Neuroscience¹, são a continuação de trabalhos que mostram que filhotes de rato que se estressaram porque foram criados por mães negligentes têm grupamentos metil extras em seu DNA numa região do genoma que controla a expressão de Nr3c1, o gene equivalente em ratos. Tal ‘metilação’ pode reduzir a expressão gênica. O NR3C1 codifica para uma proteína expressada em neurônios que responde a hormônios chamados glicocorticoides. A expressão menor de NR3C1 poderia ser prejudicial porque respostas reduzidas a esses glicocorticoides foram ligadas a estresse mais severo.

Impressões duradouras

Para descobrir se os resultados dos roedores poderiam ser traduzidos em resultados em humanos, o neurobiólogo Michael Meaney (da Universidade McGill em Montreal, Canadá) e seus colaboradores coletaram amostras cerebrais do Banco de Cérebros de Suicidas de Quebec. Os pesquisadores observaram amostras de 12 vítimas de suicídio com um histórico de abuso na infância, 12 vítimas de suicídio sem histórico de abuso na infância, e 12 que morreram subitamente de outras causas como grupo controle.

As pessoas com histórico de abuso infantil tiveram níveis mais baixos de receptores de glicocorticoides que as pessoas que não foram abusadas e aquelas que não tinham cometido suicídio. E as vítimas de abuso infantil tiveram um padrão de metilação similar ao visto em ratos que se estressaram quando filhotes.

Essas mudanças são improváveis de serem passadas para a próxima geração, nota Meaney. Embora os pesquisadores não tenham procurado ainda por efeitos sobre o DNA dos ovócitos e dos espermatozoides, é de se duvidar que as mudanças afetem as células germinativas, diz ele.
Os pesquisadores ainda não sabem se o trauma na idade adulta produz o mesmo padrão de mudanças. Pode haver momentos durante a infância quando o cérebro em desenvolvimento responde particularmente mais ao abuso, explica Martin Teicher, diretor do Programa de Pesquisa de Biopsiquiatria do Desenvolvimento da Harvard Medical School em Belmont, Massachusetts. Teicher e seus colaboradores fizeram imagens de cérebros de mulheres que foram vítimas de abuso infantil e descobriram que aquelas que foram abusadas entre três e quatro anos de idade, ou entre onze e treze, tinham um hipocampo menor – uma região do cérebro que é importante para a memória e o aprendizado – em relação àquelas que não foram abusadas.²

Procurando por uma saída

Estudos em ratos também sugeriram que as mudanças de metilação podem ser revertidas: se os filhotes criados por mães negligentes fossem tratados mais tarde com um composto químico que remove a metilação do DNA, suas respostas ao estresse voltavam ao normal.³

Drogas como esta não estão prontas para uso em humanos, e poderiam levar a efeitos colaterais indesejáveis. Mas a medicação pode não ser o único modo de tratar vítimas de abuso infantil. A metilação do DNA foi restituída ao normal em filhotes de rato negligenciados se estes filhotes fossem transferidos a mães mais atenciosas. “Só porque há um efeito biológico não significa que o único modo de intervir são os fármacos,” diz Kaufman.

Mostrou-se que a psicoterapia, por exemplo, pode produzir mudanças químicas no cérebro, e poderia ser capaz de restaurar o padrão de metilação, diz Meaney. “Um evento social fez isso com você. Poderia um evento social lhe trazer de volta?”, ele pergunta. “Esta é uma hipótese muito viável.”

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Referências
1. McGowan, P. O. et al. Nature Neurosci. Advanced online publication doi:10.1038/nn.2270 (2009).
2. Andersen, S. L. et al. J. Neuropsychiatry Clin. Neurosci. 20, 292–301 (2008). | PubMed |
3. Weaver, I. C. G. et al. Nature Neurosci. 7, 847–854 (2004). | Artigo |

Por que Darwin não descobriu as leis de Mendel?

por Charlotte Webber
Biomed Central

Mendel solucionou a lógica da herança em seu jardim de mosteiro sem usar mais tecnologia que Darwin usou em seu jardim em Down House. Então por que Darwin não conseguiu o mesmo? Um artigo do Journal of Biology (Howard, 2009) argumenta que o conhecimento, as influências e o foco de pesquisa de Darwin deram-lhe um ponto de vista que o impediu de interpretar as evidências ao seu redor, até mesmo em seu próprio trabalho. O compromisso de Darwin com a variação quantitativa, a matéria-prima da evolução, fez com que ele não pudesse ver a lógica da herança, argumenta Jonathan Howard da Universidade de Cologne, Alemanha.

“A variação quantitativa estava no cerne da evolução de Darwin, e a variação qualitativa é o último lugar onde a herança mendeliana pode ser vista claramente,” diz Howard. “Darwin se fechou, incapaz de ver as leis da herança na variação contínua, sem poder ver a real importância da variação descontínua onde as leis da herança podem ser discernidas.”

O padre morávio e cientista Gregor Mendel (1822 – 1884) estudou características nítidas e herdáveis em pés de ervilha, que cultivou em seus jardins do mosteiro em Brno. Mendel mostrou que a herança de características segue leis simples, que foram mais tarde batizadas com seu nome. O trabalho de Mendel foi redescoberto no começo do século XX, fundando a genética. Mendel tinha um bom conhecimento de biologia, mas sua compreensão de física, estatística e teoria da probabilidade era muito superior à de Darwin.

A visão de Darwin sobre a biologia foi grandemente influenciada pelo geólogo Charles Lyell durante a viagem do Beagle (1831-1836) e após, levando Darwin a se focar em diferenças infinitamente pequenas entre os indivíduos dando-lhes vantagens ou desvantagens infinitesimais na sobrevivência. Para Darwin, a seleção dessas variantes ao longo de centenas de milhares de gerações era o processo crítico da evolução.

O livro de Darwin ‘The Different Forms of Flowers on Plants of the Same Species’ (As Diferentes Formas das Flores em Plantas da Mesma Espécie) detalha experimentos de cruzamento envolvendo traços “unitários” bem definidos, fornecendo dados claros interpretáveis como proporções ‘mendelianas’, mas que não foram mencionados por Darwin, que insistia, por causa de sua crença de que apenas a variação quantitativa contribuía para a evolução, que as regras de herança eram complexas demais e indisponíveis para uma análise definitiva.

A herança e a variação desempenharam papéis centrais no desenvolvimento da teoria de Darwin de evolução por seleção natural. Sua visão de que a variação é causada por eventos casuais e quase físicos, fora do controle do ambiente, é muito como acreditamos hoje. Mas ele nunca se livrou da crença incorreta de que mudanças ambientalmente determinadas poderiam também ser herdadas, vítima de seu foco em características quantitativas, como altura, peso e etc., que são fortemente influenciadas por efeitos ambientais.

Este ano marca o bicentenário de aniversário de Darwin, e 150 anos desde que seu livro “A Origem das Espécies” foi publicado.

Traduzido de EurekAlert!

DARWINÍSSIMO!!

Juntar, colar, quebrar, dispersar, levantar, afundar, uma vez, duas vezes, três vezes… . A edição especial número 20 da Scientific Americam- Brasil certamente não passaria desapercebida de um hipotético Charles Darwin ainda vivo no início deste século. Publicada sob o título ¨As Formas Mutantes da Terra¨ e com uma magnífica ilustração de capa, temos diante de nós um esplêndido exemplo de rupturas radicais relativamente a certas visões de mundo de éras pré-científicas, rupturas estas adquiridas não por disposições de natureza arbitrária em nossos modos de pensar mas, antes, pelo testemunho implacável dos fatos. É digno de nota aqui a naturalidade com que os pesquizadores enfrentam, após Wegener, fenômenos que estão muito longe daquilo que se costuma chamar de ¨senso comum¨, visando uma reconstrução, tão exata quanto possível, da história geofísica e climática da Terra desde a sua formação há 4,6 bilhões de anos atrás até o seu estado atual. É claro que esses assuntos são de extrema relevância para a ¨Teoria¨da Evolução, em particular para a questão da ¨origem¨da vida e, principalmente, o da Origem das Espécies. Farei a seguir um rápido resumo de alguns artigos com alguns breves comentários.
I) O primeiro deles, assinado por Claude J. Allègre ( Instituto Geofísico de Paris) e Stephen H. Schneider ( Stanford University) entitulado ¨A Intricada Evolução da Terra¨ traça uma visão panorâmica e geral da história da Terra desde os seus primórdios até os dias atuais. Destaque para o gráfico ¨Sobe Oxigênio, desce CO-2¨, mostrando a evolução das concentrações relativas de água, metano, amônia, nitrogênio, dióxido de carbono e oxigênio em um período de mais de 4 bilhões de anos.( ! )
II) A seguir vem ¨A Terra Muito Antes de Pangéia¨ escrito por Ian W. D. Dalziel, geofísico da Universidade de Texas, Austin. Entre outros assuntos êle afirma : ¨O continente da América do Norte pode ser mais nômade que a maioria de seus habitantes¨ Destaque para o quadro ¨Continente Nômade¨ que ilustra a ¨viagem¨ da América do Norte pelo globo terrestre desde há 750 milhões de anos atrás até os tempos de Pangéa, há 270 milhões de anos.
III) Em ¨O Poderoso Evento do Cretácio Médio¨, Roger L. Larson, oceanógrafo da Universidade da Califórnia afirma : ¨Minha terra natal, em Iowa, estava no fundo do oceano no Cretácio Médio¨.
IV) Meus dois últimos destaques vão para ¨A Complexa Evolução da Crosta Continental¨ por S. Ross Taylor( Universidade Nacional da Austrália) e Scott M. McLennan( Stony Brook University) que aborda os movimentos horizontais das placas tectônicas, e para ¨Processos que Esculpem a Terra¨, escrito por Michael Gurnis, geofísico do Caltech. Este afirma : ¨Poderosos movimentos nas profundesas do planeta não só empurram os fragmentos da crosta rochosa horizontalmente, mas elevam e afundam continentes inteiros¨(!)
E assim por diante. Os demais assuntos? Vejamos: Variações periódicas no campo geomagnético da Terra, formação de montanhas, imagens do assoalho oceânico, mega-tsunames, etc.., todos esses temas salpicados e temperados com frases do tipo ¨…..quando a Itália foi transferida da África para a Europa…..¨ (DARWINÍSSIMO !!! ) , ou ainda ¨….. o continente australiano está afundando a uma taxa de ……¨,etc,etc…
Bem , como frisei no início, eu não tenho a menor dúvida em sugerir, embora com um certo atraso, reconheço, que se faça a leitura de todos esses estudos devido à sua relevância para a Teoria da Evolução e, principalmente, para as questões relacionadas com o que se costuma chamar de ¨Macroevolução¨.

Evolução ao vivo no laboratório!

Trecho da Sciam (Scientific American) de fev/2009:

A GENÉTICA DA SELEÇÃO NATURAL

Quando especialistas observam traços físicos comuns – bicos, bíceps e cérebros – e estão convencidos de que a seleção natural conduz mudanças evolutivas,muitas vezesnão fazem idéia de como isto acontece. Até recentemente, pouco se sabia sobre as alterações genéticas que formavam a base da evolução por adaptação. Com os novos desenvolvimentos em genética os biólogos puderam atacar esse problema; neste momento estão tentando responder a várias questões fundamentais sobre a seleção. A adaptação de organismos a um novo ambiente é atribuída a alterações de alguns ou vários genes? É possível identificá-los? Em casos de adaptação ao mesmo ambiente, os genes envolvidos também são os mesmos?

Não é fácil responder a essas questões. A principal dificuldade é que o aumento na adaptabilidade a partir de uma mutação benéfica pode ser muito insignificante, tornando a mudança evolutiva um tanto lenta. Uma forma de enfrentar esse problema é inserir populações de organismos que se reproduzem rapidamente em ambietes artificiais, onde as diferenças de adaptabilidade são maiores e a evolução é, portanto, mais rápida. Também pode ajudar se as populações dos organismos forem suficientemente grandes para fornecer um fluxo contínuo de mutações. Na evolução experimental de microorganismos, uma população geneticamente idêntica é colocada em um novo ambiente, ao qual deme adaptar-se. Como no início todos os indivíduos compartilham a mesma seqüência de DNA, a seleção natural deve agir sobre novas mutações que surgirem durante o experimento. O pesquisado pode, então, acompanhar como a adaptabilidade de populações é alterada com o tempo, medindo a taxa de reprodução no novo ambiente.

Algumas pesquisas interessantes sobre evolução experimental foram realizadas com bacteriófagos – vírus tão pequenos que infectam bactérias. Bacteriófagos têm genomas proporcionalmente muito pequenos; assim, é fácil para os biólogos seqüenciarem genomas inteiros desses vírus no início e no fim dos experimentos, ou a qualquer momento que houver interesse. Isso permite detectar cada alteração genética que a seleção natural “incorpora” e, depois, perpetua ao longo do tempo.

K.Kichler Holder e James J. Bull, ambos da University of Texas, em Austin, realizaram (um) experimento com duas espécies muito próximas de bacteriófagos: ΦX174 e G4. Ambos infectam Escherichia coli, uma bactéria intestinal comum. Os pesquisadores expuseram os bacteriófagos a uma temperatura anormalmente alta e deixaram que eles se adaptassem ao novo ambiente quente. Nas duas espécies, a adaptação ao novo ambiente aumentou significativamente durante o experimento. Além isso, nos dois casos, os pesquisadores obseravram o mesmo padrão: a adaptabilidade melhorava rapidamente logo após a início do experimento e, depois, se estabilizava com o passar do tempo. É incrível, mas Holder e Bull conseguiram identificar perfeitamente mutações de DNA que induziram esse aumento da adaptabilidade.

O autor da coluna é H. Allen Orr, professor titular de biologia, a University of Rochester, e autor (com Jerry A. Coyne) de Speciation. Sua pesquisa concentra-se na base genética da especiação e adaptação. Orr recebeu a medalha Darwin-Wallace, da Sociedade Lineana de Londres, uma bolsa de pesquisa da Fundação Guggenheim, uma bolsa de estudos da Fundação David e Lucile Packard e o Prêmio Dobzhansky, da Sociedade para Estudos da Evolução. Publicou várias críticas de livros e artigos na revista New Yorker e na New York Review of Books