Termodinâmica e evolução: O velho argumento da segunda lei

ResearchBlogging.org

Como Jason, personagem da série de filmes “Sexta-feira 13”, ou Mike Myers, da série de filmes “Halloween”, que sempre levantam após serem “mortalmente” golpeados (ao fundo em imagem desfocada), certos argumentos anti-evolucionistas parecem também ter o mesmo vigor “sobrenatural”. Nestes casos, precisamos de um “algo mais”. Algum tipo de estratégia de combate que seja simples, efetiva e possa ser rapidamente divulgada. Na falta de turbas enfurecidas portanto tochas, ancinhos e foices, como as que perseguiram e cercaram o pobre monstro do doutor Frankenstein. Mortos-vivos são sempre um problema, George Romero que o diga, por isso precisamos desenvolver estratégias mais diretas ao seu combate. Por isso, precisamos de algo tão efetivo e simples como estacas e machados no combate aos vampiros, pelo menos aqueles da mitologia cinematográfica clássica.

Uma das primeiras providências é entender contra o que estamos lutando, já que estacas não adiantam contra zumbis e tiros na cabeça não funcionam contra s vampiros. No máximo estas estratégias podem nos dar algum pouco de tempo para fugir e reagrupar. Precisamos mesmo é de métodos específicos para cada ameaça e cuidados específicos para evitar a infecção em cada caso.

Deixando os filmes de terror de lado (e voltando para o assustador mundo real), na contenda entre cientistas e anti-evolucionistas, o primeiro passo é perceber que esta é uma disputa de natureza política e ideológica. Não existe debate científico sobre os méritos da evolução, como fato, e da biologia evolutiva como o campo legítimo de investigação deste fenômeno, o que resta de disputa sobre estes dois tópicos é fruto de pura ideologia e desinformação. Por isso, nem sempre as definições e argumentos que os cientistas estão habituados a empregar, dentro de suas próprias comunidades de pesquisa, são os mais indicados para convencer leigos e não-especialistas. Isto acontece porque as ciências são empreitadas bastante heterogenias em seu conteúdo e em seus métodos. As ciências são subdivididas em campos nos quais a especialização é muito necessária. O problema é que no debate entre cientistas e criacionistas, apenas um lado se preocupa com a precisão das informações e o rigor dos métodos, o outro lado usa qualquer argumento distorcido, falácia ou estratégia retórica dúbia para chegar aos seus objetivos. Assim físicos, ao explicar os detalhes sobre a cosmologia do Big Bang, podem ser interpelados por criacionistas questionando sobre a origem da vida ou funcionamento da seleção natural. De forma semelhante, biólogos, dissertando sobre a genética de populações, podem ouvir perguntados sobre a segunda lei da termodinâmica. Sim a famigerada “segunda lei”.

Esta lei está na base de um dos argumentos “mortos-vivos” mais insistentemente repetidos pelos criacionistas. Recentemente, em artigo para o periódico Evolution: Education and Outreach, dois pesquisadores propuseram-se à fornecer algumas i

estratégias (e exemplos retirados de um ‘experimento de pensamento’ muito plausível) para desarmar as distorções que cercam certos enunciados da segunda lei da termodinâmica, frequentemente usados como argumento anti-evolucionista. O artigo Evolution and the Second Law of Thermodynamics Effectively Communicating to Non-technicians, de autoria de Alexander Schreiber & Steven Gimbel, é uma ótima aquisição ao arsenal de “armas” na defesa do ensino de evolução.

Neste artigo, Schreiber e Gimbeli, desenvolvem algumas explicações, imagens e metáforas acessíveis para ajudar aos não-técnicos compreender o funcionamento do mundo natural, ilustrando as falhas na argumentação anti-evolucionista. Nas palavras dos próprios autores:

“Neste trabalho, buscamos formular ferramentas efetivas para comunicar as falácias contidas no argumento dos advogados do anti-evolucionismo de que a especiação pela evolução viola a segunda lei da termodinâmica (ver, por exemplo, Morris 1987, 38-64). O argumento anti-evolucionista pode ser apresentado da seguinte forma:

1. A teoria da evolução sustenta que as espécies atuais desenvolveram-se a partir de formas de vida anteriores.

2. Essas formas de vida anteriores eram mais simples tendo menos capacidades e sistemas menos complexos.

3. Portanto, teoria evolutiva afirma que os organismos tornaram-se melhor ordenados ao longo do tempo.

4. A segunda lei da termodinâmica diz que a entropia aumenta, isto é, sistemas ao longo do tempo tornam-se mais desordenados.

5. Assim, tanto a teoria evolutiva e a segunda lei da termodinâmica não podem ser ambas corretas.

6. A Física é um campo mais básicas ou bem estabelecido que biologia.

7. Portanto, devemos preferir a segunda lei da termodinâmica e rejeitar a teoria evolucionista.”

Segundo Schreiber e Gimbeli, existem três erros principais neste argumento:(a) seu entendimento da segunda lei da termodinâmica e da noção de entropia, (b) o âmbito de aplicação da segunda lei da termodinâmica, (c) não compreender a maneira pela qual os mecanismos subjacentes genética estão em perfeita consonância com as leis físicas. A partir destes fatos os autores concluem que é preciso criar maneiras de
comunicar de forma eficaz estas falhas para o público em geral.

A segunda lei da termodinâmica é bem conhecida por excluir a possibilidade de máquinas de movimento perpétuo. Os autores enfatizam o fato de como é impressionante como formulações tão “esotéricas” tenham sua origem em uma questão tão prática como “quão eficiente podemos tornar motores a vapor?”. A idéia de que a a segunda lei afirma que a desordem invariavelmente aumentará em um sistema, advém de uma confusão dos próprios cientistas que primeiro a formularam. A segunda lei foi formulada de diversas formas por vários pesquisadores, desde Sardi Carnot, até Boltzmann, passando por Clausius, Lorde Kelvin e Max Planck. Uma divisão entre estes cientistas era com relação a natureza deste principio, com alguns deles (como Clausius) enfatizando a universalidade e determinismo do processo, em analogia as leis de movimento de Newton, e outros, especialmente Boltzmann, preferindo uma versão probabilística que por fim se mostrou a mais utilizada, com o advento da mecânica estatística.

Cientistas e engenheiros descobriram que, ao tentar converter uma forma de energia, por exemplo, o calor, em outra forma de energia, por exemplo, o movimento, nunca eramos capazes de fazer a transferência de forma completa, há sempre alguma energia perdida. Pense nisto em termos de moeda. Sempre que trocar dinheiro, por exemplo de dólares para euros, o banco cobra uma taxa de transação. Assim Se nós continuássemos trocando sempre o dinheiro, acabaríamos por falir mesmo com uma taxa de câmbio fixa. Dado o sua bem-comportada irmã, a primeira lei da termodinâmica (Que a energia é sempre conservada, nem criado nem destruídos), os investigadores procuraram uma forma de quantificar a e explicar essa ‘taxa de transação de energia’. Essa explicação os levaram a postular uma estranha quantidade, não diretamente observável: a entropia. Ela mede a “desordem” de um sistema em termos do número de micro-arranjos de moléculas acessível para um sistema em um determinado macro-estado em uma determinada temperatura, pressão e volume. Eles constataram que “em qualquer processo em que um isolado termicamente sistema passa de um macroestado para outro, a entropia tende a aumentar (Reif 1965, 122).”

Esta tendência é que recebeu diversas interpretações e foi alvo de intenso debate que acabou sendo vencido, postumamente, por Boltzmann.

Então o que é entropia?

“A entropia é uma medida do número de estados possíveis em que um sistema pode ser encontrado, caso o sondemos. Uma vez que o fluxo de calor vai no sentido de ‘morno’ para ‘frio’, um sistema que ainda não está em equilíbrio, está em fluxo, ou seja está mudando. Assim, o número de estados possíveis em que o sistema poderia ser encontrado aumenta ao longo do tempo.”

Para esclarecer a natureza probabilística da segunda lei da termodinâmica, Schreiber e Gimbel propõem a seguinte analogia:

‘”Pense em um baralho de cartas. Se você sentar numa mesa de poker com sete pessoas a jogar five-card stud e usar um baralho novinho saído direito da caixa lacrada, os resultados são óbvios porque as novas cartas são inseridas na caixa de forma ordenada. A pessoa a esquerda de quem dá as mãos receberá necessariamente um seis e rei de espadas, um de sete e Ás de ouros, e de oito dos paus e terá a mão mais alta. Mas se as cartas forem embaralhadas uma vez, os resultados serão diferentes. Dado que a metade superior da pilha estará organizada em ordem crescente de espadas e o embaralhamento, em geral, começa quando as cartas cortadas mais ou menos no meio e entrelaçadas, aproximadamente, alternando umas as outras cartas, há uma boa chance de que o ás de espadas será um das primeiras cartas dadas e quase certamente acabará nas mãos de alguém. Agora, se as cartas são embaralhadas sete, dez ou vinte vezes, as chances de que o ás de espadas apareça, torna-se menor e menor , e a cada embaralhada adicional das cartas, a probabilidade de obter o ás de espadas se aproxima do probabilidade de obter qualquer outra carta. Isso é o que a entropia mede. Com um sistema aproximando-se do equilíbrio, as chances de encontrá-lo em algum estado particular dosistema – alguma ordem particular de cartas – aproxima-se do probabilidade de encontrá-lo em qualquer outro estado, ou qualquer outra ordem de cartas.

Em seguida, Schreiber e Gimbel buscam três objetivos: (1) explicitar que uma característica inerente de todos os organismos vivos é que estes são sistemas abertos que mantêm ordem que o seu entorno através da importação livre energia (nutrientes) e exportando a entropia (calor e de resíduos); os autores concentram-se no papel da membrana celular semi-permeável como mediador da ordem interna. (2) explicar como entropia pode diminuir localmente dentro de subsistemas e como a complexidade dos organismos pode aumentar ao longo do tempo evolutivo enquanto houver um maior aumento na entropia em outra parte do sistema. O foco aqui é no Sol, como a fonte derradeira da Terra, de luz de baixa entropia, e como os produtores (plantas e cianobactérias) capturaram esta baixa entropia impulsionando a evolução da complexidade; (3) discutir como os organismos podem ser vistos termodinamicamente como sistemas de transferência de energia, com mutações benéficas permitam que os organismos dispersem energia de forma mais eficiente para seu ambiente. No artigo, os autores propõem um simples “experimento mental ” utilizando culturas de bactérias para transmitir a idéia de que a seleção natural favorece mutações genéticas que levam à taxas mais rápidas de aumento de entropia em um ecossistema.

A segunda lei da termodinâmica:

Mesmo que ainda hajam muitos desafios em compreender em detalhe os processos biológicos de um ponto de vista termodinâmico (além de seu papel particular na evolução) não existe contradição entre a segunda lei e a biologia evolutiva. Este é o primeiro ponto a ser enfatizado.

O estudo da termodinâmica na biofísica e bioquímica vem de longa data. Erwin Schrödinger, com seu livro “O que é vida?”, foi um dos primeiros a lançar luz sobre esta questão, reconhecendo que os seres vivos são sistemas abertos e mantem sua ordem a partir do consumo de “neguentropia”, ou seja, forma mais ordenadas de energia. Já nos anos 50 e 60, o físico-químico Russo-Belga Illya Prigogine, começou a estudar os
sistemas longe do equilíbrio termodinâmico, submetidos a gradientes de energia. Prigogine foi um dos primeiros a reconhecer que os seres vivos, juntamente com processos físicos e químicos, eram um subconjunto daquilo que ele chamou de estruturas dissipativas, que incluem redemoinhos, ciclones, reações químicas oscilantes, como a de Belousov-Zhabotinsky, e células convectivas de Rayleigh-Bénard.

Mais recentemente alguns físicos se propuseram a calcular o impacto da evolução no aumento de entropia da biosfera e suas adjacências e compará-lo com o aporte de energia fornecido pelo sol. Daniel Styler mostrou elegantemente que a Terra é banhada por cerca de um trilhão de vezes a quantidade de fluxo de entropia necessária para suportar a evolução da vida complexa. De forma semelhante o físico Emory Bunn mostrou que a evolução da vida complexa existente é perfeitamente compatível com a segunda lei da termodinâmica, desde que este processo tenha levado pelo menos cerca de 107segundos, ou seja, 116 dias.

Este é o tempo mínimo necessário para gerar a complexidade que vemos ao nosso redor, levando-se em conta o fluxo de energia do sol. Este simples cálculo é corroborado pelo fato de que a vida teve, pelo menos, 4 bilhões de anos para evoluir em nosso planeta.

Schreiber e Gimbeli citam Kaila e Annila, da Universidade de Helsínque, que descreveram matematicamente a evolução biológica com equações de movimento. Seus resultados mostram que, na ausência de uma fonte externa de alta energia, a energia flui em direção a um estado estacionário (Equilíbrio), conforme descrito pela segunda lei da termodinâmica. Os pesquisadores descreveram a evolução como um processo de transferência de energia, e uma vez que o movimento físico sempre leva a caminho de menor resistência (ou seja, o princípio de ação mínima) organismos pode ser descritos matematicamente como sistemas dissipativos que maximizam a taxa de produção de entropia de um sistema mais amplo.

“A segunda lei da termodinâmica claramente não proibe a construção de complexidade a partir da simplicidade. A natureza é repleta de exemplos de ordem espontânea que emanam de uma estado menos ordenado, tais como gases (por exemplo, vapor de água nas nuvens) que condensam em um estado mais ordenado líquido (chuva) e congelamento de líquidos em um mesmo mais altamente ordenado sólidos estado cristalino (por exemplo, cristais de gelo). Talvez o mais dramático exemplo biológico mais comum de que ordem espontânea, derivada de um estado menos ordenado, é o desenvolvimento de um única célula, o zigoto, em um complexo ser multicelular formado por bilhões células, possuindo dezenas órgãos especializados, células e tecido diferenciados de diversos tipos. Claramente, a síntese do floco de neve e embriogênese não violar nenhuma lei da física, então o que está acontecendo?”

“Em suma, a síntese da ordem cobra um preço energético: O custo da conversão de água relativamente desordenada de gotas, em um floco de neve, mais ordenada é a liberação de calor ao meio ambiente; o custo da embriogênese é a conversão de nutrientes em resíduos menos ordenados e calor. No final, os processos de formação de floco de neve e embriogênese sempre uiuiem de forma mais geral a entropia do sistema como um todo, de acordo com o a segunda lei da termodinâmica. De acordo com os criacionistas “com sua compreensão de jardim de infância de entropia” (Asimov 1984), nem a síntese de um floco de neve, nem o desenvolvimento animal poderiam ter lugar, e muito menos evolução organísmica.”

O fluxo de energia em sistemas biológicos pode ser facilmente visualizado ao pensarmos em uma célula com sua menbrana semi permeável, através da qual as trocas de matéria e energia com o meio ambiente são realizadas. Na figura 1 (clique na figura para ver os detalhes) podemos ver como este processo funciona em total conformidade com a segunda lei da termodinâmica. As células mantêm um grau relativamente elevado de ordem, em relação ao ambiente, fazendo isso através da continua importação de energia livre, na forma de nutrientes, e exportação de entropia, na forma de resíduos desordenados e calor. Elas importam nutrientes ordenados, seletivamente, de um mundo em grande parte caótico, através da proteínas transmembrana (cilindros coloridos), que formam canais e transportadores (substrato-específicas), embebidas em uma membrana fosfolipídica relativamente impermeável (linha pontilhada).

O metabolismo celular converte nutrientes em formas utilizáveis de energia (ATP) e diferentes biomoléculas que são usadas na manutenção, auto-reprodução e crescimento. Os custos de conversão de nutrientes para estas formas úteis de auto-preservação, de baixa entropia, são a produção de resíduos de alta entropia e calor. A exportação de entropia constante de células através da membrana celular garante a manutenção de um estado de maior ordenação interno quando comparado ao ambiente externo.


Os produtores primários do nosso planeta, como as plantas fotossintéticas e cianobactérias, podem fazer uso desta baixa entropia, assim reduzindo sua entropia própria. Organismos não-fotossintéticos reduzem sua entropia consumindo estes produtores primários direta ou indiretamente, e usam o oxigênio liberado pela fotossíntese para a respiração celular. Portanto, produtores primários fotossintéticos podem ser vistos como as pás de uma usina hidroelétrica (ou de um moinho) cujo movimento, causado pelo fluxo de energia solar, gira a “roda dentada” ou “as turbinas” da máquina da vida, alimentada pela conversão de luz baixa entropia em luz infravermelha de maior entropia (Fig. 2 – clique na figura para ver os detalhes).

Esta ‘engrenagem motriz’ alimenta praticamente todas os organismos da Terra e abastecem a ‘máquina da vida’ Este processo é análogo ao abastecimento de uma cidade através de um rio, cujo fluxo de água move as turbinas de uma usina hidrelétrica para produzir eletricidade. Enquanto o rio fornecer um fluxo de água suficiente para girar as turbinas, a cidade será capaz de usar o eletricidade resultante para manter-se “viva” e até mesmo “crescer” e tornar-se mais complexa.

Os autores fazem uma sábia ressalva, lembrando os argumentos do finado paleontólogo Stephen Jay Gould, que alertava para os perigos de igualar evolução ao aumento da complexidade. Na realidade, o próprio conceito de complexidade até hoje não foi definido de forma consensual, apesar de existirem várias propostas interessantes, muitas delas não mutuamente excludentes. Além disso, mesmo ao analisarmos questões e medidas, aparentemente mais óbvias, como complexidade celular, ou tamanho do genoma, observamos várias exceções e desvios. A perda de estruras (e genes) e a simplificação morfológica são bem comuns em linhagens de parasitas, por exemplo. Boa parte da biomassa terrestre é formada por procariontes que também garantem os ciclos biogeoquímicos e contribuem para a produção primária que sustenta a vida na terra.

Então, mesmo que exista uma certa tendência ao aparecimento de certos seres ,aparentemente, mais complexos ao longo do tempo, esta pode ser apenas uma tendência passiva. Para Gould, as formas de vida (tidas como) complexas representavam apenas a cauda de uma distribuição assimétrica, na qual a moda (a medida que detém o maior número de observações, ou seja, o valor ou valores mais frequentes) é constituída pelos procariontes. Este tipo de distribuição é compatível com um processo estocástico assimétrico, em que a barreira da complexidade mínima (unicelularidade) garante que eventualmente apenas a cauda, em direção a maior complexidade, “se estique”. A figura abaixo (clique na figura para ver os detalhes) à direita ilustra a visão de Gould sobre como o aumento de complexidade pode ser apenas uma tendência passiva, associada a uma barreira à esquerda de complexidade organizacional mínima. Dan McShea, tem investigado esta questão e enfatiza a dificuldade de se definir e medir a complexidade, defendendo que existem pelo menos quatro tipos diferentes de tendências evolutivas, além de vários tipos de complexidade, algumas delas podendo aumentar em função da diminuição de outras. Por isso, há uma necessidade de assumirmos extremo cuidado ao discutirmos qualquer suposta tendência a uma maior complexidade na evolução, além de ser fundamental superarmos a idéia egocêntrica de uma escalada ascendente em direção a um cume ou à perfeição.

A proposta final dos autores é fornecer um pequeno experimento de pensamento, fácil de visualizar e compreender, demonstrando como o processo evolutivo pode ser encarado como sendo termodinamicamente guiado. Nele a seleção natural agiria ‘criando’ formas mais eficazes de processar energia e aumentar a entropia total do sistema, ao mesmo tempo que geraria ordem e complexidade local. Assim, ao invés da visão anti-científica, de que a evolução se opõe a segunda lei da termodinâmica, esta visão defende exatamente o contrário.

O experimento de pensamento da figura 3 exige apenas que imaginemos três placas de petri com a mesmo quantidade de glicose no tempo 0. A primeira delas contém apenas glicose, que depois de certo tempo é oxidada espontaneamente. A segunda possui 100 bactérias da espécie Escherichia coli que, em pouco tempo, metabolizam a glicose, já que, por serem entidades muito bem organizadas, “ciclam” este nutriente de forma muito mais eficiente do que as reações de oxidação, não catalizadas e não compartimentalizadas, da primeira placa de petri. A terceira placa no tempo zero, possui a mesma quantidade de glicose que as demais e a mesma quantidade de bactérias E. coli que a segunda. Porém, após passado um certo tempo, uma destas bactérias sofre uma mutação vantajosa que a possibilita transportar, com mais eficiência, a glicose para dentro da célula. Digamos que esta mutação aumente o número de proteínas transportadoras de glicose nas membranas, ou aumente a afinidade das mesmas por moléculas de glicose. Depois de mais um período de tempo, esta bactéria multiplica-se de forma mais rápida e acaba tornando-se o tipo principal da placa 3. Com a proliferação da estirpe mais eficiente, a metabolização da glicose torna-se também mais rápida, o que reduz o tempo para a degradação total de glicose, e chegada ao equilíbrio, em relação a segunda placa.

Este pequeno experimento de pensamento deixa bem claro como a evolução pode aumentar a eficiência termodinâmica de um sistema biológico e aumentar a entropia total do ambiente circundante. E, como já discutido, existe energia de sobra (em sua forma de baixa entropia fornecida pelo sol) para ser convertida em formas mais entrópicas e utilizada da manutenção de processos biológicos e na própria evolução de estruturas mais complexas. Esta energia, em última instância, se origina da gravidade e das reações de fusão termonuclear que ocorrem no interior do Sol. Além disso, boa parte dos elementos mais pesados que compõem nosso planeta, como o carbono, por exemplo, originaram-se também no interior das estrelas e são distribuídos pelo universo através da explosão de supernovas. Portanto, não existe contradição entre a segunda lei da termodinâmica e a evolução biológica que se insere de forma elegante dentro da astrofísica e cosmologia modernas.

Este artigo é extremante útil aos educadores e a todos que já estão cansados de ouvir a mesma retórica, confusa e desinformada, vociferada pelos antievolucionistas de plantão. Pode não ser a arma derradeira, mas sem dúvida é uma aquisição fundamental, podendo guiar, cientistas e educadores, no desenvolvimento de formas mais efetivas de comunicação e divulgação, mais adequadas ao ensino da biologia evolutiva e menos susceptíveis aos ataques retóricos que teimam em ressurgir do ‘mundo dos mortos’.


Referências:

Schreiber, A., & Gimbel, S. (2010). Evolution and the Second Law of Thermodynamics: Effectively Communicating to Non-technicians Evolution: Education and Outreach, 3 (1), 99-106 DOI: 10.1007/s12052-009-0195-3

Bunn, E. (2009). Evolution and the second law of thermodynamics American Journal of Physics, 77 (10) DOI: 10.1119/1.3119513

Styer, D. (2008). Entropy and evolution American Journal of Physics, 76 (11) DOI: 10.1119/1.2973046

Referências de apoio:

Carroll SB. Chance and necessity: the evolution of morphological complexity and diversity. Nature. 2001 Feb 22;409(6823):1102-9. Review. PubMed PMID: 11234024.

GOULD, S.J. A evolução da vida na Terra. [1994] 2004 Scientific American Brasil, Edição Especial nº 5.

Kaila VRI, Annila A. Natural selection for least action. Proc R Soc A. 2008;464:3055–70.

McShea, DW Possible largest-scale trends in organismal evolution: Eight “live hypotheses” ANNUAL REVIEW OF ECOLOGY AND SYSTEMATICS VL 29 BP 293 EP 318 PY 1998

McShea, DW Mechanisms of large-scale evolutionary trends evolution 1994 48 (6):1747-1763 TC 124 UT

Livros:

Atkins, P. & de Paula, J.(2008) Físico-Química Biológica editora LTC ISBN: 9788521616238.

Nelson, philip Física Biológica – energia, informação, vida (2006) editora Guadabara Koogan ISBN 8527712091.

Nussenzveig, H. Moysés (1999) “Complexidade e Caos”, Editora UFRJ/COPEA.

Prigogine, Ilya (1980). From Being To Becoming. Freeman. ISBN 0716711079.

Schrödinger, Erwin (1997). O que é Vida? O Aspecto Físico da Célula Viva Seguido de Mente. São Paulo: UNESP, ISBN 8571391610.

Crédito das figuras:

SCOTT CAMAZINE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
DR. ARTHUR WINFREE / SCIENCE PHOTO LIBRARY.
SCIENCE PHOTO LIBRARY
AMERICAN INSTITUTE OF PHYSICS / SCIENCE PHOTO LIBRARY
SEGRE COLLECTION / AMERICAN INSTITUTE OF PHYSICS / SCIENCE PHOTO LIBRARY
RICHARD BIZLEY / SCIENCE PHOTO LIBRARY
HELENE FOURNIE, ISM / SCIENCE PHOTO LIBRARY
SCOTT SINKLIER / AGSTOCKUSA / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Leia também

5 comentários

  • RosinhA 16 de junho de 2012  

    Somente a RosinhA batendo cartão e apreciando, gostei, boa sorte Quiumento

  • Anônimo 16 de junho de 2012  

    Somente a RosinhA batendo cartão e apreciando, gostei, boa sorte Quiumento

Deixe um comentário