Seleção sexual, seleção natural e evolução humana recente:

Um grande estudo colaborativo internacional (parte do “Human Life-History Project) aproveitou-se dos vastos registros documentais existentes na Finlândia, cobrindo um período de quase 100 anos e envolvendo quase 6000 pessoas, para investigar informações demográficas, culturais e tecnológicas que pudessem influenciar os parâmetros que afetaram a seleção sexual e natural em nossa espécie em tempos bem recentes.

Este estudo junta-se a outros recentes discutidos por mim e pelo Eli (“Ainda estamos evoluindo?” e ” Os humanos ainda estão evoluindo? Com certeza!“), aqui no evolucionismo, que rebatem a ideia que nossa espécie parou de evoluir, principalmente por causa dos avanços tecnológicos, médicos e sanitários [1,2].


A lógica por trás dessa ideia, entretanto, sempre esteve longe de ser sólida já que a evolução depende basicamente de variação hereditária e reprodução diferencial que continuam ocorrendo em nossa espécie; portanto, continuaria acontecendo mesmo que excluíssemos a seleção natural e sexual. Porém, a questão principal é que os avanços mencionados podem, no máximo, afrouxar certas pressões de seleção natural e, na maioria dos casos, modificá-las, especialmente no tocante a seleção sexual. Então, apesar dos avanços na medicina e tecnologia, assim como da maior prevalência da monogamia, mesmo em países desenvolvidos existem indícios que a seleção natural e sexual continuam tendo alguma importância.

Mas mais do que isso, essa ideia (de que não somos mais moldados pela evolução) baseia-se em uma visão míope das dificuldades de sobrevivência vivenciadas por boa parte da população mundial que está a ainda às margens das benesses tecnológicas e do apoio do estado, mais característicos dos países mais desenvolvidos, especialmente daqueles com estados de bem estar social bem organizados. A maioria dessas pessoas, portanto, não têm acesso a antibióticos, água tratada, alimentos, cirurgias reparadoras e condições mínimas de higiene, todos fatores que influenciam suas taxas de natalidade e óbito.

Como para realizar este tipo de estudo os pesquisadores precisam de muitas informações detalhadas, provenientes de um grande número de sujeitos – como dados de sobrevivência até a idade adulta, acesso a parceiros, sucesso no acasalamento e fertilidade por acasalamento, de modo que possam compreender com as pressões de seleção afetam o ciclo de vida dos indivíduos – o fato da genealogia ser muito popular na Finlândia foi decisivo, já que este país tem alguns dos melhores dados desta natureza acessíveis aos pesquisadores, graças aos minuciosos registros de nascimentos, óbitos, casamentos e status de riqueza que foram mantidos para fins fiscais, nas Igrejas. Além disso, o movimento no país também foi muito limitado até o século 20 o que ajuda a reduzir a influência de fatores como a migração e portanto o fluxo gênico, facilitando o isolamento das pressões seletivas e suas possíveis consequências. Como disse a Doutora Virpi Lummaa, do Departamento de Ciência Animal e Vegetal, da Universidade de Shefield, líder do projeto :

“Estudar a evolução requer grandes amostras com os dados individualizados cobrindo o tempo de vida total de cada pessoa que nasce” [2]


“Precisamos de conjuntos de dados imparciais que relatam os acontecimentos da vida de todos que nasceram. Porque a seleção natural e sexual agem de forma diferente em diferentes classes de indivíduos e através do ciclo de vida, precisamos estudar a seleção com relação a essas características, a fim de compreender como a nossa espécie evolui.” [2]

O estudo publicado no PNAS, este mês, analisa esse grande conjunto de dados, compilado a partir de registros da igreja, de populações pré-industrializadas finlandesas caracterizadas por monogamia socialmente imposta, e que contém uma distribuição completa de sobrevivência, acasalamento e sucesso reprodutivo de 5.923 indivíduos nascidos entre 1760 e 1849 [1].

De acordo com o estudo, as diferenças individuais na sobrevida precoce e fertilidade foram responsáveis pela maior variação da aptidão (sucesso reprodutivo), mesmo entre os indivíduos mais ricos, com a variância no sucesso de acasalamento explicando a maior parte da grande variância no sucesso reprodutivo em homens comparada com mulheres, mas com o sucesso no acasalamento também influenciando o sucesso reprodutivo feminino, permitindo que a seleção sexual operasse em ambos os sexos.


Apesar do estudo ser correlacional e não demonstrar de maneira mais efetiva que exista uma vinculação causal direta entre esses diversos fatores e o sucesso reprodutivo variável entre os indivíduos, ele é bem sugestivo de que é isso é que tenha ocorrido.

Assim, os autores concluem que as oportunidades detectadas para a atuação da seleção estão de acordo com medições em outras espécies, mas são maiores do que a maioria dos registros anteriores para amostras humanas. Com esta disparidade, segundo os autores, resultando das diferenças biológicas, demográficas, econômicas e sociais entre as populações, bem como de falhas da maioria dos estudos anteriores em levar em conta a variação na aptidão introduzida por indivíduos que não se reproduzem. Os resultados enfatizam que as mudanças demográficas, culturais e tecnológicas dos últimos 10.000 anos não excluem a possibilidade de seleção natural e sexual em nossa espécie [1].

Assim Lummaa, afirmou:

“Nós mostramos que os avanços não têm desafiado o fato de que nossa espécie ainda está evoluindo, assim como todas as outras espécies em “ambiente selvagem”. É um equívoco comum que a evolução ocorreu há muito tempo, e que para entender a nós mesmos, devemos olhar para trás para os dias de caçadores-coletores dos seres humanos.” [2]

E acrescenta:

“Nós mostramos que seleção significativa vem ocorrendo em populações muito recentes, e provavelmente ainda ocorre, então os humanos continuam a ser afetados tanto pela seleção natural como sexual. Embora as pressões específicas, os fatores que tornam alguns indivíduos capazes de sobreviver. melhor, ou ter mais sucesso na procura de parceiros e produzir mais crianças, mudaram ao longo do tempo e diferem em diferentes populações.” [2]

Os cientistas neste estudo também puderam observar que, assim como a maioria das espécies animais, existem diferenças em como a seleção natural e sexual afetam os homens e mulheres.

O primeiro autor do artigo Alexandre Courtiol, do Wissenschftskolleg zu Berlin, acrescentou:

“Características que aumentam o sucesso no acasalamento dos homens tendem a evoluir mais rapidamente do que aquelas que aumentam o sucesso no acasalamento das mulheres. Isso ocorre porque o acasalamento com mais parceiros, foi mostrado que, aumenta o sucesso reprodutivo mais. nos homens do que nas mulheres. Surpreendentemente, porém, a seleção afeta pessoas ricas e pobres na sociedade na mesma medida”[2]

Estudos como esse nos ajudam a perceber como somos parte da natureza, por mais que nos desenvolvamos tecnológica e socialmente, continuamos sendo seres vivos membros de populações que se modificam com o tempo.

___________________________________________________

Referências:

[1] Courtiol, Alexandre,Pettay, Jenni E., Jokela, Markus , Rotkirch, Anna and Lummaa, Virpi . Natural and sexual selection in a monogamous historical human population. PNAS, April 30, 2012 DOI: 10.1073/pnas.1118174109.

[2] University of Sheffield (2012, April 30). Darwinian selection continues to influence human evolution. University of Sheffield Media Center News Release. Acessado em 1 de maio de 2012.


Créditos das Figuras:


Credit: ANDRZEJ DUDZINSKI/SCIENCE PHOTO LIBRARY

As demais figuras usadas ilustram a nota de imprensa da Universidade de Shefield e a página da Dra Lumma.


Leia também

19 comentários

  • Rodrigo Véras 3 de maio de 2012  

    Concordo. A menos que paremos de mutar e reproduzirmo-nos diferencialmente a mudança é inevitável e com isso a evolução. Caso contrário só a extinção nos resta. 🙂

    [ ]s

  • Anônimo 3 de maio de 2012  

    Concordo. A menos que paremos de mutar e reproduzirmo-nos diferencialmente a mudança é inevitável e com isso a evolução. Caso contrário só a extinção nos resta. 🙂

    [ ]s

  • Eduardo Fischer 4 de maio de 2012  

    Não entendi muito bem a ideia de Kondrashov. Realmente o sexo permutaria as falhas genéticas nos indivíduos (embora sem alterar sua freqüência relativa), mas não fica claro se realmente a ação da seleção natural sobre poucos indivíduos com mais mutações prejudiciais (mesmo somado com as pequenas pressões evolutivas sobre os indivíduos com pouquíssimas mutações) é realmente mais forte que a ação da seleção nos indivíduos assexuados que teriam o mesmo conjunto de mutações (mas melhor distribuídas) no quesito de eliminar os tais genes.

    Gostaria de perguntar aos biólogos daqui a quantas andam os modelos matemáticos de seleção natural, vantagens e desvantagens, o quão desenvolvidas são essas teorias. Procuro por algo que diga que se o indifívuo A tem uma mutação que o deixa com uma chance x% maior de sobrevivência e descendência (digamos que uma pele um pouco menos vistosa aos predadores) e uma outra com chance y% maior (digamos um olho um pouco melhor), então ter as duas faz com que ele tenha (xy/100)+x+y% a mais de chance, por exemplo.

    Também pergunto se existe um bom modelo para medição do sucesso evolutivo. Li em O Gene Egoísta (Richard Dawkins) sobre tamanho da prole, número total de netos, mas ambos não levam tudo em conta, são aproximações um tanto simples. Será que há como medir isso em números (ou estruturas algébricas mais gerais) para modelar bem a evolução pelo menos localmente (ou seja, nas espécies)? Se houver, me digam como isso normalmente é feito.

Deixe um comentário