Olhos em tubos de ensaio e auto-organização de vesículas ópticas

Uma dos mais fascinantes enigmas do processo de desenvolvimento é como as instruções lineares do genoma podem dar origem a um organismo multicelular completo em três dimensões. Este enigma tem implicações bastante amplas, algumas delas muito práticas como a descoberta da ‘receita’ para produção de órgãos in vitro para transplantes (o santo graal da medicina regenerativa), bem como outras bastante profundas e diretamente relevantes para a compreensão dos mistérios que envolvem a evolução dos seres multicelulares.

Talvez parte desse enigma em solucionar este enigma, como muitos têm apontado ao longo do último século, esteja na linguagem que adotamos para descrever as relações entre os genótipos dos organismos e seu desenvolvimento ao longo de sua ontogenia, ou seja, do seu ciclo de vida a partir de um óvulo fertilizado até a morte. Eu mesmo intencionalmente descrevi esta relação como iinstrucional, dando a entender que um simples código linear daria origem de forma direta a um complexo sistema em três dimensões. Mas sabemos, há muito tempo, que isso é uma simplificação grosseira, ainda que em muitas circunstâncias seja absolutamente útil tratar certos sistemas desta maneira, como uma abordagem inicial.

Sabemos muito sobre como os genes são ligados e desligados durante o desenvolvimento e quais os tipos de proteínas são por eles codificadas e temos razoável certa ideia de como elas interagem entre si, mas estamos ainda apenas começando a ter uma compreensão mais ampla dos princípios mais gerais que governam os resultados globais dessas interações locais e como esses resultados retroalimentam e interferem nessas mesmas interações entre as partes, produzindo efeitos de longa distância e que se alteram ao longo do tempo.

Desde o começo da ontogenia, os organismos são complexos sistemas dinâmicos adaptativos. Então, apesar de muitas de suas propriedades serem decorrentes da pré-estruturação da célula ovo (o que inclui o seu genoma, mas não somente ele) e do ambiente circundante, seja ele um útero ou um ovo, em vários outros espectos das propriedades do sistema em desenvolvimento parecem emergir, aos poucos, derivadas das  dinâmicas de interações que ocorrem neste sistema em função, não só de sua composição, mas das propriedades físicas e geométricas globais que vão ‘epigenicamente’ e progressivamente se constituindo, uma após da outra, por causa das interações que ocorreram antes ao longo do desenvolvimento.

Esta forma de encarar o processo de desenvolvimento já é implicitamente aceita desde o fim das disputas entre ‘pré-formacionista’ e ‘epigenesistas’ (defensores da epigênese), mas, na prática, acabou sendo obscurecida pela descoberta do papel do DNA na hereditariedade, especialmente no desenvolvimento ontogenético, o que abriu o caminho para o sucesso das metáforas de ‘código’, ‘programa’ e ‘planta’ – frequentemente empregadas para descrever as relações entre genótipo e fenótipo, ou seja, o mapa genótipo-fenótipo – e que reforçam o estereótipo da relação simples entre o genoma e o desenvolvimento ontogenético.

Darcy W.. Thompson foi provavelmente o primeiro (em tempos mais modernos) a ressaltar que estruturas biológicas obedecem a leis físicas e que por causa disso, portanto, muitos aspectos da forma biológica originam-se como uma simples consequência da interação entre forças mecânicas externas e internas, atuando ao nível das células, tecidos e órgãos durante o desenvolvimento ontogenético [Veja  o artigo “É a evolução genética previsível? Parte II ou Além da genética parte I“]. Thompson também mostrou através de esquemas simples que diferenças no crescimento relativo de partes diferentes de uma estrutura biológica poderiam levar à mudanças na forma da estrutura observada durante a ontogenia do organismo, fazendo com que ele se assemelhasse a outro de outra espécie, contribuindo desta maneira para nossa compreensão de como as diferenças entre espécies e linhagens específicas em sua morfologia poderiam ter surgido a partir de mudanças nos sistemas que controlam os padrões relativos de crescimento dos sistemas, tecidos, órgãos e estruturas biológicas.

 

Mais tarde o trabalho seminal de Turing abriu novas perspectivas ao mostrar como um padrão organizado e dinamicamente cambiante poderia emergir em um sistema inicialmente homogêneo a partir de pequenas perturbações aleatórias [1,2].

O sistema de ‘reação-difusão de Turing’ [Veja os artigos  “É a evolução genética previsível? Parte II ou Além da genética parte I” e “Viva Turing ou como os camundongos conseguem seu palato enrugado.“] e o modelo de ‘Informação posicional’, proposto pelo Biólogo do Desenvolvimento Lewis Wolpert, foram cruciais em uma época, antes do advento da moderna genética molecular, proporcionando algumas avenidas de pesquisa em um campo cuja busca pelas bases químicas dos mecanismos de indução embrionária mostrara-se mal sucedida. Porém, a explosão posterior da genética molecular, como as técnicas de DNA recombinante e isolamento e caracterização de genes e circuitos gênicos e de seus produtos, acabou por erodir este interesse em modelos de ‘originação da forma biológica’, deslocando o foco para o estudo das bases genéticas e bioquímica desse processo, e longe do estudo dos mecanismos formadores de padrão.

Os biólogos tornaram-se cada vez mais interessados em decifrar os padrões espaciais e temporais de expressão dos genes e compará-los entre as espécies modelos. Por isso, a questão da origem ontogenética da forma biológica ficou em segundo plano como se fosse obviamente uma decorrência simples e direta dos genes associados ao desenvolvimento. Apesar deste desvio de foco, muitos cientistas de formação física e matemática continuaram a perseguir as intuições de Thompson e Turing, investigando modelos de desenvolvimento bastante elegantes e refinados. Contudo, a maioria destes pesquisadores, mais interessados nos mais concentrados em reproduzir a dinâmica dos processos de morfo e organogênese, infelizmente, poucas vezes incorporavam detalhes moleculares e genéticos conhecidos dos sistemas de desenvolvimento que buscavam modelar. De maneira equivalente, os geneticistas moleculares continuavam com seu interesse muito focado na expressão de genes, muitas vezes ignorando o impacto das mudanças dinâmicas na geometria e nas propriedades e forças físicas dos tecidos nos padrões espaciais e temporais de expressão dos genes e das alterações




Essa cisão entre os dos campos foi ainda acentuada por que muitos dos modelos matemáticos iniciais simplesmente não anteciparam a característica ‘falta de elegância’ dos sistemas reais que destinavam-se a representar, muito mais contingentes e complicados do que as simples e belas propostas dos teóricos. Mais uma vez víamos belos e elegantes modelos serem dilacerados pelos ‘horríveis’ fatos biológicos [2,3].

Ainda assim, as contribuições conjuntas de Thompson, Turing, Wolpert, e de seus sucessores, oferecem um ponto de vista  que não pode ser menosprezado. Esta perspectiva encara a forma biológica não como algo especificado por um programa genético detalhado, uma planta, ou mesmo uma receita, mas como resultado de propriedades emergentes envolvendo processos relativamente simples que ocorrem em contextos físicos e químicos particulares. Portanto, é neste contexto que as descobertas sobre os detalhes moleculares e genéticos devem compreendidas, sendo a divisão entre as duas abordagens ao estudo da forma biológica contraproducentes, devendo ser complementares e integradas. A admissão por parte dos teóricos que os genes desempenham um papel crucial no processo, e que desta maneira devem ser incorporados explicitamente nos modelos teóricos de formação de padrões, é um passo importante, uma  vez que, apesar das similaridades, existem diferenças nos padrões formados em contextos biológicos dos envolvendo apenas a química e a física. Os padrões biológicos possuem tanto uma história ontogenética como evolutiva, além de serem eles próprios diversificados, algo que precisa também ser explicado pois a variação é uma parte essencial dos ciclos de vida individuais e da evolução [3]. 

Os modelos mais modernos são muito mais biologicamente embasados, incorporando o máximo de informação molecular possível sem que os tornem matematicamente ou computacionalmente intratáveis, dependendo de um constante diálogo com experimentadores. Isso nos tem permitido aproximarmos melhor dos sistemas biológicos reais e da complicada mistura de regras dinâmicas, leis físicas e contingência histórica e flutuações ao acaso que caracterizam estes sistemas. Outro fator que impulsionou o interesse em modelagem mais abstrata de sistemas biológicos resultou provavelmente da incrível quantidade de dados oriundos dos programas de sequênciamento de genomas de vários organismos, dando origem a febres das “ômicas”, como projetos subsequentes de análise em massa de transcritos e dos produtos protéicos (transcriptômica e proteômica) e seus padrões de expressão diferencial (genômica, transcriptômica e proteômica funcionais) que, por sua, dependem enormente da área de bioinformática que passou a se beneficiar muito dos estudos sobre redes, permitindo a incorporação da descrição e estudos das redes de genes,  proteínas e metabólitosm, suas propriedades e seus padrões de interação, através de inciativas apelidadas de i’interatômica’ e ‘metabolômica’ [4].

A organogênese e a morfogênese são alguns desses processos que devem ser investigados de maneira mais ampla, uma vez que depende da orquestração de muitas interações celulares, as quais fazem emergir os comportamentos coletivos das células e tecidos necessários para formar tecidos em desenvolvimento. É ainda pouco claro como partes localizadas do indivíduo em desenvolvimento são capazes de coordenar umas com as outras de modo darem origem aos órgãos inteiros. Porém, estudar tais processos não é uma tarefa fácil. Um dos pontos cruciais é que os genes agem de maneira indireta e , portanto, contexto dependente, fazendo seu trabalho ao alterar parâmetros que influenciam os comportamentos celulares (divisão simétrica ou assimétrica, taxa de proliferação e apoptose, expressão de receptores para fatores difusíveis e moléculas de adesão que interagem com as de outras células e migração, mudanças no cito-esqueleto etc) e as propriedades dos tecidos em que elas estão deformados em alguns pontos e os enrijecendo em outros, por exemplo, e os fazendo responder de maneira distinta a diferentes estímulos [Veja também É a evolução genética previsível? Parte II ou Além da genética parte I].

Contudo, mais recentemente, a combinação de técnicas de imageamento ao vivo, protocolos de interdição e dissecação molecular, análise biofísica e modelagem computacional estão nos oferecendo novos vislumbres desse processo e, assim, uma melhor compreensão dos principais processos biomecânicos subjacentes que mostram com as células produzem as forças e como essas forças locais são integradas em grandes folhas de células, nos permitindo compreender melhor como a morfogênese depende do contexto geométrico e biomecânico [4,5].

No entanto, pode se ir mais longe, uma vez que existem abordagens que parecem capturar de maneira mais completa os princípios de organização em que eles se assentam, principalmente o que alguns chamam de ‘formadores de padrão’, como os baseados nos modelos de reação-difusão de Turing e, os mais difundidos, de informação posicional que dependem da interação de gradientes químicos e de limares de ativação. Esses processos geralmente funcionam por causa de interações não-lineares entre os componentes especialmente a partir de laços de alimentação positiva ou negativa e de outros tipos de interações não-lineares que permitem a auto-organização de sistemas químicos, físicos e biológicos. [Ver Njhout]. O que chamamos de auto-organização é a formação espontânea de estruturas espaciais, temporais, ou espaço-temporais ou de funções em sistemas compostos de poucos ou muitos componentes. Este tipo de fenômeno de auto-organização na física, química e biologia ocorre em sistemas abertos que se mantém afastados do equilíbrio térmico [1] e como coloca Cosma Shalizi tal fenômeno pode ser altamente contra-intuitivo:

Algo está se auto-organizando caso, deixado por si só, tende a se tornar mais organizado. Esta é uma propriedade incomum, na verdade bastante contra-intuitiva: esperamos que, deixados por si mesmos, as coisas fiquem confusas, e então quando nos deparamos com um grau muito elevado de ordem, ou um aumento na ordem, algo, alguém, ou pelo menos alguma coisa peculiar, é a responsável. (Este é o coração do Argumento do Design.) Mas agora sabemos de muitos casos em que essa expectativa é simplesmente errada, em que coisas podem começar em um estado altamente aleatório e, sem serem moldadas a partir do exterior, tornarem-se cada vez mais organizadas .”


Entre os processos de auto-organização envolvem mecanismos de ‘formação de padrões’ pelos quais estruturas ordenadas surgem dentro de um sistema inicialmente homogêneo ou, pelo menos, não-estruturado, sendo a compreensão desses mecanismos e processos absolutamente fundamentais para a compreensão de como funciona o desenvolvimento ontogenético e como ele é mudado durante a evolução. Como H. F. Nijhout enfatiza:

Na prática, a formação de padrões refere-se a coisas como os processos em embriões que determinam onde a gastrulação irá ocorrer, ou os processos que definem onde os ossos vão condensar no mesênquima de um membro em desenvolvimento, quantos haverão, sua forma e a suas posições em relação aos outros. Ou em plantas,, onde as folhas irão formar-se na haste de uma planta, e que forma as folhas terão.” [3]


Porém, uma das dificuldades para investigar essa complexa dinâmica de interação é achar um meio termo entre a simplificação exagerada do sistema modelo (por exemplo, que vem de estudá-lo em partes muito pequenas e simples, perdendo boa parte do contexto) e o excesso de informação e de variáveis que complicam qualquer tratamento que pode vir de estudar o sistema completo. Alguns desses processos, entretanto, parecem ser altamente ubíquos e realizáveis por muitos sistemas moleculares diferentes podendo ser considerados ‘genéricos’ (como já discutido em artigo anterior) aparecendo em vários organismos diferentes e na formação de vários tecidos de um mesmo organismo.

Esses processos apresentam-se como oportunidades para os  pesquisadores já que podem tanto revelar características gerais como detalhes específicos de cada sistema. Como afirmam os pesquisadores Ray Keller e David Shook [4], do Depto de Biologia da Universidade da Virginia, em uma comentário no BMC Biology, o dobramento de camadas laminares de célula é um destes processos ativos tremendamente importantes durante a morfogênese normal ocorrendo durante a embriogênese de organismos multicelulares, o que inclui a formação dos folhetos germinativos durante gastrulação, a formação do intestino, os divertículos do intestino, o próprio tubo neural, além da geração do sistema ótico de maneira geral, especialmente dos olhos. Nas últimas décadas de pesquisa vários mecanismos têm sido propostos e avaliados para explicar este processo de dobramento, cada um deles com vários níveis de suporte empírico. Entre eles podemos citar, a pressão de crescimento, alterações na forma das células impulsionadas por interações entre moléculas de adesão célula-célula ou célula-matriz, além de mudanças no cito-esqueleto.

O cientista Yoshiki Sasai, Yoshiki Sasai do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, no Japão, é um desses pesquisadores que, há mais de duas décadas, tem buscado aperfeiçoar uma receita para um meio de cultura em que células-tronco embrionárias possam formar órgãos, sem ingredientes adicionais. Sasai e seus colegas foram capazes de desenvolver um sistema tridimensional de cultura de células em que aglomerados flutuantes de células tronco embrionárias de camundongos podem organizar-se com sucesso em uma estrutura em camadas em uma estrutura de embalagem em forma de bolsa, conhecida como “taça óptica”, muito semelhante a que se desenvolve nas camadas interior e exterior da retina durante a embriogênese [2].

Sasai e seus colegas puderam observar que, como esperado para a maioria das células embrionárias, os agregados de células-tronco formaram inicialmente esferas ocas, mas após um período de sete perceberam pequenas estruturas ‘brotando’ para fora dos limites exteriores das esferas, e o mais interessante essas ‘bolsas’ estavam tinham a coloração verde brilhante oriunda de marcador que indica a diferenciação retiniana [3]. Com a continuação das observações dos agregados em cultura, os biólogos, notaram que cada uma dessas pequenos brotos dobraram-se sobre si mesmos, organizando-se na forma de uma taça com duas camadas de células. Assim, as células tronco embrionárias, derivadas do epitélio retinal, espontaneamente formaram vesículas hemisféricas epiteliais que se exibiam padrões ao longo de seu eixo proximal-distal, em que a porção proximal diferenciou-se em epitélio pigmentar mecanicamente rígido, enquanto a porção distal flexível progressivamente dobrou-se para dentro [2]. Ao lado, podemos ver vesículas ópticas, formadas por células tronco embrionárias cultivadas ao longo de nove dias em um meio de cultura especial livre de soro especial para agregados similares a corpos embrióides – originalmente desenvolvido para cultura de camadas de células corticais, mas modificado para o cultivo das taças óticas – que passaram por invaginação, com a cor verde fluorescente indica expressão retina específica dos produtos do gene Rax nas taças óticas.



As semelhanças eram inegáveis, essas estruturas eram taças ópticas embrionárias, a estrutura precursora de uma retina totalmente diferenciada, e estavam formando, sem qualquer intervenção direta no meio de cultura desenvolvido pelo time de cientistas japoneses. Além disso essas células também exibiram migração nuclear intercinetica e a foram capazes de produzir tecido neural estratificado da retina, como ocorre com o animal inteiro [2].

Como afirmou o biólogo Bruce Conklin do Instituto Gladstone de Doenças Cardiovasculares em San Francisco:

“Eles capturaram vários tipos de células se auto-organizando e realmente originando uma forma que era reconhecível a qualquer um como um taça óptica” [3]

E que completou:

“Agora, se você pode capturar isso, você pode começar a desmontá-lo e ver o que faz acontecer.” [3]


Este estudo nos traz também alguns insights sobre a evolução destes complexos sistemas genético desenvolvimentais, apontando para a natureza modular de alguns deles. Por exemplo, o fato de células-tronco embrionárias derivadas de vesículas neuroepiteliais poderem dar origem a taça ópticas, mimetizando o que ocorre nos embriões de camundongos, de uma maneira auto-organizada, em cultura celular, sem precisar interagir com outros tecidos deixa isso claro [5].

A figura acima mostram diagramas seccionais ilustrando o dobramento do epitélio retinal neural em uma vesícula óptica em cultura de células-tronco derivadas de mamíferos, onde RPE = epitélio pigmentar da retina; NR = retina neural; p-MLC = cadeia leve miosina fosforilada.


Os pesquisadores empregando imagens a vivo multifotônicas revelaram quatro fases nesse processo:

  1. Uma protuberância hemisférico de colunar, de células epiteliais formando uma monocamada, se estende a partir da vesícula neuroepitelial. Esta protuberância contendo níveis elevados de da proteína miosina de cadeia leve fosforilada (pMLC), apresenta-se enrijecida quando comparada a outras partes do tecido, o que é mostrado através da técnica de microscopia de força atômica (AFM) que é capaz de medir a força nos tecidos.

  2. A parte distal da protuberância, equivalente a retina neural em diferenciação, apresenta-se com seus níveis de pMLC diminuídos e a flexibilidade aumentada, tornando-se desta maneira achatada.

  3. A margem da região achatada da epitélio retinal mostra níveis apicais de pMLC elevados, elevada rigidez, constrição apical e “encunhamento” das células, que dobram o epitélio interna menos rígido da retina.

  4. Por fim, pode ser observado o crescimento do epitélio flexível da retina, e sua expansão tangencial contra a porção rígida, que restringe o epitélio retinal pigmentado, acaba resultando em seu dobramento para dentro, sendo tudo muito parecido a formação de cálice óptico.


As três primeiras fases requerem a expressão das proteínas Rho quinase e actomiosina do cito-esqueleto; que não são necessárias na fase quatro, porém, sendo ainda assim, sensível a afidicolina, que inibe a síntese de DNA, e, com isso, a divisão e crescimento celular. Estas experiências novamente realçam o papel da actomiosina na regulação da rigidez do tecido e em sua contração, além do papel do encunhamento celular local enviesando os resultados subsequentes, em grande escala, das interações mecânicas entre as regiões rígidas e flexíveis, bem como o papel de crescimento em folhas célula no processo de dobramento [2, 5].

Este sistema abre, portanto, uma nova janela de investigação tanto ao possibilitar a dissecação dos circuitos gênicos e dos padrões de expressão e corregulação dos produtos desses genes, e das vias bioquímicas a qual eles fazem parte, como ao permitir o destrinchamento das forças mecânicas, da dinâmica viscoelásticas e das propriedades coletivas genéricas desses sistemas. Esta abordagem permite-nos desvendar os detalhes moleculares mais finos e ao mesmo tempo nos oferece pistas do contexto biofísico mais amplo do processo de formação de padrão.

“A lição principal em tudo isso é primeiro observarmos ver o que a natureza pode fazer por ela mesma quando são dadas instruções, essencialmente, mínimas e o meio ambiente adequado”, disse Conklin [3] e completou. “E, dado o ambiente certo, as células vão entrar em ação.”

Esses belos resultados, e o sistema de cultura que permitiu produzi-los, somam-se aos avanços recentes de experimentadores e teórico que estão levando a uma compreensão mais profunda de como as características geométricas e as propriedades biofísicas dos tecidos produzem as forças mecânicas que acarretam nos movimentos e deformações das células são, nos mostrando como elas reguladas e integradas em um contexto mais amplo. Como já mencionado, o fato de parte destes processos serem modulares, bem como são seus sistemas de controle genético e epigenético, ajudam a esclarecer várias características dos processos de evolução da forma biológica, especialmente nos organismos multicelulares que passam por um complexo processo de desenvolvimento, modificado ao longo das gerações por vários mecanismos evolutivos que interferem com a dinâmica dos sistemas em desenvolvimento.

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Referências:

  1. Nijhout, H. F. (1997). Pattern and Process. In Nijhout, L. Nadel, and D. L. Stein (1997). Pattern formation in the physical and biological sciences. Addison-Wesley.

  2. Nijhout, H. F. (1997). Pattern formation in biological systems. In Nijhout, L. Nadel, and D. L. Stein (1997). Pattern formation in the physical and biological sciences. Addison-Wesley.

  3. Salazar-Ciudad, Isaac, Jukka Jernvall, and Stuart A Newman. 2003. Mechanisms of pattern formation in development and evolution. Development Cambridge England 130, no. 10: 2027-2037.

  4. Keller R, Shook D. The bending of cell sheets–from folding to rolling. BMCBiol. 2011 Dec 29;9:90. PubMed PMID: 22206439; PubMed Central PMCID: PMC3248374.

  5. Myers, PZ Algorithmic Inelegance SEEDMAGAZINE.COM January 7, 2008.

  6. Monk, N.A.M. Elegant hypothesis and inelegant fact in developmental biology, Endeavour, Volume 24, Issue 4, 1 December 2000, Pages 170-173, ISSN 0160-9327, 10.1016/S0160-9327(00)01328-4.

  7. Haken, Hermann Self-organization. Scholarpedia, 2008, 3(8):1401.

  8. Eiraku M, Takata N, Ishibashi H, Kawada M, Sakakura E, Okuda S, Sekiguchi K, Adachi T, Sasai Y. Self-organizing optic-cup morphogenesis in three-dimensional culture. Nature. 2011 Apr 7;472(7341):51-6. PubMed PMID: 21475194.

  9. Waters, Hannah How to Make Eyeball Stew The Scientist March 1, 2012

  10. Ali, RR, Sowden JC. Regenerative medicine: DIY eye. Nature. 2011 Apr 7;472(7341):42-3. PubMed PMID: 21475187.

Crédito das Figuras:

Leia também

Um comentário

  • Rodrigo Véras 20 de dezembro de 2013  

    Resposta Parte II

    Ou seja, os animais adaptam-se, modificam-se, cruzam-se, mas nunca deixam de ser do mesmo tipo básico original.

    Mais uma vez você usa de ambiguidade e imprecisão científica. O que é ser um animal diferente?

    Temos ampla e sólidas evidências das transições macroevolutivas, como as que comentei envolvendo vertebrados aquáticos para os tetrápodes e dos sinapsídeos primitivos para os mamíferos modernos, além das evidências moleculares as quais me referi várias vezes. Tudo isso claramente pode ser aceito como evidências de ‘animais transformando-se em animais diferentes’, mas você obviamente não as aceita. Por que? Porque, muito provavelmente, você demanda que estas transições ocorram na frente dos seus olhos, mas isso é ridículo, sendo um mero espantalho absurdo do que é a evolução biológica. Por outro, lado mesmo mamíferos e répteis não deixaram de ser peixes, tendo em vista a moderna sistemática filogenética. Nós, vertebrados terrestres somos osteíctios sarcopterígios, sendo mais próximos dos peixes pulmonados e Latmerias (e eles de nós) do que somos enquanto grupo dos demais osteíctios actinopterígios. Da mesma forma continuamos a sermos animais bilaterais, eucariontes e assim vai.

    Mas adoram falar que ADAPTAÇÃO pela seleção natural, seria evolução!…

    Sim é. O que chamamos de evolução adaptativa é evolução por seleção natural. Isso é fato por definição. Não são vocês criacionistas que apitam sobre isso. Esse é só mais um absurdo vindo de vocês. Vcs tem seus próprios critérios e definições dos termos, mas não são vocês que os criaram e nem são vocês que estudam os fenômenos, padrões e processos evolutivos.

    Como nos famosos casos da Drosophila e E.Coli , sendo perfeitamente possível qualquer ser se adaptar,… mas as moscas continuam e sempre serão moscas e as bactérias continuam e sempre serão bactérias… Tentilhões continuam tentilhões.

    Voltamos a velha lenga lenga criacionista. Estas objeções não fazem sentido, pois remetem a caricatura da evolução que só existe na cabeça dos criacionista e de outras pessoas (inadvertidamente) completamente mal informadas sobre ciência, especialmente sobre a biologia evolutiva. Mais uma vez, as evidências de mudanças em largas escalas de tempo são de outra natureza e vocês fingem que elas não existem ao tentar redefinir os termos e fazer demandas cada vez mais absurdas.


    A seleção natural pode ser capaz de explicar a sobrevivência de uma espécie, mas não consegue explicar o SURGIMENTO de uma NOVA espécie em
    NOVAS escalas taxonômicas verticais dos seres vivos.

    Vc parece não perceber que os cientistas não tentam explicar o surgimento de uma nova espécie a partir de uma anterior simplesmente a partir da seleção natural. A especiação envolve, além da seleção natural, processos como a deriva genética, recombinação, o fluxo gênico, a estruturação demográfica das populações, barreiras geográficas ou subdivisão ecológica de nichos. É são estes e outros processos em combinações distintas que explicam a especiação e o surgumento de novas espécies. Em escalas mais amplas de tempo, quando estamos lidando com linhagens mais amplas e múltiplos eventos de especiação e extinção, aí outros fatores também começam a ser mais importantes, como a dinâmica ecológica em largas escalas de tempo e do espaço, fatores contingentes, como terremotos, vulcões, tsunamis, mudanças de relevo e dos níveis do mar, impacto de meteoros e cometas etc. São estes processos e fenômenos em conjunto que explicam a configuração da biota atual e suas mudanças ao longo do tempo. Portanto, mais uma vez, suas afirmações não passam de caricaturas do que realmente é investigado pelos cientistas.

    Segundo crença evolucionista, não só o homem como TODOS os seres vivos “vieram” de um suposto ser (não observado ou comprovado) INFERIOR a uma ameba.

    ‘INFERIOR’ é um mero julgamento de valor seu. Isso não faz sentido em uma perspectiva científica moderna, muito menos em uma informada pela biologia evolutiva. Além disso, esta crença, diferente da sua (e de outros criacionistas) é respaldada por ampla e sólida gama de evidências advindas de múltiplas linhas de investigação científica e que refletem-se no imenso consenso científico sobre a questão.

    Somos sim todos parentes e as diversas linhagens de seres vivos originaram a partir de um ser mais primitivo (uma população ou meta-população deles, seria mais correto afirmar, especialmente em virtude das evidências de evolução reticulada entre os microrganismos mais primitivos) através de um longo processo de divergência de populações e formação de novas linhagens e extinção de outras. Este é o consenso na comunidade científica e as evidências para tal abundam.

    Adiciona-se o famoso refrão: “durante milhões de anos…” para proporcionar este milagre, assim como os supostos/imaginários seres transicionais no processo, não mudará o fato de que TODOS evolucionistas possuem a fé de que o homem um dia foi peixe (ou para piorar, foram “amebas”).

    A ‘adição do refrão’ é também plenamente justificada pois temos ampla evidência geológica e paleontológica destes milhões (e mesmo bilhões de anos). Mais uma vez, quem acredita em milagres (o planejamento e intervenção de um super ser e violação das leis naturais e probabilidades) – e acham que eles deveriam figura como parte da explicação científica – são vocês, criacionistas, e não nós que aceitamos e compreendemos as bases do atual consenso científico. Mais uma vez, existem amplas evidências da evolução tanto em pequena como em grande escala e muitos religiosos reconhecem e aceitam este simples fato. São vocês criacionista, um subconjunto dos religiosos (e que felizmente não representam todos eles, muito menos os que realmente compreendem a questão e estudam a biologia) é que não aceitam isso por questões ideológicas e não por razões científicas e filosóficas sérias.

    Me desculpe… mas é somente a formidável e descomunal fé dos crentes naturalistas darwinistas para acreditar que bactérias evoluíram para peixes e depois viraram girafas, camelos e GENTE! ou que répteis/dinossauros evoluíram para passarinhos, e que animais terrestres evoluíram para baleias!

    Desculparei o fato de você estar, claramente, fazendo uma projeção psicológica. Mas não conseguirei fazer isso por muito tempo. Devo avisar. Voltando a substância de seu comentário,: Descomunal é a falta de noção e conhecimento científico de pessoas como você que, mesmo, claramente, não sabendo do que estão falando, continuam a afirmar os maiores absurdos e dizer que eles são baseados em ciência. Como já disse, mas repito mais uma vez, temos evidências mais do que suficientes para aceitar estes eventos macroevolutivos estendidos no tempo e admirar sua beleza e significação [Para ficar bem claro: Aves são dinossauros terópodes, as evidências são enormes e claras, sendo o dissenso injustificável.]. Lacunas específicas sobre processos e padrões não refutam as evidências para o fenômeno em si.

    O fato de cada vez mais pessoas negarem a evolução, tanto no meio científico como social, deve-se ao conceito errado, ilógico e irracional de tal disparate.

    Vc quer dizer o fato de que cada vez mais gente negar a evolução sem compreendê-la e por motivos ideológico-religiosos, não é?

    Claramente você não acompanha muito os desenvolvimentos das ciências e muito menos está familiarizado com e literatura científica primária e secundária, não é? O consenso entre os especialistas é gigantesco e a oposição (criacionista) é pura e simplesmente ideologicamente motivada, surgindo, principalmente, das fileiras de grupos religiosos específicos fundamentalistas e literalistas que opõem-se a evolução por que, para eles (vocês) este fenômeno não é compatível com sua leitura específica das escrituras e/ou por que veem na simples aceitação deste fenômeno algum tipo de consequência moral inescapável. As objeções não são baseadas em evidências científicas e nem em bons argumentos. São apenas falácias e distorções. Você com seus comentários não fez nada para mudar esta conclusão, apenas a reforçou ao usar e abusar do mesmo tipo de retórica e cometer o mesmo tipo de erros.

    Disparate é achar que falácias são argumentos apropriados e que, para negar o consenso científico, nem é preciso primeiro compreendê-lo, como obviamente você faz.

    Não vemos pessoas afirmarem tipo: “eu realmente acredito na teoria da evolução e insisto que eu vim dum peixe.”

    Você realmente não sabe o que é lógica não é? Como eu disse, em um sentido científico muito claro e coerente não deixamos de sermos peixes. 🙂

    Isso seria um assassinato da lógica, razão e coerência, mas insistem (por serem maioria no meio acadêmico) em tentarem convencer as pessoas de algo que é totalmente nonsense, ridículo e claramente errado. A maior parte das pessoas não é suficientemente crédula para acreditar que vieram dum peixe.

    Você realmente tem problemas sério com diferenciar opinião do senso comum, especialmente a ideologicamente moldada, com os consensos científicos não é? Isso é outra falácia, um argumentum ad populum.

    Não há evidências observáveis na natureza. É sua interpretação, sua crença.

    Sim existem evidências observáveis na natureza. Existem sim vários estudos com populações naturais, como os guppies de Endler, em Trinidad, e os lagartos Anolis em ilhas do caribe etc. Mais uma vez, vocês faz afirmações sem nem esforçar-se para conhecer a literatura científica pertinente. Estamos cercados de várias evidências de evolução em populações naturais. Chega a dar tristeza da sua capacidade de negação.

    Exato, concordo. Pela ‘perspectiva científica’ é impossível tal análise.

    Então, não finja que suas objeções tem qualquer relevância científica, usando falácias em cima de falácias e cometendo erros conceituais e factuais todo o tempo para tentar argumentar contra o moderno consenso científico sobre evolução e sobre as evidências que os respaldam.

    O método científico estuda as leis naturais; e estas são eventos repetíveis, regulares, previsíveis. Contudo, a detecção direta de Deus e seus eventos milagrosos sobrenaturais (como origem do universo e da vida) são eventos singulares, extraordinários, especiais, imprevisíveis que fogem aos instrumentos e metodologia científica tradicional limitada e falha que estuda a natureza e seus fenômenos naturalmente causados.

    Do que podemos concluir que o criacionismo (tradicional e do DI) vão pelo ralo, não é? Infelizmente, você não parece compreender que a partir dos seus próprios comentários e de sua visão (um tanto estreita, devo dizer) de ciência, você não deveria aceitar o criacionismo. Além de tudo, você vive está em flagrante contradição.

    Mas nos caso da ciência das origens; assim como a história do nosso planeta; todos os cientistas acreditam que a origem do universo e origem da vida são eventos singulares, especiais, não-repetíveis, extraordinários.

    Não!! Se fosse assim não existiria tanto interesse em astrobiologia e em detectar evidências de uma biosfera das sombras em nosso próprio planeta. Além do mais, mesmo que os eventos históricos não sejam repetíveis (em senso estrito), uma vez que por definição já aconteceram, podemos estudá-los ao investigarmos múltiplas linhas de evidências independentes, inclusive algumas que empregam métodos experimentais, como o caso post acima (do assunto do qual fosse insiste em fugir) claramente mostra. Isso é ciência de primeira. Mas mesmo deixando de lado os métodos experimentais, e mesmo aceitando que a mesma descoberta não possa ser feita duas vezes, no caso de acharmos um fóssil, ela pode ser replicada e corroborada por descobertas análogas. O mesmo pode ser dito para conclusões obtidas por métodos diferentes e através de conjuntos de dados distintos. Desta forma, podem ser estabelecidas leis (ou pelo menos leis estatísticas e princípios gerais) e replicarmos padrões e mecanismos e processos.

    Contudo, o ponto principal, que parece lhe escapar completamente, é que mesmo que as geociência e paleontologia e a biologia evolutiva, de modo mais geral, sejam ciências históricas (apesar do usos de experimentação também), o criacionismo não o é. Portanto, mais uma vez suas críticas nem fazem sentido. Ele simplesmente não pode ser visto como uma alternativa científica.

    Não somente a origem de matéria, energia, espaço e tempo e suas leis de forma finamente ajustada e mantida desde o início do universo, assim como pela analogia, cientistas aprenderam que certos níveis de complexidade específica originam-se apenas em seres inteligentes.

    Que cientistas? Os criacionistas membros do ID? Falácia de argumentação por asserção e apelo a autoridades (vagas e não especificadas). Além disso, você mistura questões sobre a origem do universo (que nada tem a ver com este post e nem com este site) e o argumento do ajuste fino que só tem lugar em discussões de metafísica e filosofia da religião.

    Acharíamos estranho e insensato se um professor de biologia dissesse que foi uma causa natural para as faces esculpidas (dos presidentes) no monte Rushmore.

    Simplesmente por que temos experiência em primeira mão com o tipo específico de design, com as técnicas dos designers, com suas motivações e objetivos e com os próprios designer, nós mesmos. Estes exemplos de design humano são sem sentido para o tópico que você discute por que eles são completamente naturais e familiares. A mera analogia superficial não é suficiente para tornar o argumento dos criacionistas sério e muito menos cogente.

    Assim, é errado supor que leis naturais e o domínio da lei científica é sobre todo e qualquer evento, mas apenas sobre eventos regulares, normais, previsíveis intra-universo e não de TODOS os eventos possíveis, estando Deus na esfera metafísica transcendental extra-universo.

    O domínio das ciências é aberto, pois não podemos saber de antemão os resultados até aplicá-los a um certo domínio.

    Então, mesmo caso Deus exista “estando Deus na esfera metafísica transcendental extra-universo.” nem deveríamos colocá-lo na questão. Obrigado, Vc acabou de matar qualquer resquício de argumento pró-criaconista, mas você nem parece se aperceber disso.

    Saudações,
    boas festas pra ti, paz e que o Senhor te abençoe…

    Saudações. Espero sinceramente que você deixe seus preconceitos de lado e vá tentar aprender sobre ciências (especialmente sobre evolução) por fontes sérias, não ficando nessas caricaturas sem sentido típicas dos criacionistas. Espero também que você, como muitos outros religiosos, analise as evidências e perceba como elas corroboram em peso a realidade da evolução que, por sinal, é compatível com a fé religiosa de muita gente.

    Tenha um ótimo final de ano. Boas festas e que você aproveite o tempo com sua família e amigos.

    Rodrigo

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