Conceitos problemáticos em evolução parte II: Causa e Acaso

ResearchBlogging.org“Ajudar as pessoas a compreender a evolução não é uma questão de acrescentar aos seus conhecimentos já existentes, mas ajudá-los a rever seus modelos anteriores do mundo para criar uma maneira inteiramente nova de ver” (Sinatra et al., 2008).

A epigrafe deste artigo nos remete a questão de como a mudança conceitual é importante durante o ensino e aprendizagem, sobretudo em relação ao ensino de ciências que, muitas vezes, necessita que adotemos formas de pensar e encarar o mundo que podem chocar-se com o senso comum e com algumas doutrinas muita arraigadas em nossa sociedade. Talvez o primeiro passo para lidar com esta questão seja reconhecer que os alunos já chegam com uma série de informações e conceitos, para não dizer preconceitos, que precisam ser reconhecidos e tratados de alguma maneira que seja condutiva ao aprendizado, mas, ao mesmo tempo, não seja hostil. Dando continuidade a este tema (iniciado em artigo anterior, Problem Concepts in Evolution Part I: Purpose and Design, e aqui comentado), Louise S. Mead e Eugene C. Scott, ambas no National Center for Science Education, estendem sua análise a dois outros conceitos que podem gerar grandes problemas para muitos alunos, no artigo Problem Concepts in Evolution Part II: Cause and Chance.

Neste artigo as autoras concentram sua atenção nos conceitos “chance” – ou mais especificamente “acaso” (em português) – e “causa”. Ambos conceitos têm usos bastante técnicos dentro das ciências que são relativamente não problemáticos, mas, como no caso de “propósito e design”, necessitam do esclarecimento de seu significado científico, em contraste a sua utilização na linguagem comum e religiosa. Tarefa fundamental para vencer a resistência de alunos mais religiosos e acostumados com o linguajar mais ortodoxo. Esta compreensão é importante porque os alunos precisam dominar os conceitos científicos de causalidade e acaso e usá-los de modo apropriado no contexto das explicações evolutivas. Veja a seguir, por exemplo:

“No Inventário do conceito de seleção natural (Anderson et al. 2002) pede-se aos alunos para realizar o seguinte exercício: determinar a “o que causou as populações de aves, com formas e tamanhos de bicos diferentes, tornarem-se espécies distintas distribuídas em várias ilhas” como “diferentes tipos de bico surgiram pela primeira vez nos tentilhões de Galápagos”, porque “as mudanças em bicos dos tentilhões ocorreram por acaso “, no sentido de que as mudanças ocorreram independente da intenção ou necessidade (grifo nosso). Os alunos precisam ter uma compreensão clara de como esses conceitos são utilizados no contexto da evolução.” (Mead e Scott, 2010)

Aristóteles, costumava separar as causas em quatro categorias:

1)Causas materiais;
2)Causas formais;
3)Causas efetivas;
4)Causas finais.

O primeiro tipo de causa, “causa material”, seria relacionada, hoje, a composição de uma entidade ou sistema em investigação. A segunda, entretanto, “a causa formal”, estaria mais próxima das relações entre as partes e suas interações, portanto, mais relacionada a organização de um sistema. Originalmente, este tipo de causação também poderia envolver a idéia de projeto, mas em um sentido mais abstrato, como a relação entre uma planta de engenharia e um edifício. O terceiro tipo de causa estaria ligado a causação compreendida em seu sentido mais direto, em que a causa provocaria um (ou mais) efeito(s). Este sentido é bem mais próximo a noção física de causação. E por fim, a quarta causa, a “causa final”, entendida tanto como o propósito/função de uma dada entidade ou sistema como a intenção por trás desta função.

Em ciências naturais, atualmente, o que se entende por causa é muito mais semelhante ao conceito de ‘causa eficiente’, para muitos, pelo menos desde Hobbes, o único tipo de causa realmente importante. Interações diretas entre partículas e átomos, que pode ser pensadas em termos de trocas de energia, estão no cerne do pensamento causal moderno. No último século, entretanto, algumas alterações nesta visão levaram a considerar a causação básica em seu sentido mais estatístico, principalmente, devido ao advento da mecânica quântica, já que muitos fenômenos fundamentais parecem simplesmente não ter uma causa individual discernível. No entanto, como já aludido, outros determinantes associados a origem, função e organização dos sistemas físicos e biológicos continuam sendo estudados pelos cientistas, mantendo uma certa proximidade a algumas das causas aristotélicas.

Porém, os problemas aparecem de verdade quando o termo “causa” é equiparado a uma finalidade por trás de algum fenômeno. No sentido de uma suposta motivação de um agente racional baseada em uma associação entre meios e fins estabelecida de modo intencional. Algo que só faz sentido para agentes cognitivos, como nós humanos, capazes de prever as conseqüências de determinadas relações e propriedades e, através delas, projetar um artefato para alguma função específica. Esta é uma das principais confusões que podem acontecer quando lidamos com causação em ciências.
Entretanto, mesmo deixando a ação de agentes cognitivos de lado, em um sentido mais restrito – o de “adequação funcional” (no sentido que buscamos elucidar com perguntas como “para que serve?”)- a função de um sistema tem um papel explicativo importante na biologia. Este é mais um motivo para estabelecer com cuidado as diferenças entre estes dois sentidos de “causa” que são associados a características funcionais de um sistema. Esta constatação nos remete a algumas distinções muito importantes discutidas na literatura de biologia teórica e filosofia da biologia moderna.

Causas: Últimas e próximas

Em biologia, a investigação da estrutura e função de sistemas biológicos pode envolver múltiplas instâncias de causação, já que existem muitos níveis de interações. A presença de sistemas homeostáticos e o homeodinâmicos de regulação – envolvendo laços de retro-alimentação positiva e negativa, limiares de ativação e muitos outros tipos de relações não-lineares – tornam mais complicada a compreensão destas relações causais.
Algumas destas interações aproximam-se do sentido de ‘causa material’, em que a composição ou estrutura de um sistema ou subsistema biológico é fundamental para a compreensão de seu funcionamento. Outras, no entanto, podem ser melhor compreendidas como semelhantes a idéia de ‘causa formal’, na qual as relações entre as partes e seu arranjo no todo (e, em particular, sua dinâmica coletiva) são mais salientes do que seus componentes ou as propriedades individuais deles.
Este ponto pode ser melhor compreendido ao analisarmos os sistemas de herança genética, as redes de controle de expressão gênica ou dinâmica tecidual e embrionária, que podem ser melhor compreendidas como sistemas dinâmicos não-lineares, como aqueles modelados pelas ciências da complexidade, análogos a uma série de outros fenômenos naturais auto-organizados da física e química. A utilização da teoria de redes é uma destas abordagens possíveis para explicar estes processos e compreender como eles possibilitam e causam vários fenômenos biológicos.

Por outro lado, as ‘causas finais’, em seu sentido clássico, foram consideradas becos sem saída teóricos e empíricos em biologia. O mesmo acontece em em outras ciências como a física e química. As exceções óbvias acontecem em domínios bem específicos de estudo, como a sociologia, psicologia, etologia e antropologia. Nestes campos de estudo a organização social e o comportamento dirigido são bem conhecidos, sendo vistos como oriundos de processos naturais. Porém, a agência sobrenatural – sobretudo quando pensamos em divindades super-poderosas e ultra-inteligentes – é deixada de lado, simplesmente, por não ser condutiva a investigação científica, não se enquadrando bem a análise experimental e investigação empírica de modo geral, a não ser de modo muito limitado e que, certamente, não seria aceito pela imensa maioria dos seguidores, e teólogos, das mais diversas religiões.

Para a biologia, a idéia que mais se aproxima da idéia de ‘causas finais’ é o que Ernst Mayr chamou de “causas últimas” que são propostas em contrapartida a idéia de “causas próximas”:

“Na maioria dos casos, os biólogos modernos reconhecem duas categorias de causas: próximas e últimas. Em biologia causas próximas demandam explicações que respondam a perguntas sobre um organismo durante a sua vida (Ariew, 2003), por exemplo, a dispersão do gorila macho pode ser causada por influências demográficas e comportamentais (al Stoinski et al. 2009) e, muitas vezes, têm relação com causas desenvolvimentais ou mecanicista. Por outro lado, causas últimas estão associados com as explicações evolutivas, a ” formação e mudança de programas genéticos” (Mayr, 1993), por exemplo, dados sugerem que a seleção divergente para a utilização de recursos alternativos é a causa última da radiação adaptativa “cruza-bicos” (Benkman 2003) .” (Mead and Scott, 2010)

O primeiro tipo de questão pede uma resposta que envolve a compreensão da fisiologia, ecologia ou demografia do ser vivo, ou da espécie, em questão. A segunda, entretanto, demanda uma explicação em termos de cenários evolutivos, e vai depender de evidências advindas da biologia comparativa, paleontologia, além das áreas de genética e ecologia evolutiva. Então, quando biólogos falam em “causas próximas” costumam estar a se referir às ‘causas eficientes’ (e, em certa medida, às ‘causas materiais’ e ‘formais, como discutido anteriormente em um contexto moderno). Estes tipos causais não estão em contradição entre si, constituindo apenas níveis diferentes de análise e explicação. Como se pode perceber, ambas questões estão ligadas historicamente, pelo simples fato de que as características funcionais de um organismos são resultantes de um processo de evolução, um processo histórico transgeracional de mudança hereditária, diversificação de linhagens e adequação destas populações aos seus diferentes contextos ecológicos. Muitas vezes as respostas, a determinadas perguntas em biologia, envolvem ambos tipos causais em investigados instanciados em diversos níveis diferentes:

“Por exemplo, porque é frequentemente o caso que os machos são vistosos pássaros e fêmeas são monótonas? Respondendo a questão em termos de causas próximas, um biólogo que discute as diferenças hormonais entre machos e fêmeas relacionadas às diferenças na expressão de alelos, limitados a um único sexo ou reprimidos ou promovidos em apenas um determinado sexo por elementos de regulação (Coyne et al. 2007). Respondendo a questão em termos de causas finais, um biólogo que refletisse sobre a história evolutiva da diferença de plumagem (Mayr, 1993): dada a existência de tais diferenças de base genética que produzem variações de cor em machos e fêmeas, a seleção natural e sexual, deriva e migração, operando através de muitas gerações, porque a população a mudar no que diz respeito a estes personagens.” (Mead e Scott, 2010)

Embora a maioria das pessoas não use termos como ‘causas próximas’ ou ‘causas finais’, o público leigo aceita bem a idéia de múltiplos níveis de causação:

“Digamos, uma arritmia, uma anormalidade no ritmo cardíaco, certamente [um leigo] não teria qualquer dificuldade em distinguir entre a afirmação de que uma parada cardíaca repentina foi devida (proximalmente) a um anomalia específica no sistema elétrico do coração, da afirmação de que a parada cardíaca foi devida (mais, em última instância) a um desequilíbrio de nutrientes, um choque elétrico, consumo de drogas ilegais, ou de uma doença cardíaca preexistente, como a doença de artéria coronária. Também não teriam qualquer dificuldade em compreender que as causas mais imediatas são compatíveis com mais causas profundas: […] poderia ser razoável dizer que a parada cardíaca foi causada por um problema específico e que também foi causada por uma doença cardíaca preexistente.” (Mead e Scott, 2010)

Entretanto, ainda assim existe uma diferença na compreensão que os leigos têm de cada um destes tipos causais. Por terem de ser inferidas, aquilo que se afirma sobre “causas profundas” torna-se mais incerto. Lidar com tais alegações e fenômenos, em nível mais geral, mais abstrato e teórico, pode ser bastante difícil. Por isso, pode tornar-se tentador para parte do público invocar causas finais de natureza divina nos casos em que causas naturais últimas são difíceis de compreender ou acessar, sobretudo quando existe a aparência de um suposto choque entre com pontos de vista religioso ou morais. Esta facilidade, em apelar para explicações intencionais, também pode ser explicada pela familiaridade que nós seres humanos tempos com explicações personalistas, baseadas em agentes intelectuais e suas intenções. Mead e Scott dão o seguinte exemplo:

“Por exemplo, as causas imediatas dos terremotos de 2010 no Haiti e Chile foram o movimento das placas tectônicas em que cada nação se assenta. A maioria dos americanos entendem que os continentes se moveram ao longo do tempo (National Science Board 2010) e entendem que a causa imediata para a devastação foi natural. Da mesma forma, as causas naturais podem ser facilmente encontradas para explicar a diferença entre o maior grau de devastação sofrido no Haiti do que no Chile: a proximidade do epicentro do terremoto da capital do Haiti, a densamente povoada Port-au-Prince, em comparação com o epicentro mais rural, no Chile; códigos de construção civil mais fracos no Haiti do que no Chile, e assim por diante. O evangelista Pat Robertson, no entanto, apesar de não negar as causas naturais do terremoto, explicou que a causa principal da devastação no Haiti era que seu povo “firmara um pacto com o diabo”, no século XVIII (Anônimo 2010), igualando a causa máxima do terremoto com algum nexo de causalidade do tipo de sobrenatural, aqui diabólico.” (Mead e Scott, 2010)

As autoras, nesta parte, tecem algumas considerações sobre o naturalismo metodológico (NM) e como os cientistas não conjecturam a atividade de uma entidade sobrenatural, divina ou diabólica, em suas explicações de fenômenos naturais. Este ponto precisa ser enfatizado de forma explicita. Isto é, explicações em termos de causas finais sobrenaturais em biologia não são empregadas, apenas explicações naturais, em particular, evolutivas, racionalmente acessíveis e passíveis de teste e acordo intersubjetivo.

Mead e Scott, lembram de que a maioria dos alunos são religiosos, por isso professores devem explicar, de forma clara, os vários tipos de explicações causais, enfatizando a distinção entre causas próximas e últimas, salientando que as hipóteses científicas devem ser testáveis e cognitivamente acessíveis. Apesar deste ser um conselho particularmente importante para o ambiente religiosamente polarizado dos EUA, creio que também se aplica aos nossos alunos. O fato das causas próximas em biologia serem freqüentemente observáveis, torna mais fácil para os alunos compreendê-las. O problema maior é mesmo com as causas últimas, tipicamente inferidas indiretamente. Portanto, é muito importante enfatizar que as hipóteses evolutivas são também testáveis, diferentemente de hipóteses sobrenaturais, baseadas em uma agente cujas motivações, habilidades e intenções não são cognoscíveis ou pelo menos não se espera obter acordo sobre elas:

“Hipóteses sobrenaturais podem incluir elementos empíricos que são testáveis, naturalmente: a hipótese de que Deus criou o Universo cerca de 6.000 anos atrás, por exemplo, é testável, tem sido testada, e acabou por ser falseada. Mas a hipótese mais ampla, que não só no que diz respeito a idade do universo, a de que Deus criou o universo não é afetada pela falha da hipótese específica que foi falseada. Portanto, apesar da tentação de pensar de outra forma, as explicações finais em ciência não pode invocar causas sobrenaturais.” (Mead e Scott, 2010)

A questão tocada pelas autoras é tremendamente importante e tem sido alvo de debate dentro das comunidades científicas e filosóficas. Muitos artigos recentes tem defendido que hipóteses sobrenaturalistas podem sim ser alvo de investigação científica em contextos mais amplos, podendo ser elas mesmas adequadamente tratadas pelo NM. A maioria destes autores defende inclusive que isso tem sido feito e culminou com o sucesso da visão de mundo naturalista. Um dos argumentos é de que as ciências postulam constantemente entidades não observáveis, mas que implicam em condições observáveis e mesmo acessíveis experimentalmente. Como a investigação científica tem sempre uma natureza conjectural e falível, muitos filósofos e cientistas não vem problema em testar, de forma indireta e provisória, determinados postulados sobrenaturalistas com implicações não-ambíguas detectáveis na natureza.

Dois artigos recentes escritos por Yonatan Fishman (2008) e por Maarten Boudry, Stefaan Blancke & Johan Braeckman (2010) defendem exatamente este ponto. Estas considerações são importantes porque alguns criacionistas acusam as ciências modernas, ao assumir o NM, de rejeitar a priori o sobrenatural. Ambos autores, rejeitam estas alegações e concluem que as explicações sobrenaturalistas deram lugar as explicações naturalistas por causa do fracasso das primeiras e o sucesso das últimas em permitir o avanço científico e o desenvolvimento de programas de pesquisa empiricamente orientados centrados no teste de hipóteses naturais e acessíveis intelectualmente ao acordo intersubjetivo. Outros autores, como Robert Pennock (2009) e Barbara Forrest (2000), discordam desta avaliação, mas também não aceitam a acusação de que o sobrenaturalismo é rejeitado a priori pelos cientistas, insistindo na distinção entre o NM e a versão metafísica ou filosófica do naturalismo (que não deixa espaço para o sobrenaturalismo), NF. Sendo, apenas o primeiro tipo de naturalismo, o metodológico, o único compromisso que precisa ser adotado, de fato, na investigação científica.

Em artigo recente, Pennock (2009) deixa claro o que está em jogo, se aproximando, em muitos sentidos, da posição de outros filósofos anteriormente citados reconhecendo a orientação pragmática do NM, mas divergindo em pontos importantes. Pennock reforça a idéia da importância e exeqüibilidade da demarcação entre ciência, não-ciência e pseudo-ciência, muito criticada nos últimos 30 anos. Muitas destas críticas advém de certos argumentos do filósofo Larry Laudan que Pennock esclarece e rebate (Para uma ótima introdução ao atual estado do debate sobre o problema da demarcação veja Science and Pseudo-Science). Ao analisarmos esta questão, entretanto, o que mais fica patente é que o acordo entre filósofos e cientistas, em relação as diferenças entre os programas científicos e as pseudociência, é muito maior do que muitos imaginam, com a imensa maioria deles concordando naquilo que consideram ciências e naquilo que consideram pseudociências. Este acordo se estende ao Design Inteligente cuja natureza pseudocientífica é difícil de disfarçar.

As diferenças ocorrem em um terreno mais abstrato. Certos filósofos e cientistas julgam que é possível separar as idéias de seus proponentes e estruturá-las de tal forma que possam ser operacionalizadas e testadas empiricamente. Porém, como afirma Pennock, esta concepção esbarra no fato de que a natureza conjectural, provisória e pragmática das ciências não é aceita pela imensa maioria dos proponentes do criacionismo e Design Inteligente. Eles não pretendem transformar suas crenças em hipóteses testáveis de forma independente, preferindo insistir em desafiar as ciências tradicionais, especialmente a biologia evolutiva. Existe, portanto, uma unilateralidade clara em relação as atitude criticas destes grupos, diferentemente da comunidade científica que depende da crítica metódica e constante de suas próprias idéias que esta seja constantemente feita em bases consensuais e sistemáticas. Algo semelhante ocorre em relação com as pessoas que, mesmo aceitando a evolução biológica, mantém uma fé sobrenaturalista pessoal. Estas pessoas, que incluem muitos cientistas, no caso específico de suas crenças religiosas pessoais, utilizam-se de outros tipos de estratégias de “conhecimento” para acessar e manter sua fé, separando os domínios do transcendental e do empiricamente testável.

Religiosos moderados e liberais, assim como os cientistas praticantes que mantém sua fé teísta, separam suas crenças pessoais do domínio de investigação científica, mantendo aqueles aspectos emocionais e contemplativos de suas crença (juntamente com aqueles aspectos metafísicos logicamente compatíveis com a visão de mundo científica) em um domínio à parte, sem submetê-los aos rigores da investigação científica, mas sem prejuízo para ambos. Esta possibilidade deve ficar clara para os alunos, sobretudo os de formação mais religiosa, de modo que eles não tenham medo de encarar a visão de mundo científica e suas estratégias de pesquisa e aquisição de conhecimento.

Esta questão torna-se ainda mais evidente quando percebemos a enfase que muitos sistemas teológicos dão a inacessibilidade e inefabilidade dos desígnios, métodos e procedimentos divinos. Este postura torna os fenômenos sobrenaturais, claramente, inadequados ao teste empírico. Seus proponentes não esperam operacionalizar conceitos, vendo esta atitude como uma “naturalização” de seus “objetos” de fé e contemplação que os privam de aspectos essenciais de sua fé. Então, sem um consenso metodológico e operacional mínimo que é requerido pelas ciências – mesmo que em principio seja possível delimitar certas idéias sobrenaturalistas e a partir de suas conseqüência contrastando-as com observações e experimentos – não é possível investigar cientificamente tal (suposto) domínio. Por isso, a atitude naturalista dos cientistas não é um preconceito a priori, mas uma posição pragmática. A melhor solução de compromisso em relação as demandas epistemológicas e metodológicas da investigação racional, compatível com vários posicionamentos metafísicos e ideológicos diferentes, como várias formas de teísmo, deísmo, agnosticismo, panteísmo e o ateísmo.

Na prática, então, o que acaba ocorrendo é uma separação entre os resultados científicos (e toda abordagem metódica, crítica e sistemática que está por trás destes das ciências), em si, da discussão sobre as implicações destes resultados nas nossas visões de mundo e nas nossas crenças metafísicas mais profundas. Este fato pode ser atestado ao nos darmos conta que a equiparação de ambos domínios envolveria a aceitação de compromissos epistêmicos e cognitivos que nem todos estão dispostos a seguir, estando na base de um debate teológico-filosófico mais amplo que não deve ser uma questão discutidas nas aulas de ciências. Em contrapartida, a tentativa de forçar a inclusão de crenças sobrenaturalistas no hall das explicações cientificamente aceitáveis, abre este tipo de abordagem ao escrutínio crítico e sistemático característico do NM. Os criacionistas e adeptos do Design Inteligente, entretanto, não respeitam estes compromissos e não estendem sua crítica a seus próprios pressupostos. E é exatamente, neste ponto, que Pennock (2009) insiste, e com toda razão, separando questões de princípio e lógicas das atitudes das comunidades que acreditam em determinadas questões metafísicas. Isto é, precisamos separar o NM das discussões metafísicas filosófico-teológicas mais amplas já que, do contrário, estaríamos assumindo a aceitação, por parte dos defensores do DI, do NM, o que exigiria dos mesmos a extensão desta abordagem ao próprio Designer, o que os criacionistas e teórico do DI evitam acima de tudo. Portanto, mesmo que seja possível testar postulados supostamente sobrenaturais em contextos restritos, em teoria, isso não acontece na
prática, como pode ser atestado pelas estratégias de ataque e distorção em que incidem, constantemente, os adeptos destas visões de mundo anti-científicas.

Barbara Forrest, em um artigo intitulado “The non-epistemology of intelligent design: its implications for public policy”, explora o descompromisso, dos advogados do Design Inteligente, em fornecer, ou mesmo desenvolver, uma epistemologia e, principalmente, uma metodologia alternativa às atitudes epistemológicas e ao NM característicos das ciências modernas. Esta incapacidade, ou indisposição – que não pode ser cobrada das crenças religiosas e metafísicas das pessoas comuns – torna-se inaceitável em uma suposta teoria ou programa de pesquisa que se propõe científico. Então, como os criacionistas tradicionais e adeptos do DI não aceitam o NM, muito menos propõem um programa meta-metodológico rival, e não possuem uma epistemologia alternativa à científica, portanto, não podem ser levados a sério enquanto ciência e este fato não depende de nenhum preconceito a priori.

O ponto importante, que vale ser repetido e enfatizado, é que o NM é uma orientação meta-metodológica a posteriori,
resultado do desenvolvimento histórico e pragmático das ciências. Ao longo do tempo as que explicações e estratégias investigativas, e de decisão e escolha de teorias e hipóteses, naturalistas foram as que conduziram aos melhores resultados, mesmo que continuem sendo constantemente reavaliadas. Por outro lado, as explicações baseadas em agentes super-poderosos, sobretudo aqueles com poderes e informações
ilimitadas, não foram suficientemente restritivas e rigorosas para que uma metodologia crítica pudesse ser desenvolvida a partir delas. Com o tempo este processo resultou na separação entre religião e filosofia/ciências e, mais tarde, entre a filosofia e as ciências, estas últimas tremendamente comprometidas com uma atitude epistemológica empirista e muito mais pragmática.

Mead e Scott finalizam seu artigo com a seguinte proposta:

“Convidamos os professores que ensinam evolução, ou qualquer outra área da ciência, para pensar cuidadosamente sobre como ensinar esses conceitos de “problema” da evolução: reconhecer que se trata de termos de arte na ciência que tem diversos significados fora da ciência e para definir e usá-los com cuidado e explicitamente, distinguindo os significados no contexto científico, sem denegrir significados extracientíficos. É possível preservar a integridade da ciência como uma forma naturalista de saber sobre a natureza de fato, a melhor epistemologia para este fim, enquanto ainda deixa-se aberta a porta para os estudantes religiosos para acomodar uma variedade de opiniões com a compreensão científica do mundo natural. Inadvertidamente, fecha-se a porta por não reconhecer os alunos significados extracientíficos associados aos os conceitos “problema”, derrotando o propósito da educação.” (Mead e Scott, 2010)

Muito tem sido publicado sobre mudança conceitual, sobre os viéses cognitivos humanos e sobre como estes relacionam-se entre si. Um exame conceitual mais apurado por parte dos educadores, provenientes do reconhecimento do aprendizado prévio e dos tipo de aparato conceitual com que os alunos chegam em sala de aula é fundamental.

Sinatra e colaboradores (2008) escreveram alguns destas fontes de coerção em nossos processos cognitivos, particularmente ativos no desenvolvimento infantil:

“Muita pesquisa tem sido feita desde Piaget, e as especificidades de sua teoria subjacente – o que uma criança pode aprender e quando – têm sido substancialmente revistas. Um legado, no entanto, é a sua intuição fundamental que as crianças são complexas, ativas e alunos extremamente sofisticados. Através de estudos elegantes e inteligentemente projetados, os psicólogos do desenvolvimento têm mostrado que, desde a infância, ainda possuímos várias extremamente poderosas “regras de ouro” que modelam o nosso pensamento (Wellman e Gelman 1998), e tornam o aprendizado sobre a evolução muito desafiador, pois a evolução não funciona de acordo com essas regras (Evans 2000, 2001). Estas ‘regras’, muitas vezes chamadas de “restrições cognitivas” ou “viéses cognitivos” são o que estamos chamando de ‘restrição essencialista, ‘restrição teleológica’ e ‘restrição de intencionalidade’.”[Sinatra et al. 2008]

1) Restrição essencialista: Essencialismo, neste contexto, é ilustrado pela tendência das crianças acreditarem que as coisas pertencem a categorias precisas, porque possuem uma natureza subjacente que não pode ser vista, mas que, no entanto, dá, as coisas desse tipo particular, a sua identidade básica. Além disso, para elas esta essência é imutável. Assim, um pássaro não pode se tornar um cão, e um rapaz não pode se tornar uma garota (Sinatra et al. 2008).

2) Restrição teleológica: Crianças também assumem intuitivamente (ou pelo menos são mais inclinadas a assumir) a posição de que as coisas são feitas para um propósito. Teleologia, um termo atribuído a Aristóteles, é a atribuição de design e propósito à natureza e à criações humanas, e pode ser contrastado com o naturalismo, a postura metodológica mais ampla em que a ciência está hoje calcada (Sinatra et al. 2008).

“As crianças são como jovem Aristóteles, elas tendem a acreditar que os animais têm olhos, porque eles precisam ver, e os pássaros têm asas, porque eles precisam voar. Tal pensamento persiste nos adultos, embora os adultos tendem a aplicar tais explicações, principalmente, aos seres vivos ou objetos complexos (como os computadores), enquanto as crianças, em idade escolar primária, podem ser ouvidas reivindicando que pedras são pontiagudas para se proteger de serem esmagadas por animais (Kelemen, 1999).” (Sinatra et al, 2008)

Este viés induz as crianças, e mesmo adultos, a crer que explicações baseadas em um projeto prévio sejam muito mais plausíveis, já que estão de acordo com sua visão de mundo, do que uma explicação evolucionista.

3) Restrição de intencionalidade: O raciocínio teleológico está intimamente relacionado com a restrição de intencionalidade. Envolvendo a suposição que os eventos não são somente propositais, mas que podem ser causados por um agente intencional, um agente com uma “mente própria” (Sinatra et al, 2008).

Esta tendenciosidade, em particular, associada a experiência prévia com ações deliberadas por seres humanos, torna o criacionismo tradicional ou Design inteligente muito atraentes às crianças, sendo visões de mundo facilmente adquiridas. Elas, não só se encaixam perfeitamente com as tendências desenvolvimentais das restrições de essencialismo e da teleologia, mas também reforçam estas tendências intuitivas cognitivas (Sinatra et al, 2008).

Portanto, uma definição cuidadosa dos termos em uso, associada a explicitação das diferenças entre os termos em seu uso técnico e leigo, torna-se o primeiro passo para introduzir as teorias científicas e campos de pesquisa que tendem a chocar-se com nossas concepções do senso comum.

Esta série de artigos, de autoria de Louise S. Mead e Eugene C. Scott, esboçam alguns desses problemas e apresentam algumas possibilidade de lidar com eles em sala de aula, buscando minimizar mal entendidos e evitar choques desnecessários. O trabalho de Sinatra e colaboradores (2008), também publicado na revista Evolution: Education Outreach, é outra ótima fonte de informação sobre o que as ciências cognitivas e a psicologia do desenvolvimentos têm nos mostrado sobre a natureza do aprendizado humano e como algumas tendências nos fazem cristalizar, com maior facilidade, determinados “aparatos interpretativos mentais”, permitindo reconhecê-los e lidar com eles de forma apropriada.

Conhecer estas restrições e tendenciosidades, além de estar ciente do conhecimento prévio dos aluno (principalmente de como eles interpretam determinados termos), são pré-requisitos indispensáveis aos educadores que se dispõem a, não só “passar conteúdo”, mas realmente ensinar. Produzindo, assim, mudanças conceituais que permitam aos alunos lidarem com conceitos científicos, fornecendo-lhes um ferramental cognitivo extremamente valioso, porém, sem desencorajá-los e aliená-los.


Referência:
Mead, L., & Scott, E. (2010). Problem Concepts in Evolution Part II: Cause and Chance Evolution: Education and Outreach, 3 (2), 261-264 DOI: 10.1007/s12052-010-0231-3

Referências Adicionais:
Sinatra, G., Brem, S., & Evans, E. (2008). Changing Minds? Implications of Conceptual Change for Teaching and Learning about Biological Evolution Evolution: Education and Outreach, 1 (2), 189-195 DOI: 10.1007/s12052-008-0037-8

Pennock, R. (2009). Can’t philosophers tell the difference between science and religion?: Demarcation revisited Synthese DOI: 10.1007/s11229-009-9547-3

Forrest, B. (2009). The non-epistemology of intelligent design: its implications for public policy Synthese DOI: 10.1007/s11229-009-9539-3

Boudry, M, and Braeckman, J. (2010). Immunizing strategies & epistemic defense mechanisms. Philosophia, 10.1007/s11406-010-9254-9.

Boudry, M, Blancke, Stefaan and Braeckman, J. (2010) How Not to Attack Intelligent Design Creationism: Philosophical Misconceptions About Methodological Naturalism Foundations of Science Volume 15, Number 3 ISSN 1233-1821 DOI 10.1007/s10699-010-9178-7

Fishman, Yonatan I. (2010) Can Science Test Supernatural Worldviews? Science & Education, Volume 18, Issue 6-7, pp. 813-837 DOI:10.1007/s11191-007-9108-4

Forrest, B Methodological Naturalism and Philosophical Naturalism: Clarifying the Connection, Philo 3 (Fall-Winter 2000): 7-29.

Pennock, Robert T (1997) Supernaturalist Explanations and the Prospects for a Theistic Science or “How do you know it was the lettuce?” Naturalism, Theism and the Scientific Enterprise” Conference – March 20-23, 1997.

Hansson, Sven Ove Science and Pseudo-Science (2008) Stanford Encyclopedia of Philosophy, SEP

Crédito das imagens:
VICTOR DE SCHWANBERG / SCIENCE PHOTO LIBRARY
AMERICAN INSTITUTE OF PHYSICS / SCIENCE PHOTO LIBRARY
LAGUNA DESIGN / SCIENCE PHOTO LIBRARY
GUSTOIMAGES / SCIENCE PHOTO LIBRARY
IAN BODDY / SCIENCE PHOTO LIBRARY
BILL ANDERSON / SCIENCE PHOTO LIBRARY
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ernst_Mayr_PLoS.jpg
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Human_brain_in_a_vat.jpg

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6 comentários

  • Anônimo 17 de agosto de 2010  

    Rodrigo, ao assistir o filme ¨A Origem ¨ lembrei-me de um fato que aconteceu comigo e que na época ocupou meus pensamentos durante vários dias : Certa noite eu simplesmente…Sonhei Que Estava Sonhando !! Acordei chocado e desorientado. Com base nesse evento, vou tentar definir o que eu entendo por ¨Entidade Sobrenatural ¨ : Um Sonho no interior de outro Sonho! . Interpretarei essa definição como um ¨fluxo de informação na forma de configurações de campo aleatórias com a propriedade de induzir ressonâncias estreitas em nossos dispositivos eletro-químicos de memória ¨. Note que, de acordo com essa definição, essas ¨entidades vagamente identificadas¨ emergem no mundo de ¨dentro para fora ¨, e não o contrário como muitos filósofos e religiosos estão supondo. Newton afirmou que … ¨o espaço é o sensório de Deus ¨ e eu estou substituindo a palavra Deus como uma abreviação da definição acima. Essencialmente amoral, aética e ilógica, essas imersões de campo destituídos de massa poderiam sim eventualmente serem detectadas por receptores tecnológicos sofisticados do futuro. Evidentemente descarto interpretações de qualquer outra natureza além do puro fato em si mesmo, mas é fascinante pensar que essas propriedades do espaço poderiam ser utilizadas para a manufatura de máquinas auto-conscientes na Inteligência Artificial. Abraço.

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