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Entrevista sobre Biologia Evolutiva com o Professor Maxwell Morais de Lima Filho

Maxwell Morais de Lima Filho é Biólogo, Mestre e Doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). O Professor Lima Filho leciona Filosofia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) desde 2011 e concedeu essa entrevista a Rafaela Almeida Garcia, Jornalista formada pela Universidade do Vale da Paraíba (UNIVAP), no dia 1º de outubro de 2015.

 

Rafaela: Qual a origem do Evolucionismo?

Maxwell: A evolução, para o que nos interessa aqui, está relacionada à mudança ou à transformação. Nesse sentido, podemos falar, dentre outras, de evolução do Universo (evolução astronômica), da Terra (evolução geológica) ou da vida (evolução biológica). Ideias sobre a transformação dos organismos biológicos são bastante antigas. Tais ideias transformacionistas ou evolucionistas se contrapõem conceitualmente às ideias fixistas. Dito isso, podemos considerar que o naturalista francês Jean-Baptiste Antoine de Monet, mais conhecido como (cavaleiro de) Lamarck, é um bom ponto de partida para responder essa questão, já que ele é considerado por muitos como o precursor da Biologia Evolutiva. Lamarck publicou o livro Filosofia Zoológica no início do século XIX, mais precisamente em 1809. Esta obra foi bastante influente e antecipou em 50 anos o livro mais importante dessa área, a saber, A Origem das Espécies, de Charles Darwin.

 

Rafaela: Quais são as bases da Biologia Evolutiva?

Maxwell: Uma concepção evolucionista da vida, ao contrário da concepção fixista, está relacionada à transformação dos organismos ao longo do tempo. Porém, o que diferencia as concepções evolucionistas entre si é o como elas explicam tais mudanças, ou seja, qual(is) é(são) o(s) mecanismo(s) evolutivo(s) responsável(is) pela transformação dos organismos ao longo do tempo: herança dos caracteres adquiridos por uso e desuso? Seleção natural? Deriva genética? Fluxo gênico? Jean-Baptiste Lamarck, Charles Darwin, Ernst Mayr e Stephen Jay Gould são evolucionistas porque explicam a modificação dos organismos por meio de mecanismos naturais, a despeito de suas divergências teóricas. As concepções evolucionistas de Ernst Mayr e Stephen Jay Gould, por exemplo, levaram em conta conceitos teóricos provenientes da Genética, os quais eram desconhecidos por Lamarck e Darwin. Tanto Lamarck quanto Darwin sabiam que as características eram transmitidas de pais para filhos. Entretanto, nem o naturalista francês nem o inglês sabiam explicar adequadamente quais eram a estrutura e o mecanismo responsáveis pela transmissão hereditária. Portanto, Lamarck e Darwin desconheciam algumas expressões que são tão familiares hoje em dia a qualquer estudante do Ensino Médio: ácido desoxirribonucleico (DNA), genes, mutação, recombinação gênica, leis de Mendel etc.

 

Rafaela: Como a Biologia Evolutiva explica a origem do Universo?

Maxwell: A Biologia Evolutiva trata da mudança dos seres vivos no decurso do tempo e, portanto, não se propõe a explicar a origem do Universo, que é objeto de estudo da Física e da Astronomia. Existem diferentes teorias que se propõem a explicar a gênese do Cosmo, dentre elas, a mais aceita é a Teoria do Big Bang. De acordo com essa teoria, todo o Universo surgiu há aproximadamente 13,8 bilhões anos a partir de um ponto extremamente quente e denso. De acordo com as estimativas atuais, a origem do Cosmo é bem anterior ao surgimento da Terra (aproximadamente há 4,5 ou 4,8 bilhões de anos) e da vida na Terra (entre 3,5 e 3,8 bilhões de anos atrás). Apesar de os seres vivos serem sistemas físico-químicos extremamente complexos e obedecerem, portanto, às leis da Física e da Química, eles são uma parcela ínfima tanto temporal quanto espacial do Universo. Em poucas palavras, o significado disso é que a Biologia Evolutiva é incapaz de explicar a origem do Universo. A Biologia é “filha” da Física: cronologicamente, a evolução dos organismos corresponde aproximadamente a um terço da evolução cósmica; em termos espaciais, estima-se que o Universo possua pelo menos 100 bilhões de galáxias, cada qual contendo numerosas estrelas. Dentre tantas estrelas, temos plena certeza de que existe vida apenas num pequeno planeta azul que orbita o Sol.

 

Rafaela: Além de Darwin, quem são os grandes nomes do Evolucionismo?

Maxwell: Há muitos evolucionistas importantes e qualquer lista será incompleta, arbitrária e, até mesma, injusta. Tendo isso por pressuposto, podemos citar, antes da publicação d’A Origem das Espécies, o avô de Darwin, Erasmus Darwin, e o grande naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck; contemporâneos a Darwin, destacamos Alfred Russel Wallace, que propôs juntamente com ele o mecanismo evolutivo da seleção natural, e Thomas Huxley, que, por defender firmemente as ideias darwinistas, ficou conhecido como o “buldogue de Darwin”; também devemos nos lembrar, entre os vários evolucionistas dos séculos XX e XXI, dos principais articuladores da Teoria Sintética da Evolução – Theodosius Dobzhansky, Ernst Mayr e George Gaylord Simpson –, bem como, mais recentemente, dos proponentes da Teoria do Equilíbrio Pontuado, Niles Eldredge e Stephen Jay Gould, e do popularizador da Teoria do Gene Egoísta, Richard Dawkins.

 

Rafaela: O que o Evolucionismo pensa sobre as Teorias do Criacionismo da Terra Jovem e do Design Inteligente?

Maxwell: As concepções criacionistas – inclusos o Criacionismo da Terra Jovem e o Design Inteligente – não são científicas, já que defendem ou inferem uma causalidade sobrenatural: o Deus Bíblico ou um Projetista Inteligente foi o responsável por projetar e criar os organismos vivos. Essa criação sobrenatural pode ser defendida de diferentes modos. Em escala “crescente”, podemos citar três principais tipos de criação sobrenatural dos organismos biológicos: (i) criação do primeiro organismo vivo, que teria originado por evolução natural as diversas linhagens biológicas no decorrer de bilhões de anos; (ii) criação sobrenatural de certos “grupos biológicos”. Nesse caso, por exemplo, Deus ou o Projetista Inteligente criaria de modo independente as linhagens felina e canina, ou seja, tais linhagens não compartilhariam um ancestral comum. Todavia, segundo essa perspectiva, isso não constituiria um impedimento para que houvesse uma evolução natural no interior de tais grupos biológicos (microevolução). Isto é, a primeira espécie felina e a primeira espécie canina criadas por Deus poderiam originar, de maneira natural, leões, onças e gatos (espécies felinas descendentes) e lobos, raposas e cachorros (espécies caninas descendentes); (iii) criação sobrenatural dos organismos do modo como eles atualmente existem. Esta seria uma concepção completamente fixista e, portanto, sem qualquer espaço para a modificação dos organismos ao longo do tempo: a bactéria que habita no intestino humano, a levedura utilizada para a produção de pão e álcool, o cajueiro e o ornitorrinco que estão vivos hoje são físio-morfologicamente semelhantes (leia-se: praticamente idênticos) aos primeiros indivíduos dessas espécies criados por Deus. A despeito das diferenças, essas três concepções criacionistas são pseudocientíficas por não se restringirem ao domínio natural e por invocarem uma causalidade suprafísica. Seja em que área for – Física, Química, Geologia, Biologia etc. –, a atividade científica se restringe ao domínio natural. Essa restrição não é levada a cabo nem pelo Criacionismo da Terra Jovem nem pelo Design Inteligente. Os partidários de ambas as concepções defendem que os seres vivos se originam da ação de Deus ou do Projetista Inteligente ao concluírem que a ausência da evidência implica numa evidência da ausência. Exemplo 1: como não conhecemos fósseis transicionais entre os cetáceos (baleias e golfinhos) e seu ancestral terrestre (ausência de evidência paleontológica), conclui-se que as baleias e os golfinhos não evoluíram a partir de um ancestral terrestre (evidência da ausência). Noutros termos, Deus projetou tais animais como aquáticos. Exemplo 2: Como não sabemos explicar a evolução do flagelo da bactéria Escherichia coli a partir de sistemas funcionais mais simples (ausência de evidência bioquímica), conclui-se que não há tais precursores bioquímicos mais simples (evidência da ausência). Ou seja, a complexidade irredutível do flagelo bacteriano só poderia ser explicada pelo planejamento de um engenheiro bioquímico sobrenatural. No entanto, como diria o paleontólogo Stephen Jay Gould: “Uma conclusão baseada em não encontrar algo tem a grande virtude de permitir potencialmente uma refutação inequívoca”. Paleontólogos descobriram fósseis transicionais entre o mesoniquídeo (mamífero terrestre extinto) e os atuais cetáceos, assim como os bioquímicos descreveram estruturas funcionais mais simples a partir das quais poderiam ter evoluído o flagelo da bactéria Escherichia coli. Tanto o exemplo da ausência de fósseis transicionais quanto o da complexidade irredutível do flagelo bacteriano são falácias do tipo “Deus nas lacunas”: como a Paleontologia e a Bioquímica não explicam determinados fatos (lacunas científicas), devemos inferir que tais explicações provêm da ação suprafísica de Deus ou do Projetista Inteligente. Não é de se estranhar que a combinação dessa falácia com o fato de que a Ciência está em contínua construção é extremamente desfavorável aos defensores do Criacionismo da Terra Jovem e do Design Inteligente: muitas lacunas científicas de ontem foram preenchidas por explicações inteiramente naturais; de modo semelhante, é provável que muitos fenômenos e estruturas naturais que não sabemos explicar hoje em dia terão um tratamento científico adequado no futuro. Isso não significa, é claro, que todas as questões científicas serão satisfatoriamente respondidas com o passar do tempo. Um dos assuntos mais intrigantes da Ciência diz respeito à origem da vida. Na realidade, é salutar citar nesse ponto a origem da vida, haja vista que os proponentes do Criacionismo da Terra Jovem e do Design Inteligente a confundem repetidamente com o tema da evolução da vida. Para respondermos à segunda questão não precisamos saber como a vida se originou. Trocando em miúdos: sem maiores explicações, é um fato que a vida se originou pelo menos em um planeta do vasto Universo, a Terra; também é um fato que os organismos vivos se modificaram ao longo do tempo. Isso pode ser facilmente constatado na escala de bilhões, milhões e milhares de anos por meio do registro fóssil, bem como no curto espaço de décadas ou anos pelos efeitos provocados pelo uso de antibióticos e agrotóxicos; porém, mesmo que ainda não saibamos ao certo como a vida se originou (1º fato), podemos, ademais, fornecer uma resposta científica adequada sobre como os seres vivos evoluem (2º fato). Apesar de não ser o caso, poderíamos perfeitamente saber como surgiu a vida e, por outro lado, não saber como ela evoluiu. Infelizmente, por desconhecimento ou, na pior das hipóteses, por desonestidade intelectual, muitos criacionistas fazem um amálgama conceitual dessas duas questões científicas.

 

Rafaela: Quais são as evidências favoráveis à Biologia Evolutiva?

Maxwell: A Biologia Evolutiva, eixo unificador das Ciências Biológicas, é considerada uma das áreas de maior prestígio perante o público em geral e a comunidade científica, em particular. Tal prestígio se deve à simplicidade, à elegância teórica, ao elevado poder explicativo e às numerosas evidências favoráveis a essa Ciência. Citarei a seguir algumas dessas evidências: (i) o registro fóssil mostra que o planeta Terra já foi habitado por microrganismos, vegetais e animais que não existem atualmente. Na verdade, o número de espécies atuais representa uma fração ínfima em relação ao número de espécies extintas. Esse registro mostra, por exemplo, que os ancestrais de golfinhos e baleias possuíam patas traseiras; (ii) a adaptação dos organismos ao ambiente em que vivem. Para citar apenas um exemplo, basta considerarmos a semelhança anatômica de alguns insetos à estrutura das folhas. A criação dos organismos por Deus ou por um Projetista Inteligente não é incompatível com a adaptação. Pelo contrário, seria de se esperar que um Ser sobrenatural sumamente bondoso, inteligente e poderoso projetasse e criasse seres perfeitamente adaptados ao ambiente. Contudo, uma rápida olhada na natureza é suficiente para demonstrar que tal não é o caso: os seres são adaptados ao ambiente, mas tal adaptação é sempre imperfeita. Além disso, há, conforme é predito pela concepção evolucionista, muito “desperdício” e “sofrimento” na natureza, e estes são incompatíveis até mesmo com o projeto do nem sempre bondoso e necessariamente limitado engenheiro humano; (iii) as comparações nos mais diversos níveis entre organismos através da Anatomia, Embriologia, Bioquímica e Fisiologia Comparadas também são uma forte evidência a favor da Biologia Evolutiva. Em termos metafóricos, pode-se imaginar que todos os seres vivos que existiram, existem e existirão em nosso planeta estão dispostos em uma imensa e frondosa árvore da vida, árvore esta que é, a um só tempo, genealógica e dinâmica: a raiz representaria o(s) primeiro(s) organismo(s) que surgiu(ram) e teve(tiveram) sucesso reprodutivo, há aproximadamente 3,5 ou 3,8 bilhões de anos. Tal(is) organismo(s) seria(m) o(s) ancestral(is) de todos os seres vivos que vieram depois – bactérias, protistas, fungos, vegetais e animais. Ora, a consequência disso é que todos os seres vivos são, em última instância, parentes. Para ilustrar isso, tomemos a espécie Homo sapiens como exemplo: somos parentes em grau decrescente de chimpanzés, ratos, pardais, lagartixas, sapos e tucunarés. Nosso parentesco se restringe apenas a animais vertebrados? Não. Também somos parentes em grau decrescente de baratas, esponjas, cajueiros, fungos, algas e bactérias. Enfim, todos os seres vivos terrestres pertencem, literalmente, a uma grande família biológica. Essa ancestralidade comum pode ser corroborada anatômica, embriológica, bioquímica e fisiologicamente. Anatomia Comparada: o braço humano, a nadadeira de uma baleia jubarte e a asa de um morcego, apesar de desempenharem funções diversas, são anatomicamente semelhantes (órgãos homólogos), como seria de se esperar pela ancestralidade comum. Os membros anteriores desses animais são compostos pelos ossos úmero, rádio, ulna etc. De acordo com a Embriologia Comparada, quanto maior o parentesco filogenético (evolutivo), maior a semelhança entre o desenvolvimento embrionário dos organismos: o desenvolvimento do embrião humano possui mais semelhanças com o desenvolvimento embrionário do beija-flor se comparado com o do bacalhau. Isso é predito pelo arcabouço conceitual evolucionista, pois os mamíferos compartilham um ancestral mais recente com as aves do que com os peixes. Segundo a Bioquímica Comparada, o grau de parentesco filogenético também pode ser medido no nível molecular ao se comparar os genomas dos organismos (conjunto das informações codificadas no DNA): o genoma humano é mais similar ao genoma do beija-flor do que ao do bacalhau. Fisiologia Comparada: as semelhanças fisiológicas (que dizem respeito ao funcionamento do organismo) também estão diretamente relacionadas à proximidade filogenética. Todas as pessoas que ingeriram qualquer produto da indústria farmacêutica foram beneficiadas, em alguma medida, por tal conhecimento, pois todo medicamento é testado antes em animais não-humanos. Se nesta fase o fármaco afetar negativamente a atividade cardíaca de um camundongo, por exemplo, não será testado em humanos por melhor que sejam seus outros efeitos, pois haveria bons indícios de que tal droga também seria nociva ao nosso coração; (iv) estruturas que possuem a mesma função podem ter evoluído de modo independente (divergência evolutiva): as asas de uma libélula e de um carcará servem para voar, mas, como evoluíram independentemente, são órgãos análogos (comparar com os supracitados órgãos homólogos); (v) por fim, mas não menos importante, a Biologia Evolutiva é capaz de explicar e predizer a presença de estruturas atrofiadas e não funcionais como os olhos cegos dos peixes cavernícolas (órgãos vestigiais). É sabido que os ancestrais dos peixes cavernícolas enxergavam. Além disso, temos conhecimento que é evolutivamente desvantajoso possuir olhos em ambientes desprovidos de luz... Por outro lado, é bastante embaraçoso para o criacionista explicar tais órgãos vestigiais, já que ele teria de saber quais eram os “pensamentos de Deus” quando projetou e criou um olho que não enxerga. 



Rafaela: Ao longo da história, várias teorias científicas foram refutadas. Mesmo não sendo a teoria definitiva e nem 100% comprovada, o Evolucionismo é a mais aceita entre a comunidade científica, você acredita que um dia a teoria pode ser refutada?  

Maxwell: Há uma discussão em Filosofia da Ciência que trata do critério de demarcação entre enunciados científicos e não-científicos. Para não nos alongarmos muito, tomemos como exemplo o critério proposto pelo influente filósofo austríaco Karl Popper para decidir quando uma teoria pode ser considerada científica: um enunciado científico deve ser falseável. Para que fique bem claro, um enunciado falseável é aquele que pode se mostrar falso no futuro, ou seja, que pode vir a ser empiricamente refutado. Antes mesmo de uma observação experimental, a Teoria da Relatividade predizia que corpos com grande massa atraem a luz. Durante um eclipse em 1919, em Sobral, no Ceará, uma equipe de cientistas fez observações sobre a trajetória da luz com o intuito de testar a predição feita por Einstein. As medições mostraram que houve desvio da luz e, portanto, a Teoria da Relatividade foi corroborada. Como dissemos, uma das exigências para uma teoria ser considerada científica é a possibilidade de ser falsa: não há, segundo Popper, nenhuma “teoria definitiva” ou “100% comprovada”. Nesse sentido, teorias científicas são sempre hipotéticas ou conjecturais, e uma breve consulta a manuais de História da Ciência serve para ilustrar esse fato. Com a Biologia Evolutiva não é diferente, ela pode ser refutada e isso é um requisito necessário à sua cientificidade. Alguns críticos desmerecem a Biologia Evolutiva dizendo “que ela é apenas uma teoria e que ela pode ser refutada”. Ora, isso é trivial e nesse sentido evolucionistas e antievolucionistas estão de acordo. O acordo só não é pleno quando se leva em consideração o significado atribuído a ser “apenas uma teoria”. Todas as teorias científicas – a Mecânica Quântica, a Relatividade, a Tectônica de Placas e a Biologia Evolutiva – são apenas teorias. Como poderia ser diferente? Ademais, aviões, telefones, micro-ondas e medicamentos são fabricados utilizando-se teorias. Contudo, por algum motivo esdrúxulo e arbitrário, os criacionistas atribuem um significado depreciativo quando afirmam que a “Biologia Evolutiva é apenas uma teoria”, induzindo leitores leigos em Filosofia da Ciência a pensarem que ela é provavelmente falsa. Para compreendermos melhor o que significaria refutar a Biologia Evolutiva, temos que nos lembrar de que há uma distinção entre a evolução como fato e a Evolução como teoria e também de que a modificação de uma teoria não implica necessariamente em seu descarte por completo. A comunidade científica dispõe de evidências suficientes para considerar como fato a modificação dos organismos ao longo do tempo (evolução biológica) e, por conseguinte, os biólogos evolutivos não questionam a evolução como um fato. Porém, afirmar que bactérias, protistas, fungos, vegetais e animais evoluem é apenas um ponto de partida. No passo seguinte, o biólogo evolutivo deve explicar como ocorre a evolução. Como dissemos na 2ª questão, há mais de uma teoria para explicar a mudança dos organismos: Darwin, juntamente com Wallace, propuseram a seleção natural como principal mecanismo para explicar a evolução biológica, mecanismo esse que vem sendo corroborado há mais de 150 anos. Apesar de Mayr, Gould e Dawkins, por exemplo, aceitarem que a seleção natural é um mecanismo evolutivo, há divergências teóricas entre tais biólogos evolutivos. Cito algumas questões que ainda geram debates no presente: quantos e quais são os mecanismos evolutivos? A seleção natural é o principal mecanismo evolutivo? A seleção natural atua sobre genes, indivíduos ou populações? Há progresso na evolução biológica? Essas questões nos mostram que novas descobertas podem refutar alguns enunciados da Biologia Evolutiva sem que isso signifique que a teoria como um todo seja descartada. Darwin, por exemplo, morreu sem explicar satisfatoriamente a transmissão das características genéticas. Hoje em dia, sabemos que a pangênese, teoria da hereditariedade defendida por Darwin, está errada. Ou seja, a teoria utilizada por Darwin para explicar a transmissão das características dos progenitores à prole foi refutada. Todavia, a despeito dessa refutação, a concepção darwinista não foi descartada como um todo, já que duas de suas principais ideias continuam em voga, a saber, a origem comum dos organismos e o mecanismo de seleção natural.    

 

Rafaela: E se o Criacionismo da Terra Jovem ou o Design Inteligente forem comprovados, como os cientistas iriam reagir?  

Maxwell: Fica claro, a partir do que expusemos na questão anterior, o porquê de não ser possível “comprovar” cientificamente o Criacionismo da Terra Jovem ou o Design Inteligente. Explico: toda concepção criacionista é não-científica, já que defende ou infere uma causalidade sobrenatural no sentido de que o Deus/Projetista Inteligente criou os organismos vivos e, portanto, não se limita ao domínio físico. Como sabemos, a atividade científica se circunscreve à esfera natural, e isso independe da área em questão – Física, Astronomia, Química, Geologia, Biologia etc. É justamente por ter um escopo restrito que as teorias físicas, astronômicas, químicas, geológicas e biológicas podem ser empiricamente refutadas. Contudo, é impossível refutar cientificamente os pretensos processos sobrenaturais que resultariam da ação do Deus/Projetista Inteligente, tese central defendida pelos criacionistas. Em outras palavras, a expressão “Criacionismo Científico” é um contrassenso. Ademais, o Criacionismo é incompatível com a Ciência atual. Vou me restringir ao Criacionismo da Terra Jovem para ilustrar esse ponto. Para que seja defendido de modo consistente que o Universo e a Terra possuem poucos milhares de anos, seria necessário refutar simultaneamente pelo menos quatro teorias amplamente corroboradas até o presente: (i) a Teoria do Big Bang (a antiguidade do Universo seria apenas aparente), (ii) a Teoria da Radioatividade (as datações radiométricas seriam falsas), (iii) a Tectônica de Placas (os continentes não teriam se separado há mais do que alguns milhares de anos) e (iv) a Biologia Evolutiva (a ancestralidade comum e a modificação dos organismos ao longo de bilhões de anos estaria em xeque). Portanto, vimos que a tese central do Criacionismo da Terra Jovem (Deus/causalidade sobrenatural) não é científica e, além disso, que muitas das afirmações dessa concepção sobre o mundo natural já foram refutadas empiricamente.

 

Rafaela: Fé e Ciência podem caminhar juntas? 

Maxwell: É possível que caminhem juntas, mas isso não é necessário porque elas podem ou não ser compatíveis. Além disso, nem a fé (por definição, uma crença não justificada) depende da Ciência (crença justificada), nem o inverso. A fé em Deus, por exemplo, não depende de nenhum cálculo matemático ou experimento empírico. É uma posição mística sobre coisas que transcendem o domínio natural. Do mesmo modo, ninguém precisa de fé para acreditar que “2+2=4” ou que “metais se dilatam quando aquecidos”, uma vez que possuímos mecanismos objetivos de prova e corroboração da verdade dessas afirmações. Uma breve consulta à História da Ciência atestará que muitos cientistas acreditavam em Deus (até há pouco tempo, essa era a regra geral). Três dos maiores cientistas de todos os tempos eram, para nos restringirmos somente a um tipo de fé, cristãos: Galileu Galilei, Isaac Newton e Charles Darwin (no início da carreira). Obviamente, poderíamos citar renomados cientistas que não são religiosos. Isso significa que ter fé em Deus e ser cientista são coisas independentes, já que uma pessoa pode: (i) ser crente em Deus e cientista; (ii) não ser crente em Deus e ser cientista; (iii) ser crente em Deus e não ser cientista; e, finalmente, (iv) não ser crente em Deus e não ser cientista. Como é fácil de observar, o mesmo tipo de raciocínio pode ser aplicado a outras profissões – pedreiros, cozinheiros, artistas etc. Feitas essas considerações, é salutar fazer uma ressalva. Uma pessoa crente em Deus pode escolher ser cientista com o intuito de tentar compreender como funciona a natureza, que, em sua concepção, teria sido criada por Ele. Porém, e isso é importante, após explicar naturalisticamente o movimento dos planetas, a reação química ou a evolução biológica, seria cientificamente incorreto acrescentar à descrição natural do fenômeno uma hipótese ad hoc do tipo “porque Deus quis”. Como dissemos anteriormente, os enunciados científicos se restringem ao domínio natural e, por conta disso, podem ser empiricamente refutados. Enunciados do tipo “Os movimentos planetários são descritos pelas leis de Kepler, porque Deus quis”, “As massas das substâncias são conservadas em uma reação química, porque Deus quis” e “Os organismos evoluem por seleção natural, porque Deus quis” não são científicos porque não são refutáveis: as leis de Kepler, a lei da conservação da massa e o mecanismo de seleção natural são empiricamente refutáveis, mas a suposta vontade de Deus é irrefutável. Dessa maneira, independente da crença pessoal do cientista, enunciados científicos prescindem de uma hipotética vontade divina e devem ser formulados sem levá-la em consideração. Isso significa que não há espaço para Deus? Darwin matou Deus? Cientificamente falando, com certeza não: se por acaso Deus existir, não poderia ser morto por uma ou mesmo várias teorias científicas. A concepção darwinista é eficaz na explicação das estruturas e dos organismos biológicos, mas isso não é suficiente para refutar Deus. Essa insuficiência, contudo, é condizente com o seu objeto de estudo, os seres vivos (domínio natural). A questão sobre a existência de Deus não é uma questão científica, mas, sim, uma questão filosófica e teológica. Isso explica o porquê de haver cientistas que acreditam em um Deus pessoal, outros que são agnósticos e outros que são ateus. Dentro dessa perspectiva, não há um conflito necessário entre Religião e Ciência. Obviamente, nem todos adotam tal perspectiva. Apesar de assumirem posições diametralmente opostas, há pelo menos um ponto de contato entre os adeptos do Criacionismo da Terra Jovem e os ultradarwinistas, a saber: a Religião e a Ciência são incompatíveis. Enquanto os criacionistas estão errados por estenderem uma conclusão religiosa ao domínio natural (Universo com poucos milhares de anos e criação divina), os ultradarwinistas cometem um equívoco ao tirarem uma conclusão filosófica (Deus não existe) supondo que ela é científica. Por fim, concluímos afirmando que as distintas posições criacionistas e a ultradarwinista ultrapassam, em maior ou menor grau, o âmbito científico e, por conta disso, não é difícil vislumbrar o motivo pelo qual ambas advogam uma incompatibilidade necessária entre Religião e Ciência.

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