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Autor: Nelio Bizzo*
Fonte: Jornal Darwin 200 anos, UFRGS, 12 de fevereiro de 2009.

Tudo aconteceu em poucos dias. Charles Darwin, jovem recém-formado, recebeu a notícia que fora indicado para acompanhar uma expedição que iria dar a volta ao mundo, logo depois de terminar uma pequena viagem de campo com seu professor de Geologia. Na longa viagem, seriam visitadas terras jamais estudadas. Seu martelo geológico haveria de ser o primeiro a picar uma rocha nas alturas das encostas dos Andes e o converteria no novo mensageiro a anunciar coisas inauditas.

Além de convencer o pai a autorizar a viagem e bancar-lhe os gastos ao longo de alguns anos, era necessário ainda vencer a contrariedade do também jovem capitão do navio. Era o segundo desafio, pois a participação política dos Darwin (o lado paterno) e sobretudo dos Wedgwood (o lado materno), industriais muito bem sucedidos na convulsionada Inglaterra de inícios do século XIX, tinha sido totalmente oposta à da família do capitão, de uma aristocracia antiga e ainda muito importante, embora francamente decadente.


Uma viagem ao redor do mundo era, àquela época, algo parecido com uma expedição espacial hoje em dia. Para experimentar a sensação de gravidade zero, é preciso estar em meio a um aparato tecnológico muito avançado, batendo às portas da fama planetária (ou em um elevador enferrujado que despenca do alto de um velho edifício). Naquela época, a viagem marítima requeria cuidados especiais: jamais desembarcar desarmado, ter um bom par de pistolas à mão e boa pontaria além de total desconfiança nos povos visitados.

O jovem capitão Robert FitzRoy era exigente e tão meticulosamente perfeccionista que haveria de fazer e refazer sua tarefa cartográfica diversas vezes. Mapear com precisão a costa do extremo sul da América do Sul tinha se tornado uma obsessão. O navio escolhido tinha sido o mesmo com o qual tivera visitado a região anos antes. O HMS Beagle voltaria ao local que levara à loucura seu capitão anterior, John Stokes. "A alma de um homem morre com ele", escreveu o desesperado capitão instantes antes de meter uma bala na cabeça, certo de que não haveria vida além da morte.

Mas a partida da Inglaterra não seria nada fácil. Numa época em que os casamentos dos ricos eram muito mais pactos entre famílias, em que implicações patrimoniais disputavam palmo a palmo as razões do coração, o jovem Darwin estava dividido. Ele queria viajar, ver com os próprios olhos aquilo que lera em [Alexander von] Humboldt. Mas ele sabia que uma jovem, muito rica e esplendidamente bela, estava ansiosa por receber seu pedido de casamento. O Dr. Robert torcera o nariz para a viagem do filho, mas certamente o incentivaria a ir adiante e fundir os Darwin com os Mostyn-Owen. Eles moravam numa suntuosa propriedade, em meio a um bosque, onde o jovem Charles afiara a pontaria. Agora, poderia dar seu mote final e deixar contentes a todos.

Decidiu-se pelo mais difícil e incerto, e partiu com juras de amor, com a promessa de que alguém o aguardaria o tempo que fosse, e no retorno a encontraria apenas um pouco mais velha e confusa, mas essencialmente a mesma.

A viagem durou quase cinco anos e trouxe de volta à Inglaterra duas convicções e uma desilusão amorosa. Para FitzRoy, as marcas do Dilúvio Universal podiam ser encontradas nos restos marinhos que jaziam acima do nível do mar. No entanto, o jovem Charles Darwin trouxe para sua terra a certeza de que as montanhas eram testemunhas elevadas de um passado antigo e remoto, que abrigara ancestrais monstruosos que desapareceram sem deixar descendentes. Esta era a mensagem do postilhão dos Andes.

A possibilidade de criação de variedades de couves, flores, pombos, galinhas e cães era bem conhecida. Ela podia ser feita pela mão do ser humano. Mas, e a criação de novas espécies? Ela poderia dispensar uma intervenção sobrenatural? Um processo corriqueiro e absolutamente natural poderia explicar a presença da espécie humana em nosso planeta? Essa era a segunda convicção que o Beagle trouxera de volta à Inglaterra naqueles idos de 1836.

Talvez a criação de couves pudesse explicar como primatas peludos poderiam ter gerado homens de coração mole, como aquele que passou sua primeira noite no Rio de Janeiro soluçando em prantos a perda da mulher amada e o fim do sonho de tê-la como esposa. Mas eles tinham tido como descendentes também mulheres determinadas, como aquela que esqueceu suas juras de amor ao receber o pedido de casamento de um membro da nobreza, mesmo que comprovasse apenas setenta e um costados, mas dono do grandioso castelo medieval da região.

O jovem Darwin não seria mais um ministro anglicano, responsável por uma bela paróquia arrecadando impostos e tendo filhos com uma bela esposa. Ele seria um homem da ciência, um trabalhador incansável, talvez como uma abelha assexuada.** Em 1859 veio à luz o livro que daria fama planetária a Charles Darwin, maior do que a dos homens que conheceram a sensação de ausência de gravidade para além de nossa atmosfera. Naquele ano foi publicado A Origem das Espécies, um livro que até hoje evoca as mais diferentes reações. Ele sintetizava a grande convicção que nascera a bordo do Beagle, enfibrada com mecanismos desenvolvidos em terra firme britânica, em tempo mais recente. A seleção natural explicava como o monótono suceder de gerações acabava por gerar as novidades evolutivas no suceder das eras geológicas.

O sucesso evolutivo não pode existir sem seu contrário. Assim como a dúvida da morte é a única certeza da vida, a extinção é o evento mais frequente que acompanha a origem das espécies na Terra. Quase todas as formas de vida que apareceram em nosso planeta se extinguiram. Algumas ainda resistem, mas não para sempre. Assim como as fibras que tecem uma folha de papel serão esgarçadas pela ação do tempo, assim como os olhos que lêem estas palavras deixarão de poder fazê-lo um dia, assim como as mãos que escrevem este texto perderão essa habilidade mais dia, menos dia, assim as espécies atuais seguirão seu destino e se extinguirão no futuro. Os mamíferos promissores já se foram. Deles, ou melhor, dos com mais sorte, restam apenas alguns pálidos e imensos fósseis, ainda que toscos e inertes.

Em todo o planeta, uma única espécie convive com a consciência do destino que a aguarda. Tanto sabe que, por vezes, o precipita, fazendo o fim da existência se aproximar rapidamente. Mas, mesmo o mais sereno ser humano, se esclarecido, não fica mais feliz com esse fazer e tampouco está convicto da utilidade desse saber.

E não sabe se deve agradecer por ele.


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* Nelio Bizzo é professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), e autor do livro Darwin: do Telhado das Américas à Teoria da Evolução (Odysseus, 2002).

** Darwin se casou com sua prima Emma Wedgwood em 29 de janeiro de 1839 e teve com ela 10 filhos.

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Comentário de Eli Vieira em 14 outubro 2009 às 11:30
A wondrous piece of work, Henk.
One more thing I like about Shakespeare is his use of a sickle as a metaphor for time.

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