Regra a três

Quando estudamos a história evolutiva das espécies, suas interações ecológicas com outros indivíduos e com o meio, sua dinâmica de populações e das comunidades, podemos chegar a conclusão que uma eterna luta é travada na natureza, seja numa floresta úmida, num deserto solitário e escaldante, nas termas submarinas e ácidas ou até mesmo dentro dos nossos do corpos. Um guerra entre presa, predador, e entre indivíduos da mesma espécie, onde somente um sai vencedor…

“Não desista. Lute até o fim!”

Mas nem sempre a história é escrita dessa forma, as vezes uma trégua, é necessário para continuar a sobreviver. O termo Simbiose, foi utilizado pelo primeira vez em 1879 pelo Micologista alemão Heinrich Anton de Bary e foi definido como “organismos diferentes vivendo juntos”. Desde então o estudo dessa área veio crescendo e demonstrando que a simbiose deu origem a grandes saltos evolutivos, como o surgimento das células eucarióticas e dos cloroplastos nas plantas. O ditado popular “uma mão lava a outra” vem a calhar nesse conto, mas venho aqui para falar de seres que não possuem mãos para serem “lavadas”…

Homalodisca vitripennis

O drama da vida neste teatro evolutivo que vos apresento é encenado pela cigarra Homalodisca vitripennis, e as bactérias hospedadas em seu corpo, a Baumannia cicadellinicola e Sulcia muelleri, numa espécie de “Threesome” estes organismos convivem intimamente, e quando falo de intimidade, viver dentro do corpo de outro talvez seja o máximo de intimidade que se pode alcançar. A cigarra H. vitripennis, como diversos artrópodes que convive com endossimbiontes, possui uma estrutura corporal especializada para isso, o bacterioma, onde residem os bacteriócitos, as células que protegem as bactérias, provém nutrientes, aminoácidos necessários para sua manutenção e são transmitidas maternalmente para a prole.

A dupla de endossimbiontes: Baummania (verde) e Sulcia (vermelho)

Claro que viver junto tem suas consequências, como a redução do genoma do endossimbionte, e a inabilidade de viverem separados tanto o hospedeiro quanto o hospedado, tática utilizada para exterminar insetos que muitas vezes se tornam pragas de lavouras, ou vetores de doenças, mas os benefícios desse estilo de vida, neste caso podem ser resumidos em: A espécie Baummania sintetiza vitaminas e cofatores, enquanto a Sulcia produz alguns aminoácidos, complementando a síntese da Baummania e provendo uma fonte energética para a cigarra Homalodisca, que se alimenta do xilema de algumas plantas que não possuem tais “mantimentos” para a sobrevivência da cigarra.

Neste regra à três, diferente da música do Vinicius de Moraes “regra três”, o menos não vale mais…

Referências:

http://www.pnas.org/content/104/49/19392.full
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16729848
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC368156/
Letra da música Regra Três

Imagens: Aqui e daqui.

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7 comentários

  • L. Felipe B 4 de agosto de 2010  

    Olá Eli! obrigado pelo apontamento, já alterei no texto! se observar mais algum erro, me avise por favor.

  • Anônimo 4 de agosto de 2010  

    Olá Eli! obrigado pelo apontamento, já alterei no texto! se observar mais algum erro, me avise por favor.

  • Rodrigo Véras 3 de dezembro de 2011  

    Oi,Luiz. Eu ainda não li o artigo que vc mencionou, mas tenho a cópia de Sciam original no qual ele foi publicado. A redução do volume craniano parece ser consistente, mas mesmo que seja ela diz respeito aos últimos 10-11 mil anos e não creio que hajam evidências de pressões socio-ecológicas semelhantes em populações modernas. Por isso, concordo que as especulações de Stringer sobre aumento de eficiência cognitiva em função de diminuição das distâncias das fibras nervosas não tem qualquer suporte mais rigoroso e pode, como vc mencionou, simplesmente, ir na contramão do que se têm discutido sobre integração e processamento nervoso. Mesmo por que existem evidências de variação individual do volume cerebral em populações humanas modernas, além de estudos em neurobiologia do desenvolvimento e psicobiologia sugerirem que existem ‘regras de conexão’ estimulo-dependentes que permitem grande plasticidade e operam a partir de unidade corticais anatomicamente bem semelhantes entre si.

    Realmente, é uma assunto que faz pensar e sugere que precisamos estar mais aberto a possibilidades mais sutis.

    Abraços,

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