Para acessar os artigos relatando e analisando a descoberta de 1500 fósseis, encontrados em um sistema de caverna sul africano e atribuídos a nova espécie humana, Homo naledi, veja aqui e aqui.

Um espaço para agregar ciência e filosofia sobre evolução biológica. Contribua!

Então, anteriormente esses animais não eram bioluminescentes? Quando é dito algo do tipo "por causa do ambiente em que vivem...", não se está passando a ideia que os animais mudaram por causa do ambiente? De acordo com a reportagem (http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2014/08...), fica a impressão que os tubarões não produziam substâncias bioluminescentes e, por causa do ambiente em que vivem, passaram a produzi-las.

Ainda não li o artigo científico citado na reportagem (http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone....). Talvez no artigo não exista essa ideia.

Mas a impressão que tenho é que, o que é passado como evolução, é que o meio ambiente faz aparecer as características.

Obrigado pela ajuda, Marcos.

Exibições: 203

Responder esta

Respostas a este tópico



Rodrigo Véras disse:

Marcos, entendo a sua preocupação. A linguagem usada na divulgação científica, especialmente em sites e publicações menos especializadas, pode ser bastante ambígua e, assim, confusa. Mesmo em trabalhos científicos, por vezes, vemos uma boa dose de linguagem finalista que pode dar uma impressão equivocada sobre como a evolução se dá, mas nem sempre esse é o caso.

Lembre-e, Marcos, que afirmar que "a ideia que os animais mudaram por causa do ambiente" não é de maneira nenhuma errada, caso a analisemos de maneira cuidadosa tendo como base a moderna teoria evolutiva. O problema é que como esta formulação é um pouco ambígua, e pode ser interpretada como se essa mudança fosse diretamente instruída pelo ambiente por meio de mecanismos ditos 'Lamarckianos', ou seja, a herança de caracteres adquiridos por uso e desuso e que teriam surgido diretamente porque os organismos precisavam deles. Isso seria um erro. Contudo, este não precisa ser o caso. Afirmar 'que os animais mudaram por causa do ambiente' em geral quer dizer simplesmente que as condições ambientais serviram como pressões seletivas que favoreceram os organismos que possuíam as características destacadas, fazendo com que os indivíduos que as portassem aumentassem sua proporção na população e que isso, tendo ocorrido por gerações a fio (na medida que novos indivíduos eventualmente mostrassem variação hereditária que fosse vantajosa nestes ambientes), teria levado a evolução desta característica como a observamos hoje. Isto é, esta formulação é apenas uma forma condensada de descrever um processo de seleção natural cumulativa de variantes surgidas aleatoriamente em relação as necessidades dos organismos, mas que, uma vez presentes na população, conferiam vantagens ao incrementar aquela característica em questão permitindo que estes indivíduos deixassem mais descendentes que os demais.

Este tipo de formulação, portanto, apesar de ser um pouco ambígua, tem como grande vantagem condensar toda a explicação que eu dei. E é por isso que ela é frequentemente empregada. Claro, ela presume que as pessoas entendam como devem interpretá-la, ou seja, no contexto apropriado do princípio de seleção natural. Mas eu concordo que, por vezes, essas formulações acabam deixando um gosto por demais finalista, ou seja, dando a entender que é por causa do que estas características trazem de vantagens é que elas teriam se originado. Como se ela tivesse aparecido porque o organismo precisava dela ou porque o ambiente ditava. Isto é, elas podem dar a entender que o processo evolutivo ocorre de maneira intencional ou, pelo menos, 'Lamarckiana', no sentido mais comum do termo. Isso acontece por que nem sempre fica claro que as características originalmente surgem ao acaso, isto é, independentemente das necessidades do organismo (e neste sentido, portanto, do meio ambiente, ainda que condições ambientais possam em outro sentido estarem envolvidas em sua gênese, como no caso de fatores que aumentam as taxas de mutação, por exemplo, como radiação, agentes mutagênicos etc), mas que elas se mantém ou não na população, sendo perdidas ou amplificadas ao longo das gerações, por causa do efeito do ambiente, neste caso ao trazerem vantagens ecológico-funcionais aos indivíduos que as portam que se traduzem em termos de maior chance de sobreviver e reproduzir quando comparados aos outros indivíduos que não possuem estas mesmas características. Então, isso quer dizer que existe um processo de dois momentos: o primeiro envolve o surgimento da característica e o segundo envolve 'a sua seleção natural pelo ambiente', isto é, o fato de caso ela traga vantagens aos indivíduos que as exibem (em detrimento dos indivíduos que não as possuem), elas deveram aumentar o seu sucesso reprodutivo e assim estarão presentes em maior proporção na população nas próximas gerações caso seja herdáveis.

Resumindo, a ideia portanto seria que os ancestrais das espécies bioluminescentes atuais não eram bioluminescentes e que esta característica apesar de ter surgido originalmente ao acaso (a despeito das vantagens que poderia trazer em ambientes escuros), entretanto, passou a se amplificar na população porque trouxe vantagens aos indivíduos que a possuíam, assim como trouxeram posteriormente eventuais incrementos adicionais nesta mesma característica (que em um primeiro momento surgiram por acaso, mas que uma vez presentes em certos indivíduos) e que conferiram vantagens na sobrevivência e reprodução dos indivíduos que as exibiam.

Isto é, a escuridão (que é um fator do ambiente) teria favorecido os indivíduos que possuíam a capacidade de produzir Luz (seja por que isso ajudava na comunicação intra-específica ou na atração de presas ou na camuflagem) e, neste sentido, teria levado à evolução da característica, mas a bioluminescência não surge, em um primeiro momento, porque ela era vantajosa naquele ambiente. Isso é fundamental que fique claro, mesmo que o ambiente (de maneira geral) possa ter  tido algum papel indireto no surgimento da características, já que ele pode aumentar ou diminuir as taxas de mutação que é a fonte última de novidades evolutivas. Mas são duas coisas diferentes e que devem ser separadas, já que as mutações não surgem para ajudar o organismo ou a espécie, mas por causa de erros espontâneos do processo de replicação e reparo do DNA ou por causa de fatores que incidam sobre estes mecanismos biológicos de replicação e reparo de DNA, como certas substâncias químicas, radiação ionizante etc. Portanto, o que o ambiente não faz é induzir a tal característica porque o organismo vai precisar dela. É essa última interpretação que é a equivocada e que remete a uma suposta intencionalidade ou instrução ambiental direta. Entende?

Abraços,

Rodrigo

Responder à discussão

RSS

© 2017   Criado por Eli Vieira.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço