A Página Treze

¨ Nada na biologia faz sentido exceto à luz da evolução ¨ ( T. Dobzhansky ).

Não consigo imaginar outra frase mais adequada do que esta para caracterizar o que está escrito em um pouco mais da metade da página 13 na edição de abril-2012 da Sciam-Brasil, sob o título ¨Motoristas do Banco Traseiro¨ e assinada por Carrie Arnold. Logo no início, a primeira frase do texto demonstra como o simples ato de contar pode nos revelar tesouros ocultos de argumentação. Ei-la : ¨ O corpo humano abriga pelo menos dez vezes mais células de bactérias do que células humanas ¨. Após definir o ¨microbioma¨ a autora relata um experimento em 2010 liderado por Eugene Rosenberg (Universidade de Tel Aviv) em uma população de Drosophila pseudoobscura  bastante parecida àquela descrita no quarto parágrafo do post de Rodrigo Véras (1989-por Diane Dodd ) logo abaixo (segundo post de cima para baixo) [1], em que a população é dividida em duas e submetidas a duas dietas diferentes alterando a seleção de parceiros  quando colocadas novamente juntas em uma única comunidade: as moscas se acasalavam com outras da mesma dieta. Porém, ao serem submetidas à uma dose de antibióticos as Drosophilas voltaram a se acasalar normalmente, sugerindo que a alteração de microrganismos intestinais levou à mudança. Outro experimento, desta vez com cupins (S. Bordenstein (geneticista) e colegas) utilizando-se de administração do antibiótico rifampicina provocou uma diversidade reduzida nas bactérias intestinais dos cupins e uma redução drástica no número de ovos. Tem-se aqui novamente uma possível correlação entre os organismos multicelulares e seus microrganismos simbióticos.

Para  justificar as considerações que farei mais abaixo citarei mais um trecho do texto:

¨Estes estudos fazem parte de um crescente consenso entre biólogos evolutivos que não se pode mais separar os genes de um organismo dos de suas bactérias simbióticas. Todos fazem parte de um único hologenoma ¨.

Na ilustração no canto direito superior está escrito:

¨Somos um¨.

Desconheço quem foi o primeiro a afirmar que a ausência de informação implica em deficiências de imaginação e é incrível pensar que fatos como estes e toda a temática extensamente desenvolvida nas duas últimas mensagens de Rodrigo Véras (e em muitas outras)  contém em si um potencial explosivo de contra-argumentação aos céticos da evolução. Pode-se, por exemplo, imaginar a explosão de vida multicelular do Cambriano evoluindo na condição de ¨imersa em um mar de bactérias¨e explorar mentalmente as possíveis consequências desse fato. A seguir, olhamos para a página 13 e aí está, 9 em cada 10 de nossas células são bactérias, esse elo sempre encontrado entre nós e nossos ancestrais, com seus genomas e características próprias e de posse de uma longa história para nos contar.

Fica então a pergunta: Estaríamos diante de uma nova revolução na biologia evolutiva e do derradeiro golpe às teses de uma criação especial? Acredito que sim. E se Charles Darwin estivesse conosco ainda aqui e agora êle certamente diria: ¨Estão vendo? Eu não disse ?!”.

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Arnold, Carrie “Motoristas do Banco Traseiro” Scientific American Brasil [20 de março de 2012] edição 119 – Abril, 2012

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18 comentários

  • Anônimo 11 de maio de 2012  

    Obrigado Eduardo. Acabei de ler o texto ( datado em 22/04/2010 ). Adorei. Em especial a frase : ¨Nós não somos produtos somente da seleção de mutações ¨. Parece-me que a cada dia que passa o conceito extendido de co-evolução se faz cada vez mais evidente e provavelmente não está fora de cogitação um novo Darwin do futuro escrevendo sua obra com o título : Teoria da Co-Evolução das Espécies. Grande abraço.

  • Rodrigo Véras 29 de novembro de 2013  

    Antes que eu me esqueça, postaram no youtube uma versão legendada em português (feita pelo Luc Anderssen) da palestra do Ted da Suzana Herculano-Houzel. Enquanto a tradução oficial da TED não sai, recomendo para os que não compreendem bem inglês esta versão:



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