10 lições curtas para curar o criacionismo dos criacionistas

1) Teoria é o melhor tipo de explicação que a ciência pode produzir.

Computadores, vacinas, carros e aviões funcionam baseados em teorias científicas. E funcionam bem na medida em que essas teorias científicas explicam o mundo bem.[1]

2) A Terra é antiga.

Se ignorar toda a teoria do decaimento radioativo e fizer deduções simples baseadas no resfriamento da Terra, você vai encontrar no mínimo mais de 50 mil anos para a idade do planeta (isso foi feito séculos atrás por mais de um pensador, incluindo Isaac Newton [2]). O decaimento radioativo simplesmente mostra que o sistema solar como um todo se estabilizou como matéria há 4 540 000 000 de anos. Portanto a Terra tem no mínimo 4,54 bilhões de anos. Isso é tão estabelecido em ciência quanto a gravidade.[3]


Quem nega simplesmente é ignorante (e se quisesse negar de forma honesta e sistemática, teria que entender as teorias científicas de geocronologia, não ficar batendo na tecla de textos religiosos milenares).

3) As características dos seres vivos são passadas de geração em geração pelos genes.

Os genes são trechos de uma molécula longa chamada DNA (e temos 46 fitas longas não-circulares de DNA no núcleo de cada célula do corpo, em geral – são os cromossomos nucleares). Qualquer pessoa, usando os instrumentos adequados, pode ver que este DNA é copiado imperfeitamente ao longo das gerações. Isso significa que os genes mudam. Isso significa que os seres vivos mudam. E a implicação inescapável disso é que os seres vivos mudam coletivamente.[4]

4) As populações dos seres vivos mudam porque os organismos mudam.

A biologia tem um nome para essa mudança, e este nome é “evolução”. E por usar este nome, não quer dizer que a biologia queira dizer mais que o que já foi dito: evolução é mudança (de características das populações ao longo das gerações). Nada mais.[5]

5) Assim como uma estalactite no teto de uma caverna qualquer…

…é o resultado de microscópicas acresções de carbonato de cálcio quando a água se evapora em sua ponta, as mudanças grandes da história da vida são o resultado inevitável de mudanças pequenas nos seres vivos. Não há mecanismo de parar a macroevolução, assim como não há mecanismo para evitar que a estalactite cresça ao longo dos séculos. [6][7]


A não ser que a estalactite se quebre, ou a espécie se extinga, coisas que também acontecem naturalmente.

6) Os nativos de Ruanda, no passado, separavam seu povo em três “raças”.

Eles pensavam que cada uma dessas “raças” tinha vindo de um casal. [8] Estavam errados. Assim como os ruandeses estavam errados, os cristãos fundamentalistas estão errados ao dizer que a Humanidade veio de um único casal. Isso é geneticamente impossível. [9] Adão e Eva nunca existiram.


As teorias científicas que mostram de onde veio a Humanidade são a genética e a teoria da evolução. Ambas se complementam harmonicamente, como qualquer grande geneticista de humanos pode confirmar. Perguntem a Alan Templeton, perguntem ao octagenário Francisco Salzano da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: a resposta vai ser a mesma: a Humanidade veio de uma população africana de hominídeos, porque isso está escrito nos genes.[10]


Por que o ser humano se parece tanto com os macacos: olhos estereoscópicos, dedos preênseis, quase sempre um só bebê por gestação? Até mesmo Carl von Linné (Carlos Lineu), o inventor da classificação biológica, disse há mais de 200 anos:

“Se tivesse dito que o homem é um macaco ter-me-ia exposto à irritação de todos os eclesiásticos. Talvez devesse ter feito isso.”[2]

Qual é a explicação para dois irmãos ou dois primos serem parecidos? Qualquer pessoa em sã consciência dirá que é porque herdaram essas características de um avô ou um pai.


A analogia é a mesma em relação à espécie humana e os macacos: a melhor explicação para nossa semelhança é que temos uma espécie ancestral comum, E NÃO QUE O HOMEM VEIO DO MACACO, assim como você não veio do seu irmão nem do seu primo.

7) As teorias da cosmologia…

…que explicam o estado em que o Universo se encontrava há 13,7 bilhões de anos atrás são completamente independentes da teoria científica da evolução biológica. Uma galáxia não é uma ameba. Uma estrela não é um grão de pólen. Uma nebulosa não é uma colônia de bactérias.


Então, por favor, parem de misturar big bang com evolução biológica, de uma vez por todas. Parem de emitir certificado de ignorância de graça, não fica bem para vocês!

8 ) A teoria da evolução tem tanto a ver com o holocausto dos judeus…

…quanto a teoria atômica tem a ver com as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Teorias científicas são moralmente neutras, e podem ser usadas para o bem ou para o mal. Pode-se usar a teoria da evolução para o bem ao ressaltar que a Humanidade é única e não se divide em raças, porque é uma espécie recente (surgiu entre 150 e 200 mil anos atrás, na África).

ResearchBlogging.org

Desde que a Humanidade fabricou a primeira lança, os homens poderiam usar a lança para caçar e alimentar seus filhos ou para furar os torsos de outros homens. A lança nada tem a ver com as decisões morais humanas. A lança simplesmente funciona para estes fins. Teorias científicas simplesmente funcionam para explicar fatos da natureza.

9) Mesmo se Darwin fosse um crápula,

canibal, pedófilo, ladrão, ou assassino, isso em nada prejudicaria a teoria da evolução. Saibam separar pessoas e ideias. Os biólogos não amparam a teoria da evolução sobre a pessoa de Darwin (nem precisariam fazer isso, pois mesmo se Darwin não tivesse existido, ainda haveria outras figuras na história para descobrir a evolução biológica e o mecanismo que a causa). Teorias científicas são explicações, só precisam se amparar em experimentos e dados do mundo, e não sobre figuras de autoridade. O fato de Darwin ter sido uma pessoa com um forte senso de moralidade e ética, e um pai e marido amoroso, também não contribui para a teoria da evolução.[11]

10) Você não vai ser uma pessoa melhor nem pior se aceitar a evolução.

Aceitando, a única coisa que você ganha é estar mais informado sobre o mundo que te cerca. Não seja preconceituoso, leia textos básicos de evolução como os de Stephen Jay Gould e Ernst Mayr. Se você não gosta de ver pessoas que nunca leram a Bíblia falando dela, por que você poderia passar por cima do trabalho dos biólogos e saber a origem das espécies sem nem ao menos estudá-las?


Aceitar a evolução não vai fazer de você um ateu, porque há muitos evolucionistas que acreditam em um deus ou vários deuses. Há biólogos espalhados por todo o mundo, com criações religiosas diferentes. O motivo pelo qual todos concordam que a evolução existe é simplesmente porque eles sabem que o DNA muda, portanto os organismos mudam, portanto as populações mudam, portanto as espécies mudam.


Assim como espeleólogos sabem que o gás carbônico vira um ânion carbonato em contato com água, e se esta água for rica em cátions de cálcio e evaporar, esse ânion se unirá a este cátion por força de suas cargas, produzindo um sólido chamado carbonato de cálcio, e que o ambiente das cavernas garante que isso ocorra sem perturbações ao longo de séculos causando o crescimento das estalactites e estalagmites.


Será que sua vaidade te proíbe de estudar as conclusões dos biólogos? Pense se você agiria diferente se achasse que as estalagmites só podem ser feitas por escultores inteligentes e não por processos naturais.


Referências

[1]Gregory, T. (2007). Evolution as Fact, Theory, and Path Evolution: Education and Outreach, 1 (1), 46-52 DOI: 10.1007/s12052-007-0001-z

[2] Gribbin, John. Science: A History. Penguin, 2002.

[3]Dalrymple, G. (2001). The age of the Earth in the twentieth century: a problem (mostly) solved Geological Society, London, Special Publications, 190 (1), 205-221 DOI: 10.1144/GSL.SP.2001.190.01.14

[4] Snustad, DP & Simmons, MJ. Fundamentos de genética. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2008

[5] Ridley, M. Evolução. Porto Alegre, Artmed, 2006

[6] Short MB, Baygents JC, Beck JW, Stone DA, Toomey RS 3rd, & Goldstein RE (2005). Stalactite growth as a free-boundary problem: a geometric law and its platonic ideal. Physical review letters, 94 (1) PMID: 15698145

[7] Gee et al. (2009). 15 EVOLUTIONARY GEMS Nature DOI: 10.1038/nature07740

[8] Strickland, D. (2009). Kingship and Slavery in African Thought: A Conceptual Analysis Comparative Studies in Society and History, 18 (03) DOI: 10.1017/S001041750000832X

[9] RALLS, K., BALLOU, J., & TEMPLETON, A. (1988). Estimates of Lethal Equivalents and the Cost of Inbreeding in Mammals Conservation Biology, 2 (2), 185-193 DOI: 10.1111/j.1523-1739.1988.tb00169.x

[10] Wilson AC, & Cann RL (1992). The recent African genesis of humans. Scientific American, 266 (4), 68-73 PMID: 1566032

[11] Moore, J & Desmond, A. Darwin: A vida de um evolucionista atormentado. Geração Editorial, 2000.

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5 comentários

  • Falo com conhecimento de causa: É extremamente doloroso, muitas vezes assustador, ter que por á prova noções religiosas cultivadas durante anos. Fui criado na Igreja Adventista e, muito embora o ambiente em minha casa não fosse fundamentalista (meu pai não era religioso), convivi com muitos deles. Sempre me interessei por ciência e por conhecimento em geral, duas coisas que, arrisco dizer, a religião em geral abomina e despreza. Nunca pude expressar-me livremente a esse respeito, e minhas dúvidas permaneceram comigo. A alguns anos passei a estudar essas questões com mais afinco e me afastei da religião. Ainda acredito em Deus, mas gosto de pensar nele como um cientista supremo, não como o papai-do-céu que nos castiga por nossos próprios problemas.

  • Anônimo 1 de novembro de 2011  

    Falo com conhecimento de causa: É extremamente doloroso, muitas vezes assustador, ter que por á prova noções religiosas cultivadas durante anos. Fui criado na Igreja Adventista e, muito embora o ambiente em minha casa não fosse fundamentalista (meu pai não era religioso), convivi com muitos deles. Sempre me interessei por ciência e por conhecimento em geral, duas coisas que, arrisco dizer, a religião em geral abomina e despreza. Nunca pude expressar-me livremente a esse respeito, e minhas dúvidas permaneceram comigo. A alguns anos passei a estudar essas questões com mais afinco e me afastei da religião. Ainda acredito em Deus, mas gosto de pensar nele como um cientista supremo, não como o papai-do-céu que nos castiga por nossos próprios problemas.

  • Anônimo 5 de julho de 2012  

    Rodrigo, como poderia ser encaixada a hipótese de Gould do ¨equilíbrio pontuado ¨ na temática deste post ? Posso pensar , por exemplo, que após um período relativamente rápido nas taxas de originação que se segue à uma grande extinção haveria um período de saturação e acomodação correspondendo ao período de ¨ extase ¨ do modelo proposto. Aproveito também para formular minha conjectura : Os ritmos de diversificação, isto é, padrões quantitativos nas taxas de originação e extinção seriam bastante diferentes, isto é, maiores no ambiente terrestre quando comparado com o ambiente marinho. Achei essa idéia razoável imaginando uma possível estabilidade bem maior nos parâmetros que definem o meio ambiente ecológico dos oceanos com relação às variáveis em terra firme, estas sujeitas possivelmente à grandes flutuações dessas variáveis e com uma maior frequência.Posso estar errado, é claro, mas achei a idéia bastante interessante. Abraços.

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