É natural levar vantagem, certo?

Decisões fortuitas e fatos insignificantes podem gerar conseqüências importantes e duradouras. Em sua autobiografia, Charles Darwin diz que sua mais importante viagem ao redor do mundo (em que vasculhou a costa brasileira e reuniu indícios para a teoria da seleção natural) dependeu “de uma circunstância ínfima (…) e de uma coisa tola – o formato do meu nariz”. Gerson – o Canhotinha de Ouro – brilhou no nosso futebol dos anos 60 e 70, com visão de campo e lançamentos precisos que fizeram seus companheiros de equipe, como Jairzinho, Tostão e Pelé, grandes artilheiros. Mas foi a atuação em um comercial de TV que imortalizou seu nome na forma da lei, a “Lei de Gerson”: o importante é levar vantagem em tudo. Gerson merece ser lembrado pelo que fez de grandioso, e, não, por sua ligação acidental com a lei da falta de caráter, mas nem sempre temos controle sobre os efeitos das pequenas decisões que tomamos (um tema espetacularmente tratado no filme de Tom Tykwer, “Corra, Lola, corra”).


Desvio de recursos e malas suspeitas são noticiadas hoje com
uma novidade no Brasil, um pecado circunstancial do atual governo ou de seus partidos aliados. No entanto, além da lama sabidamente respingada na oposição, a popularidade e longevidade da Lei de Gerson derruba essa hipótese em definitivo. O caixa dois nas campanhas eleitorais é uma triste tradição, e precisamos de uma revolução cultural, tanto quanto trocar as raposas que tomam conta do nosso já pauperizado galinheiro. A ciência também tem sua equivalente da lei da vantagem, e, como a de Gerson, transcende as particularidades do aqui e agora. Segundo algumas teorias em voga entre os cientistas, “levar vantagem em tudo” pode ser uma característica intrínseca
das interações humanas, um corolário da seleção natural em populações de organismos (as chamadas “estratégias
evolutivamente estáveis”) ou até a própria lei da vida! Não escondo meu preconceito contra esses três níveis de
aplicação da canalhice nas ciências naturais, mas, antes de criticar, é preciso compreender.


Darwin tem lá sua parcela de culpa no sucesso da lei natural
da vantagem. A metáfora darwiniana da “luta pela existência” abriu caminho para uma série de equívocos, culminando no infeliz termo de Spencer, “sobrevivência do mais apto”. Se apenas o mais apto sobrevive, não é justo bancar o Dick Vigarista na maluca corrida pela vida? Darwin nunca quis dizer isso, mas o conceito pegou, embalado pelo individualismo da sociedade industrial. Sucesso reprodutivo diferencial virou sinônimo de competição desenfreada no mundo natural. Um desdobramento recente desse modo pouco generoso de ver a vida é a psicologia evolutiva (EP), que, entre outras pérolas, prega a capacidade inata que nós humanos temos de trapacear e evitar ser trapaceados. Nas palavras de John Tooby e Leda Cosmides, representantes máximos da EP, “debaixo de um nível de variabilidade superficial, todos nós partilhamos certas suposições sobre a natureza do mundo e as atitudes humanas em virtude de circuitos universais de racionalidade”. Traduzindo a fala pomposa de Tooby e Cosmides, agimos como agimos por uma dádiva (ou uma praga) da natureza, não por mera escolha. Perdoai os colegas faltosos, ó membros da CPI, pois eles não sabem o que fazem!


Os teóricos do espertalhão universal (ou seu oposto
igualmente falacioso – o humano naturalmente moral) esquecem o componente histórico tanto de organismos quanto das relações sociais entre eles, a que chamamos contingência. Sim, há muito planejamento nas interações sociais, mas os planos se sobrepõe, e, no jargão das ciências cognitivas, os comportamentos observados “emergem” de atividades contextualizadas. Uma boa analogia é o planejamento urbano. Nomes de ruas podem seguir algum padrão, facilitando a vida de quem busca o endereço. Vejam, então, o caso de um bairro da região de Venda Nova, em BH. Algum amante da literatura decidiu dar às ruas nomes das grandes penas da língua portuguesa: estão ali imortalizados Humberto de Campos, Castro Alves, Camões. Outro, mais afeito às geografias, deu a outras ruas, aleatoriamente, nomes das grandes capitais do mundo. Como se não bastasse a curiosa mistura de literatos e cidades, um terceiro administrador (eu desconfio, com algum senso de humor) entrecruzou, em meio às fileiras de capitais, uma Rua Inglaterra, uma Rua Argentina e uma Avenida Universo!

As relações que se estabelecem nas várias sociedades de
seres vivos seguem algo muito parecido, baseado na ações contingentes dos organismos – que podemos chamar de “atividade situada” – e na história particular dessas relações. Esse é o nível mais iluminador para entendemos o que acontece, e não um suposto elemento universal embutido na cabeça de cada membro da sociedade. A não ser, é claro, que queiramos responsabilizar a natureza pelas relações que estabelecemos uns com os outros, sejam elas lícitas oum ilícitas. Eu gosto de “Avenida Universo”. É um nome bem bonito, desde que todas as vias públicas não tenham esse mesmo nome, certo?

Publicado no jornal O Tempo, 07/09/05 – ver artigo também aqui.

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4 comentários

  • Beto Vianna 22 de maio de 2010  

    Oi, Eli, obrigado pelo puxão de orelha.
    Mas cuidado quando diz que faço uma leitura equivocada daquilo que, pra mim, já é uma leitura equivocada de como funcionam os organismos: por exemplo, de que “bases da mente” sejam um “corolário inescapável” de uma origem comum dos organismos.
    Que os organismos – todos eles! – têm uma origem comum é um fato consensual em ciência. Que haja correlações comportamentais particulares entre os organismos a partir desse fato deve ser investigado empiricamente, não é nenhum “corolário”.
    É claro que as pesquisas de Tooby e Cosmides são “devidamente publicadas em periódicos científicos”. Mas isso não é argumento pra nada, concorda? Não vamos começar a usar a autoridade científica (ou princípios explicativos) como argumentos, ou acabamos caindo na seara de você sabe quem.

    “Base mental” é um princípio explicativo. Não é ua investigação. O seu exemplo do “tabu universal do incesto”, por exemplo, está parado aí. Uma olhada rasa na literatura antropológica (a que estuda pessoas de verdade em todo o mundo, não aquela que pula dos “caçadores-coletores” pros “cidadãos de NY”) mostra que tabu de incesto varia de cultura pra cultura não apenas em quem ou em que parente reside o tabu, mas o que significa isso praquela cultura. Isso muda tudo. Tudo.

    Outra coisa em que discordo de você (mas não posso te chamar de equivocado, pois assumo que sou eu que estou discordando de você, e não o mundo) é sobre o Pinker. Pra mim, o conceito de mente dele é pobre e nada iluminador, pois não é mecanicista.

    O grande debate (aceito nas revistas científicas) de hoje sobre a origem da lingugem é entre Pinker e Chomsky: um debate entre dois cientistas cartesianos, que, como repetiu repetidas vezes Ernst Mayr, já devia ter morrido assim que Darwin publicou a Origem das espécies.

  • Anônimo 22 de maio de 2010  

    Oi, Eli, obrigado pelo puxão de orelha.
    Mas cuidado quando diz que faço uma leitura equivocada daquilo que, pra mim, já é uma leitura equivocada de como funcionam os organismos: por exemplo, de que “bases da mente” sejam um “corolário inescapável” de uma origem comum dos organismos.
    Que os organismos – todos eles! – têm uma origem comum é um fato consensual em ciência. Que haja correlações comportamentais particulares entre os organismos a partir desse fato deve ser investigado empiricamente, não é nenhum “corolário”.
    É claro que as pesquisas de Tooby e Cosmides são “devidamente publicadas em periódicos científicos”. Mas isso não é argumento pra nada, concorda? Não vamos começar a usar a autoridade científica (ou princípios explicativos) como argumentos, ou acabamos caindo na seara de você sabe quem.

    “Base mental” é um princípio explicativo. Não é ua investigação. O seu exemplo do “tabu universal do incesto”, por exemplo, está parado aí. Uma olhada rasa na literatura antropológica (a que estuda pessoas de verdade em todo o mundo, não aquela que pula dos “caçadores-coletores” pros “cidadãos de NY”) mostra que tabu de incesto varia de cultura pra cultura não apenas em quem ou em que parente reside o tabu, mas o que significa isso praquela cultura. Isso muda tudo. Tudo.

    Outra coisa em que discordo de você (mas não posso te chamar de equivocado, pois assumo que sou eu que estou discordando de você, e não o mundo) é sobre o Pinker. Pra mim, o conceito de mente dele é pobre e nada iluminador, pois não é mecanicista.

    O grande debate (aceito nas revistas científicas) de hoje sobre a origem da lingugem é entre Pinker e Chomsky: um debate entre dois cientistas cartesianos, que, como repetiu repetidas vezes Ernst Mayr, já devia ter morrido assim que Darwin publicou a Origem das espécies.

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