José Antonio Dias da Silva

Um Monstro Para Fundamentar o Criacionismo

Escolas fundamentalistas da Louisiana (E.U.A) estão usando o imaginário monstro do Lago Ness como real para refutar as ideias evolucionistas. Nessie é usado nos materiais de ensino como prova de que a teoria de Darwin é falsa. 

Uma editora de material didático dos EUA está distribuindo um livro de biologia que diz que o Monstro do Lago Ness é uma prova que a evolução é uma fraude.  Estudantes de escolas fundamentalistas do estado da Louisiana estão aprendendo que o monstro de Loch Ness na Escócia é real,  numa tentativa dos educadores religiosos para refutar a teoria da evolução de Darwin. Fiquei sabendo desse fato lendo a postagem “Lago Ness, criacionismo e o futuro que nos aguarda” no blog de Carlos Orsi, de onde retirei alguns trechos. 

Milhares de crianças no sul do estado vão receber financiamentos de fundos públicos para o próximo ano letivo para frequentarem escolas particulares, onde o monstro mitológico mais famoso da Escócia será ensinado como uma criatura viva e real. Estas escolas privadas seguem um currículo fundamentalista, incluindo o  programa Educação Cristã Acelerada (Accelerated Christian Education ou ACE, sigla em inglês) que foi elaborado com a finalidade de ensinar controversas crenças religiosas que visam desmentir a evolução e provar o criacionismo. Em princípio, os ensinamentos desse programa querem provar que os dinossauros caminharam sobre a Terra na mesma época que o homem, mostrando que o darwinismo é uma teoria fatalmente defeituosa.

“A ideia geral que os criacionistas parecem querer usar é a de que, se houvesse provas de que dinossauros e seres humanos coexistiram, então o registro fóssil, como é interpretado hoje, não seria digno de confiança — e não seria mesmo”, diz Carlos Orsi em seu blog.  ” O argumento só funciona caso haja provas de que seres humanos viviam na época dos dinossauros, isto é, antes de a espécie humana ter tido tempo de evoluir, segundo a cronologia ortodoxa. A eventual sobrevivência de dinossauros até os dias atuais não contradiz em nada a teoria da evolução.”, diz Orsi.

 

Outras informações que eu retirei do blog de Carlos Orsi:

“Em 2003, foi descoberta, na margem do lago, a vértebra fossilizada de um plessiossauro. O problema é que o fóssil estava incrustado em rochas de um tipo que não existe na região, sugerindo que algum espertinho o carregara até lá. E, em 2005, um pedaço de chifre de alce foi apresentado como um “dente” do monstro.”

“O que finalmente cimentou a imagem popular de Nessie como um sáurio aquático — imagem que inspirou a fraude de 2003 — foi a chamada “foto do cirurgião”, feita pelo ginecologista Robert Wilson em abril de 1934. Em seu livro The Loch Ness Mystery Solved, publicado em 1984 e geralmente considerado a melhor fonte sobre a “criatura”, Ronald Binns escreve que um dos filhos de Wilson disse, anos mais tarde, que a foto tinha sido uma fraude. Em 1994, dois pesquisadores relataram que a fraude havia sido orquestrada por Christopher Spaulding e Marmaduke Wetherell, com o Dr. Wilson atuando de fotógrafo. O “monstro” é, na verdade, um submarino de brinquedo com uma cabeça de massa de modelar”.

“Finalmente, em 2003, a BBC realizou uma varredura de todo o volume do lago com sonar, e não encontrou nenhum sinal de um grande animal vivendo ali. No mesmo ano, o maratonista e ex-jogador de futebol inglês Lloyd Scott percorreu a extensão do leito do lago a pé, usando um escafandro — num percurso de 12 dias– e não encontrou nada de monstro.”

Os críticos têm condenado o conteúdo dos livros didáticos, chamando-os de “bizarro” e acusando-os de promover ideologias religiosas e políticas radicais. O pesquisador e escritor Bruce Wilson, de Boston,  especialista em direito político religioso americano, compara o currículo destas escolas com o ensino fundamentalista islâmico. Wilson acredita que este tipo de ensino está acontecendo em pelo menos 13 estados norte-americanos.

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Para saber mais:

Onde Ensinam a Ter Fé na “Ciência” do Criacionismo

Lendo a edição de domingo (17/06/2012) do jornal O Dia me deparei com uma nota na coluna do jornalista Fernando Molica a qual  muito me impressionou. Dizia a nota:

“Um ponto do currículo mínimo de Biologia da Secretaria Estadual de Educação para o primeiro ano do Ensino Médio é visto com desconfiança por cientistas. O item daria margem ao ensino do chamado “criacionismo” ao propor que versões religiosas sobre a criação do mundo e da vida sejam tratadas em aulas. O currículo prevê o reconhecimento da existência ‘de diferentes explicações para a origem do universo, da Terra e da vida’. Essas visões devem ser relacionadas ‘a concepções religiosas, mitológicas e científicas de épocas distintas”.

Isso rapidamente me remeteu a uma outra matéria que saiu a cerca de dois anos no mesmo jornal: 59% dos brasileiros acreditam no criacionismo, diz pesquisa.  

A maior parte dos brasileiros acredita que o ser humano é fruto de uma evolução guiada por Deus, segundo pesquisa Datafolha publicada no jornal Folha de S.Paulo. De acordo com a pesquisa, 59% acreditam nessa tese, contra 25% que acreditam no criacionismo (tese que afirma que o homem foi criado por Deus há menos de 10 mil anos) e 8% de evolucionistas (que não acreditam em interferência divina na criação do homem). A pesquisa entrevistou 4.158 pessoas com mais de 16 anos, com margem de erro de 2%.”

De acordo com a pesquisa, a crença na criacionismo é maior entre os entrevistados com menor renda e escolaridade. O número de evolucionistas, que acreditam apenas na teoria da evolução proposta por Charles Darwin, aumenta na proporção inversa, sendo maior entre aqueles com maior renda e escolaridade. De acordo com o jornal, os dados são próximos àqueles adquiridas nas nações européias, pois uma pesquisa de 2005 do instituto Eurobarômetro mostra que o número de criacionistas é próximo dos 20%.

Nos Estados Unidos, uma pesquisa apurada pelo instituto Gallup e citada pelo jornal mostra que o número de criacionistas puros é de 44%, enquanto os que acreditam em uma evolução guiada por Deus são 36% e os evolucionistas são 14%. A adesão ao criacionismo bíblico é maior entre os umbandistas (33% e evangélicos pentecostais (30%), de acordo com a pesquisa, ainda que o número de devotos das religiões que pregam essa teoria não passe de 25%, segundo o jornal.”

Pesquiso mais um pouco e leio na edição de 11 de fevereiro de 2009 da revista Veja:

“À época em que governava o Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho tentou implantar aulas de religião com viés criacionista nas escolas do estado. Em abril de 2004, a governadora chegou a declarar publicamente que não acreditava na teoria da evolução. O projeto causou polêmica, principalmente entre a comunidade científica, e foi oficialmente implantado, mas não vingou”.

Resolvi ir mais além na leitura da matéria:

“Embora as escolas evangélicas brasileiras procurem conciliar as ideias darwinistas com o criacionismo, a verdade é que, para os defensores da versão bíblica da criação do mundo, a teoria da evolução representa um inimigo a ser combatido a todo custo. Nos Estados Unidos, a oposição ao darwinismo se tornou uma guerra que frequentemente chega aos tribunais. Nos últimos anos, muitas escolas americanas de ensino fundamental e médio simplesmente substituíram os ensinamentos de Darwin pelo criacionismo nas aulas de ciências e de biologia. Duas dezenas de estados americanos já criaram leis que obrigam os colégios a ensinar o criacionismo ao lado da teoria da evolução. O último deles foi a Louisiana, em junho do ano passado. A manobra é constantemente motivo de processos judiciais por parte de pais de alunos – que em geral são derrotados nas decisões dos juízes.

Os criacionistas americanos se reúnem em organizações influentes e com forte lobby político. De tempos em tempos eles aperfeiçoam seu arsenal de argumentos para desqualificar Darwin. Um dos mais recentes é que certos elementos da natureza são tão complexos que só podem ter sido criados por uma inteligência superior. Como o olho humano. No reino animal, um bom exemplo de design inteligente é o besouro-bombardeiro, chamado de “o besouro de Deus”. Comum em várias regiões do mundo, esse artrópode é dono de um sistema de ataque que lembra uma complexa arma militar. Duas bolsas localizadas em seu abdômen armazenam, separadamente, água oxigenada e hidroquinona, substâncias que entram em ebulição ao ser misturadas. Diante do predador, o besouro abre uma câmara de combustão e mistura os dois líquidos. Depois comprime a bolsa, disparando a solução tóxica por meio de um jato fortíssimo.

Os evolucionistas explicam que as substâncias que o besouro armazena são comumente produzidas por artrópodes, como também são corriqueiras nesses animais as vesículas de reserva de líquidos. Por acaso, ao longo da evolução, líquidos e bolsa se concentraram numa determinada espécie. De qualquer forma, a ideia de que os seres vivos são o resultado de um planejamento cuidadoso realizado por um designer inteligente não resiste ao menor exame. Veja o exemplo do engasgo, que pode levar uma pessoa à asfixia e à morte. Os seres humanos engasgam porque têm a laringe em posição muito baixa na garganta, se comparada à dos chimpanzés e à da maioria dos mamíferos. Esse arranjo adaptativo permite a modulação dos sons e, por consequência, a fala. É excelente do ponto de vista da sobrevivência da espécie, mas atrapalha quando se trata de respirar e comer ao mesmo tempo. Se o homem tivesse tido um designer mais inteligente, esse problema teria sido evitado com a simples colocação das tubulações – a da respiração e a da alimentação – bem distante uma da outra. É por isso que o biólogo Francisco Ayala, da Universidade da Califórnia, definiu a seleção natural como o “design sem um designer”.

“A mais recente estratégia dos criacionistas americanos para implantar os dogmas da Bíblia nas aulas de ciências das escolas públicas é sustentar o discurso de que a liberdade acadêmica deve ser preservada a qualquer custo”, diz a revista Veja. E acrescenta: “O texto da lei que tornou obrigatório o ensino do criacionismo nas escolas da Louisiana afirma que é preciso “ajudar os professores a criar nas escolas um ambiente que promova o pensamento crítico, a análise lógica e a discussão objetiva das teorias científicas”. Além disso, diz a lei, “deve-se incentivar os alunos a analisar com objetividade as teorias estudadas”. São sábios conselhos, ninguém duvida. Apenas não estão a serviço do aperfeiçoamento das instituições acadêmicas, mas das aspirações dos criacionistas de universalizar suas ideias nas salas de aula.”

O conceito de liberdade acadêmica foi o tema central do primeiro filme destinado a panfletar as ideias criacionistas, Expelled: No Intelligence Allowed, lançado nos Estados Unidos em 2008 (e massacrado pela crítica). O filme denuncia uma suposta conspiração por parte da comunidade científica americana contra o criacionismo. Uma pesquisa recente da Universidade da Pensilvânia mostrou que, nos Estados Unidos, um em cada oito professores do ensino médio apresenta o criacionismo a seus alunos como “uma alternativa cientificamente válida para a explicação darwinista sobre a origem das espécies”. No Brasil, não existem estatísticas sobre o assunto, mas, pelo avanço criacionista nas aulas de ciências das escolas evangélicas, pode-se apostar que os dogmas da Bíblia estão em alta no meio educacional.” diz a matéria da Veja.

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Para saber mais:

Créditos das Figuras:

PAUL D STEWART/SCIENCE PHOTO LIBRARY
PAUL D STEWART/SCIENCE PHOTO LIBRARY
EYE OF SCIENCE/SCIENCE PHOTO LIBRARY

Os Impactos Atuais do Darwinismo: “Evolução” de Brian e Deborah Charlesworth, da L&PM

“Há menos de 450 anos, todos os estudiosos europeus acreditavam que a Terra era o centro de um universo de, no máximo, alguns milhões de quilômetros de extensão e que os planetas, o Sol e as estrelas giravam em torno desse centro. Há menos de 250 anos, eles acreditavam que o universo havia sido criado, basicamente em sua forma atual, há cerca de 6 mil anos, embora, na época, se soubesse que a Terra orbitava ao redor do Sol como os outros planetas e um universo de dimensões muito maiores fosse amplamente aceito. Há menos de 150 anos, prevalecia entre os cientistas a idéia de que a Terra em seu estado atual é produto de, no mínimo, dezenas de milhões de anos de transformações geológicas, mas ainda predominava a crença de que Deus criou todos os seres vivos.

Em menos de 500 anos, a utilização implacável do método científico de inferência com base na experimentação e na observação, sem recorrer à autoridade religiosa ou governamental, transformou por completo o modo como concebemos nossas origens e nossa relação com o universo. Além da fascinação intrínseca à visão do mundo revelado pela ciência, isso teve um enorme impacto sobre a filosofia e a religião. As descobertas da ciência indicam que os seres humanos são produto de forças impessoais e que o mundo habitável é uma parte minúscula de um universo de imenso tamanho e duração. Independentemente das crenças religiosas ou filosóficas de cada cientista, todo o programa de pesquisa científica baseia-se no pressuposto de que o universo pode ser compreendido nesses termos.”

 

O que vocês leram nos parágrafos anteriores são trechos do primeiro capítulo do livro “Evolução“, da série “Encyclopaedia“, de autoria dos pesquisadores Brian e Deborah Charlesworth, lançado recentemente pela editora L&PM Pocket.  A teoria do naturalista britânico Charles Robert Darwin ultrapassou o campo das ciências naturais e se estendeu pelas ciências humanas e por toda a cultura contemporânea. Hoje, a teoria da evolução é um dos temas mais debatidos entre religiosos e cientistas. Para além da teoria evolucionista, o livro demonstram como a evolução opera em nossas vidas a partir de exemplos práticos, como as bactérias que se tornam resistentes a antibióticos ou o aumento da longevidade dos seres humanos. 

“Todos os organismos existentes na atualidade são os descendentes de moléculas autorreplicantes que se formaram por meios puramente químicos há mais de 3,5 bilhões de anos. As formas sucessivas de vida foram produzidas pelo processo de “descendência com modificação”, como o chamou Darwin, e estão relacionadas umas às outras por uma genealogia ramificada, a árvore da vida. Nós, seres humanos, somos mais próximos dos chimpanzés e dos gorilas, com quem tivemos um ancestral em comum há 6 ou 7 milhões de anos. Os mamíferos, o grupo ao qual pertencemos, e as espécies existentes de répteis divergiram de um mesmo ancestral há cerca de 300 milhões de anos. A origem de todos os vertebrados (mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes) remonta a uma pequena criatura similar a um peixe que carecia de espinha dorsal, que existiu há mais de 500 milhões de anos. Recuando ainda mais no tempo, torna-se cada vez mais difícil discernir as relações entre os principais grupos de animais, plantas e micróbios; porém, conforme veremos, seu material genético apresenta claros sinais de ancestralidade comum”, dizem os autores em outro trecho do capítulo inicial do livro.

O propósito do livro é apresentar ao leitor alguns dos mais importantes conceitos, procedimentos e descobertas elementares da biologia evolutiva, assim como seus avanços desde as primeiras publicações de Darwin e Wallace sobre o assunto, há mais de 140 anos. A evolução fornece um conjunto de princípios unificadores para toda a biologia; também ajuda a compreender a relação dos seres humanos com o universo e uns com os outros. Além disso, vários aspectos da evolução têm importância prática; por exemplo, a rápida evolução da resistência de bactérias a antibióticos e do HIV a drogas antivirais impõe problemas prementes à medicina.

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  • Charlesworth, Brian e Charlesworth, Deborah EVOLUÇÃO [Tradução de Janaína Marcoantonio] Porto Alegre: Coleção L&PM Pocket; 1° edição, 2012. 176 páginas – ISBN 978-85-254-2659-8

A Vida Dura da Biologia Evolutiva na União Soviética Comunista

Descobri por acaso o blog Biologia do Envolvimento do biólogo Eduardo Bouth Sequerra, formado pela UFRJ, doutor pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho e ,atualmente, pesquisador da Universidade da Califórnia (EUA). Fiquei lamentando não ter descoberto esse blog mais tempo, pois certamente estaria cheio de assuntos. O interessante é que o cara se autodeclara um lamarckista ( seu lema é “minha veia lamarckista pulsa!”) e vive postando matérias que enfatizam as idéias de Lamarck na biologia cotidiana. Mas a razão dessa postagem não é para falar de idéias lamarckistas. É para divulgar o trabalho de biologia evolutiva desenvolvido por Ivan Schmalhausen (foto) durante o regime comunista da União Soviética na década de 1940.

“Existem muito poucos textos traduzidos deste autor“, diz Eduardo Sequerra em seu blog.

O seu único livro traduzido para o inglês chama-se ‘Fatores da evolução: A teoria de seleção estabilizadora’. Este também não é um livro muito fácil de achar. A rede de bibliotecas da Universidade da Califórnia não o tem mas acabei encontrando pra vender na internet. Ele foi publicado em 1946 na União Soviética e a tradução para o inglês foi publicada em 1949. Naquela época, a síntese neo-darwinista ignorava o papel da embriologia para a evolução. A teoria de herança mendeliana tinha muita força e já que os alelos davam origem ao fenótipo, seja lá o que acontecesse durante o desenvolvimento seria somente a leitura de uma mensagem pré-estabelecida. O grande conceito introduzido por Schmalhausen neste livro, como o próprio título diz, é o de seleção estabilizadora.” De acordo com Schmalhausen  “as seleções dinâmica e estabilizadora sempre atuam juntas. Por um lado, o ambiente externo muda gradualmente mas continuamente de maneira que o papel dinâmico da seleção e as variações herdáveis da norma possam ser detectadas. Por outro lado, o lento processo de seleção estabilizadora está o tempo todo causando surgimento de mecanismos reguladores que protegem a norma de distúrbios por influencias externas.

 A vida de um biólogo na antiga União Soviética não era lá das mais fáceis.

Uma das consequências do capitalismo sobre o pensamento biológico ocidental foi a criação de um individualismo excessivo“, diz o autor do blog. “Tudo para a biologia ocidental é a sobrevivência do mais forte até que atingimos o auge com a publicação nos anos 70 da ideia de que o importante mesmo é o gene e nós somos simples máquinas de replicar genes, o indivíduo dentro do indivíduo (a idéia é anterior na verdade mas ficou popular com “O gene egoísta” de Richard Dawkins). Isso tem tudo a ver com os conceitos capitalistas de liberdade individual e propriedade privada“, acrescenta Sequerra.

Na União Soviética comunista havia um tal de Lysenko.

O Lysenko era um cientista de origem humilde, o que era muito valorizado pelo partido comunista que tinha como princípio substituir a elite intelectual russa por uma nova inteligência, vinda do proletariado. O Lysenko propôs o conceito de vernalização que era um método onde ele conseguia através do tratamento de sementes importadas, fazer com que qualquer planta crescesse nas frias condições russas através de um simples tratamento com frio. Mas a verdade é que o Lysenko inflava os resultados positivos e ignorava os negativos. A ideia de que ele conseguia impor a herança de um caractere adquirido às plantas cultivadas (a resistência ao frio) era oposta à ideia de herança genética. Assim, o Lysenko, que lá pelas tantas já tinha se infiltrado no partido e era muito forte politicamente, iniciou uma caça aos geneticistas. Segundo o próprio, estes acreditavam em “uma substancia hereditária mítica-endossada por Weissman com características de existência contínua, sem experimentar o desenvolvimento, e ao mesmo tempo controlando o desenvolvimento de um corpo perecível.”.

Em agosto de 1948, o ministro da educação superior da URSS assinou uma série de ordens que em resumo causou a destruição da disciplina genética naquele país. Nesta época, Schmalhausen era professor de darwinismo na Universidade de Moscou e diretor do Instituto pela Morfologia Evolutiva. Ele foi imediatamente demitido e teve seus livros e projetos científicos destruídos. Lysenko utilizou trechos do “Factors of Evolution” para se referir a Schmalhausen como um pro-Morganista (Morgan foi o primeiro a publicar uma síntese Darwin-Mendeliana), idealista genético. Diferente de muitos geneticistas de carreira que foram presos e/ou desapareceram, Schmalhausen era um morfologista e conseguiu se estabelecer novamente como pesquisador sênior Instituto de Zoologia da Academia de Ciências pesquisando anatomia e embriologia comparadas de peixes e anfíbios. Mas ele morreu em Moscou em 1963, antes de ver a queda de Lysenko em 1965 e a retomada da genética na União Soviética.

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 Para saber mais: 

Ivan Ivanovich Schmalhausen e a dura vida da biologia evolutiva durante o regime comunista da União Soviética


Evolução Em Tempo Real

O médico-geneticista Dr. Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é responsável por uma série de estudos sobre a composição genética da população brasileira. Internacionalmente conhecido por seu talento e rigor científico, Danilo Pena escreveu durante 5 anos  na coluna “Deriva Genética” criado por ele para a Ciência Hoje On-Line onde discutia temas de genética e evolução.  A partir das crônicas científicas da coluna nasceu o brilhante  livro de ensaios intitulado A Flor da Pele – Reflexões de um Geneticista (Ed. Vieira & Lent, 2007), do qual destaquei um tópico que dá o título  a esta postagem. No capítulo 12 do livro (Darwin: o super-herói), o autor ao destacar a genialidade de Darwin, nos brinda com um exemplo magistral de como podemos contemplar a evolução por seleção natural em tempo real

Diz o professor Danilo Pena:

“Muita gente pensa que evolução por seleção natural é algo hipotético, na qual a pessoa pode acreditar ou não. Pelo contrário, a evolução darwiniana hoje é uma verdade científica. Poucas teorias científicas  conseguiram amealhar tanta evidência a seu favor. Em alguns casos, nós podemos observar a evolução darwiniana ocorrendo bem em frente dos nossos olhos!”

E cita como exemplo a pandemia de Aids, um dos maiores flagelos atuais da humanidade. Segundo o geneticista, a Aids nos dá a oportunidade única de ver a evolução natural ocorrendo em tempo real porque o vírus  causador da síndrome, o vírus HIV,  replica-se  com enorme rapidez e também  porque a enzima responsável por isso, a transcriptase reversa, é predisposta a erros. Em conseqüência, o HIV está constantemente sofrendo mutações, gerando no paciente um enxame de variantes virais sujeitas às forças da seleção natural.

“Quando um medicamento anti-HIV entra na corrente sangüínea, a seleção natural favorece as variantes  resistentes do vírus, que então sobrevivem, se multiplicam e passam a predominar em pouco tempo”, explica Danilo Pena. ” Este processo darwiniano é basicamente o mesmo que ocorreu nas centenas de milhões de anos  da evolução da vida  na terra, só que agora é medido em dias e horas. Não há desenho nem direcionalidade, apenas as forças combinadas do acaso e da necessidade gerando cepas cada vez mais resistentes.”

Uma estratégia para tentar driblar  esse processo de seleção é o uso concomitante de vários fármacos anti-retrovirais com alvos diferentes, a chamada terapia tríplice. Assim, para sobreviver, o vírus precisaria ter múltiplas resistências simultaneamente, o que é muito improvável. Mais recentemente passou-se a adotar o “tratamento de interrupções estruturadas” da Aids ao invés da terapia medicamentosa, pois foi constatado que na presença dos medicamentos as cepas resistentes predominavam, mas algumas cópias do vírus infectante original não-resistente (o chamado tipo selvagem) sobreviviam nos linfócitos. Ao suspender os medicamentos, a vantagem seletiva das cepas resistentes desaparece e o tipo selvagem, melhor adaptado a esse ambiente sem fármacos, começam a se replicar com enorme velocidade e logo substitui as mutantes resistentes. Como o próprio Dr. Sérgio Pena atesta, essa nova arma na guerra contra a Aids é alicerçada ortodoxamente em princípios darwinianos.

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Para saber mais: 

Deriva Genética – Coluna da CH On-Line entre fevereiro de 2006 e janeiro de 2011

A Genética e a Ancestralidade do Brasileiro- Blog Biorritmo (20/05/2010)

Darwin: o super-herói por Sérgio Danilo Pena

Pena,S. D.,2007. À flor da pele: reflexões de um geneticista. Rio de Janeiro: Vieira & Lent. 112 p.

Crédito das figuras:

THOMAS DEERINCK, NCMIR/SCIENCE PHOTO LIBRARY
THOMAS FESTER/SCIENCE PHOTO LIBRARY

Abrindo o Armário de Darwin

Ao acessar o portal iG nesta quarta-feira (18/01/2012) me deparei com uma notícia realmente interessante (para aqueles que se interessam por evolução, é claro). Dizia a reportagem:  

“Vários fósseis recolhidos pelo naturalista inglês Charles Darwin no século XIX, tidos como desaparecidos, foram encontrados em um armário da instituição científica British Geological Survey, informou nesta terça-feira a rede de televisão ‘BBC’.Trata-se de amostras de fósseis recolhidos por Darwin durante sua histórica viagem com a embarcação “Beagle” em 1834, quando começou a desenvolver a teoria da evolução.

Os fósseis do cientista foram encontrados ao lado de outras amostras, que há mais de 160 anos tinham sido depositadas no mesmo armário, situado nos porões desse centro de ciências geológicas da localidade de Keyworth, no centro da Inglaterra.

O responsável pelo achado foi o paleontólogo Howard Falcon-Lang, da Universidade de Londres, que se aproximou do móvel ao ver que havia umas gavetas com o rótulo de “plantas fósseis não registradas”.

“Dentro havia centenas de lâminas de vidro com amostras de fósseis de plantas, que eram polidas em folhas transparentes para serem examinadas sob o microscópio”, explicou o cientista. “A primeira que peguei já estava etiquetada com o nome de Darwin”, acrescentou.

Estes fósseis de Darwin “se perderam” porque um amigo do cientista, o botânico Joseph Hooker, que estava encarregado de sua classificação durante uma breve estadia no British Geological Survey em 1846, se esqueceu de introduzi-las no registro da instituição.

As amostras redescobertas foram fotografadas e serão expostas ao público através de internet, indicou a rede de televisão BBC”.

Relembro que, nos meus tempos de universitário, o diretório acadêmico do meu curso de ciências biológicas chamava-se Charles Darwin. Eu achava estranho aquela homenagem, uma vez que, como todo jovem estudante do meu tempo, tinha na cabeça a imagem equivocada de Darwin como sendo um mero naturalista inglês que enunciou a lei da Seleção Natural, popularizando a idéia da “sobrevivência dos mais capazes”. Hoje, sei  que Darwin combinava perfeitamente o espírito do explorador com o do cientista, fazendo a correlação entre várias áreas do conhecimento humano, processo chamado atualmente de interdisciplinaridade.. 

Em suas viagens, especialmente pela América do Sul, Darwin percebeu que existia  uma profunda  relação entre a história dos seres vivos e a história geológica da Terra. Ele conhecia as idéias do geólogo Charles Lyell, que afirmava que as variações geológicas da terra ocorriam de forma extremamente lenta. 

Darwin descobriu conchas marítimas a 4.000 metros de altitude, confirmando a lenta evolução da Cordilheira dos Andes e o conseqüente isolamento da fauna  em ambos os lados  do maciço montanhoso, que hoje separa a Argentina e o Chile. Esse isolamento geográfico, extremamente antigo, proporcionou tempo de sobra para que várias espécies de cada lado da cordilheira evoluíssem de forma diversa. Darwin concluiu não só que o mundo era bem mais velho do que se imaginava, mas também que os seres vivos sofriam lentas modificações com o tempo.

Espero que apareçam novos “tesouros perdidos” da coleção de Darwin e que novos armários sejam a bertos, no sentido de abrilhantar ainda mais a figura desse memorável cientista.

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Para saber mais:

Paleontólogo encontra armário de fósseis “perdidos ” de Darwin. portal iG . Acesso em 18/01/2012

Charles Darwin e o método científico. Blog Biorritmo. Acesso em 21/01/2012

Bizzo, N. 2008. Darwin-do telhado das Américas à teoria da evolução. Odysseus editora. 229 p.

Créditos das figutras:

SMETEK/SCIENCE PHOTO LIBRARY
NATURAL HISTORY MUSEUM, LONDON/SCIENCE PHOTO LIBRARY
PAUL D STEWART/SCIENCE PHOTO LIBRARY

Lamarck Não Jogava Conversa Fora

Um ensaio publicado na revista Ciência Hoje Nº 285, sob o título de “Lamarck: fatos e boatos”,  revisita o legado de naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829), ou simplesmente Lamarck, para a história da ciência e tenta desfazer a imagem de coadjuvante da Teoria da Evolução atribuída a este personagem. Segundo a revista, Lamarck também contribuiu para o desenvolvimento do que conhecemos hoje como teoria da evolução , mas alguns autores, ao tentar resumir as ideias desse naturalista, omitem algumas informações e distorcem outras, criando assim ‘boatos’ sobre seu verdadeiro papel. De acordo com o artigo da Ch 285, os dois maiores boatos criados a respeito de Lamarck são:

¨1) suas ideias evolutivas se resumiam a duas leis, e

 2) o inglês Charles Darwin (1809-1882), um dos autores da moderna teoria da evolução, se opôs a essas leis”.

“Assim, diante da pergunta Quem foi Lamarck?’, um aluno de ensino médio pode responder ‘Foi o cara do pescoço da girafa’, ou até ‘Foi o cara que dizia o contrário de Darwin’.”

Essas respostas, e outras com conteúdo semelhante, permanecem vivas não apenas na boca dos alunos, mas também na de certos professores e no texto de alguns livros didáticos, diz o texto do artigo. Na verdade,  contradição entre Lamarck e Darwin, tão propalada em textos didáticos, é um boato, tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista teórico, conforme esclarece os autores ao longo do artigo.

No livro Philosophie zoologique (Filosofia zoológica, de 1809), Lamarck fundamentou sua teoria em duas leis, conhecidas como ‘uso e desuso’ e ‘herança dos caracteres adquiridos’. Já em Histoire naturelle des animaux sans vertèbres (História natural dos animais invertebrados, lançado em partes de 1815 a 1822), as leis passaram a ser quatro. Para melhor compreender a teoria lamarckiana, os autores do ensaio preciso analisar essa última versão. Acompanhem o relato dos autores a seguir.

“A primeira das quatro leis (‘tendência para o aumento da complexidade’) surgiu apenas no segundo livro e foi enunciada como uma tendência, de todos os corpos, para aumentar de volume, estendendo as dimensões de suas partes até um limite que seria próprio de cada organismo.

Lamarck, tentando fornecer evidências empíricas para essa lei, fez uma analogia entre organismos mais simples e mais complexos e as fases de desenvolvimento de um organismo (do ovo ao adulto), visando demonstrar que, assim como um ovo se modifica e se torna um embrião, evidenciando um aumento da complexidade, os organismos mais complexos também teriam surgido a partir dos mais simples. Portanto, segundo o naturalista, a vida tinha o poder de aumentar o volume e as estruturas do corpo”.

“Sobre a segunda lei (‘surgimento de órgãos em função de necessidades que se fazem sentir e que se mantêm’), Lamarck disse, em Filosofia zoológica, que os hábitos e as circunstâncias da vida de um animal eram capazes de moldar a forma de seu corpo.

Em História natural, afirmou que as antenas dos gastrópodes (como os caracóis) teriam surgido por ação dessa lei. Gastrópodes mais simples, explicou, diante da necessidade de sentir os objetos à sua frente, teriam concentrado ‘fluidos nervosos’ na região anterior do corpo, e estes, juntamente com outros fluidos corporais, estimularam a formação de novas estruturas, tecidos e órgãos.

Essa segunda lei gerou uma discussão sobre o sentido em que Lamarck usou a palavra francesa volonté. Esta é muitas vezes traduzida como ‘desejo’, mas uma melhor tradução seria algo como ‘ação gerada por uma necessidade’, e não ‘ação gerada por um desejo’.”

Parece claro que Lamarck não se referia a um ‘desejo’, porque ele mesmo afirmava que “nem todos os animais têm a faculdade de sentir” (referindo-se a esponjas e águas-vivas, que não têm sistema nervoso) – se não sentem, não podem ter desejo. Se, para Lamarck, a diferenciação dos animais mais simples não ocorria por desejo, mas por uma necessidade fisiológica, essa última tradução para volonté seria mais apropriada.”

“A terceira lei da teoria lamarckista (‘desenvolvimento e atrofia de órgãos em função de seu emprego’, ou ‘uso e desuso’) tinha sido apresentada como primeira na Filosofia. Lamarck disse que essa lei seria inútil, assim como a segunda, se os animais estivessem sempre nas mesmas condições. No entanto, se em determinado local ocorressem mudanças e estas criassem, para os indivíduos que viviam ali, a necessidade de modificar seu comportamento, então esses indivíduos teriam que usar mais ou menos certas estruturas e isso levaria a alterações físicas.”

“Evidências da operação dessa lei foram apontadas por Lamarck. A ausência de dentes nos tamanduás, por exemplo, seria explicada pela falta de uso e consequente atrofia e desaparecimento, assim como os vestígios de dentes em fetos de baleias (exemplos de ‘desuso’).Nesse caso, indivíduos da mesma espécie que habitassem ambientes diferentes, nos quais as mudanças fossem desiguais, não teriam as mesmas necessidades, o que levaria à formação de grupos também diferentes, gerando as raças. Portanto, essa lei explicaria como as mudanças no ambiente produziriam a diversidade observada nos seres vivos.”

“Já as girafas, que passam longos períodos se alimentando de folhas das copas de árvores altas, esticariam as pernas e o pescoço para alcançar seu alimento, o que teria levado ao crescimento dessas estruturas, e os quadrúpedes que pastam por longos períodos de tempo adquiririam cascos para sustentar um corpo muito pesado (exemplos de ‘uso’).”

“Quanto à quarta lei (‘herança do adquirido’), Lamarck não se empenhou em sua demonstração ou defesa, já que essa ideia, muito comum no meio filosófico-científico desde Hipócrates (460-377 a.C.), era aceita entre os naturalistas do século 19. Ele não se preocupou em propor um mecanismo alternativo para a herança, apenas aceitando o que era o senso comum sobre hereditariedade em seu tempo.”

Para finalizar, acrescento uma passagem importante do artigo que diz:

“Lamarck foi o primeiro pesquisador a elaborar um sistema teórico completo para defender e tentar explicar a evolução biológica. Fez isso com base apenas em fenômenos naturais (leis físicas), sem lançar mão de forças imateriais (como ‘alma’, ‘princípio ativo’ e outras) ou entidades transcendentais como um deus (criacionismo). […] A contradição entre Lamarck e Darwin encontra-se, de fato, nas duas primeiras leis da teoria lamarckista – ‘tendência para o aumento da complexidade’ e ‘surgimento de órgãos em função de necessidades’. A grande revolução da teoria darwiniana foi entender a especiação como processo de conversão da variação entre indivíduos, dentro de uma população, em variação entre populações diferentes, no tempo e no espaço.”

Adaptado de Lamarck: Fatos e Boatos , artigo publicado na seção ‘Ensaio’ da CH 285 (setembro/2011).

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Para saber mais:

RODRIGUES, Rodolfo Fernandes da Cunha; SILVA, Edson Pereira da. Lamarck: Fatos e boatos. Ciência Hoje, São Paulo, n. 285, p.68-70, 26 set. 2011. Disponível em: . Acesso em: 16 jan. 2012.

Créditos das figuras:

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A Terceira Onda de Extinção

Li uma matéria na Revista Planeta nº448 (Editora Três) e fiquei, ao mesmo tempo, maravilhado e indignado por saber que estamos vivendo a terceira onda de extinção. Mas não é qualquer ondinha, não. Trata-se de uma verdadeira  tsunami exterminadora de espécies viventes do nosso planeta, engendrada pela mais cruel das criaturas: o bicho-homem. Achei tão interessante o texto que resolvi publicá-lo (de uma forma adaptada no meu blog, o Biorritmo. Vejam como ficou o texto após a adaptação: 

Iniciada em 1970, a terceira onda de extinção está em andamento e, dependendo da perspectiva de cada cientista, deve, nos próximos 30 anos, responder pelodesaparecimento de cerca de 20% a 50% das espécies vivas. Entre elas há grandes predadores, como o tigre; primatas, como o chimpanzé, o orangotango e o gorila-da- montanha; pássaros, como o albatroz; anfíbios, como o sapo-dourado; os recifes de coral e todas as formas de vida que eles sustentam. A interferência humana é fator substantivo nesse quadro desastroso, particularmente por conta das alterações climáticas que seu modus operandi vem deflagrando.

Em texto publicado no site do jornal russo Pravda, o engenheiro florestal e doutor em agronomia brasileiro Fabio Rossano Dario aponta três ondas de extinção de porte considerável desde que o homem surgiu na face da Terra. A primeira, que abrange o período entre 40 mil anos atrás e o fim do século 15, foi marcada pelo desaparecimento de toda a megafauna da Europa e do norte daÁsia (Neandertais inclusos), além dos grandes mamíferos das Américas, de dezenas de espécies de marsupiais australianos e da fauna de Madagascar e de 15% das espécies de pássaros do mundo.

Entre as perdas dessa onda estão o mamute, o mastodonte, o urso-de-cara-achatada, o rinoceronte-lanudo, o leão-das-cavernas, cerca de dez espécies de moa (pássaro enorme que habitava a Nova Zelândia) e 12 espécies delêmures gigantes (um dos quais atingia dois metros de altura). O auge da extinção nesse período foi há cerca de 10 mil anos – a chamada “matança do Pleistoceno” -, fase de grandes alterações climáticas e de intensificação das atividades de caça dos humanos.
A era das grandes navegações, iniciada pouco antes do fim do século 15, e o ano de 1970 delimitam a segunda onda de extinção, que conviveu com o colonialismo europeu, a revolução industrial e o surgimento do capitalismo. Uma das regiões mais afetadas foi o Caribe, cuja flora e fauna perderam centenas de espécies. Duas delas, vítimas da caça indiscriminada, foram a foca-monge (Monachus tropicalis), chamada por Cristóvão Colombo de lobo-marinho, e a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis stelleri), um tipo de peixe-boi giganteencontrado no Pacífico Norte e que chegava a atingir 7 metros de comprimento e 10 toneladas de peso.
Na lista de mamíferos desaparecidos nesse período figura a quaga (Equus quagga), tipo de zebra da África do Sul que possuía listras apenas na parte posterior do corpo, exterminada por caçadores na segunda metade do século 19. Outro espécime é o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), marsupial semelhante a um cachorro com listras verticais na parte de trás do corpo, à maneira do tigre. Acusado pelos fazendeiros locais de matar ovelhas, ele foi exterminado impiedosamente.
A caça indiscriminada também fez muitas aves darem adeus à superfície do planeta nessa época. A mais conhecida entre delas é o dodô (Raphus cucullatus), das Ilhas Maurício, mas merecem destaque ainda a huia (Heteralocha acutirostris), da Nova Zelândia, e a alca-gigante (Pinguinus impennis), que vivia na Islândia.
O poder do homem pode não se mostrar tão devastador, mas, segundo alguns pesquisadores, é sem dúvida respeitável: em seu livro The future of life (O futuro da vida), publicado pela Vintage Books em 2003, o professor de biologia Edward Wilson, da Universidade Harvard (Estados Unidos), prevê que, no ritmo atual de destruição humana da biosfera, 50% de todas as espécies de seres vivos desaparecerão da face do planeta em 100 anos. Cálculo semelhante já havia sido apresentado oito anos antes pelo paleontólogo inglês Richard Leakey em The sixth extinction (A sexta extinção), escrito em parceria com o jornalista Roger Lewin e publicado pela Doubleday.
O desaparecimento de espécies não chega a ser algo a se estranhar sob o prisma estatístico: os cientistas afirmam que 99,9% de todas as formas de vida que existiram sobre a face do planeta já se foram. (A probabilidade de que nós, humanos, sigamos o mesmo caminho é, portanto, bem alta.) O que pode não surgir tão claramente aos olhos dos observadores é o real papel do Homo sapiens em todo esse processo. Certamente não é o do meteoro que formou a cratera deChicxulub, na região do Yucatán, e precipitou o desaparecimento súbito dos dinossauros.
O homem parece mais ser um dos protagonistas de uma erosão contínua dabiodiversidade associada a outros fatores, em especial mudanças climáticas, e que se amplia exponencialmente conforme os ecossistemas vão sendo destruídos. “Se você soma os números de espécies que foram extintas nas últimas centenas de anos, descobre que os números ficam bastante aquém de uma extinção em massa“, assinala o professor Norman MacLeod, administrador da área de paleontologia do Museu de História Natural de Londres. “É apenas quando você olha para os números de criaturas que estão na iminência de serem erradicadas que o quadro se torna alarmante.”
Ainda é possível reverter esse quadro geral? A resposta fica no âmbito da profecia, dada a dificuldade de fazer a crescente consciência ambiental da sociedade se transformar em ações internacionais amplas. A maioria dos especialistas antevê tempos sombrios, nos quais o homem descobrirá por si mesmo as consequências de viver em meio a uma biodiversidade muito mais pobre.

O Mundo é dos Insetos

 

Com este título, postei em 14 de julho de 2010 uma matéria adaptada do livro “Diversidade da Vida” de Edward O. Wilson no meu blog chamado “Biorritmo” e, curiosamente, esta postagem veio a se tornar uma das mais populares do blog. O motivo? Não sei. Mas tudo me leva a crer que a supremacia numérica e a diversidade de formas dos insetos despertam um certo fascínio nas pessoas. Vejamos a postagem na íntegra:

“Entre os animais  conhecidos da ciência, os insetos são a maioria esmagadora. Os insetos, com 750 mil espécies conhecidas, constituem  a dinastia inconteste dos animais pequenos  e médio pequenos da Terra, e ocupam essa posição desde o final do Período Carbonífero, há mais de 300 milhões de anos. Seus co-regentes do reino vegetal têm sido há 150 milhões de anos as angiospermas , as plantas floríferas, que abrangem cerca de 250 mil espécies, 18% do total de todos os organismos conhecidos.
A imensa diversidade conjunta de insetos e plantas floríferas não é acidental. Os dois impérios são unidos por intricadas simbioses. Os insetos consomem todas as partes anatômicas das plantas e habitam cada um de seus cantos e recantos. Uma grande parcela das espécies de plantas depende dos insetos para polinização e reprodução. Derradeiramente, devem a eles a sua vida, pois os insetos revolvem o solo em torno de suas raízes e decompõem tecidos mortos transformando-os nos nutrientes necessários para que possam continuar crescendo.
Tão importantes são os insetos e outros artrópodes que se todos desaparecessem a humanidade provavelmente não sobreviveria mais do que alguns meses. A maioria dos anfíbios, répteis, aves e mamíferos seriam extintos mais ou menos ao mesmo tempo. Em seguida sucumbiria a quase totalidade das plantas floríferas e com elas , a estrutura física da maioria das florestas e outros habitats terrestres do mundo. A superfície da Terra literalmente apodreceria. À medida que a vegetação morta  fosse se acumulando e secando, fechando os canais dos ciclos de nutrientes, outras formas complexas de vegetação morreriam, e com elas, todos  exceto alguns resíduos esparsos de vertebrados terrestres.
Os artrópodes, portanto, estão em toda parte à nossa volta, dando-nos vida, e nós jamais  medimos seu número. Há muito mais espécies do que as 875 mil que receberam um nome científico até o momento. Estima-se que existem 30 milhões de espécies de artrópodes nas florestas pluviais, das quais a maioria são insetos. A maior parte  da variedade está concentrada nas copas das árvores das  florestas tropicais, locais que tem se mantido inacessível por causa da altura das árvores (30 a 40 metros), da superfície escorregadia dos troncos e dos enxames de formigas e abelhas que lá habitam. E por falar em formigas, elas constituem  quase metade da biomassa total dos insetos e 70% da biomassa dos insetos encontrados nas copas das árvores. Somente na floresta pluvial amazônica, as formigas constituem  mais de 10% da biomassa animal. Isso significa  que  se fôssemos coletar e secar todos os animais de uma área da floresta, de macacos e aves até ácaros e nematóides, pelo menos 10% do peso seria de formigas.”

O Plâncton Eólico

Cada dia me convenço mais que o universo da biologia não se constitui meramente de ciência. Se prestarmos um pouco de atenção vamos comprovar que há muita poesia escondida nos relatos científicos. Isso é o que vamos constatar agora lendo um trecho do livro “Diversidade da Vida”, de Edward O. Wilson, professor de biologia evolucionista e curador de entomologia do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Havard (E.U.A).
No capítulo dois, Wilson menciona o plâncton eólico como um elemento fundamental para a colonização da ilha de Krakatau, localizada no mar de Java. Krakatau, antes chamada equivocadamente de Krakatoa, desapareceu em 27 de agosto de 1883 em virtude de uma série de erupções vulcânicas. Rakata, uma montanha coberta de cinzas da antiga Krakatau, sobreviveu como uma ilha estéril. Mas a vida logo começou a surgir novamente, oferecendo aos biólogos a oportunidade única de observar a formação de um ecossistema tropical desde o princípio. Seriam os organismos diferentes daqueles que existiam antes? Uma floresta tropical voltaria um dia cobrir a ilha?
A primeira busca de vida em Rakata foi realizada por uma expedição francesa em maio de 1884, nove meses após as explosões que despedeçaram a ilha. Tendo saído especificamente à cata de organismos, o naturalista do navio escreveu que, “apesar de todas as minhas buscas, não fui capazde observar qualquer indício de vida animal. Descobri apenas uma aranha microscópica- uma apenas; esta estranha pioneira da renovação estava ocupada tecendo sua teia.
Um filhote de aranha? Como uma pequenina criatura sem asas poderia chegar tão rapidamente à ilha deserta? Os aracnólogos sabem que a maioria das espécies empreende “viagens de balão” em algum ponto do seu ciclo de vida. A aranha se coloca na borda de uma folha ou em algum outro local exposto e lança um fio de seda das fiandeiras na extremidade posterior do abdômen. O fio acaba sendo colhido por uma corrrente de ar e vai se esticando, puxado pelo vento, como a linha de uma pipa. A aranha vai tecendo mais e mais seda até que o fio exerce um forte puxão sobre ose u corpo. Ela então se solta da folha ou da relva e sai voando. Não apenas os filhotes minúsculos, mas também aranhas grandes, que por vezes atingem milhares de metros de altitude e viajam centenas de quilômetros antes de voltar ao chão para acomeçar uma vida nova. Ou então caem na água e morrem. As viajantes não têm controle algum sobre a sua descida.
As aranhas que empreendem essas viagens de balão são membros do que os ecologistas, numa dessas raras expressões felizes derivadas do grego e do latim, chamaram deliciosamente de plâncton eólico. Em linguagem comum, plâncton é a vasta multidão de algas e pequenos animais arrastada passivamente pelas correntes de água; eólico refere-se ao vento. As criaturas que compõem o plãncton eólico são dedicadas quase interiramente à dispersão em longa distância. Podemos ver o plâncton eólico se formando em nossos jardins e arbustos numa tarde tranqüila de verão, quando os pulgões abrem suas asas delicadas e se erguem apenas o suficiente para serem levados pelo vento. Uma chuva de bactérias plânctônicas, esporos fúngicos, pequenas sementes, insetos, aranhas e outras minúsculas criaturas cai incessantemente sobre amaior parte da superfície terrestre. É uma chuva rala e difícil de detectar momento a momento, mas vai se acumulando perceptivelmente ao longo de semanas ou meses. Foi assim que amaioria das espécies colonizou o resquício carbonizado e cauterizado de Krakatau.
Muito raramente, uma tempestade violenta transforma animais maiores ( como lagartos ou rãs) em passageiros eólicos, arrastando-os para praias distantes. Trombas-d’águas podem pegar peixes e transportá-los vivos para lagos e rios das proximidades.
Postagem publicada no blog Biorritmo