Francisco Quiumento

Doa a quem doer, evolução é fato

, e matematicamente óbvio

Uma jornada pelas inúmeras falácias habituais dos criacionistas

Já há anos escrevi que criacionistas são meu hobby, minhas palavras cruzadas, meus “puzzles”. Criacionistas tratam de maneira tão absurda e distorcida de tantos assuntos que refutá-los passa a ser um passeio, até podemos dizer uma jornada – quando não uma expedição, dada a selvageria de alguns – por inúmeros campos técnicos-científicos, e nisto, relembrá-los.

No “over kill” abaixo, passarei por inúmeros destes campos, procurando mostrar que os modelos físico-químicos-matemáticos dos criacionistas passam por uma graduação de argumentos pífios, ou por conceitos obscuros, premissas falsas, raciocínios errôneos, quando pelo menos relativamente bem contruidos, ou simplesmente ridículos, quando não apresentam conexão mínima com o que seja a realidade, mesmo em observações que uma simples criança faça com coisas domésticas.

Em contrapartida, procurarei, quando necessário ou adequado, mostrar os modelos físico-químico-matemáticos coerentes com os fatos, especialmente os combinatórios, que tratem da questão abordada.

O eterno retorno da Falácia de Hoyle

Recentemente, encontrei pitoresco blog de um evangélico na internet, com o mais que divertido argumento de que evolução é matematicamente impossível, o que na verdade, é sempre uma modificação seja como for da Falácia de Hoyle, que já tratei em um Knol.

Invariavelmente, criacionistas que enveredam por esta argumentação sempre citam números peculiares, sabe-se lá de que original fonte, como o de que as células, menores unidades vivas, tem 100 mil moléculas.

1) Como se qualquer colher de chá de sal não tivesse milhões, mas o que interessa não é o número de moléculas, e sim como estas se coordenam, e nisto está o mesmo motivo pelos quais minhas células da pele são bastante mais complexas que uma bactéria de minha “bebida láctea com lactobacilos vivos”, mas nem por isso, exatamente em relação ao processo evolutivo, minhas células não são nem um pouco significativamente mais complexas que as células de uma minhoca, o que guarda intimidade com meu Knol sobre modelos matemáticos em evolução.

Isto se dá porque somos o rearranjo de células de um verme, apenas com “algumas” funções acrescentadas, e não mais que isso (a mudança para um cordado, um peixe, um anfíbio, um amniota, um mamífero primitivo em coisa alguma vai mudar esta afirmação, apenas, mudar a sua graduação).

Igualmente misteriosa, como se não estivesse já no argumento acima, é a afirmação de que nesta mesma célula, 10 mil reações químicas estejam ocorrendo nesta célula.

2)O que em si, também pouco interessa, pois exatamente como percebemos na complexidade em tamanho, estrutura e diversidade de moléculas, uma célula de meu corpo não é mais diversa em reações químicas significativamente que uma célula de uma minhoca, novamente, e portanto, ainda mais se tomarmos um animal muito mais complexo, outro, igualmente complexo – um primata qualquer – perfeitamente pode ser a variação deste. Logo, evolução por esta argumentação não pode ser derrubada como fato.

Curiosamente, e eu me atreveria a chamar, lembrando famosa “tirinha” humorística sobre o tema, de “falácia da surdez”, os criacionistas não entendem que comprovar o surgimento miraculoso das células, mesmo de qualquer “filo”, pouco importa, pois ainda sim, não se comprovaria que tais células ou menos ainda tais “filos” não pudessem evoluir. Aliás, em caminho contrário, para derrubar completamente e de vez o simples e óbvio raciocínio que está no núcleo da evolução, desde suas afirmações basais por Darwin, sem ao menos se citar filósofos que a pensaram e outros cientistas, é que bastaria comprovar o surgimento miraculoso de um organismo complexo, mesmo que fosse o, pasmemos, muito mais complexo que as primeiras formas de vida que afirmamos em biopoeise (do grego bio, vida, e poiéo, produzir, fazer, criar).

Estas formas de vida, sim, foram muito mais simples que ao leigo, como a imensa maioria dos criacionistas, e na generalidade em biologia específica sobre o tema, os lactobacilos de minha bebida.

Estas formas iniciais de vida seriam tão simples ao ponto de não poderem ser tratadas propriamente como uma célula no que hoje é este conceito, pois seriam estruturas inclusive difusas com o meio, muito mais um sistema de reações integradas, numa região de ambiente favorável, ou como teria a coragem de definir o conceito em termos, “região ou volume difuso de reações”, o que Sagan trata de maneira brilhante em seu Cosmos, mostrando uma formação de moléculas surfactantes ou tensoativas (aquelas que contém um lado polar – hidrófilo, compatível com dissoluções aquosas – e outro apolar – hidrófobo ou lipófilo, aos moldes bioquímicos, compatível com substâncias apolares como os lipídios), isolando uma região, um volume onde se manifestariam as primeiras reações químicas da vida, mesmo que transitoriamente e com inconstante capacidade de auto-replicação.

Antes de avançarmos para outro ponto, um conjunto de observações sobre a falácia de Hoyle e determinadas questões sobre a combinatória de genes.

Mas a razão principal pela qual a falácia de Hoyle é pífia para se tentar, mesmo adaptada, derrubar a evolução dos seres vivos como fato é exatamente o motivo pela combinatória que a genética de uma bactéria, por mais simples que o seja, por novas combinações* chegará a se tornar a combinação que formará, coordenará, a formação de qualquer outro ser vivo, pois estes, ao nível genético, são apenas variações de combinatórias dos genes, que coordenam todas as suas funções e estruturas.

*E inclusive configurações destas combinações, porque a estrutura na qual o DNA não necessita, e não é, uma linearidade indivisível, e pode se apresentar em linearidades “em paralelo”, aquilo que chamamos cromossomos.

A questão é que a combinação “do próximo passo” não é nem segue o/um planejamento para se chegar a este próximo passo, e sim, simplesmente é o próximo passo, e inclusive, não necessita de forma alguma ser um acréscmo de complexidade no organismo (o que já é um forte argumento contra o D.I., pois se era para depois simplificar, por quê antes tornou complexo?), nem mesmo o aumento da complexidade da própria carga genética, nem muito menos ser contínua no aumento ou redução desta combinatória em linearidade, e sim ser a divisão desta linearidade ou a fusão de linearidades em outras estruturas.

Em outros termos, para se fixar bem esta conceituação fundamental, evolução não é a combinatória para se obter a genética de uma forma de vida, mas a variação da genética da vida ao longo de gerações que resultou em variações da vida.

Então, retomando uma linha de raciocínio sobre este tema, não podemos jamais afirmar que houve a adequada e perfeita série de combinações para transformar uma bactéria numa figueira, por exemplo, mas sim que houve a série de combinações que levou uma bactéria a se modificar e chegar também numa figueira. Exatamente esta é a apreciação posterior sobre o processo evolutivo, porque teleologia (planejamento) alguma se evidencia na natureza. Portanto, se não se evidencia, afirmar que esta exista é apenas um ato de fé, é crer-se que tal planejamento transcendente à natureza exista, seja qual for o ente ou processo que o cause.

Aqui, para entender determinadas questões teológicas (com respeito à fé) de propor uma divindade atuante, recomendo ler Collins, um evolucionista teísta em meu artigo sobre a demonstração que o design inteligente é um criacionismo.

Comparações indevidas

Sobre estes já dois tiros na água (quando não em seus pés), os criacionistas sempre acrescentam frases de efeito, como que a carga genética tenha “a capacidade de armazenamento de informações de 30 volumes de uma enciclopédia”.

Analisemos mais demoradamente esta afirmação.

Pegarei uma enciclopédia robusta, como a minha Delta Larousse dos anos 60. Possui 15 volumes, num total de 8318 páginas, com duas colunas de aproximadamente 67 linhas de 46 caracteres. Isto totaliza 16636 colunas, logo 1.114.612 linhas, logo 51.272.152 caracteres. Levarei o número a 100 milhões, pois sou caridoso com argumentações matemáticas criacionistas.

Nestas páginas está um armazenamento de dados “linguísticos” expressando um volume significativo de informações. Pode ser comparada com os 5 milhões de bases de uma carga genética de uma bactéria como a Escherichia coli?

Sim, pode, mas de maneira extremamente limitada. Genes não expressam palavras, nem o nome de um rei persa, tampouco um nome de uma cidade, muito menos uma equação matemática, e embora coordenem uma reação química, não a podem representar com nossos símbolos químicos. Genes coordenam atividades bioquímicas, e tão somente isso, e não são arranjados para fazer isso dentro de liberdades estilísticas/linguísticas/fonéticas que possuímos, como ao que em palavras de origem russa tenha sons que combinação alguma em português sejam usuais, por exemplo. Somente podem o fazer dentro de combinações simples e específicas, pois A só se combina com T (adenina com timina), e C com G (citosina com guanina).

Outra questão é que cargas genéticas não podem, a partir de seus códigos simples em variações a cada “caracter”, produzir a partir de um conjunto enorme de letras, ironicamente, como uma sopa de letras, as obras completas de Proust, e sim, apenas “uma nova edição da Delta Larousse” (e talvez, com diversos erros). Aqui, o modelo comparativo mostra-se mais inadequado, pois seres vivos e suas moléculas e genética não são arranjos, mesmo que “inteligentes” (ordenados coerentemente para uma finalidade), são sistemas bastante limitados em liberdades de reações químicas.

É de se destacar este fato, pois mesmo nas evidentes mutações que possuímos quando nos nasce um sinal no rosto, ou quando um gato nasce com um “dedo” a mais, se fossem muito mais que isso, não permitiriam nossa vida ou a de um gato mais que alguns minutos fora do ventre de nossas mães, e tal é bastante evidente.

Mas somemos o argumento de que as primeiras formas de vida eram muitíssimo mais simples (inclusive, especialmente, geneticamente) que as altamente especializadas Escherichia coli, com o que, como vimos, genéticas não são enciclopédias ou obras literárias e lembremos da “falácia da surdez”: ainda que esta primeira forma de vida nem tão simples tivesse surgido por milagre, ou ainda que qualquer um dos filos da natureza o tivesse igualmente se formado em meio a um ainda deserto que seja a atual savana africana, ainda sim um elefante ou uma acácia seria um milagre de ocorrência muito mais complexo e raro em se realizar, mesmo no arranjo de células por milagre criadas, e tampouco anularia o banal e evidente fato que tais seres vivos, assim surgidos miraculosamente, modificassem-se no tempo, logo, evolução continua sendo fato.

Números misteriosos ou incompreendidos

Aqui, pararei de sovar como de costume a verborréia criacionista e tratarei de desmentir uma outra tolice que tem sido espalhada vergonhosamente por defensores do Design Inteligente, que aceita e inclusive implica em processo evolutivo, por místicos de toda a ordem e inclusive por evolucionistas teístas um tanto confusos, ao ponto que na verdade, são defensores ainda que por ingenuidade do Design Inteligente.

Sagan, Dawkins ou qualquer outro autor sério em divulgação ou pesquisa ou ensino de evolução em Biologia NUNCA afirmou que “a possibilidade do homem ter evoluído é de uma em 100 quadrilhões” ou, como gosto de dizer, joça de número grande similar. O que qualquer autor são e informado afirma é que a possibilidade de o processo evolutivo seguir pelo caminho que seguiu, entre todos os outros possíveis, é exatamente, por exemplo para o humano, enormemente pequena, mas infelizmente, ou felizmente, assim se deu.

O ser humano, assim como um simpático e destacado elefante, não é o planejamento para se chegar a este que lhe escreve ou um elefante que tanto destaco em meus textos (pois elefantes são, como qualquer mortal percebe, visualmente destacados). O ser humano é o fluir de bifurcações de um cladograma, a ramificação de uma árvore da vida, que chegou no elefante ou neste que lhe escreve, assim com chegou numa minhoca ou numa acácia, numa Escherichia coli ou num lactobacilo. Esta probabilidade não é a que a partir de um amontoado de genéticas, tenha se chegado miraculosoamente em nós que somos/seríamos seu objetivo, assim como é/seria o objetivo o lactobacilo que eu devoro. Esta probabilidade é sim, de entre todos os caminhos possíveis e inúmeras combinações que poderiam variar de maneira praticamente infinita, quem escreve este texto não tenha tromba, pese 5 toneladas e goste de beber Escherichia coli sabe-se lá em que bebida feita do que, talvez acácias que se alimentem de minhocas (cuidado criacionistas, pois há plantas que se alimentam de insetos).

Neste momento, gosto de uma argumento oriundo da ficção científica. Esta probabilidade extremamente pequenas de mesma configuração da árvore da vida, é o que fazem contextos de ficção científica como Star Trek, com suas formas humanóides apenas divergindo na maquiagem serem infantis, e clássicos como Planeta Proibido, com suas portas em forma de diamantes serem coerentes, assim como as exóticas formas de vida levadas ao realismo em movimento de Star Wars, mesmo num universo adolescente, serem maduras cientificamente, ou uma única frase, como a ouvida em O Dia em Que a Terra Parou, em sua segunda versão – “Assumi a forma humana para que não lhe causasse repulsa.” – sejam pronunciadas fazendo-nos pensar, e não causar risos.

Seria bom criacionistas e outros entenderem que esta pequeníssima probabilidade de sermos assim, não implicaria em não haver elefantes (ou algo parecido) inteligentes, que bebessem saborosas bebidas sabe-se lá do que feitas, e inclusive, entendessem que probabilidades baixas de uma determinada configuração resultante de um processo não implica em um processo não poder resultar em qualquer outra configuração.

Lei de Borel, a inexistente

Invariavelmente, criacionistas apelam para algumas falácias, quando não podemos dizer completas mentiras, quando também não absolutas tolices. Entre as primeiras, encontram-se a Falácia de Hoyle e suas variações, nos moldes do visto acima, entre as segundas, a assim chamada e jamais encontrada na literatura “Lei de Borel” e seus 10^50 (curiosamente, a imensa maioria dos criacionistas de quem até hoje li tal coisa jamais acertam como fazer uma notação de potência, mas isto é outra misteriosa questão). Tanto a Falácia de Hoyle no seu estado mais puro, como linkado acima, quanto a tal “Lei de Borel” eu tratei até a exaustão em dois Knols.

Espero em breve fazer uma associação desta questão da “Lei de Borel” criacionista com o lado sério da coisa, que é a lei dos grandes números e as distribuições e sua aplicação no entendimento evolutivo, como a distribuição de Poisson e a muito mais poderosa para tratar questões na variável tempo que é a distribuição de Weibull.

Em tempo, uma lida rápida na Wikipédia em inglês sobre a distribuição de Poisson, que é a mais trivial no tratamento de probabilidades mais complexas e “contínuas” do que os banais dados ou jogos de loteria, já dá uma mostra do nível de complexidade matemática que esta área do conhecimento humano já apresenta. Idem (e ainda mais) para a de Weibull. Logo, não serão criacionistas com suas afirmações nebulosas que vão derrubar o processo evolutivo por um raciocínio matemático completamente equivocado, ainda mais sobre simplesmente mentiras, pois sejamos claros, se o fosse assim fácil, os matemáticos do mundo já o teriam feito banalmente.
O mesmo mostraremos adiante em física e os físicos, na questão da termodinâmica como um possível empecilho para o processo evolutivo.

Muitas vezes me assombra o desespero (e talvez com sorte apenas ignorância) dos criacionistas em apelar para argumentos infelizes como “a chance de, por acaso, pegar um átomo específico em todo o universo seria de apenas 1 sobre 1 seguido de 80 zeros” ou ainda probabilidades de denominadores maiores que estas , quando, bastando entender um nível mínimo de químico de primário, sabe-se que os átomos de um elemento, aqui ou em Plutão, e até nas mais distantes estrelas e seus planetas são, mesmo com as variantes dos isótopos, exatamente iguais para fins químicos que os que tenho numa garrafa de água mineral que agora bebo.

Fantástico também é chegarem, além da absoluta desonestidade/estupidez do argumento acima, a desprezarem o belo e gritante fato da natureza que o vento que sopra em Campinas ou Hortolândia, ou Shangai ou Teerã, trazendo uma molécula (na verdade, miríades) sabe-se lá de onde, é a mesma que absorvida pela cevada na sua fotossíntese, produzindo amido, ou da cana em sua sacarose, contém o mesmo átomo que passará a ser composição de minha musculatura amanhã, por meio de minha cerveja no sábado ou de meu café na tarde de segunda. E esta argumentação simples e direta poderia ser estendida ao infinito, em números gigantescamente maiores em caminhos possíveis que o mais obsessivo dos criacionistas em escrever números aparentemente grandes baseados na verdade em bobagens.

Em outras palavras, nunca a biologia ou a química nos tratou como o arranjo de átomos individuais específicos, mas como átomos de elementos específicos.

Mas sejamos honestos (ao contrário deles): para chegar-se a esta capacidade de especificamente produzir a cevada amido, a cana açúcar, as leveduras a maravilhosa cerveja, o café sua poderosa e necessária a mim cafeína, e estes serem absorvidos nevralgicamente pelo meu corpo, serem divertidos ao meu cérebro e motivantes a minha produção intelectual, bilhões de anos de aperfeiçoamento pela mortes mais terríveis foram necessários.

Mas antes, muito antes disso, alguns milhões, na verdade centenas de milhões, de anos de geologismos, meteorologismos e até, usando um termo adorado pelos criacionistas, “catastrofismos” foram necessários, em que por meio, como já conhecemos, de milhões e milhões de raios de gigawatts de potência elétrica caíram em atmosfera tão infeliz à vida quanto é a de Vênus, espessa e pouco transparente quanto essa, protegendo as moléculas em síntese da radiação do Sol, sempre a decompor moléculas complexas (e atentem, também a modificá-las em sínteses até mais proveitosas e complexas, pois mesmo a radiação ultravioleta é ionizante, e havendo cargas em moléculas ou pedaços de moléculas ou átomos isolados, novas reações não tardam a ocorrer) até que se produziram polimerizações, e destas, catalisadores (fora o papel de catálise de inúmeros minerais) que propiciaram polimerizações específicas, em “ondas” de produção de moléculas que mais cedo ou mais tarde, colaboraram entre si, e inclusive, algumas modificações destas que eram capazes não de conduzir novas polimerizações similares, mas cópias QUASE idênticas, e exatamente graças a este sempre presente QUASE, o processo evolutivo, agora além do químico, mas que levou a mais simples bactéria imaginável a ser todas as formas de vida do planeta – pelo menos como evidenciamos até hoje.

Aqui, um acréscimo muito importante, relacionado com esta última frase: no passado, podem ter havido biopoeises em paralelo na Terra, mas até o momento, só uma parece que prevaleceu. Igualmente, pode em algum recanto obscuro do planeta estar ocorrendo esta de novo, ainda que tal, pela própria escala de geologia hoje disponível para produzir qualquer coisa, ser extremamente improvável. Mas além disso, desta improbabilidade pela escala geológica, atmosfera atual, etc, igualmente uma pobre forma de vida simples não passará mais que alguns minutos sem ser alimento de uma massa gigantesca de formas de vida que permeiam o planeta, desde os pássaros das mais altas altitudes e até das bactérias atuando na gordura de suas penas até quilômetros abaixo da superfície, mesmo em meio a rocha, decompondo e modificando nem só matéria orgânica, rica em carbono, mas também modificando até óxidos e sulfetos inorgânicos, pois ao longo da história, a vida adaptou-se a sobreviver a qualquer custo, mesmo o de digerir rochas.

Rivais que nos apoiam, ou “como quem eu cito não me colabora em coisa alguma”

Invariavelmente, os criacionistas, e notemos a ironia, mesmo os de Terra Jovem, os biblicistas literais e seus seis dias, apelam para citar o famoso em seu meio (e até no nosso, que o conhecemos até em nível mais completo e profundo que qualquer criacionista) livro de Behe, A Caixa Preta de Darwin.

Primeiramente neste ponto, nunca é tarde para cutucar os criacionistas, ainda mais os biblicistas, de que Behe (e diversos outros autores do design inteligente) não nega o processo evolutivo, muito menos a ancestralidade comum, muito menos afirma que o homem não tenha evoluído de outro primata, nem que não seja a evolução de uma bactéria primitiva e inclusive que não seja um parente afastado, como sempre brinco, até de um pé de brócolis.

O que, mais uma vez me parece ser uma “falácia da surdez”, é que criacionistas, pouco interessando que inúmeros autores tem feito “esmagamentos” completos aos argumentos (que na verdade são “deus nas lacunas” adicionados de falácia do apelo à ignorância) de Behe e outros, como, destacadamente Orr, o próprio conjunto imenso de evidências de evolução dos olhos, inclusive na sua parte bioquímica, não só estrutural, a coagulação, e suas inúmeras variantes na natureza, em pleno acordo com o processo evolutivo dos diversos filos e seus sistemas próprios, a própria evidência, mais uma vez gritante, de que os flagelos bacterianos possuem variações, incompletas aos olhos de Behe, entre inúmeros filos de bactérias, etc.

A estes argumentos de biólogos e bioquímicos, somam-se os devastadores argumentos dos filósofos, contra os argumentos teleológicos, que inclusivem partem de um raciocínio simples, tomando de premissa que existe o designer, e provando que pouco interessa, pois este não teria de ser único, e neste campo, destaco o colosso intelectual que é Hume, que para toda a análise e inclusive seus mais ferrenhos críticos é considerado como aquele que encerrou esta questão.

Para tais questões, num quadro mais formal, recomendo humildemente meus dois Knols, tanto o que trata da pitoresca Falácia da Poça D’Água quanto o que trata do embrião da argumentação pelo D.I., que é o argumento do relojoeiro de Paley.

Os tombos de quem citamos

Mas antes de avançar para outro ponto, gostaria de colocar uma questão, que sempre “passa batida” por qualquer criacionista que cita Behe. Esqueçamos o flagelo bacteriano, e o consideremos um milagre. Mas observemos o olho completo de um peixe. Observemos o sistema de coagulação também de um peixe. Desafio qualquer criacionista e defensor mesmo mais sofisticado do D.I. a me mostrar, que dado que agora temos um olho completamente funcional, e igualmente um mecanismo de coagulação, ambos surgidos por milegre, que animais que o contenham não possam se modificar no tempo, e assim como um elefante, um cavalo, um crocodilo, um sapo ou seja que animal for, adequado ao caso, claro, não seja a modificação de um peixe, mesmo considerando que seja fato que tais órgão e mecanismo tenham sido soprados do barro por Aiye, a divindade da religião Yoruba – sim, por que gostaria de saber porque raios teria de ser o deus hebreu?

Assim, fica claro que mesmo com mecanismos bioquímicos tendo sido gerados por milagre, pouco interessa para a coordenação de células e seus tecidos em compor organismo diversos, e o processo evolutivo ocorrer. Esta argumentação, do tipo que na lembrança da “navalha de Ockham” chamo de “machado”, é sempre útil para, a partir de colocar-se premissas exatamente iguais as da “parte contrária”, demonstra-se de modo simples que suas conclusões são um “non sequitur”, e de modo idêntico poderíamos fazer para a origem da vida, que aqui, colocarei como gerada por Orun, também da religião Yoruba, e igualmente pouco interessa tal milagre, pois após este, a vida evoluiu.

Aliás, este conjunto de argumentos deverá ser um acréscimo futuro a ser feito, ou uma continuação, do meu Knol O Motivo do Design Inteligente Implicar em Evolução, que trata do problema por outro caminho.

Outro ponto a ser até estudado por psicólogos, sociólogos e antropólogos, e garanto que renderia ótimas teses e seguros e aplaudidos mestrados e doutorados, seria da motivação quase masoquista* que criacionistas biblicistas acham, idependentemente de sua infeliz argumentação, seja lógica, seja matemática, seja física, seja química, seja bioquímica – e nem vamos falar da biologia, pois esta não existe sem a teoria da evolução – que ao citar qualquer passagem de Gênesis, seja falando de deus, pó, terra, água, barro, “segundo sua espécie”, seis dias, etc, vão conseguir convencer alguém com um mínimo de senso de ridículo que estão corretos e a vasta e esmagadora maioria de pensadores ao longo, não dos últimos 150 anos após Darwin, mas nos últimos 300 anos após alguns fundamentos da filosofia e da própria filosofia natural, antes do que seja propriamente ciência, estão errados.

*Em caso de uma explicação que não passe pelo masoquismo, ainda que inconsciente, aguardo correspondência por e-mail. Desde já, grato.

Algumas apreciações

Aqui, observações pessoais:

Uma questão que é interessante a respeito dos criacionistas, especialmente quando tentam tratar com conceituações e técnicas de nível secundário (se muito) questões extremamente complexas é a de acharem que descobriram de alguma caixa mágica algum argumento fantástico para negar os fatos que pela sua própria natureza, são estudados com as mais avançadas técnicas e no mais alto nível.* Exemplifico com o próprio caso do uso de probabilidades, como se as probabilidades de algo sendo baixas, e não são, implicasse em tal evento não ocorrer, ou afirmações em genética, área extremamente formal (no sentido de matemático), como se exatamente o conhecimento da genética é que permite se entender porque ocorrem as modificações das espécies, exatamente a questão ao tempo de Darwin nebulosa sobre como as espécies se modificariam no tempo, e em se modificando, ou melhor, podendo se modificar, porque transmitiam relativamente grande quantidade de características assim como também as modificações ocorridas à sua descendência.

*Aguarde adiante A questão do nível de linguagem e cultura específica.

Mas dentro deste quadro de argumentações, é interessante se perceber que quando são confrontados com volume esmagador de argumentos, ainda se apegam a coisas que propriamente não entenderam como se os sustentasse, e exemplifico: em Knol sobre modelos matemáticos simples que apresento ao tratamento do processo evolutivo busco para tratar de maneira extremamente limitada as modificações das células em sua posição em relação a um “arquétipo” de um ser vivo os poliminós – como se não fosse trivial entender que somos arranjos de células mesmo sobre uma ótica fixista das espécies, exatamente porque não possuo o sexo de minha mãe e nem mesmo os exatos cabelos de meu pai, sem falar em chifres ausentes em vacas ou dedos a mais ou rabo a menos em gatos, casos muito mais gritantes de modificações das posições das células entre as gerações.

Tais poliminós são perfeitamente conhecidos em suas variações até um número grande de número de seus quadrados componentes, mas um equacionamento sobre como tais combinações se dá ainda não é conhecido na matemática, e nem mesmo se sabe se tal equacionamento existe. Mas o que interessa é que quadrados se acoplam em posições variadas, e crescentes com o número que destes, e isto é similar à células se arranjando no espaço, aliás em combinações infinitamente mais variáveis, basta ver que mesmo para animais pequenos como insetos, a variedade de formas é gigantesca, e nem precisamos apelar para os conhecimentos de genética ou mesmo evolução para perceber isso.

Mas ao ver esta dúvida sobre o equacionamento de poliminós, imediatamente um criacionista apontou para um de meus leitores que mais uma coisa em evolução não é conhecida! Mas percebamos que exatamente, o desconhecimento do arranjo dos poliminós é matemático, então, como poderíamos apelar para a matemática, que aqui mostra-se parcialmente desconhecida, para afirmar que evolução não ocorre?

A pergunta acima mostra que independentemente dos erros dos criacionistas, mesmo nos modelos matemáticos com que tentam encontrar argumentos para “refutar” o processo evolutivo, mesmo com a separação hoje definitiva entre o que seja uma matemática pura e a física, e consequentemente todas as ciências desta dependentes, incluindo a biologia, ainda sim os criacionistas apresentam uma argumentação desconexa, e cheguei a conclusão que a razão pura e simples disto é, do ponto de vista de método, não de motivação, é que não pretendem sustentar sua criação miraculosa dos filos dos seres vivos, coisa que bastaria motrar a própria abiogênese de qualquer forma simples (nem falemos das complexas) de vida (aliás, se provarem das mais simples possíveis, provarão biopoeise!), nem mesmo a separação inquebrantável e insuperável entre as espécies, contrariando a descendência universal, e muitas vezes, entrando em contradições com seus “grupos internos”, suas divisões, afirmando que as formas de vida são absolutamente fixas, e negando os “baramins”, necessários inclusive à sustentação do dilúvio bíblico e sua arca. Eles querem, antes de tudo, conduzir ao impossível absurdo até as coisas mais visíveis da evolução, como por exemplo, a inegável seleção natural, que inclusive, independeria de como e se as espécies se modificam – pois afirmar que o ambiente não se modifica é afirmar que ilhas como as de Tambora ou Krakatoa, só para citar dois casos mais destacados, não tenham se modificado completaente ou mesmo deixado de existir (se ali aconteceu a extinção de algum dodô ou coisa similar, pouco interessa neste meu argumento, pois bastaria mudar o local e escolher a espécie, como os gigantescos baluquitérios dos desertos da Ásia).

Apelos à ignorância

Criacionistas adoram, em meio ao terrível cultivo de seu jardim todo feio, mal-cuidado, esburacado e carunchado (Roberto Takata) apelar para o que eles acham que seja nosso conhecimento sobre os passos do processo evolutivo, seja ele o cosmológico, o astrofísico, o geológico, o químico da origem da vida, e o dos seres vivos, propriamente, o para eles mais problemático, pois ao criacionista é difícil ser descendente de um primata, mesmo sendo um primata, quanto mais ser parente afastado de uma ervilha.

Assim, afirmam com enorme gritaria que desconhecemos os organismos iniciais formados na vida, quando isso pouco interessa, pois certamente seriam ainda mais primitivos que nossas atuais mais primitivas bactérias, e ainda sim, não teria se formado do nada um cachalote nem seriam necessariamente iguais os hipopótamo desde um inexistente surgimento miraculoso.

Afirmam com fogos de artifício que os compostos químicos formadores iniciais da vida seriam desconhecidos, quando na verdade sabemos exatamente quais são e para toda a forma de vida que encontramos na natureza são os mesmos, inclusive, se reduzindo a um número menor exatamente na direção das mais simples bactérias, como vimos acima, pelo mesmo evolutivo motivo. E ainda sim o argumento que acima apresento de um cachalote ou um hipopótamo não surgirem miraculosamente na Terra (seja na terra ou na água) e não serem impedidos de se modificar permaneceria sólido.

Gritam aos ventos que a atmosfera primitiva não seria conhecida, quando na verdade, sabemos exatamente o que ela não possuia, o que muitíssimo provavelmente possuia e inclusive o que certamente produziria, em inúmeras variações, e todas estas variações conduzem a produção inexorável dos tijolos mais fundamentais da vida.

Mas lembrando frase de Einstein em resposta a os opositores da Teoria da Relatividade, bastaria apresentar porque a atmosfera da Terra não poderia ser deste enorme número de variações de composição, ou a composição exata que impediria a síntese de aminoácidos por exemplo, e ainda que colocassem lá o surgimento da vida por milagre, ainda sim não provariam o seu cachalote e seu hipopótamo miraculosos, espontâneos e fixos, e a evolução da vida ainda seria fato.

Alguns, como este evangélico, afirmam com vigor que a escala da evolução (como se esta se desse em escala ou “escada”, e não em “árvore”) não é conhecida, quando mal percebem qe uma graduação entre as complexidades de “fauna e flora” ao longo da história da vida, assim como as bifurcações mais amplas das formas de vida, e até inúmeros filos extremamente detalhados, como os mamíferos, são ,na prática, para as necessidades da paleontologia e por ela mesma pesquisada, completamente conhecidas. As lacunas hoje do cladogramas são ao nível mais preciso e detalhista que se possa imaginar, e vou me poupar de acrescentar o colossal detalhamento da genética na cladística de todos os filos.

Chegam a petulância de afirmar que a evolução não possui os mecanismos conhecidos, quando exatamente este é o mais conhecido de seus aspectos. Chegam a soberba de afirmar que as evidências não sejam conhecidas, quando o que afirmei pouco é exatamente oriundo, antes de o ser pela genética das formas hoje vivas e até algumas extintas, levantado exatamente pelas evidências (fósseis).

Aqui, lembremo-nos de que, como descrevi, o problema não é quem aceita o fato da evolução e ainda mais o estuda, encontrar o exato animal que sendo um amniota, se transformou num cavalo, ou entre eles, qual cavalo perdeu exatamente mais um dedo, mas sim, que eles apresentem quando surgiu miraculosamente um “gigante belga” de uma tonelada, ou mesmo um minúsculo pônei, já completo e acabado, na natureza.

Para estas certezas absolutas, completas e seguras sobre o mundo que possuem, aos criacionistas dedico esta citação de Darwin:

«A ignorância gera confiança mais frequentemente que o conhecimento; são aqueles que sabem pouco e não aqueles que sabem muito que asseguram que este ou aquele problema nunca serão resolvidos pela ciência».

A questão aqui não é de Popper e Kuhn, como acreditam muitos dos defensores de uma argumentação pela Filosofia da Ciência contra os criacionistas, mas sim, de enfiar-lhes o dedo na cara e exigirem que ao menos produzam algo pelos seus devaneios, independentemente de serem no mínimo um pouco honestos.

Entropia

Tenho repetido seguidamente aos criacionistas que chamo de “amadores” que evitem usar o chamado “argumento da segunda lei da termodinâmica”, que é tão infeliz que seu uso é recomendado como a ser evitado por sites criacionistas

Acredito que as últimas contribuições que fiz ao artigo sobre a segunda lei da termodinâmica na Wikipédia encerram o assunto do ponto de vista de contra argumento, mesmo com vandalismos recentes (inclusive tal artigo hoje já ultrapassa neste campo o excelente artigo da Wikipédia em inglês), mas infelizmente, um artigo mais longo sobre o que realmente seja a vida e a evolução sobre o aspecto termodinâmico eu ainda devo a mim mesmo, além, obviamente, de meus leitores.

Aleatoriedade onde ela não existe ou não é total

Igualmente curiosa como insistente, é a argumentação de criacionistas contra os argumentos que seletividade, tal como a seleção natural propicia, ou mesmo a catálise das enzimas sobre a ordenação tanto de aminoácidos nas proteínas quanto na polimerização do RNA ou DNA (que é sua replicação) conduz a um processo ordenado e não caótico, exatamente como aquele que se observa no “teorema do macaco infinito” que mesmo sobre uma base geradora aleatória, por processo seletivo, chega-se a resultados coerentes com o que seja não uma linguagem articulada escrita, mas mesmo literatura, e mais que isso, a própria literatura que se deseja previamente.

Mas dentro deste argumento, como vimos, o processo de polimerização de aminoácidos, o processo de replicação do RNA e do DNA NÃO É completamente aleatório em sua base, sua origem, pois as moléculas só se encadeiam numa determinada ordem e sob determinados mecanismos, logo temos que os criacionistas desprezam tal questão fundamental, e consideram o processo como inteiramente aleatório, e mesmo quando confrontados com resultados “filtrados” coerentes a partir de uma base aleatória, continuam afirmando que tal não pode ser possível.

Desprezam mesmo questões mais fundamentais, como a que átomos e moléculas não se organizam aleatoriamente, como sempre brincamos com a questão de que cloro e sódio não se combinam aleatoriamente, por exemplo em Na2 e Cl3, ou mesmo NaCl2 ou qualquer coisa assim, e sim, sempre quase instantaneamente em NaCl, logo, o Monstro do Espaguete Voador, paródia de uma divindade criadora, a ser respeitada como “teoria criacionista” a também ser ensinada nas escolas, produziu o sal, e viu que era bom.

Igualmente clássico é o argumento, não pelas reações químicas e seus mecanismos, mas por simples propriedades físico-químicas, do óleo e da água, que pelas simples densidade e polaridade se separam, não interessando quanta energia se aplique ao sistema como agitação.

Moléculas também desfazem de maneira simples o argumento tanto da aleatoriedade em suas reações quanto em incapacidade de produzirem estruturas crescentemente complexas, como sempre cito, na banal “família” de reações químicas

H2O + CO2 → H2CO3

H2O + SO2 → H2SO3

, onde duas moléculas de três átomos formam uma mais complexa de seis e em nenhuma outra combinação a não ser sob condições extremas de energia, logo, as moléculas podem perfeitamente tender a complexação, além de não reagirem pela aleatoriedade, e sim, por mecanismos de reação química específicos.

E por favor (pegaram o tom?), se criacionistas acham que o caso acima é uma anomalia dentro da química, peguem o caso banal de

H2O + SO2 → H2SO3

alterando o número de átomos envolvidos, mas não o crescendo de complexidade do produto.

Ou das inúmeras polimerizações, como a do ácido adípico com a hexametilendiamina, produzindo nylon, aliás, intimamente relacionada com a síntese de proteínas, ou do ácido tereftálico e o etileno glicol, produzindo o PET de nossas garrafas de refrigerante. Aqui, se eu quisesse e não considerasse um total e completo desperdício até do tempo de quem me lê, poderia jogar quase a obra clássica inteira iniciada por Fieser, já em 23 volumes nesta edição, ou o site Organic Synthesis.

Resumindo, moléculas geram complexidade por si, doa ao amador em química em esperneio insano que seja.

“Princípio Vital”

Criacionistas volta e meia, mesmo sem ter específica cultura para isso*, apelam para o “princípio vital”, morto e enterrado desde a síntese da uréia, em 1828, a partir do aquecimento do cianato de amônio, inorgânico,

NH4(OCN) → CO (NH2)2

logo, do inorgânico surge o orgânico, e portanto, do inorgânico surge o bioquímico. Mas criacionistas retornam repetidamente a este argumento pífio, morto e enterrado em química, mesmo sem se necessitar chegar a questões mais complexas de síntese orgânica.

Para os que não conhecem a história desta questão, o que seja “princípio vital” era um dogma em Filosofia Natural, e até nos primórdios da química, que substâncias inorgânicas jamais poderiam produzir as substâncias que a vida utiliza, como aminoácidos, por exemplo, e mesmo subprodutos dos processos biológicos.

*Ver abaixo A questão do nível de linguagem e cultura específica.

Caudas de golfinhos, asas de águia, visão de toupeiras.

Criacionistas seguidamente colocam o “acaso” como responsável pela, digamos, cauda de um golfinho, como se assim o fosse sua origem, e mesmo esquecendo os séculos de passos deste processo, desprezam o mais que perceptível e indiscutível processo inexorável em permanente marcha que é a seleção natural, ou considerariam que um “urso” (no famoso pequeno erro de Darwin, ou um ungulado carnívoro, no nosso posterior desenvolvimento desta questão) ganharia uma cauda nadadora por milagre ou poderia nadar eficientemente sem esta no oceano?

Embora, mais uma vez, cuidado, pois ursos polares estão entre os melhores nadadores entre os animais terrestres, o que lembra o permanente problema dos criacionistas que acham que um orgão ou sistema para funcionar tem de ser perfeitamente adaptado ou um parcial não possa desempenhar determinadas funções.

Assim, primeiro colocam um processo aleatório onde ele não existe, depois, consideram que a forma tem de ser absolutamente fixa, e não poder se modificar, e em cima disto, afirmam que mesmo se modificando, uma cauda não plena como nadadora não poderia funcionar bem (embora, percebamos, para nadar bem, as patas fofas dos ursos polares funcionem bem), desprezando que a natureza apresenta nos inúmeros filos os mais diversos estágios parciais de desenvolvimento de diversas estruturas – só para ficar no ambiente aquático – como as caudas das lontras, das focas e dos leões marinhos, dos peixes-bois, num caminho próximo dos cetáceos, ou as asas dos avestruzes (sem falar nas capacidades apenas de planeio das galinhas e dos curtos vôos dos perus selvagens) e mesmo de aves sem asa alguma, como as extintas “aves elefantes” ou os atuais quivis, para citar outra estrutura sobre as quais tem verdadeira obsessão. Aqui, nesta questão, percebo uma aplicação de “paradoxo sorites” pela parte dos criacionistas, sempre na sua forma de falácia, ou seja: asa ou cauda nadadora é só aquilo que seja plena e absolutamente uma asa ou cauda nadadora, nada menos.

Biologias alternativas e genéticas exóticas

Criacionistas adoram afirmações retumbantes que não resistem a menor pesquisa mesmo por leigos, ou não sobrevivem à análise pelo próprio nível de ensino no qual afirmam que esta ou aquela afirmação científica é sólida, como “aprendemos no ginasial que mutantes não sobrevivem”. Engraçado, que tendo uma mutação que produz uma alteração na forma dos meus dentes molares chamada Tubérculo de Carabelli* e ao que parece, estou aqui, muito vivo.

*E notemos que modificações como estas levaram primeiro à formação de dentes diferenciados nos sinapsídeos, como o dimetrodon, cujo nome significa exatamente aquele que possui dois tamanhos destacados de dentes, em sua separação dos demais amniotas, como os répteis, que possuem indiferenciação de dentes, basta olhar um crocodilo.

Também como contra-exemplo marcante de que mutações não implicam em morte, temos os vírus e bactérias, que exatamente quando apresentam mutações que lhe sejam favoráveis, tornam-se ainda mais nocivos e letais aos seres humanos ou nossos animais e plantas (ou a qualquer ser vivo, fique bem claro), e exatamente quando sofremos (ou qualquer ser vivo) mutações que nos tornem a eles imunes ou pelo menos mais resistentes, sobrevivemos.

Ainda mais “pérola”, como nos acostumamos a dizer entre os debatedores de determinados círculos sobre evolução, é afirmarem que as modificações adquiridas não são transmitidas às gerações seguintes, quando exatamente as modificações adquiridas na genética são as transmitidas. Logo, se uma modificação como os tubérculos em meus molares passou de meu pai a mim, poderia receber uma nova mutação em minha genética, e se das células repodutivas, passar a um filho meu, agora com tubérculos em meus caninos (só para citar uma possibilidade).

Logo, não basta ao criacionista fazer afirmações que não se sustentam ao mínimo em observações simples sobre as diversas mutações humanas, sem falar de qualquer animal ou planta doméstica, como são as clássicas entre os estudantes de secundário patas curtas em ovelhas e os “umbigos” das laranjas, mas também colocar afirmações lamarckistas (que como negativas são sólidas) como se fossem afirmações da teoria sintética da evolução, que não só é darwinista como também é estruturada na genética.

Genética fixa quando nos é conveniente,
genética inexistente quando nos é inadequada

Aqui apresentarei como exemplo uma argumentação de comentário infeliz de um criacionista a comentário meu ao seu conjunto de pseudo-argumentos. Este criacionista pergunta em desafio como que a primeira aranha que produziu a teia com a viscosidade certa* transmitiu esta capacidade à geração seguinte. Aqui já se demonstra um conhecimento um tanto distorcido sobre genética, pois me parece até óbvio que basta se olhar para nossos cabelos e olhos no espelho e ver que os herdamos de nossos pais. (A questão não passa só por esta banalidade genética, mas sim, pelo que apresentarei após tratar esta argumentação sobre aranhas.)

*Primeiro, conhecendo um minimo de aranhas, e um tanto de química, dizem por aí, teria de perguntar proteína de teia para qual finalidade, pois temos aranhas que produzem desde capas para suas armadilhas no solo até as grandes “tecelãs de jardim”, com suas “rendas complexas” e inclusive aranhas que não produzem teia estrutural alguma.

Independentemente de criacionistas apelarem para um fixismo que não se sustenta**, aqui apelam para que não existam na natureza aranhas que não produzam teia complexa, e sobrevivam de maneira perfeita, como as domésticas aranhas “papa-moscas”, saltadoras, que são admiráveis em predar insetos, indo a caça sem espreitar que alguma presa fique presa seja lá no que for. Logo, é gritante que produzir teia não implica em sobreviver, logo, poderiam aranhas terem crescentemente produzido teias mais e mais aptas para caçar (ou mesmo, paradoxalmente ao argumento criacionista, terem abandonado a produção de teias para caçar como inúmeros outros artrópodes e até mesmo aranhas) geração após geração.

**Inclusive entre eles, como seguidamente repito pela própria necessidade de para sustentar o dilúvio bíblico, terem de se dobrar a evolução dentro de filos estanques, os espúrios “baramins”, e mesmo dentro destes, relutarem com determinadas estanqueidades que apresentam mas não existem, como entre raposas, coiotes, lobos e cães, ou entre os felinos, apenas para citar grupos destacados. Aqui, por exemplo, apelam para o mesmo em artrópodes, e apelariam genericamente para qualquer filo que se apresente continuidade – descendência – no tempo, relutando em cada caso apenas em buscar sustentar finalmente o fixismo, logo, criação.

Um acréscimo
, com mais caos ao mundinho perfeito e exato dos criacionistas

Pelo quadro da ausência de evidência de teleologia visto em O eterno retorno da Falácia de Hoyle e pela questão de combinatória como realmente deve ser tratada em Números misteriosos ou incompreendidos, vejo-me obrigado a alongar estas questões, agoras mescladas.

Criacionistas querem que o processo evolutivo seja obrigoriamente determinista, pois determinista foi a afirmada ação de sua divindade (aliás, determinista TEM DE SER uma divindade, ainda mais a bíblica). Defensores do Design Inteligente igualmente, pois pela sua argumentação, nada mais determinista que os arranjos moleculares que geram a complexidade que afirmam irredutível.

Infelizmente para ambos, apenas consideramos o processo evolutivo dos seres vivos indeterminista, num sentido mais trivial, em seus motores mais profundos, que são aleatórios*, ainda que sua variabilidade possível apresente limites.

*Pois quânticos, como por exemplo, a ação das radiações nas mutações.

Estes limites são claros pois evidentemente dos ovos de um colibri não nascem modificações destes em algo similar à uma águia, mas apenas colibris diferentes de seus pais e nem mesmo uma gata dá a luz a um tigre dente-de-sabre, mas pelo acúmulo de modificações, um colibri poderá ser o ancestral de uma ave tão poderosa quanto uma águia, e ainda mais facilmente uma gata poderá ser a ancestral de um felino de grande porte com enormes caninos.

Devemos observar que esta ave poderá ser extremamente parecida com um águia, assim como o felino de grandes caninos poderá ser quase idêntico a um pré-histórico tigre dente-de-sabre, mas estes hipotéticos animais não serão nem uma águia nem um Smilodon, pois estes evoluíram de outra ave e outro felino que não foram nem um colibri, nem um gato doméstico.

A evolução é um jogo cujas etapas podem se repetir em processos e regras, mas cada etapa depende da etapa anterior e é única em suas combinações.

Então a aleatoriedade opera dentro de limites, e causa bifurcações específicas nos cladogamas, as especiações, e estas são “peneiradas” de maneira determinante pela seleção natural.

E mesmo esta seleção tem em sua ação a aleatoriedadede do ambiente, que é aleatório nos processos astrofísicos, e mais ainda nos geologismos, pois a deriva continental é o maior motor da modificação dos ambientes terrestres.

Por fim, concluímos que a evolução é sob amplo aspecto indeterminística, mas em seu indeterminismo, converge com o ambiente para determinar exatamente as espécies que sobrevivem em cada período de tempo de cada ambiente geográfico (e até geológico) da história da vida na Terra.

Observação: Caro leitor – esta estapa deste texto poderá parecer óbvia, tediosa e até ridiculamente didática aos profissionais da área de Biologia e outros, mas tenho de alertar que este texto é originalmente de meu blog de divulgação científica, no qual, infelizmente, tenho não só de tecer críticas como também ser didático. Então pedirei perdão pela sua perda de tempo e espero sua compreensão.

A questão do nível de linguagem e cultura específica
(Poderia chamar este pequeno capítulo de “A origem dos meus ‘HAJA!’ “)

Percebamos a primariedade do argumento criacionista acima, e aqui repetirei um post no ORKUT que escrevi há anos, e infelizmente, se perdeu, e julgo agora adequado reescrevê-lo.

Na minha biblioteca, possuo dois livros chamados Advanced Organic Synthesis, um com o subtítulo Methods and Techniques, de Richard Monson e outro com o subtítulo Reaction and Synthesis, de Francis Carey e de Richard Sundberg. Para se ter uma visão do que e trata o que define-se por estes títulos como “síntese orgânica avançada”, seria recomendável passar os olhos por esta versão em pdf: Monson

Estas obras são escritas numa linguagem, hora específica e técnica, hora resumida e abreviada a extremos, que é praticamente ininteligível a não ser para aqueles profissionais de alguma vivência em síntese orgânica, que não só é a ciência e a técnica de se obter substâncias orgânicas, molecularmente falando, a partir de outras substâncias, sejam orgânicas ou não, por intermédio de reações químicas e processos físico-químicos (como aquecimentos a determinadas temperaturas e durante deerminados tempos). Afirmo ‘não só’ pois muitas sínteses possuem um tanto de arte, de técnicas que são empiricamente desenvolvidas, pois alguns passos e detalhes não possuem modelo algum que os trate, e inclusive, algumas ainda nem possuem uma explicação teórica (um exemplo que sempre cito é o ácido antranílico a partir do orto-nitrotolueno por oxi-redução interna – notemos que só esta linha já dá uma amostra do que quero afirmar neste parágrafo).

Não significa que a síntese orgânica avançada seja um campo transcendente, superior a qualquer outro, mas sim, que exatamente como inúmeros outros campos avançados em diversas ciências, é apenas inteligível em linguagem por quem possui já uma significativa experiência em tal campo, vivência e aprendizado em um nível superior.

Aqui entra a questão que quero afirmar: criacionistas, mesmo sem formação, experiência ou mesmo nível de linguagem, mesmo quando a possuem em outros campos, como são os casos destacados de Duane Gish e Michael Behe, curiosamente ambos bioquímicos, o primeiro um criacionista de “Terra Jovem”, biblicista, e o segundo um dos principais defensores do design inteligente (e aqui vale ler meu artigo de porque o D.I. é um criacionismo), não entendendo coisa alguma claramente de termodinâmica ou física nuclear acima de um determinado nível, ou bacteriologia e fisiologia do olho (sendo específico), respectivamente, fazerem ataques a um volume colossal de informação científica, inclusive por especialistas de renome maior que eles próprios em seus próprios campos de especialização e formação.

O que devemos dizer então de criacionistas sem a menor formação acadêmica em campo científico algum, a escrever volume enorme de coisa alguma sobre questões que não são difíceis de serem rebatidas por um estudante de secundário?

Ou ainda sim, quererem discutir sobre campos mesmo com pessoas com formação específica e robusta, quando não longa experiência nestas questões, sem nem se necessitar falar de biólogos e paleontólogos, mas por exemplo, químicos e engenheiros químicos, como é o meu caso, com formação tanto em termodinâmica num nível técnico bastante sofisticado, ou síntese orgância, com larga experiência acadêmica e profissional?

Voltemos aqui as duas questões acima: quem convence alguém com a Bíblia como resposta par questões científicas, quando nem mesmo neste campo seus dois primeiros livros escapam inclusive de contradições mútuas? Ou quem conseguirá provar-me que criacionismo não passa por um tanto de masoquismo a cercar um fundamentalismo patológico (como se algum não fosse)?

Responder a pergunta acima deveria ser tão banal quanto os criacionistas, dos mais diversos tipos, ao invés de ficarem perdendo seu tempo esmurrando o colosso intelectual que é a Biologia e sua inseparável “Teoria Eixo”, simplesmente comprovar os fenômenos miraculosos que afirmam.

Cérebro humano, o que ele NÃO é.

Tenho lido nos últimos tempos, em especial pelas idéias difundidas por Amit Goswami e pelo sucesso do, se é que podemos chamá-lo assim, documentário Quem somos nós?, de 2004, algumas idéias sobre o que seja a mente humana que me parecem quando não simplesmente tolas, até contrárias ao próprio evidente funcionamento do que seja o nosso cérebro.

Primeiramente, gostaria de apresentar uma questão: o cérebro humano e a mente humana podem ser comparados, até de maneira didática e útil, com o par hardware-software da informática, mas de maneira extremamente limitada. Exemplifiquemos. Quando leio que a massa molar da água é 18 gramas, posso até memorizar e “decorar” para toda minha vida, como agora apresento, que o sei, e o saberei provavelmente, a não ser em caso de algum acidente/intoxicação, logo dano ao meu cérebro, que tal dado apresenta tal valor. Este mesmo dado se guardado num HD de um computador, a menor consulta, por mais disperso e desorganizado que seja seu operador, ou mais primitivo seu sistema de organização de dados, lá estará até a falha final e irrecuperável deste computador e de seu sistema de armazenamento de dados.

Mas notemos, que similarmente, quando apresentado à variável gim (a bebida) e perguntado de onde este se origina (do que é produzido), poucos dias atrás, veio-me a lembrança o aguardente que o dissolve, forma principalmente, que era originário dos países baixos, especialmente da Holanda, que ganhou grande popularidade na Inglaterra, que ganhou o mundo pelo domínio Inglês, posteriormente, o norteamericano, que era a bebida preferida da rainha-mãe, que possui sabor marcante, que tem perdido espaço principalmente para a vodka, até o episódio de Missão Impossível onde banham pelo chuveiro um personagem nele para ser caracterizado como alcoólatra, até mesmo os dias em que tomava gim-tônica e gostava, lembrei de seu odor característico e de seu sabor, mas de forma alguma o que já tinha lido em revistas, assistido em documentário e relembrado vezes sem conta: a presença inseparável em sua produção do zimbro.

Aqui já percebemos a diferença. O cérebro não é um máquina lógica, eletrônica, digital, nem mesmo um computador analógico clássico. Ele não opera por balanço entre variáveis eletrônicas, como os computadores analógicos, nem tampouco opera por memorizações teoricamente permanente em um meio de gravação/memorização, ele é um sistema dinâmico de fluxos de impulsos, instável e plástico (no sentido fisiológico) sempre em associações de conceitos, de imagens, de “impressões”, e o termo aqui é psicologicamente mais amplo, e inclusive, causa forte impressão – perdão pelo forçado trocadilho.

O cérebro e sua mente, e mesmo os mais místicos, terão de assumir que é um sistema com a capacidade de processamento de eventos físicos no tempo, como se mostra mesmo o meu, quando tenho uma bola de basquete arremessada numa certa velocidade no espaço, e minhas mãos vão de encontro à esta bola com precisão milimétrica naquela posição do espaço e tempo. Igualmente, é um “coordenador robótico” de altíssima capacidade, pois após dois ou três arremessos, minha memória neuro-muscular me fará mais e mais acertar arremessos da linha de três pontos, até o momento que minha máquina biológica muscular, movida a glicogênio e um tanto de gordura, pelo menos por enquanto assim a limita nossa tecnologia e muito limitará nossas contas bancárias, apresentar exaustão, e a taxa de acertos decair vertiginosamente. O que se dizer então de um saltador olímpico, ou um ginasta, esportes imensamente mais complexos, ou um atirador de arco e flecha, muitíssimo mais preciso.

Logo, o cérebro-mente é um processador do comportamento do físico, e um coordenador do físico (nosso) no espaço e no tempo, e tal não pode ser negado.

Mas somos um processador lógico, matemático? A resposta é claramente não.

Temos a capacidade, e alguns de nós imensamente mais, como os gênios da matemática Euler e Gauss, de fazer processamento lógico-matemático, e até matemático puro, aritmético, mas mesmo cérebros-mente anômalos, como os “autistas sábios”, que podem fazer cálculos mais rápidos que eu com uma calculadora, não são capazes de fazer, nem na verdade o fazem, computação propriamente dita. Fazem uma emulação cerebral de computação. Assim, qualquer calculadora de poucos reais fará cálculos a mesma velocidade de qualquer expoente fracionário com seu limite de número de dígitos, mas mesmo o mais capaz dos autistas sábios fará apenas bem cálculos para determinado número de dígitos e para determinados expoentes, ou “raízes”, sejamos mais populares. O autor Oliver Sacks descreve casos interessantes desta natureza em seus livros.

Igualmente, eu possuo um excelente raciocínio espacial, mas seria incapaz de fazer uma simulação do vôo de mesmo um besouro em minha sala, fluidodinamicamente falando, embora mentalmente, possa até considerar que o esteja fazendo. A história da ciência está cheia de erros dos mais poderosos cérebros em casos similares, como Aristóteles, que por raciocínios, chegou aos resultados hoje ridículos de que corpos de massas diferentes cairiam com velocidades diferentes, ou que a velocidade de um corpo na horizontal encerra-se quando este começa a cair na vertical (do ponto de vista físico, este erro é tão grosseiro que chega a me ser difícil apresentá-lo, dado, que até como quero provar, meu cérebro-mente é uma “máquina” extremamente instável e limitada).

Não pensem de forma alguma que desejo pegar o exemplo de Aristóteles como destacado em erros, até porque mais adiante, voltarei a citá-lo indiretamente, exatamente por muito do que o pensamento dos filósofos foi prejudicial nesta área, pois mesmo físicos, já propriamente ditos, como Galileu, perderam-se em negar, por puro raciocínio errôneo, a influência da Lua nas marés, por exemplo, ou Einstein as implicações e afirmações da mecânica quântica.

Como dissemos, o cérebro não é um processador lógico, e nem mesmo, como pretenderam os filósofos gregos e outros, pensa por mecanismos transcendentes ao biológico, ao instável, ao efêmero e até ao tendencioso, e assim, não por lógica perfeita e formalizável, e aqui nasce muito de nossa criatividade, ao fundir conceitos completamente separados, e praticamente toda nossa arte.

Citando arte, os grandes compositores e músicos são os grandes mestres do planejamento de fenômenos no tempo, e os grandes mestres do que chamamos harmonia, das construções sonoras que encantam pelos efeitos agradáveis ao nosso cérebro. Mas também, exatamente por sua grandeza e qualidade, são os maiores destruidores disto, exatamente no que chamamos em música de “acordes dissonantes” (lembre-se da trilha de Psicose e já vai descobrir o que isto seja, se não sabe ainda), e como mostram os compositores já posteriores a Beethoven, em criar “imagens musicais” (aqui este absurdo foi proposital) que não são de forma alguma agradáveis, bucólicas, mas sim, agressivas e até assustadoras. Arte não é só o belo, mas expressar muitas vezes nossos piores sentimentos, inclusive, porque humanos somos, e nada mais. Aqui já temos que a máquina cerebral não é apenas voltada ao belo e perfeito, e sim, a um tanto de nossas necessidades mais primitivas e fundamentais, herança de nosso processo evolutivo.

Encarando com um pouco mais de moderação até aqui o que já percebemos que não é uma maravilha o que seja nosso cérebro, poderíamos tratá-lo como um processador em desenvolvimento pela evolução há milhões de anos, partindo, por exemplo, do cérebro de um mamífero insetívoro contemporâneo dos dinossauros, quase um IBM XT, até chegar ao digamos, processador poderoso de última geração que este é hoje. Desculpem os mais empolgados, mas se uma indústria de hardware progredisse como a evolução, e no seu rítmo, já teria falido nos anos 80.

Nosso mais poderoso computador de mesa hoje é um roedor de pequeno porte em termos de processamento, mas tal não se deu por um processo evolutivo biológico. Mas nosso cérebro, ainda um tanto distante em vantagem de nossos mais poderosos computadores, no que tange a coordenar um robô (no sentido aqui apenas de componentes mecânicos) executar tarefas variadas e complexas, relacionar a partir do nada questões pouco similares (como álgebra e sabor de um suco) e processar desde poemas até sons, evoluiu, e tal se deu em capacidade a taxa muito baixa.

Uma das poucas vantagens que nosso cérebro tem (na verdade, qualquer cérebro), e isto é tratado de maneira magnífica por Raymond Kurzweil, apresenta geometria não plana de construção, e sim, volumétrica. Mas tal se deu por absoluta economia, não por um designer que assim o fizesse econômico, pois cá entre nó, somos apenas, junto com todo os animais cerebrados, um modificação de uma “planária” que decide para que lado vai ou alimentar-se ou fugir de ser devorada. Nosso cérebro pode ser comparado a um fígado ou coração, apenas com finalidade específica. Logo, não é um processador retangular harmonioso e cartesiano, econômico em formas e sem problemas de se encaixar numa base perfeita, mas também não é como outros órgãos também não o são um eficiente reator químico com catalisadores, nem tampouco uma poderosa bomba centrífuga.

Somos biológicos, não máquinas newtonianas-maxwellianas-bernoullinianas, citando o físico base para o mecânico, o básico para o elétrico e o respectivo para o hidrodinâmico. Não somos produto de física, somos a sobrevivência das modificações possíveis.

Acredito que até aqui, apresentei problemas demais ao que seja nosso cérebro, e não apresentei ainda, além disto, o que ele não seja. Mas desculpem-me, pois sou, infelizmente, outro cérebro-mente a produzir a apresentação de um conjunto complexo de conceitos, logo, não lógico e plenamente funcional, mas caótico e “bifurcante” como todo sistema biológico.

Nosso cérebro opera, e tal é claro e evidente na medicina, por impulsos nervosos que são operação conjunta de neurotransmissores e íons. Tal conjunto de sinalizações entre os neurônios não se dá ao nível subatômico e sim, a um nível molar, e aqui o conceito de uma unidade mínima para o que seja o funcionamento cerebral me é extremamente útil. Mas notemos que esta “partícula” não é um elétron ou um próton, mínimas cargas no mundo bioquímico, e sim, um lote enorme de moléculas de neurotransmissores ou íons. O mesmo se dá quando chegamos ao um nível de informação que forme uma unidade mínima de memorização, e adiante desta escala, o que passamos de mente à mente, pela linguagem e vida social, que seria o objeto da memética.

Logo, como vimos, o cérebro não é quântico, ou microscópico, mas apenas o resultado macroscópico do microscópico, e nem apenas de cada componente microscópico, mesmo suas células, imprescindivelmente. Depende sim de seu mais amplo conjunto e seu momentâneo estado.

Acrescento, depende até, como eu, que sou hipoglicêmico, da quantidade de carboidratos que comi há umas duas horas atrás.

Mas focando-nos neste processo multimolecular de funcionamento, e agora integrado ao corpo que o abriga e sustenta em recursos energéticos, e lembrando-nos que o cérebro é bastante difuso e não pode ser comparado à uma bobina, é bom também alertar que não é um receptor de rádio, que capte informações de um processamente (que tal como vimos, é bastante caótico) de uma supra-realidade onde habite os pensamentos, ou imagem olímpica similar. O cérebro está aqui, e nele, biogicamente, está sua mente, e tanto está e nele funciona, que ao menor acréscimo de uma substância como os fluorados Prozac e seus similares, muda de “estado de espírito”, ao acréscimo de substâncias como as encontráveis no chocolate, ou no café e no chá; muda seus rítmos. Então se o químico o altera, químico é, ou teríamos de também acrescentar que o químico mudaria o comportamento deste “rádio para outro mundo”. Que aliás, por quem o defende, que seja apresentado, pois até agora não o evidenciamos em nível algum, e como agora apresento, também como hipótese apresenta seus graves problemas.

Se o químico altera o funcionamento do “rádio”, também o afetam danos de diversos níveis. Mas igualmente, o cérebro não é um projeto de operação compartimentada, tal como nos lembra os saudosos computadores Amiga. Não existe aquela região perfeitamente delimitada que opera a emoção, ou o movimento da perna, ou a visão do olho direito, ou a lembrança da forma de uma flor determinada ou o que raios seja uma baga de zimbros. Existe sim regiões biológicas, difusamente delimitadas, e espero que tal seja bem entendido, onde “por ali” são processados a emoção do reencontro com um amigo íntimo de muitos anos, noutra, a coordenação de uma passada firme e bem dada para executar um arremesso bem feito, noutra fica armazenada a memória de uma bela flor, noutra que jasmim me causa enjôos, noutra, o sabor de gim-tônica, que lembra a maravilhosa paquera de vinte e tantos anos atrás, que por sinal, anos mais tarde soube que era relacionado com exótica fruta dos países baixos. E as fronteiras destas regiões se interpenetram, sutilmente, daí um jogo me lembrar um odor, ou uma música um sabor, ou a mesma música me motivar.

Assim, o “radinho” dos mais místicos e crentes num valhala cósmico, onde abrigam-se os pensares, é difuso num cérebro um tanto padronizado, e recebido numa máquina biológica que varia da minha para meu amigo Eli, ao ponto que cérebros não são iguais, tanto como não são iguais as nossas digitais. Mas ao primeiro acidente que soframos, menos iguais serão, e talvez o meu se recupere de maneira fantástica, assombrosa, quase milagrosa, e o dele não, ou o meu, com pequena lesão (e notemos que aqui, mais e mais, a hipótese de um “cérebro-rádio” vai-se com o vento) talvez fique impossibilitado do mínimo processamento matemático, coisa que hoje não é, e o dele, com lesão muito maior, agora recupere-se bem, mas por um acaso, um talento que hoje não possuo, que é mesmo tendo um bom processamento mental para música, seja incapaz de tocar a mínima música infantil ao teclado com mão esquerda, surja “por milagre”. E um talento nem um pouco brilhante como esse pode emergir num cérebro lesado agora incapaz de lembrar da pessoa que cumprimentou há dois minutos ou de realizar uma simples conta de somar.

Assim, ao contrário de um computador, ou um rádio, que após um tombo, ou mesmo um pico de corrente, perca sua capacidade e dados, o biológico, limitado e não lógico cérebro é plástico, adapta-se a novas funções a partir de um resíduo suficiente, o que está distante do tecnológico ainda por muito tempo, e tal me parece muito mais magnífico que um cérebro reduzido à uma caixa receptora de um xangrilá sobrenatural ou de um compartimento onde vai se adaptando com o amadurecimento (e definhando com a decadência biológica, nem sempre padrão) um fantasma imaterial originalmente perfeito mas inverossímil.

Logo, não há uma “mente quântica”, não há um cérebro receptor do além natural, não há um receptáculo para uma alma, nascido por milagre pela modificação de uma cria tão amada por sua mãe quanto eu ou você foi pela minha ou pela sua, emanado nesta injustiça sabe-se lá por que criatura assim injusta.

Há um cérebro biológico operando, composto por unidades biológicas imperfeitas e instáveis, de quantidades de partículas quânticas iguais a de qualquer pedra de mesmo peso/volume/densidade, sujeitas ao erro, operadoras de um sistema que sobrevive há milhões de anos, capaz de aprendizado com o meio, coordenador de uma máquina em permanente marcha para a morte, e nisto seu impulso pela vida, tão justo e fraterno como o foram os de seus pais, e tão falho quanto estes, tentando entender o mundo e a si mesmo, inclusive em ser exato ao arremessar uma bola, ou se lembrar o que compõe o gim, ou mesmo, escrevendo este texto para você, ainda num corpo bastante hábil.

Só não diga que esta mente é mais que isto, pois não é. Não somos o universo tentando entender a si mesmo, mas sim, apenas uma região de organização do universo, que se entende como aproximadamente uma unidade, tentando entender inclusive o que seja o universo onde se encontra, ou mesmo, o cérebro-corpo em que opera.

Se desejar chamar este processo neste cérebro não de mente, mas de alma, confesso que minha mente não achará ruim.