Eli Vieira

Os humanos ainda estão evoluindo? Com certeza!

Pare um pouco. Não vá com tanta sede ao pote. Antes de continuar, pergunte a você mesmo: o que é “evolução” na ciência? O que significa dizer que os humanos ainda estão evoluindo? É que as pessoas estão ficando melhores, mais inteligentes, mais astutas, menos tolas ao votar nos senadores? Nada disso. Evolução não é melhoria. Evolução não é progresso. Para ser mais exato, na verdade evolução pode ser melhoria e progresso, mas não é. Confuso?

O caso é que melhoria e progresso são conceitos bastante frouxos e relativos, e só por isso já não servem para a ciência. São conceitos ligados ao modo como enxergamos o que é bom e o que é ruim, e como bem sabemos, o lixo de alguém pode ser o luxo de outra pessoa, e existem na história da filosofia diversas formas de enxergar a moral. Em geral os filósofos dedicam seu pensamento nessa questão a uma área de investigação filosófica chamada Ética ou Filosofia Moral. Pergunte a um filósofo o que é bem e mal (e melhoria nada mais é que o avanço do bem sobre o mal), e você provavelmente receberá outras perguntas como resposta: “Depende. De acordo com Platão? Ou Epicuro, ou Spinoza, ou Kant… (etc. etc.)?”

Em poucas palavras, melhoria e progresso são objeto de estudo da filosofia, não da ciência.

Evolução, do latim evolvere (desdobrar-se), não é nada disso na biologia. Mark Ridley a define no glossário do livro Evolução:

Darwin definiu-a como “a descendência com modificações”. É a mudança, entre as gerações, nas linhagens das populações. [Ênfase acrescentada.]

Você não vai encontrar a palavra “evolução” em nenhum lugar do livro Da origem das espécies de Charles Darwin. O que ele chamava de “descendência com modificação” é, portanto, o que chamamos hoje de evolução, como Ridley lembra. Evolução é mudança, modificação, causada principalmente pela seleção natural (a sobrevivência não aleatória de variedades que surgem casualmente). E como as características dos seres vivos estão fundamentadas principalmente nos genes, evolução então é a mudança nos genes? Não exatamente. Mudança nos genes por si só é mutação. Evolução seria então a diferença na persistência de mutações diferentes, ou variedades diferentes de genes, ao longo das gerações.

Como existem mutações favoráveis para a sobrevivência (como a mutação de uma família de italianos que evita que o colesterol se acumule em suas artérias) e mutações desfavoráveis para a sobrevivência (como as que causam os fetos anencéfalos), necessariamente nem todas as variedades de genes persistem com o passar das gerações. As frequências (ou seja, porcentagens) dos genes mudam. Existem técnicas genéticas para detectar se a evolução está acontecendo.

Voltemos então à pergunta: os humanos ainda estão evoluindo? As linhagens das populações humanas estão se modificando? A frequência dos genes humanos está mudando?

Stephen Stearns, um biólogo da Universidade de Yale, se juntou a outros cientistas para responder a esta pergunta. Seus resultados foram publicados pela revista científica PNAS, e dizem sim.

O estudo mostra que, por mais que a Medicina trabalhe para amenizar o resultado das mutações desfavoráveis, o Homo sapiens está sim evoluindo e sendo moldado pela seleção natural, talvez até nas mesmas taxas evolutivas de outros seres vivos.

ResearchBlogging.orgOs pesquisadores analisaram características importantes para a saúde humana em dados de uma pesquisa realizada durante 60 anos com 2000 mulheres dos Estados Unidos, e descobriram, através do número de filhos de cada uma das mulheres, que a diferença neste número mostra que a seleção natural está favorecendo mulheres um pouco mais baixas, mais gordinhas, com menores níveis de pressão sanguínea e colesterol, que têm filhos quando estão mais novas, e que atingem a menopausa mais tarde.

Em suma, a evolução está acontecendo nos humanos, e, segundo o estudo, em taxas que são de médias a baixas, o que só corrobora resultados anteriores em outras áreas como a genética molecular.

Agora discuta com seus amigos: isso é melhoria? Depende, diz o filósofo: você gosta de mulheres baixinhas e cheinhas?

(Lembrando que se a seleção natural persistir neste caminho nos Estados Unidos, não significa que esteja na mesma rota no resto do mundo. Como todo biólogo sabe, é o meio-ambiente que determina para onde vai a seleção natural.)

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Referências

Ridley, M. Evolução. Artmed, 2006.

Byars, S., Ewbank, D., Govindaraju, D., & Stearns, S. (2009). Natural selection in a contemporary human population. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106 (42) : doi: 10.1073_pnas.0906199106

Créditos das imagens
– Feto: NEIL BROMHALL / SCIENCE PHOTO LIBRARY
– Evolução humana: BILL SANDERSON / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Aquecimento global: salve-se quem puder!

Eu estava comendo um lanche com um amigo aqui em Brasília esta semana, e ele comentou comigo como está estranha essa invasão de pequenos besouros na cidade. Estamos começando a estação chuvosa do Cerrado, então é comum que os insetos pululem ao nosso redor numa algaravia intensa de sexo e morte.

Mas para nós dois parece que algo está diferente. Ou há mais insetos que o normal, ou a composição dos tipos de insetos que ficam rodopiando em volta das luzes da cidade está diferente. Qual é a causa? Aventamos a hipótese de que o aquecimento global tem algo a ver com isso. Mas somos apenas dois demagogos comendo sanduíche numa loja de conveniência, não fizemos experimento nenhum, então nada (além de algum valor intuitivo de plausibilidade) podemos oferecer para amparar nossas explicações preguiçosas. Mas nada mesmo? Enquanto estapeamos os besouros que ficam pousando em nossas cabeças, chineses botam a mão na massa.

Na semana passada, a revista científica Nature noticiou que cientistas chineses, após analisar mais de mil anos de registros históricos (MIL anos!), concluíram que explosões populacionais de gafanhotos têm maior probabilidade de acontecer quando o clima está mais quente e mais seco.

ResearchBlogging.orgO motivo de os chineses estarem registrando esses dados há tanto tempo, além do óbvio fato de a China ser uma civilização letrada há milhares de anos, é que esses enxames de gafanhotos causam diversas perdas para os humanos, destruindo as plantações. Na verdade, os registros chineses de tais nuvens de gafanhotos remontam até a datas superiores a dois mil anos atrás.

Ge Quansheng, envolvido no estudo e diretor do Instituto de Pesquisas em Ciências Geográficas e Recursos Naturais da Academia Chinesa de Ciências, disse à Nature que “os resultados são um alarme para mais uma consequência séria das mudanças climáticas”.

Muitos gafanhotos, muitos besouros… muitos gafanhotos e besouros se reproduzindo… muitos gafanhotos e besouros morrendo. O que isso lembra?

Lembra as premissas que Charles Darwin usou para concluir que o mecanismo por trás da mudança evolutiva é a seleção natural.

O aquecimento global antropogênico já é uma fonte de seleção natural (ou pressão seletiva, como costumam chamar os biólogos evolutivos) nas espécies do planeta. Quando seu hábitat está ficando insuportável, existem três “saídas”: extinção, adaptação às novas condições ou o bom e velho “salve-se quem puder”, a migração. (As três coisas podem acontecer concomitantemente à seleção natural.)

Migração significa que a distribuição de várias espécies pode mudar no futuro do planeta, como estima a pesquisa de William Cheung e colaboradores, publicada este mês na revista científica Global Change Biology.

A equipe de Cheung calculou o que acontecerá com 1066 espécies marinhas que são alvos da pesca comercial (vertebrados e invertebrados), a fonte de alimentação de muita gente. A conclusão dos cientistas é que o potencial de captura desses frutos do mar crescerá de 30 a 70% em altas latitudes, mas cairá 40% nas regiões dos trópicos até o ano de 2055. Isso significa milionários da indústria da pesca em países como Noruega e Rússia, e grandes problemas para os pescadores do Brasil e da África.

Enquanto isso, Richard Kerr, na revista Science, relata que pesquisas mostram que o aquecimento se manteve estável nos últimos dez anos. Porém, isso pode ser mais o barulho de um pavio se encurtando do que um motivo para refrescarmos a cuca. Apesar de toda a festa dos negacionistas do aquecimento global antropogênico, as simulações dos cientistas já esperavam que num quadro de aquecimento acontecessem pausas de estabilidade como a da última década. A perspectiva para o século XXI continua sendo de aumento de pelo menos 2°C na média da temperatura global.

Eu disse 2°C? Novos estudos científicos indicam que pode aumentar ainda mais, até 4°C em 2060 ou 2070.

Os últimos 10 anos podem ter indicado que não foi tão ruim assim o saldo da flatulenta insistência humana em emitir gases de efeito estufa, quando somada a outros efeitos climáticos como La Niña e El Niño. Mas a perspectiva de especialistas, reunidos este mês na Universidade de Oxford, é pessimista.

Os modelos para o aumento de 4°C incluem grandes declínios (de até 20%) no regime de chuvas na África, na Austrália, no Mediterrâneo e na América Central, o que pode significar mais fome no mundo.

Uma das pesquisas tratadas no encontro, de Richard Betts, prevê que 4°C de aumento no mundo significam até 10°C a mais em regiões como a África ocidental e meridional, e o mesmo ou ainda mais no Ártico.

Outro estudo apresentado em Oxford, de Nigel Arnell, faz cálculos para o que pode acontecer até 2080 se as emissões de gás carbônico não sofrerem cortes dramáticos: 1 bilhão de pessoas sofrerão por causa da força da água, metade delas em áreas propensas a inundações; as lavouras mudarão intensamente, com possíveis quedas em produções como a soja; até 15% da terra cultivável atual se tornará infértil, embora as terras aquecidas em locais antes frios podem representar 20% a mais de terra fértil; e a cobertura da Amazônia sofrerá uma retração significativa.

Quais são as soluções? Existem as soluções arriscadas e malucas, e as soluções simples.

Uma solução arriscada e maluca é imitar o que já aconteceu na história registrada durante erupções de vulcões: emissão de gases aerossóis (como gases compostos por enxofre) na atmosfera, para que eles diminuam as temperaturas. Poderia ser usado numa emergência global, mas os custos são altos e os riscos também, como indica um artigo científico de Alan Robock e colaboradores relatado em Nature Reports Climate Change . Os riscos incluem dificultar o fechamento do buraco na camada de ozônio sobre a Antártida, secas regionais, acidificação dos oceanos (que destrói os corais), redução na quantidade de luz solar que recebemos e – pasme! – o fim da cor azul do céu. Os autores concluem que esta “geoengenharia” será usada apenas na medida em que os danos provocados pelo aquecimento forem grandes demais.

A solução simples continua sendo uma dramática diminuição na emissão de gás carbônico, e nisso cada um dos bilhões de seres humanos neste planeta pode contribuir.

Ou vamos deixar que nossa irracionalidade nos jogue novamente nas presas sangrentas da seleção natural? Vamos agir como os besourinhos de Brasília em torno das lâmpadas, hipnotizados pelos prazeres do consumo irresponsável, sem olhar o que está acontecendo em volta e sendo esmagados pelas circunstâncias?

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Referências:

Qiu, J. (2009). Global warming may worsen locust swarms Nature DOI: 10.1038/news.2009.978

CHEUNG, W., LAM, V., SARMIENTO, J., KEARNEY, K., WATSON, R., ZELLER, D., & PAULY, D. (2009). Large-scale redistribution of maximum fisheries catch potential in the global ocean under climate change Global Change Biology DOI: 10.1111/j.1365-2486.2009.01995.x

Kerr, R. (2009). What Happened to Global Warming? Scientists Say Just Wait a Bit Science, 326 (5949), 28-29 DOI: 10.1126/science.326_28a

Barnett, A. (2009). No easy way out Nature Reports Climate Change (0911) DOI: 10.1038/climate.2009.106

Heffernan, O. (2009). Risky business Nature Reports Climate Change (0911) DOI: 10.1038/climate.2009.105
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Créditos das imagens
Nuvem de gafanhotos: KAZUYOSHI NOMACHI / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Gráfico mostrando a estabilidade do aquecimento nos últimos 10 anos: Adaptado de J. KNIGHT ET AL., BULL. AMER. METEOR. SOC., 90 (SUPPL.), S22–S23 (AUGUST 2009)

BLOG ACTION DAY

TV Cultura lança programa “Evolução – a festa da vida”

Nova série Videociência aos sábados, às 18h, na TV Cultura, aborda a evolução biológica.

A partir de 24 de outubro, a TV Cultura exibe aos sábados, das 18 às 19h, a série “Evolução, a Festa da Vida”, de seis episódios sobre a teoria da evolução e seus impactos no nosso dia-a-dia. Desenvolvida pela Video Ciência Produções em parceria com a Escola SESC de Ensino Médio e apoio do Projeto Ver Ciência, a nova série tem formato de talk show, com platéia de 40 jovens de todo o Brasil (alunos da Escola SESC Ensino Médio), cientistas convidados da USP e da UFRJ e várias bandas que animam a galera e dão o clima festivo dos programas.

Os programas têm apresentação dos jornalistas Vinícius Canisso e Bruna Aucar e participação especial do Professor Nelio Bizzo, da USP, especialista no tema evolução e coordenador científico da série, que apresenta e entrevista outros cientistas convidados, da USP e da UFRJ. A direção geral é do jornalista científico Sergio Brandão, diretor da produtora independente Videociência e curador internacional das mostras Ver Ciência, um apaixonado pelo tema da teoria da evolução.

“Evolução, a Festa da Vida” terá pré-estreia para imprensa e convidados no dia 16 de outubro em Jacarepaguá.

O primeiro programa, “Antes e Depois de Darwin”, mostra a passagem marcante do cientista pelo Brasil, em 1832, com apenas 23 anos de idade. A Profa. Maria Isabel Landim, do Museu de Zoologia da USP, explica por que o mundo tem motivos de sobra para celebrar a fabulosa contribuição do naturalista britânico ao avanço do conhecimento.

O segundo, “Quanto Tempo Leva a Evolução? / Darwin e o Tempo Geológico” aborda as contribuições da Geologia e da Paleontologia para a compreensão do desenvolvimento da teoria evolutiva de Darwin.

O terceiro, “O que é Seleção Natural?” analisa as questões relativas à diversidade biológica, à reprodução dos seres vivos e à competição entre indivíduos da mesma espécie.

O quarto, “O que Darwin não conhecia? / Genética e DNA” explica como Darwin concebeu sua teoria da evolução por seleção natural sem mencionar os mecanismos modernos da hereditariedade e da origem da variabilidade entre indivíduos da mesma espécie.

O quinto, “Por Que Somos Como Somos / Darwin e a Psicologia” nos ajuda a compreender o comportamento humano e explica em que aspectos ele é semelhante e diferente ao dos animais. Ou melhor: em que medida há uma base biológica para esta explicação.

O sexto e último programa, “Aplicações da Teoria da Evolução / Para Onde Vamos?”, explora as aplicações e implicações da teoria da evolução em diversas áreas, como na medicina, na agropecuária, na proteção ao meio ambiente e até na ciência de computação.

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E-mails para o programa: festadavida@verciencia.com.br

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EVOLUÇÃO, A FESTA DA VIDA

Direção Geral: Sérgio M.C. Brandão / Produção: Videociência

Programa 1 – “Antes e Depois de Darwin” – 24 de outubro, 18h
Programa 2 – “ Quanto tempo leva a Evolução? / Darwin e o Tempo Geológico” -31 de outubro, 18h
Programa 3 – “O que é Seleção Natural” – 7 de novembro, 18h
Programa 4 – “O que Darwin não conhecia / Genética e DNA” – 14 de novembro, 18h
Programa 5 -“Por Que Somos como Somos (Darwin e a Psicologia) – 21 de novembro, 18h
Programa 6 – “Aplicações da Teoria da Evolução / Para onde vamos” – 28 de novembro, 18h

Charles Darwin: o postilhão dos Andes

Autor: Nelio Bizzo*
Fonte: Jornal Darwin 200 anos, UFRGS, 12 de fevereiro de 2009.

Tudo aconteceu em poucos dias. Charles Darwin, jovem recém-formado, recebeu a notícia que fora indicado para acompanhar uma expedição que iria dar a volta ao mundo, logo depois de terminar uma pequena viagem de campo com seu professor de Geologia. Na longa viagem, seriam visitadas terras jamais estudadas. Seu martelo geológico haveria de ser o primeiro a picar uma rocha nas alturas das encostas dos Andes e o converteria no novo mensageiro a anunciar coisas inauditas.

Além de convencer o pai a autorizar a viagem e bancar-lhe os gastos ao longo de alguns anos, era necessário ainda vencer a contrariedade do também jovem capitão do navio. Era o segundo desafio, pois a participação política dos Darwin (o lado paterno) e sobretudo dos Wedgwood (o lado materno), industriais muito bem sucedidos na convulsionada Inglaterra de inícios do século XIX, tinha sido totalmente oposta à da família do capitão, de uma aristocracia antiga e ainda muito importante, embora francamente decadente.

Uma viagem ao redor do mundo era, àquela época, algo parecido com uma expedição espacial hoje em dia. Para experimentar a sensação de gravidade zero, é preciso estar em meio a um aparato tecnológico muito avançado, batendo às portas da fama planetária (ou em um elevador enferrujado que despenca do alto de um velho edifício). Naquela época, a viagem marítima requeria cuidados especiais: jamais desembarcar desarmado, ter um bom par de pistolas à mão e boa pontaria além de total desconfiança nos povos visitados.

O jovem capitão Robert FitzRoy era exigente e tão meticulosamente perfeccionista que haveria de fazer e refazer sua tarefa cartográfica diversas vezes. Mapear com precisão a costa do extremo sul da América do Sul tinha se tornado uma obsessão. O navio escolhido tinha sido o mesmo com o qual tivera visitado a região anos antes. O HMS Beagle voltaria ao local que levara à loucura seu capitão anterior, John Stokes. “A alma de um homem morre com ele”, escreveu o desesperado capitão instantes antes de meter uma bala na cabeça, certo de que não haveria vida além da morte.

Mas a partida da Inglaterra não seria nada fácil. Numa época em que os casamentos dos ricos eram muito mais pactos entre famílias, em que implicações patrimoniais disputavam palmo a palmo as razões do coração, o jovem Darwin estava dividido. Ele queria viajar, ver com os próprios olhos aquilo que lera em [Alexander von] Humboldt. Mas ele sabia que uma jovem, muito rica e esplendidamente bela, estava ansiosa por receber seu pedido de casamento. O Dr. Robert torcera o nariz para a viagem do filho, mas certamente o incentivaria a ir adiante e fundir os Darwin com os Mostyn-Owen. Eles moravam numa suntuosa propriedade, em meio a um bosque, onde o jovem Charles afiara a pontaria. Agora, poderia dar seu mote final e deixar contentes a todos.

Decidiu-se pelo mais difícil e incerto, e partiu com juras de amor, com a promessa de que alguém o aguardaria o tempo que fosse, e no retorno a encontraria apenas um pouco mais velha e confusa, mas essencialmente a mesma.

A viagem durou quase cinco anos e trouxe de volta à Inglaterra duas convicções e uma desilusão amorosa. Para FitzRoy, as marcas do Dilúvio Universal podiam ser encontradas nos restos marinhos que jaziam acima do nível do mar. No entanto, o jovem Charles Darwin trouxe para sua terra a certeza de que as montanhas eram testemunhas elevadas de um passado antigo e remoto, que abrigara ancestrais monstruosos que desapareceram sem deixar descendentes. Esta era a mensagem do postilhão dos Andes.

A possibilidade de criação de variedades de couves, flores, pombos, galinhas e cães era bem conhecida. Ela podia ser feita pela mão do ser humano. Mas, e a criação de novas espécies? Ela poderia dispensar uma intervenção sobrenatural? Um processo corriqueiro e absolutamente natural poderia explicar a presença da espécie humana em nosso planeta? Essa era a segunda convicção que o Beagle trouxera de volta à Inglaterra naqueles idos de 1836.

Talvez a criação de couves pudesse explicar como primatas peludos poderiam ter gerado homens de coração mole, como aquele que passou sua primeira noite no Rio de Janeiro soluçando em prantos a perda da mulher amada e o fim do sonho de tê-la como esposa. Mas eles tinham tido como descendentes também mulheres determinadas, como aquela que esqueceu suas juras de amor ao receber o pedido de casamento de um membro da nobreza, mesmo que comprovasse apenas setenta e um costados, mas dono do grandioso castelo medieval da região.

O jovem Darwin não seria mais um ministro anglicano, responsável por uma bela paróquia arrecadando impostos e tendo filhos com uma bela esposa. Ele seria um homem da ciência, um trabalhador incansável, talvez como uma abelha assexuada.** Em 1859 veio à luz o livro que daria fama planetária a Charles Darwin, maior do que a dos homens que conheceram a sensação de ausência de gravidade para além de nossa atmosfera. Naquele ano foi publicado A Origem das Espécies, um livro que até hoje evoca as mais diferentes reações. Ele sintetizava a grande convicção que nascera a bordo do Beagle, enfibrada com mecanismos desenvolvidos em terra firme britânica, em tempo mais recente. A seleção natural explicava como o monótono suceder de gerações acabava por gerar as novidades evolutivas no suceder das eras geológicas.

O sucesso evolutivo não pode existir sem seu contrário. Assim como a dúvida da morte é a única certeza da vida, a extinção é o evento mais frequente que acompanha a origem das espécies na Terra. Quase todas as formas de vida que apareceram em nosso planeta se extinguiram. Algumas ainda resistem, mas não para sempre. Assim como as fibras que tecem uma folha de papel serão esgarçadas pela ação do tempo, assim como os olhos que lêem estas palavras deixarão de poder fazê-lo um dia, assim como as mãos que escrevem este texto perderão essa habilidade mais dia, menos dia, assim as espécies atuais seguirão seu destino e se extinguirão no futuro. Os mamíferos promissores já se foram. Deles, ou melhor, dos com mais sorte, restam apenas alguns pálidos e imensos fósseis, ainda que toscos e inertes.

Em todo o planeta, uma única espécie convive com a consciência do destino que a aguarda. Tanto sabe que, por vezes, o precipita, fazendo o fim da existência se aproximar rapidamente. Mas, mesmo o mais sereno ser humano, se esclarecido, não fica mais feliz com esse fazer e tampouco está convicto da utilidade desse saber.

E não sabe se deve agradecer por ele.

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* Nelio Bizzo é professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), e autor do livro Darwin: do Telhado das Américas à Teoria da Evolução (Odysseus, 2002).

** Darwin se casou com sua prima Emma Wedgwood em 29 de janeiro de 1839 e teve com ela 10 filhos.

Arqueoptérix era mais dinossauro que ave

Novas análises da estrutura microscópica dos ossos do extinto arqueoptérix, publicadas nesta semana na revista PLoS One, revelam que este animal era mais dinossauro que ave. O estudo é uma parceria entre pesquisadores dos Estados Unidos, Alemanha e da China.

Tecnicamente falando, aves são dinossauros. Porém, o arqueoptérix tinha um crescimento mais lento, seus ossos não cresciam tão rapidamente quanto as aves modernas. O que a pesquisa mostra é que, diferente do que se pensava antes, o crescimento rápido dos ossos não é um pré-requisito para o voo, pois o arqueoptérix voava mesmo tendo crescimento mais lento.

Observar um bando de arqueoptérix há 150 milhões de anos atrás deveria ser bem diferente de observar um bando de aves modernas. Devido a seu crescimento acelerado, os indivíduos adultos de uma espécie como o pombo urbano, por exemplo, parecem todos iguais em tamanho. Os grupos de arqueoptérix teriam uma aparência distinta, com indivíduos de vários tamanhos diferentes voando por aí.

O primeiro fóssil de arqueoptérix foi achado em 1860, um ano depois de Darwin ter publicado sua obra maior. Na época, a peça paleontológica ajudou a convencer muitos sobre a veracidade da evolução: um animal com características reptilianas (dentes, garras, e cauda óssea) apresentando uma vasta cobertura de penas só pode ser evidência de que nem sempre as criaturas providas de dentes foram desprovidas de penas, nem as criaturas com penas foram sempre desprovidas de dedos e garras nos membros superiores.

ResearchBlogging.orgUma conclusão rápida, portanto, seria de que o arqueoptérix tivesse sido a primeira ave. Porém, é também uma conclusão baseada em poucas evidências. As características extraordinárias do arqueoptérix indicavam a inequívoca ancestralidade comum entre aves e dinossauros (o fato de terem evoluído a partir de uma mesma origem), porém eram insuficientes para afirmações sobre a posição deste fóssil neste processo.

Agora, com a análise de Norell, Erickson, Zhonghe Zhou e colaboradores, há mais evidências para resolver essa história: os pesquisadores cortaram finíssimas fatias dos ossos longos do arqueoptérix e de outros fósseis como Jeholornis prima (considerado uma ave primitiva), Sapeornis chaochengensi (que tem três dedos e dentes), Velociraptor mongoliensis (um dinossauro considerado próximo das aves), Mahakala omnogova (que parece uma miniatura do arqueoptérix) e Ichthyornis dispar (um fóssil de 94 milhões de anos mais parecido com as aves), entre outros.

A análise mostrou que os ossos do arqueoptérix eram como os ossos de dinossauros como o Velociraptor (assim como os dos fósseis Jeholornis e Sapeornis), o que significa que o arqueoptérix crescia lentamente, em cerca de 970 dias até a idade adulta, quando atingia o tamanho aproximado de um corvo. Os ossos do arqueoptérix tinham poucos vasos sanguíneos, como os ossos de um lagarto, diferentes dos ossos das aves, que têm muitos vasos sanguíneos.

Outros fósseis, como Ichthyornis e Confuciusornis mostraram ter estrutura óssea mais próxima da observada em aves atuais, o que sugere que boa parte da fisiologia das aves surgiu depois do advento evolutivo do voo.

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Crédito das imagens:

Archaeopteryx. JIM AMOS / SCIENCE PHOTO LIBRARY

– Microestrutura óssea de Archaeopteryx. Greg Erickson, 2009

– Reconstrução artística de Confuciusornis sanctus. RICHARD BIZLEY / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Referência:

Erickson, G., Rauhut, O., Zhou, Z., Turner, A., Inouye, B., Hu, D., & Norell, M. (2009). Was Dinosaurian Physiology Inherited by Birds? Reconciling Slow Growth in Archaeopteryx PLoS ONE, 4 (10) DOI: 10.1371/journal.pone.0007390

Darwin e Evolução segundo a Dra. Rosana Tidon

Dr. Marcelo Hermes-Lima entrevista a Dra. Rosana Tidon sobre Charles Darwin e a teoria da evolução. A professora fala também sobre a história do Evolucionismo e novas perspectivas na área.

Marcelo Hermes-Lima, PhD, é professor de Bioquímica Médica e Ambiental na Universidade de Brasília (UnB), e Rosana Tidon, PhD, é professora de Evolução na UnB e chefe do Laboratório de Biologia Evolutiva na mesma instituição. Esta entrevista foi ao ar pela primeira vez no programa Ciência Brasil da Painel Brasil TV.

O Evolucionismo.ning.com agradece pela autorização dos dois cientistas para a republicação deste vídeo.

O fóssil “Ardi” e a nossa história evolutiva

do G1, com agências internacionais

Ardipithecus ramidus viveu há 4,4 milhões de anos.
Macacos e homens tiveram evolução distinta há muito mais tempo.

A família que resultou no que chamamos humanidade está 1 milhão de anos mais velha. Cientistas descobriram um ancestral dos homens atuais de 4,4 milhões de anos. O Ardipithecus ramidus (ou apenas “Ardi”, como é carinhosamente chamado) foi descrito minuciosamente por uma equipe internacional de cientistas, que divulgou a descoberta em uma edição especial da revista “Science” desta semana. O espécime analisado, uma fêmea, vivia onde hoje é a Etiópia 1 milhão de anos antes do nascimento de Lucy (estudado por muito tempo como o mais antigo esqueleto de ancestral humano).

“Este velho esqueleto inverte o senso comum da evolução humana”, disse o antropólogo C. Owen Lovejoy, da Universidade Estadual de Kent. Em vez de sugerir que os seres humanos evoluíram de uma criatura similar ao chimpanzé, a nova descoberta fornece evidências de que os chimpanzés e os humanos evoluíram de um ancestral comum, há muito tempo. Cada espécie, porém, tomou caminhos distintos na linha evolutiva.

“Este não é o ancestral comum, mas é o mais próximo que chegamos”, disse Tim White, diretor do Centro de Evolução Humana da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os humanos atuais e os macacos modernos provavelmente tiveram um ancestral comum entre 6 milhões e 7 milhões de anos atrás.

Ardi, porém, tem muitas características que não aparecem nos macacos africanos atuais, o que leva à conclusão de que os macacos evoluíram muito desde que nós dividimos o último ancestral comum.

O estudo de Ardi, em curso desde que os primeiros ossos foram descobertos, em 1994, indica que a espécie vivia nas florestas e que poderia subir em árvores. O desenvolvimento de seus braços e pernas, porém, indica que eles não passavam muito tempo nas árvores: eles podiam andar eretos, sobre duas pernas, quando estavam no chão.

“Esta é uma das descobertas mais importantes para o estudo da evolução humana”, disse David Pilbeam, curador de paleoantropologia do Museu de Arqueologia e Etnologia de Harvard. “É relativamente completo, na medida em que ficaram preservadas a cabeça, as mãos, os pés e algumas outras partes importantes. Ele representa um gênero possivelmente ancestral dos Australopithecus – que eram ancestrais do nosso gênero Homo”, disse Pilbeam, que não fez parte das equipas de investigação.

Os cientistas montaram o esqueleto do Ardipithecus ramidus (que significa “raiz dos macacos terrestres) com 125 peças do esqueleto encontradas.

Lucy, também encontrada na África, prosperou um milhão de anos após Ardi e foi um dos Australopithecus mais semelhantes aos humanos.

“No Ardipithecus temos uma forma não especializada que não evoluiu muito em direção aos Australopithecus. Então, quando você olha da cabeça aos pés, você vê uma criatura que não é nem chimpanzé, nem é humano. É Ardipithecus“, disse White.

O pesquisador lembrou que Charles Darwin, cujas pesquisas no século 19 abriram o caminho para a ciência da evolução, foi cauteloso sobre o último ancestral comum entre humanos e macacos. “Darwin disse que temos de ter muito cuidado. A única maneira de sabermos como este último ancestral comum se parecia é encontrando-o”, afirmou White. “Em 4,4 milhões de anos, encontramos algo muito próximo a ele.”

Alguns detalhes sobre Ardi:


– Ardi foi encontrada em Afar Rift, na Etiópia, onde muitos fósseis de plantas e animais (incluindo 29 espécies de aves e 20 espécies de pequenos mamíferos) foram descobertos. Achados perto do esqueleto indicam que, na época de Ardi, a região era arborizada.

– Os caninos superiores de Ardi eram mais parecidos com os pequenos e grossos dentes de humanos modernos do que com os grandes e afiados caninos de chimpanzés machos. Análise do esmalte dentário sugere uma dieta diversificada, que incluía frutas, folhas e nozes.

– Ardi possuía um focinho saliente, dando a ela uma aparência simiesca. Mas não tão para a frente como os focinhos dos macacos modernos. Algumas características de seu crânio, como a área sobre os olhos, diferem muito dos chimpanzés.

-Detalhes do fundo do crânio, onde nervos e vasos sanguíneos encontram o cérebro, indicam que o órgão ficava posicionado de maneira semelhante ao dos humanos modernos. Segundo os pesquisadores, isso indicaria que os cérebros dos hominídeos já estavam posicionados para abranger áreas que envolvem aspectos visuais e de percepção espacial.

-Suas mãos e punhos eram uma mistura de características primitivas e modernas, mas não possuíam marcas características dos modernos chimpanzés e gorilas. Ela tinha as palmas das mãos e os dedos relativamente curtos, que eram flexíveis e permitiam que aguentasse o peso do próprio corpo enquanto se movia por entre as árvores. Mesmo assim, ela tinha de tomar muito cuidado ao escalar, pois faltava-lhe as características anatômicas que possibilitam aos macacos atuais balançar, agarrar e mover facilmente entre as árvores.

-A pelve e o quadril indicam que os músculos dos glúteos eram posicionados de modo que ela pudesse andar em pé.

– Seus pés eram rígidos o suficiente para caminhar, mas o polegar era grande o bastante para possibilitar escaladas.

Crédito das imagens:
Reconstrução de Ardi: REUTERS
Análise do crânio do fóssil: SCIENCE
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Veja também, no Evolucionismo:

* O músculo eretor do pelo e a evolução humana

* O fóssil “Ida” e a nossa história evolutiva

* Evolução humana fácil de entender (vídeo)

* Riso revela parentesco entre homem e macacos

* Menor dos hominídeos não podia andar rápido

* Sendo humano: linguagem: uma história social das palavras
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Tweets (02/10/2009):

Ardi, hominídeo de 4,4 mi de anos pode esclarecer evolução humana http://vai.la/iyt Parabéns ao Terra pela abordagem científica.

Fêmea de Ardipithecus ramidus mostra que a mão humana é mais primitiva que a mão do chimpanzé http://vai.la/iyw

ERRARAM: G1, Revista Época e Público.pt, ao dizer que Ardi é um “ancestral” ou “antepassado” do homem. Na verdade é apenas parente.

G1 errou apenas no título. As fotos e a ilustração foram a melhor cobertura de Ardi na internet em português: http://vai.la/iu6

Enquanto isso, o R7, da Record, ignora completamente a descoberta do novo fóssil hominídeo: http://vai.la/iyy (às 9h55 da manhã)

Filosofia Zoológica de Jean-Baptiste Lamarck: 200 anos

Philosophie Zoologique de Lamarck está fazendo 200 anos em 2009. Para comemorar, publicaremos em novembro um artigo na revista Ciência Hoje, com o título “A bicentenária filosofia zoológica de Lamarck”. Por enquanto, fornecemos aqui:
Tomo 1 em inglês.

Tomo 1 em francês. (Edição de 1873 digitalizada pela Universidade de Toronto.)

Tomo 2 em francês. (Edição de 1873 digitalizada pela Universidade de Toronto.)

A primeira obra evolucionista de Lamarck data de 1802. Porém, Filosofia Zoológica de 1809 é a grande síntese desse autor contendo o tema.
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Trecho em português (tradução livre):

Algumas Observações Relevantes aos Homens

Se o homem fosse distinguido dos animais apenas com o que diz respeito à sua estrutura orgânica, seria fácil mostrar que as características da estrutura orgânica que se usaria para formar uma família separada (com suas variedades) são todas produtos de mudanças antigas em suas ações e hábitos que ele adquiriu, e o que se tornou especial para os indivíduos de sua espécie.

De fato, se alguma raça ou outra de quadrúmanos [primatas com polegares opositores nos membros superiores e posteriores], sobretudo os mais aperfeiçoados entre eles, viesse a perder (pela necessidade da circunstância ou alguma outra causa) o hábito de subir em árvores e segurar galhos com seus pés, como fazem com suas mãos lá se pendurar, e se os indivíduos dessa raça, ao longo de uma sucessão de gerações, fossem forçados a usar seus pés apenas para o movimento e parassem de usar suas mãos como pés, não há dúvida, depois das observações reveladas no capítulo anterior, de que esses quadrúmanos seriam finalmente transformados em bímanos [primatas com polegares opositores apenas nos membros superiores] e de que os polegares em seus pés cessariam de se separar dos dígitos, uma vez que esses pés servem a eles apenas para o movimento.

Ademais, se os indivíduos de que falo, movidos pela necessidade de crescerem mais alto de modo a ver tudo de uma vez longe e amplamente, fossem forçados a se manter eretos e adquirissem disso um hábito constante de uma geração para outra, não há dúvida mais uma vez de que seus pés teriam imperceptivelmente tomado uma forma apropriada para mantê-los numa posição ereta, de que seus membros adquiririam panturrilhas, e de que esses animais poderiam apenas deslocar-se com dificuldade sobre suas mãos e pés ao mesmo tempo.

Finalmente, se esses mesmos indivíduos parassem de usar suas mandíbulas como armas para morder, rasgar ou capturar, ou como tenazes para cortar grama para comer, e se elas fossem usadas apenas para mastigar, mais uma vez não há dúvida de que seu ângulo facial se tornaria mais aberto, de que seu focinho se encurtaria mais e mais, e seria por fim obliterado e eles teriam dentes incisivos verticais.

Suponha-se agora que uma raça de quadrúmanos, como a mais perfeita, tendo adquirido por hábitos constantes em todos os seus indivíduos a forma à qual me referi há pouco e a faculdade de ficar de pé e que depois esta raça lograsse dominar as outras raças de animais.

Em tal caso veria-se o seguinte:

1. Esta raça, mais perfeita em suas capacidades, tendo por conta destas finalmente chegado a dominar as outras raças, se dispersará pela superfície da Terra em todos os lugares que forem adequados para si.

2. Esta raça terá afugentado as outras raças proeminentes e, no evento de uma disputa sobre o bem que a terra oferece, teria forçado as outras a se refugiarem em lugares que esta raça não ocupa.

3. Ao prejudicar a maior multiplicação das raças próximas a si em suas afinidades e tendo relegado-as às matas ou outros lugares ermos, esta raça terá parado o progresso no aperfeiçoamento de suas faculdades; enquanto essa mesma raça, capaz de se estender a todo lugar, multiplicar-se-á ali sem obstáculos por parte das outras e viverá ali em grupos numerosos; terá criado sucessivamente novas necessidades que estimularão sua atividade e gradualmente aperfeiçoará seus métodos e capacidades.

4. Finalmente, esta raça preeminente, tendo adquirido uma supremacia absoluta sobre todas as outras, terá prosperado em estabelecer entre si e os animais mais perfeitos alguma diferença e, de um modo ou de outro, uma distância considerável.

Assim, a raça dos quadrúmanos mais perfeitos terá sido capaz de se tornar dominante, de mudar seus hábitos como um resultado do império absoluto com o qual terá assumido o controle das outras raças e de novas necessidades, e a partir daí de adquirir progressivamente modificações em sua estrutura orgânica e numerosas novas capacidades, de restringir as mais perfeitas das outras raças a um estado a que elas tenham chegado; e de introduzir distinções muito notáveis entre si e estas últimas.

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Lamarck cita como único bímano o homem, e o divide nas variedades “Caucasiano, Hiperbóreo, Mongol, Americano, Malaio, Etíope ou Negro”.

Dificilmente este naturalista pode ser visto como um homem à frente de seu tempo. Entretanto, sua contribuição para a ciência é inegável. É notável a coragem de Jean-Baptiste em pensar sobre assuntos que até hoje são cobertos por nuvens de tabu injustificado. E era isso o que este pensador fazia mesmo antes de sua obra magna sobre evolução.
Há mais de duzentos anos, era isso o que ele pensava dos criacionistas de “Terra jovem”:

“Quão grande é a antiguidade do globo terrestre, e quão pequenas são as ideias daqueles que atribuem a este globo uma idade de seis mil e algumas centenas de anos desde sua origem até nossos tempos.”

(Hydrogéologie, 1799.)

Sobre seus críticos, dois anos depois de se tornar um evolucionista, replicava:

“Tentar, na qualidade de um naturalista, pesquisar o que pode ser a origem das coisas vivas e como elas se formaram é uma temeridade apenas aos olhos dos vulgares e ignorantes, mas não aos olhos daquele que é sábio o bastante para não atribuir ao poder supremo, criador de toda a natureza, o modo que ela deve ter seguido ao fazer tudo vir à existência.”

(Recherches sur l’organisation des corps vivans. Paris, 1802.)

E opinava, três anos antes de publicar Filosofia Zoológica:

“Imagino que ouço aqueles pequenos insetos que vivem apenas por um ano, que habitam algum canto de um edifício… ocupados consultando sua tradição para se pronunciarem sobre a idade do edifício no qual estão. Voltando vinte e cinco gerações em sua história escassa, decidiriam por unanimidade que o edifício que os abriga é eterno, ou ao menos que sempre existiu, pois eles sempre o viram como ele é, e nunca ouviram que ele tenha tido um começo.”

(Discours d’ouverture du cours des animaux sans vertèbres, prononcé dans le Muséum d’Histoire naturelle en mars 1806.)

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Confira aqui o Memorial Biográfico que Georges Cuvier (um dos últimos opositores da evolução com renome na ciência) escreveu em 1832 sobre Lamarck, após a morte do evolucionista em 1829.

Fonte das citações:
Burkhardt, Richard W., Jr. The Spirit of System – Lamarck and Evolutionary Biology. Harvard University Press, 1995.

Envelhecimento e imortalidade na biologia

O ser humano (e demais animais) envelhece e morre por esses prováveis motivos:

1 – Da imperfeição da replicação. Os cromossomos que trazemos, que são cada um uma fita longuíssima de DNA enrolada em volta de proteínas, trazem nas pontas dessa fita uma seqüência repetida que em conjunto chamamos de TELÔMERO.

Quando as células se multiplicam no corpo (varia conforme o tecido, as células da pele e do tubo digestivo se renovam em pouco mais de uma semana), esse DNA tem de ser replicado – pois todas as células trazem em seu núcleo a informação de um ser humano inteiro.

Mas, por motivos moleculares, a cada divisão os telômeros de cada cromosso se encurtam. Imaginem que os telômeros sejam almofadas que protegem os genes em seu interior. A almofada vai ficando cada vez mais fina, até que os genes começam a ser afetados. Se os genes são afetados, a replicação fica cada vez mais difícil (isso é observável em idosos, por exemplo nas células de defesa que ficam cada vez mais escassas).

E se os genes são afetados, ou seja, vão sendo deteriorados porque não contam mais com a proteção dos telômeros, outros problemas podem aparecer. Por exemplo, a célula pode perder as rédeas que evitam sua replicação desenfreada.

Uma célula desregulada que se replica promiscuamente é o que origina o famoso câncer. Por isso, pessoas mais velhas são mais susceptíveis a câncer.

A alteração nesses genes nem precisa ser especificamente nos genes que controlam o ciclo celular (o ciclo de mitose, no qual uma célula-tronco gera células-filhas se dividindo ao meio).

Basta que sejam mutados genes que controlam receptores que fazem a célula perceber suas vizinhas, ou seja, se ela se encontrar “solitária”, ela já vira um tumor (câncer).

2 – Do decaimento das estruturas biológicas

Esse outro motivo é intimamente relacionado ao primeiro.

O próprio ato de respirar (por extensão óbvia, comer, já que respirar é aproveitar a energia adquirida na alimentação) traz decaimento aos tecidos. Por decaimento entenda-se mutação. Toda mulher que compra cosméticos preocupada com rugas já ouviu falar em radicais livres – e eles são gerados justamente pelo mal recebimento de elétrons ao final da cadeia respiratória das mitocôndrias.

São tão prejudiciais os radicais livres que nossas células foram selecionadas, ao longo da evolução, de modo a apresentar organelas específicas para combatê-los, chamadas peroxissomos. Os radicais livres podem interagir com o DNA e alterá-lo, ou seja, causar mutações, alterar os genes que controlam o funcionamento das células e tecidos.

Mas, como nosso corpo sempre se renova, e precisa de energia (respiração e alimentação) para fazer isso, não tem como evitar mutações que vão se acumulando pelos tecidos ao longo de décadas.

Isso quer dizer que as células tronco, que originam a si mesmas e a células especializadas em diferentes funções pelo corpodivergem de seu tipo ancestral, e este tipo ancestral é o zigoto, a única célula que é o começo de todos nós, que surge da fecundação do óvulo pelo espermatozoide.

Ao divergir do tipo ancestral, as células de nossos corpos podem passar a produzir mal a elastina e o colágeno, fazendo as rugas aparecerem.

Podem sofrer defeitos na produção de melanina e originar as pintas pela pele.

Podem prejudicar o cérebro provocando mal de Parkinson ou de Alzheimer.

E por aí vão fazendo seu trabalho na nobre arte de envelhecer.

Como nossos corpos são resultado da seleção natural, existem genes que evoluíram de modo a evitar esse decaimento biológico de algumas formas, que não chega à perfeição porque a evolução favorece modos eficazes de garantir a sobrevivência até que aconteça a reprodução e a prole garanta a continuidade da linhagem.

Alguns desses genes, ao “detectarem” que a célula pode estar infectada por vírus ou se tornando cancerígena, fazem com que ela cesse sua atividade, quebre seu DNA e se dissolva em vesículas que são “comidas” pelas células de defesa. Isso é apoptose, também chamada de morte celular programada, que está acontecendo a todo minuto em algum lugar no corpo.

Além disso, células de defesa podem também detectar essa atividade conspiradora de um câncer e induzir essa morte celular programada.

As células tronco com maior poder de regenerar os telômeros são as que produzem os gametas (espermatozóide e ovócito).

ResearchBlogging.orgAssim, embora gametas também sejam sujeitos a mutação, é evolutivamente vantajoso que outros indivíduos nasçam a partir de uma única célula, porque isso garante ao menos na juventude e idade reprodutiva que as células dos tecidos desse jovem tenham genes mais parecidos entre si, portanto “concordam” entre si, e trabalham harmoniosamente, e são submetidos como um “coro” à força da seleção natural, até que as forças inexoráveis do envelhecimento comecem a quebrar essa concordância e essa harmonia novamente.

“Nada na Biologia faz sentido senão à luz da evolução”, disse o grande geneticista Theodosius Dobzhansky, e não é à toa. Até ao se falar em desenvolvimento e envelhecimento é necessário que se entenda a evolução.

Conclui-se que o câncer é um processo microevolutivo, em que a unidade de seleção é a célula.

Como o ser humano é um “tataraneto” de bactérias, e as bactérias são seres “imortais” (pois não existe entre elas a senilidade), que se reproduzem por bipartição, as células cancerígenas das pessoas podem retornar a essa condição ancestral de replicação indefinida.

E isso pode acontecer simplesmente porque o único “propósito” dos seres vivos, se é que se pode chamar isso de propósito, é fazer cópias de si mesmos.

3 – Da imortalidade

São bem conhecidas nas pesquisas da Biologia as células HeLa. São células imortais, com um genoma humano alterado (claro, afinal são câncer).

HeLa de Henrietta Lacks, uma mulher que morreu em 1951.

O que os cientistas fizeram foi pegar as células cancerosas de Henrietta e colocar em meio de cultura. Hoje, essas células juntas, em vários laboratórios pelo mundo, se somam em toneladas.
Elas causaram a morte da Sra. Lacks, foi um verdadeiro “golpe de estado” genético.

Hoje são algo diferente de uma célula de ser humano. Em vez de 46, podem ter até 82 cromossomos. E, por nada menos que seleção natural, as células HeLa têm um meio de preservar intactos os seus telômeros!

(Se não tiverem, são eliminadas pela seleção natural porque não se reproduzirão indefinidamente.)

Se uma célula HeLa gerar um gameta (o que não acontece hoje), o número diferente de cromossomos EVITA que esse gameta seja fecundado por um gameta de uma pessoa.

Portanto, a linhagem HeLa se isolou reprodutivamente da espécie humana.

Portanto, as células HeLa são uma espécie nova, descrita com o nome Helacyton gartleri (não Homo sapiens).

Se o mundo fosse feito de meio de cultura (e pode ser mesmo em alguns lugares), a espécie HeLa viveria independente da ajuda dos cientistas.

Hoje, a partir de estudos com pouquíssimas espécies multicelulares que aparentam não ter senilidade, e a partir do estudo do encurtamento do telômero, poderemos encontrar formas de aumentar o tempo de vida do ser humano. Se conseguirmos fazer conosco o que já foi feito com o verme Caenorhabditis elegans, chegaremos a viver até por volta dos 200 anos. (Uma mutação em particular dobrou o tempo de vida do verme.)

O segredo de uma vida mais longa parece estar em evitar os radicais livres, e isso inclui comer menos. Animais cuja dieta teve corte de calorias (cerca de 30%) podem viver até 50% mais.

Para alongar o tempo de vida do ser humano será necessário entender mais sobre como algumas salamandras são capazes de fazer membros amputados crescerem de volta, e como algumas hidras (animais aquáticos simples parentes das águas-vivas) conseguem regenerar a forma de seu corpo inteiro mesmo após serem dilaceradas num liquidificador.

Viver mais e melhor será o futuro graças à pesquisa em biologia, e nada disso poderia ser feito sem a teoria da evolução como pilar sustentador dessa ciência.

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Créditos das imagens:

Dercy Gonçalves: Andréa Farias / Wikimedia Commons
Cromossomo: ADRIAN T SUMNER / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Fecundação: EYE OF SCIENCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
Células HeLa com adenovírus: SCIENCE SOURCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY
C. elegans: SINCLAIR STAMMERS / SCIENCE PHOTO LIBRARY
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Referências:

Hug, N., & Lingner, J. (2006). Telomere length homeostasis Chromosoma, 115 (6), 413-425 DOI: 10.1007/s00412-006-0067-3

VALKO, M., RHODES, C., MONCOL, J., IZAKOVIC, M., & MAZUR, M. (2006). Free radicals, metals and antioxidants in oxidative stress-induced cancer Chemico-Biological Interactions, 160 (1), 1-40 DOI: 10.1016/j.cbi.2005.12.009

Kenyon, C., Chang, J., Gensch, E., Rudner, A., & Tabtiang, R. (1993). A C. elegans mutant that lives twice as long as wild type Nature, 366 (6454), 461-464 DOI: 10.1038/366461a0

Lucey BP, Nelson-Rees WA, & Hutchins GM (2009). Henrietta Lacks, HeLa cells, and cell culture contamination. Archives of pathology & laboratory medicine, 133 (9), 1463-7 PMID: 19722756

Fritz Müller, do Brasil para Darwin

Agecom/UFSC

Filho de pastor evangélico e de família de forte tradição intelectual, desde cedo, Fritz Müller desenvolveu seu interesse pela natureza. Aos 22 anos obteve o diploma de Doutor em Filosofia na Universidade de Berlim, Alemanha. Formou-se também em Medicina. Sua extraordinária veia naturalística permaneceu uma constante ao longo de toda sua vida.
Empolgado com as descrições do Brasil feitas por Hermann Blumenau (fundador da colônia que leva o mesmo nome, no Vale do Itajaí), Fritz Müller, que já nutria desejos de expatriar-se, decidiu fazê-lo em 1852, saindo da Europa civilizada e vindo para a mata virgem aos 30 anos de idade.

Em 1856 começou o seu intenso intercâmbio científico com a Europa. Em 1857 foi recomendado por Hermann Blumenau para o cargo de professor de Matemática (e depois também de História Natural) no Liceu Provincial do Desterro (atual Florianópolis), onde permaneceu por 11 anos.

A transferência de Fritz Müller para o litoral beneficiou enormemente a ciência, uma vez que a maioria das observações e grande parte da obra deste verdadeiro “biólogo” foram realizadas nas praias de Santa Catarina. Estudou vários organismos marinhos, com destaque para os crustáceos, dando uma especial contribuição à carcinologia.

Além de representar um dos naturalistas mais importantes de sua época, Fritz Müller foi o primeiro a testar em campo as idéias de Darwin. Utilizou como objetos de estudo crustáceos marinhos, o que resultou em estudos comparativos de embriologia, ontogenia, ecologia, fisiologia e morfologia.

Estes estudos foram realizados no litoral de Santa Catarina, mais especificamente na “Praia de Fora”, em Florianópolis (antiga Desterro), praia esta hoje tomada pela Avenida Beira Mar Norte. Em seu estudo pioneiro com crustáceos, Fritz Müller realizou uma série de observações extraordinárias, que culminaram com o descobrimento de muitos fatos novos, principalmente no que se refere ao seu desenvolvimento.

O fruto deste longo e minucioso estudo resultou num livro de excepcional riqueza de observações originais, intitulado Für Darwin (Pró-Darwin). O livro foi publicado em Leipzig, Alemanha, em 1864 (por W. Engelmann), cinco anos apenas após a publicação da “Origem das Espécies“ de Darwin e ajudou a propagar e defender a teoria darwiniana, que tinha suscitado forte reação contrária neste país.

Este denso e original ensaio inclui um número extraordinário de observações sobre crustáceos, abrangendo as diferentes adaptações das espécies de ambiente marinho que migraram para água-doce e ambiente terrestre. O livro ainda faz alusão à evolução convergente, a importância do compartilhamento dos caracteres adquiridos para os sistemas de classificação, o significado da variação ao longo da vida de cada grupo e por fim a história evolutiva dos crustáceos.

Tudo isto, entremeado por inúmeras ilustrações, feitas a mão livre, de incrível detalhamento. Com seus 12 capítulos, o livro Für Darwin trouxe subsídios preciosos e decisivos a favor da Teoria da Evolução de Darwin.

Darwin teve acesso ao livro de Fritz Müller em 1865, um ano após sua publicação, e percebeu imediatamente o inestimável suporte que esta obra representava às suas idéias e ele próprio providencia (com autorização de Fritz Müller) sua tradução para o inglês (por W.S. Dallas), sendo este publicado integralmente em 1869, sob o título de Facts and Arguments for Darwin. Inicia-se então uma intensa correspondência entre os dois grandes naturalistas, durando 17 anos, até a morte de Darwin em 1882, embora ambos nunca tenham se conhecido pessoalmente (apenas por cartas e fotos).

Darwin recorreu ao naturalista inúmeras vezes para elucidar pontos importantes e controvertidos. Fritz Müller supriu Darwin com incontáveis evidências nas áreas de zoologia e botânica, que fundamentaram e enriqueceram a teoria da evolução e da seleção natural. Ele era chamado carinhosamente por Darwin de “Príncipe dos Observadores” e considerado por Ernst Haeckel (o pai do termo Ecologia) como um “Herói da Ciência”.

Fritz Müller deixou um gigantesco legado naturalístico, abrangendo tanto a flora como a fauna da região Sul do Brasil. Identificou e descreveu, pela primeira vez, com notável perfeição, um número enorme de espécies de invertebrados marinhos, de água doce e terrestres, além de plantas da região subtropical, sempre enriquecendo suas descrições com magníficas ilustrações de incrível detalhamento.

Dentre o legado faunístico, destacam-se crustáceos, abelhas brasileiras (principalmente as sem ferrão), insetos tricópteros, mosquitos, cupins, formigas, borboletas e hemicordados entre outros. Em seu legado florístico, dedicou-se em especial às orquídeas e bromélias (estudando ainda as interações inseto-planta), plantas trepadeiras, com seus ramos modificados em gavinhas, movimentos de plantas e folhas.

Deixou cerca de 250 trabalhos científicos publicados em renomadas revistas científicas do século XIX. A quase totalidade das publicações de Fritz Müller foi reunida e organizada por seu primo-sobrinho, o micologista alemão Alfred Möller, abrangendo ensaios, artigos científicos, memórias e monografias, envolvendo tanto a zoologia quanto a botânica. Trata-se de uma obra monumental, publicada em três grandes volumes (Alfred Möller, Fritz Müller: Werke, Briefe und Leben, 1815-1821), que garantiram que seu legado não fosse perdido. Cópia desta obra está hoje disponível no Arquivo Histórico de Blumenau e na Biblioteca do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

Fritz Müller recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Bonn (1868) e pela Universidade de Tübingen (1874), na Alemanha e foi Membro Honorário da Entomological Society de Londres (1884).

Este verdadeiro gigante das Ciências Biológicas brasileiras faleceu aos 75 anos de idade. Seus despojos repousam em Blumenau, cidade que vem realizando vários esforços no sentido de resgatar a memória do eminente naturalista.

Em 1996, a Câmara Municipal de Blumenau instituiu uma Comenda Honorífica em prol da medicina, educação, ciência e ecologia, denominada Comenda Municipal de Mérito Fritz Müller. Em 21 de maio de 1997, no aniversário do centenário de sua morte, Fritz Müller (in memoriam) foi contemplado com a primeira edição desta Comenda.

Em 1982, a Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (FATMA) instituiu o troféu Fritz Müller que passou a ser dado à Instituições e personalidades que protegem o meio ambiente.

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08-09-2009

UFSC aprova concessão do título de Doutor Honoris Causa ao naturalista Fritz Müller

O Conselho Universitário da UFSC aprovou nesta terça-feira, 8 de setembro, a concessão do título de Doutor Honoris Causa a Fritz Müller. O título será entregue a um descendende do naturalista na 8ª Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão (Sepex), que será realizada de 21 a 24 de outubro.

A solicitação, encaminhada ao Conselho Universitário por pesquisadores do Centro de Ciências Biológicas destaca que o ano de 2009 marca os 200 anos de nascimento de Charles Darwin e os 150 anos da publicação de seu livro ´A Origem das Espécies`.

Considerada uma das mais influentes obras intelectuais da humanidade, o livro de Darwin (e particularmente suas subseqüentes reedições) foi também o resultado do constante intercâmbio de idéias entre Charles Darwin e cientistas de todo o mundo. Entre eles, o naturalista Fritz Müller.

Naturalizado brasileiro, Johann Friedrich Theodor Müller viveu em Santa Catarina de 1852 até a sua morte, no ano de 1897. “Herdamos dele uma obra científica de inestimável valor, tanto na área da evolução quanto da ecologia, zoologia e botânica, resultado de décadas de observações e estudos por ele realizados na Mata Atlântica e no litoral catarinense”, destacam pesquisadores da UFSC no pedido de concessão do título.

A homenagem leva também em conta que apensar de ser considerado um dos maiores naturalistas do século XIX (assim como Charles Darwin, Ernst Haeckel, e Thomas Huxley), Fritz Müller permanece ainda muito pouco conhecido na comunidade científica brasileira.

“Considerando a grande importância das contribuições de Fritz Müller para a Ciência Mundial e que grande parte de seu trabalho foi desenvolvido na Ilha de Santa Catarina, acreditamos que a concessão desta honraria, mesmo que tardia, é uma forma de reconhecimento da UFSC ao relevante trabalho deste eminente naturalista que colocou o Brasil e Santa Catarina no panorama científico do primeiro mundo no século XIX.”, ressaltam na exposição de motivos encaminhada ao Conselho Universitário os professores Margherita Barracco, Josefina Steiner, Alberto Linder e Mário Steindel, todos integrantes de laboratórios do Centro de Ciências Biológicas da UFSC.

Mais informações na UFSC com Mário Steindel (ccb1mst@ccb.ufsc.br ) ou Margherita Barracco (barracco@mbox1.ufsc.br)

Por Arley Reis / Jornalista da Agecom