Eli Vieira

Mecanismo de Anticítera: o triunfo da ciência através dos milênios

Tudo começa cerca de 100 anos antes da Era Comum, quando é construído, pela civilização antiga grega, o primeiro computador científico. Nos séculos seguintes é esquecido, até ser encontrado em 1901 por mergulhadores perto da ilha grega de Anticítera. Só no século XXI seria desvendado o propósito desta máquina misteriosa. Veja no vídeo.

 


Mais detalhes sobre o mecanismo aqui.

De onde vêm a gula e a obesidade na evolução?

Quem não conhece nossa página de perguntas e respostas (formspring) pode até pensar que o Evolucionismo não se atualiza com frequência. Mas basta fazer uma visitinha por lá para ver que perguntas são um verdadeiro fermento na produção de conteúdo por aqui, que tem no formspring o biólogo Rodrigo Véras como estrela maior.

Infelizmente, o formspring já deu cabo de dezenas de respostas antigas, praticamente todas até a época em que fui entrevistado pela Ciência Hoje por isso ser novidade na divulgação científica na rede lusófona. É para não perder o que se produz por lá que lanço este post coletando, editando e ampliando as primeiras sobreviventes das minhas respostas com referências científicas.

***

 

A explicação da psicologia evolutiva para a gula é que ela é a expressão de instintos nossos que foram moldados pela seleção natural num ambiente em que nossos ancestrais viviam, e este ambiente era escasso em energia em comparação ao ambiente da vida moderna com geladeiras, granjas, supermercados ou – nem é preciso ir tão longe – lavouras.

Ter um apetite insaciável é algo vantajoso para a sobrevivência numa savana que seja modesta na produção de caça, frutos e raízes, como era o ambiente em que nasceu a humanidade há cerca de 200 mil anos no leste africano. Se as pessoas variassem em apetite, e se esta variação tivesse base genética, teriam maior sucesso na sobrevivência e reprodução as pessoas com maior apetite.

 

Mas não é só o ambiente o responsável, a via é de mão dupla: uma vez que novidades foram surgindo na nossa linhagem, como nosso grande cérebro, a demanda por comida era maior, favorecendo assim a seleção favorável ao comportamento mais, digamos, guloso. Enquanto hoje gastamos a quantidade exorbitante de 20% da energia que consumimos, em média, apenas no cérebro, o chimpanzé só precisa de cerca de 9% da energia que come, em média. Nosso cérebro já era uma fornalha dezenas de milhares de anos atrás e demandava ser alimentada!

O ambiente mudou rápido (porque a cultura evolui rápido independente dos genes), e o instinto que foi esculpido por milênios não teve como mudar junto. Então, na época da bonança (ao menos bonança para quem está nas regiões desenvolvidas ou em desenvolvimento sócio-econômico hoje) este instinto pode levar ao excesso de peso, quiçá à obesidade e outros problemas de saúde relacionados à dieta opulenta. Toda essa história é muito bem contada e melhor referenciada no livro “El mono obeso” (O macaco obeso, tradução livre) de José Enrique Campillo Álvarez.

Em 2010, os pesquisadores Francisco Mauro Salzano, Maria Cátira Bortolini e Tábita Hünemeier, do Laboratório de Evolução Molecular e Genética de Populações Humanas da UFRGS, publicaram um estudo inédito, em parceria com dezenas de outros pesquisadores ao redor do mundo, identificando uma nova variante do gene ABCA1 em nativos americanos. Este gene codifica uma proteína ligada à membrana celular que faz parte de um sistema de expulsão do colesterol para fora das células.

ResearchBlogging.orgOs pesquisadores descobriram que este alelo do ABCA1 – chamado de alelo C230 – é exclusivo de povos ameríndios, particularmente aqueles cuja dieta dependia do consumo do milho (que foi domesticado e selecionado neste continente). As técnicas de evolução molecular mostraram que o alelo C230 foi um alvo da seleção natural positiva*. É o primeiro caso documentado de seleção positiva em nível molecular atuando no genoma humano nesta região do planeta.

E o interessante é que este alelo está associado a um alto índice de massa corporal (IMC) em seus portadores modernos! Células que têm este alelo em vez do alelo selvagem mostraram 27% de redução no efluxo (saída) de colesterol de dentro delas.

 

Deve ser um dos poucos estudos já publicados que corroboram com tanta clareza a hipótese dos psicólogos evolucionistas.

 

Mas há nuances: uma implicação interessante a ser discutida, que tem a ver com a própria cultura agrícola do milho, é que aparentemente a sedentarização dos ameríndios em civilizações dependentes da cultura do milho piorou a situação das populações em termos de nutrição energética num primeiro momento, quando poderia ter acontecido esta seleção natural.

 

É em parte verdade que somos o que comemos: não é a primeira vez que há indicação de que a dieta adotada por populações humanas pode ter modificado parte do genoma. Também em 2010, Angela Hancock e colaboradores detectaram mudanças sutis de frequências de genes (evolução) em populações humanas ao redor do globo, e esta evolução em cada caso pode ser creditada à dieta e ao ambiente (ecorregião). Por exemplo, as mudanças nas frequências de alelos de genes do metabolismo do amido foram associadas ao consumo de tubérculos e outras raízes em populações humanas específicas.

Uma reflexão importante remonta a quantos de nós ainda estamos à mercê da carestia dos nossos antepassados. À parte fontes concebíveis de seleção como o sedentarismo e a dieta, vale lembrar que bilhões de pessoas vivem em situações deploráveis: fome, falta de abrigo, vulnerabilidade a microorganismos patogênicos, etc. Segundo a ONU, uma em quatro crianças no mundo em desenvolvimento é desnutrida.

Retratado como obeso por alguns seguidores, o Buda sempre dizia que o caminho correto é o caminho do meio. Que o futuro reserve o caminho do meio para a mesa do Homo sapiens, distante tanto da obesidade quanto da fome.

 

* A seleção positiva é aquela que gera novidades, também chamada de darwiniana. A seleção negativa é a seleção natural que conserva ‘o que está dando certo’ (em time que está ganhando não se mexe), também chamada de seleção purificadora. Antes de Darwin, o ornitólogo Edward Blyth (1810-1873) pensou na seleção purificadora em aves, porém não teve a sagacidade de Charles Darwin, Patrick Matthew e Alfred Russel Wallace para imaginar que a seleção negativa era uma das faces da moeda da seleção natural, que também poderia ser positiva.

 

Referências

 

1. Álvarez, J.E.C. El mono obeso: la evolución humana y las enfermedades de la opulencia : diabetes, hipertensión, arteriosclerosis. Editorial Critica, 2004. 235 pp.

2. Acuna-Alonzo, V., Flores-Dorantes, T., Kruit, J., Villarreal-Molina, T., Arellano-Campos, O., Hunemeier, T., Moreno-Estrada, A., Ortiz-Lopez, M., Villamil-Ramirez, H., Leon-Mimila, P., Villalobos-Comparan, M., Jacobo-Albavera, L., Ramirez-Jimenez, S., Sikora, M., Zhang, L., Pape, T., Granados-Silvestre, M., Montufar-Robles, I., Tito-Alvarez, A., Zurita-Salinas, C., Bustos-Arriaga, J., Cedillo-Barron, L., Gomez-Trejo, C., Barquera-Lozano, R., Vieira-Filho, J., Granados, J., Romero-Hidalgo, S., Huertas-Vazquez, A., Gonzalez-Martin, A., Gorostiza, A., Bonatto, S., Rodriguez-Cruz, M., Wang, L., Tusie-Luna, T., Aguilar-Salinas, C., Lisker, R., Moises, R., Menjivar, M., Salzano, F., Knowler, W., Bortolini, M., Hayden, M., Baier, L., & Canizales-Quinteros, S. (2010). A functional ABCA1 gene variant is associated with low HDL-cholesterol levels and shows evidence of positive selection in Native Americans Human Molecular Genetics, 19 (14), 2877-2885 DOI: 10.1093/hmg/ddq173


3. Hancock, A., Witonsky, D., Ehler, E., Alkorta-Aranburu, G., Beall, C., Gebremedhin, A., Sukernik, R., Utermann, G., Pritchard, J., Coop, G., & Di Rienzo, A. (2010). Colloquium Paper: Human adaptations to diet, subsistence, and ecoregion are due to subtle shifts in allele frequency Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (Supplement_2), 8924-8930 DOI: 10.1073/pnas.0914625107

 

Créditos das imagens: 

GRANDJEAN / SCIENCE PHOTO LIBRARY;

邰秉宥 de Changhua, Taiwan / WIKIMEDIA COMMONS.

Cientistas criacionistas: quantos são?

Fonte: Phylointelligence

Tradução e adaptação: Eli Vieira

Pontos-chave:

  • Somente 0,84% dos cientistas que estudam a vida e a Terra, que são geralmente treinados nas questões das origens, são criacionistas.
  • Os EUA têm mais criacionistas do que qualquer outro país desenvolvido. Entretanto, mesmo nos EUA, os criacionistas representam uma minoria pífia entre os cientistas. Fora dos EUA, os cientistas criacionistas são virtualmente inexistentes em países de pesquisa de ponta.
  • 97% de todos os cientistas norteamericanos aceitam a ancestralidade comum das espécies incluindo o homem, enquanto apenas 2% são criacionistas, e apenas 8% defendem o criacionismo do tipo Design Inteligente.
  • A famosa entidade criacionista Discovery Institute compilou uma lista de menos que 800 supostos cientistas ao redor do mundo que “discordam do darwinismo”. Isto é menos que 0,1% do número de cientistas americanos no ano de 1999.

 

Dados Estatísticos

 

De acordo com uma publicação de 2009 do Pew Research Center, 97% dos cientistas dos EUA aceitam que os humanos evoluíram ao longo do tempo. Apenas 2% dos cientistas relataram ser criacionistas, e apenas 8% alegaram ser defensores do Design Inteligente (D.I.). Note que não há razão em particular para um cientista criacionista mentir a este respeito; os resultados individuais não foram, obviamente, publicados, e os criacionistas tiveram um forte incentivo para dizer a verdade em tais pesquisas para aumentar sua publicidade. Portanto, este número pode ser visto como uma boa estimativa do número de cientistas criacionistas.

 

Obviamente, esses números incluem cientistas de várias áreas que têm [a priori] pouca relevância quanto à origem das espécies e da vida, incluindo químicos, astrônomos, médicos, etc.; embora esses cientistas possam ser extremamente sábios em seus próprios campos de pesquisa, ele jamais tiveram que passar por estudos aprofundados no campo das origens. Assim, eles podem não estar naturalmente ou justamente atualizados sobre a ciência da biologia evolutiva.

 

Estimando o número de cientistas criacionistas e pró-D.I. nas ciências da vida e da Terra

Entre os cientistas em áreas de fato relevatnes para o assunto, como as ciências da vida e da Terra, o número de criacionistas decresce ainda mais. Na lista de cientistas criacionistas do site Answers in Genesis,os cientistas da vida e da Terra se somam em 42% (80 em 190. Note que existem muito mais de 10 milhões de cientistas apenas nos EUA). Se aplicarmos esta proporição à estatística acima, apenas cerca de 0,84% dos cientistas da vida e da Terra são criacionistas. Além disso, assumindo a mesma proporção, apenas cerca de 2,24% (o,42 x 5,33) dos cientistas da vida e da Terra são defensores do Design Inteligente.

Estimando o número de cientistas criacionistas e pró-D.I. no mundo

A ampla maioria dos cientistas no mundo desenvolvido estão nos EUA (Miller 2006). Se aceitarmos uma estimativa extremamente conservadora de que os cientistas criacionistas são 1,5 vezes menos comuns em outros países, então a porcentagem dos cientistas criacionistas no resto do mundo desenvolvido é de 1,33%. Se o mesmo é verdade para cientistas pró-D.I., então apenas cerca de 5,33% dos cientistas no mundo desenvolvido aceitam o D.I.

A lista de “cientistas da criação” do Answers in Genesis

A organização criacionista AnswersInGenesis juntou uma lista fraca de “cientistas da Criação”. Apenas cerca de 80 dos 190 cientistas na lista, em janeiro de 2010, estavam envolvidos em ciências da vida e da Terra. Considerando que há bem mais de 839.000 cientistas com doutorado apenas nos EUA (NSF 1999), os cientistas do AnswersInGenesis dão bem menos que 0,02% dos cientistas dos EUA (considerando que as últimas estatísticas disponíveis são de 1999, e que o número de cientistas desde então certamente cresceu; além disso note que a lista do AiG é internacional, enquanto o número “total” é apenas o número de cientistas nos EUA).

 

Note que a existência de alguns poucos criacionistas com títulos acadêmicos em ciências é completamente concebível; seria relativamente fácil para uma pessoa fundamentalista passar em cursos de pós-graduação sem ter uma formação séria em evolução, ou fazendo um curso ao mesmo tempo em que nega a ciência apresentada nele.

A lista de “dissensão científica do darwinismo” do Discovery Institute

Em 2001, a entidade criacionista Discovery Institute publicou uma lista de cientistas que assinaram a seguinte declaração oficial:

“Somos céticos quanto às alegações pela habilidade da mutação aleatória e da seleção natural darem conta da complexidade da vida. Um exame cuidadoso das evidências pela teoria de Darwin deve ser encorajado.”

A lista cresceu até aproximadamente 800 cientistas. O fato mais importante para botar esta lista em perspectiva, é claro, é de que ela foi assinada por menos de 0,1% dos cientistas e engenheiros nos EUA.

 

1. A declaração é formulada de forma esperta para fazer cientistas que aceitam a evolução terem mais chance de assiná-la.

Note que a declaração não requer que o assinante negue a evolução; muitos cientistas que aceitam a evolução concordariam que a mutação aleatória e a seleção natural provavelmente não são os únicos fatores naturais que contribuem para a complexidade da vida; eles são simplesmente os fatores primários.

2. Um grande número de cientistas na lista não trabalham em ciências físicas ou biológicas.

Enquanto o grande número de cientistas na lista que não trabalham em áreas relacionadas à evolução possam ser considerados especialistas em suas próprias áreas, é importante lembrar que eles provavelmente jamais tiveram cursos básicos em nível de pós-graduação em biologia evolutiva, ou talvez mesmo em biologia geral, e assim é provável que não conheçam a maior parte da ciência por trás da evolução.

3. Os cientistas da lista são uma minoria extrema do número total de cientistas.

Dos mais de 839.000 cientistas apenas nos EUA, estes 800 constituem cerca de 0,1% de todos os cientistas e engenheiros com doutorado. Note que a lista do D.I. é internacional; embora nenhuma estatística apropriada exista para o número de cientistas no mundo todo. Assim, embora a porcentagem correta de cientistas criacionistas ou pró-D.I não possa ser calculada com certeza, o número certamente está abaixo de 0,1%, e considerando que o criacionismo é de longe mais prevalente nos EUA, é provável que este número seja menor que 0,01%.

Fontes

Pew Research Center, 2009. Scientific Achievements Less Prominent Than a Decade Ago.
http://people-press.org/reports/pdf/528.pdf

The National Science Foundation, 1999. U.S. scientists and engineers, by detailed field and level of highest degree attained.
http://www.nsf.gov/statistics/us-workforce/1999/tables/TableB1.pdf

 

N. do T.: Há uma lista jocosa composta completamente por cientistas evolucionistas que se chamam Steve. Neste momento já se somam 1157 cientistas que se chamam Steve e aceitam a evolução.

A Banda Plástica da Mente

Um cenário quase surrealista apresentou-se a mim nestes dias que antecedem o natal. Peço desculpas aos membros desta rede social empenhados em divulgaçao de assuntos de interesse científico pelo que escreverei a seguir mas logo compreenderão porque não pude me conter.O fato que deu origem a estas reflexões foi o seguinte : Todos os dias, quando retorno do meu trabalho para minha casa tenho de passar necessariamente pelas dependências de um shopping para ter acesso ao metrô. Na entrada de um deles ( existem dois, um em cada lado da linha do metrô) já está montada a árvore multicolorida, um Papai Noel postado em sua base, um barraco de madeira ao lado com dispositivos que lembram um estúdio de gravação e fotos e uma mesinha de som em frente onde um ¨punk¨manipula seus botões cibernéticos e seleciona o som ambiente. Ao passar pela entrada para tomar um café, a primeira surpresa : a tradicional Jingle Bell tocando em ritmo de samba e carnaval !! Olhei, escutei, passei e subi para o café. Nos céus, nuvens escuras prenunciavam chuva torrencial e não demorou muito para as primeiras gotas começarem a cair. Terminei e desci. Enquanto me aproximava novamente da entrada comecei a ouvir o bloco seguinte : uma seleção de músicas típicas de discotecas-boites, tipo bate-estaca e bastante adequada para ¨ turbinar¨shows eróticos e ramificações !! Fiquei pasmo ! Postei-me em frente à vidraça que separa as dependências internas da parte externa e olhei para os jardins e a rua. Lá fora um temporal dos diabos. Mudei o foco e pelo vidro conseguia observar o que estava se passando um pouco ao lado e a alguns metros atrás de mim ( o ângulo de reflexão da luz é igual ao ângulo de incidência ) : As mamâes-noeis dançavam em ritmo de discoteca. O Papai Noel ( de óculos ) também dançava e abraçava uma jovem e bonita colegial adolescente de uniforme com um sorriso cínico típico. Identifiquei imediatamente uma guerra de informação bioquímica e neurotransmissores oscilando loucamente para manter seu comportamento em níveis adequados à situação criada e lutando heròicamente contra as intruções codificadas naquilo que alguns sociobiologistas denominaram de Imperativo Reprodutivo. Prestei mais atençao, olhei para os lados e vi o cartaz : Natal divertido no Shopping , com personagens de desenhos e história em quadrinhos, etc..,etc…Pensei comigo mesmo : os criacionistas opositores da teoria da evolução estão identificando o inimigo errado ! Eis aqui um magnífico exemplo de como mudanças graduais e cumulativas têm o poder de produzirem grandes transformações ao longo do tempo : desconstruindo padrôes, a civilização ocidental moderna da hiper-mídia e do mega-consumo com seus shoppings caracterizados como ¨templos de adoração do mundo material¨ são agora donos de um poder sem precedentes no que diz respeito à corrupção de valores éticos , morais e religiosos. Não, evidentemente não estavam rezando. Estavam se divertindo, como desejam os administradores do shopping e os patrocinadores do evento.È claro que posicionei-os todos próximos ao pico da densidade normal no que diz respeito à média de váriáveis de comportamento que estavam exibindo, o que os caracterizavam como ¨normais¨ou ¨saudáveis¨, mas esperem, com relação à o quê ? Evidentemente não do ponto de vista de um camundongo. Do ponto de vista da própria curva do sino ? Afinal o que somos ? Somos o tempo e o lugar onde nascemos? Plastic Ono Band , de John e Yoko Ono, não tocavam jazz. Mas poderiam fazê-lo, se assim o permitisse as contingências de suas vidas . Passados trinta anos da morte de Lennon, que compôs God e Imagine ( citada por Dawkins ) , onde letra e música dizem muito à respeito de suas idéias. termino esta minha breve mensagem, porque não, lembrando o título de uma de suas últimas composições : Feliz natal para todos !!.

Resenha: “Como derrotar o evolucionismo”, de Phillip E. Johnson

RESENHA DO LIVRO “COMO DERROTAR O EVOLUCIONISMO COM MENTES ABERTAS”, DE PHILLIP E. JOHNSON


POR ROBERT T. PENNOCK – DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA, UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MICHIGAN


NATIONAL CENTER FOR SCIENCE EDUCATION (NCSE), EUA


Quem leu os livros “Darwin no banco dos réus” (original de 1991) e “Reason in the Balance” (1995), de Phillip E. Johnson, vai reconhecer imediatamente seu argumento e sua retórica no último livro. Johnson, denovo, apresenta a explosão do Cambriano e outras características do registro fóssil que ele diz que os biólogos não podem explicar, mas ele se opõe à teoria evolutiva primariamente através de um ataque ao naturalismo científico. Ele discursa sobre a necessidade de proteger os jovens contra a “doutrinação” (p. 10) pelas mãos dos “naturalistas dominantes” (p. 22) que fazem os estudantes memorizarem a “doutrina naturalista” (p. 34). Ele continua insinuando que há uma conspiração de elites darwinianas ateias que controlam as ondas de rádio – “os donos dos microfones da mídia [que] decidem quem é mocinho e quem é vilão” (p. 33).

Embora seus argumentos contra a evolução sejam largamente filosóficos em vez de científicos, ele ignora a maior parte da história da filosofia, e ainda insiste persistentemente, por exemplo, que aceitar Deus como um fundamento sobrenatural é a única maneira de evitar o relativismo tanto no conhecimento quanto na moralidade. Quando “declaramos nossa independência de Deus” (nos anos 60, é claro, logo após o centenário da obra de Darwin em 1959), perdíamos o pressuposto de que “a lei foi baseada num conjunto de princípios morais que vieram em última instância da Bíblia”, e isto, opina Johnson, resultou primeiro no advento do divórcio, depois na revolução sexual, na revolução feminista, e inevitavelmente no direito ao aborto e na liberação homossexual (pp. 103-4). Esses temas, e também as notas caracteristicamente estridentes de Johnson, agora já ficaram cansativamente familiares. Há, entretanto, alguns poucos desenvolvimentos interessantes no livro.

A novidade mais significativa no ataque de Johnson à evolução é que, pela primeira vez, ele se expõe explicitamente contra a tese da ancestralidade comum. Em muitos textos anteriores Johnson ignorou alegremente o significado básico de evolução que os livros-texto trazem, e usou sua própria definição idiossincrática que não mencionava nada sobre descendência com modificação [expressão original usada por Darwin no lugar da palavra evolução]. Suspeitava-se sempre que Johnson fosse um criacionista mais tradicional do que se mostrava, mas ele se recusava a ser específico e restringia suas objeções ao mecanismo darwiniano (que ele chamou de “tese do relojoeiro cego”) e à pretensa “filosofia dogmática” do naturalismo que ele alegou ser parte de sua definição.

 

O autor promoveu o “design inteligente” como a alternativa correta, mas se recusou a dizer qualquer coisa sobre essa “teoria” além da alegação vaga de que o planejamento intencional de Deus era a explicação verdadeira para a complexidade biológica, deixando aberta a possibilidade de Deus não ter criado os tipos biológicos ex nihilo, mas guiando o processo de descendência. Entretanto, como alegou anteriormente que o mecanismo darwiniano era uma doutrina falsa apoiada no naturalismo, ele agora diz o mesmo sobre a descendência com modificação: “Deixando de lado o materialismo”, conclui, “a tese da ancestralidade comum é tão dúbia quanto o mecanismo darwiniano” (p. 95). Talvez num livro futuro ele finalmente nos dirá o que a teoria do design inteligente tem a dizer sobre a estratigrafia e o Dilúvio de Noé.

Uma segunda novidade significativa aqui é uma indicação de como os teóricos do “design inteligente” esperam atualizar o velho argumento criacionista do conteúdo de informação das moléculas biológicas. Johnson sugere (incorretamente) que informação é um conceito radicalmente antimaterialista. Alega que a informação é primária e anterior ao material, notando que o evangelho de João diz que “no princípio era o Verbo”, não a matéria. Esta é uma ideia assumidamente interpretativa e, dada a real importância de questões sobre a teoria da informação em biologia, podemos esperar que os criacionistas se safem desta. Johnson introduziu sua ideia num artigo de 1996 na revista Biology and Philosophy, garimpando algumas frases do biólogo George C. Williams quando este discutia (de maneira bastante informal, eu diria) sobre informação biológica. Williams havia dito que a informação não era “realidade objetiva física” e era um “domínio mais ou menos incomensurável” em relação à matéria, e Johnson propôs que este era um reconhecimento de um dualismo ontológico de matéria e informação, e que portanto matéria nunca poderia explicar a origem da informação.

 

Williams e Richard Dawkins escreveram réplicas enérgicas e contundentes, mas no livro “Como derrotar o evolucionismo” Johnson simplifica demais as objeções. Ele admite que é fácil explicar a origem da informação se seu conteúdo é pequeno, mas alega que não há como explicar de forma natural a “informação altamente especificada” de organismos complexos. Não se surpreenda se esta for a próxima empreitada dos novos criacionistas pelo design inteligente. Quando acontecer, observe a petição de princípio sutil em palavras como “especificada”, que levam a pensar em um “agente inteligente” (um especificador), em que “especificado” ficaria mais preciso.

 

Na próxima vez que Johnson disser que “o Verbo (informação) não é redutível à matéria, e até mesmo precede a matéria” (p. 71), não se esqueça de perguntar por um exemplo de informação que seja anterior à matéria (ou a qualquer entidade física) – ele não terá o exemplo porque a informação é uma propriedade relacional que não pode existir numa forma “desencarnada”. E não se deixe ignorar por alegações fáceis sobre irredutibilidade, pois este é um conceito filosófico difícil e controverso. Enquanto é verdade que, num sentido simples de redução, a informação não é redutível à matéria (isto é, a mesma informação pode aparecer num número de formas materiais diferentes), este não é um sentido de redução que levaria a qualquer forma de dualismo fantasmagórico ou necessariamente precisaria de um autor inteligente.

 

Uma mudança menos substanciosa mas talvez mais importante neste novo livro é a troca explícita do público-alvo de Johnson. Numa entrevista em 1993, Jonhson havia dito que ele não estava interessado em discutir como o debate sobre o criacionismo deveria ser conduzido nas escolas. “[O] sistema das escolas públicas não é minha praia”, explicou, “não é onde quero discutir. É nas universidades e na comunidade científica que eu realmente começo a debater” (Barbero 1993). Agora Johnson está preparado para mudar de cena e escreve que o objetivo deste novo livro é dar “uma boa educação de nível médio sobre como pensar sobre a evolução” (p. 11). Seu público-alvo consiste nos “adolescentes – jovens do ensino médio ou iniciando o curso de graduação” (p. 9) e seus pais e professores. Ele até nos conta como projetaria um currículo em evolução para esses estudantes. Aparentemente, Johnson agora quer que a questão seja articulada nas escolas, pois ele diz que o currículo de biologia deveria ser construído em torno de princípios de pensamento crítico. Ele quer virar o jogo sobre os céticos científicos e fazer com que os estudantes treinem o que Carl Sagan chamou de detector de mentiras sobre a teoria evolutiva. [O autor da resenha se refere ao capítulo “A arte refinada de detectar mentiras“, do livro “O mundo assombrado pelos demônios”.]

 

Johnson passeia pela lista de Sagan para detecção de apelos falaciosos à autoridade, uso seletivo de evidência, petição de princípio, argumentos ad hominem, e etc., mas ilustrando-os com formas que ele alega que os biólogos evolutivos têm de esconder as mentiras/bobagens. Por exemplo, ele diz que os estudantes deveriam ser ensinados a buscar a “estratégia” dos evolucionistas de começar falando do que chamam de “o fato” da evolução e então subrepticiamente inflá-lo para incluir o mecanismo. (Gould e alguns outros biólogos evolutivos falam sobre a descendência comum com modifcação como “o fato” da evolução para distingui-la da “teoria” do(s) mecanismo(s) pelos quais ela aconteceu. Na seção sobre o currículo Johnson define [a descendência comum] enganosamente e a ignora como sendo apenas um ponto incontroverso quando “organismos têm certas similaridades como o código genético do DNA, e são agrupados em padrões” [p. 58], embora a use mais tarde no sentido de Gould para se referir à descendência comum quando ele [Johnson] rejeita essa tese [p. 94].)

 

Incrivelmente, Johnson alega que esta distinção importante entre produto e processo é “apenas um artifício de debate” (p. 59) para esconder problemas com o mecanismo darwiniano. Ele alerta aos professores que se eles quiserem tentar ensinar sobre a “escamoteação” evolutiva eles podem ter problemas em não chamar a atenção dos “assim chamados advogados de liberdades civis” (p. 116) e oferece seus serviços e os de seus colegas para ajudá-los. Ele sugere que os professores acessem o sítio eletrônico “Access Research Network” (www.arn.org), que se tornou a loja outlet para o criacionismo do “design inteligente”, onde seus materiais serão postados.

 

Devemos aplaudir o convite de Johnson para ensinar o pensamento crítico, mas seu programa de sete passos para aplicá-lo ao currículo de biologia é ridículo. Imagine sugerir que o jeito certo de ensinar geologia é dizendo aos estudantes que o assunto é pouco mais que “dogma filosófico” e que os geólogos são “enganadores” que intencionalmente “fogem das perguntas difíceis” e que devem ser “vistos com suspeita”. Ensinar uma disciplina acadêmica desta maneira seria intelectualmente irresponsável e moralmente repreensível. Mesmo pais que são criacionistas e gostariam de ver esta abordagem crítica da evolução nas escolas podem ficar não muito felizes de ouvir que Johnson também recomenda que os estudantes aprendam na aula de biologia a usar seus detectores de mentiras em suas próprias crenças religiosas. Ele argumenta que acreditar em Deus apenas pela fé em vez da razão é um “erro” ou uma “estratégia de defesa racional nascida do desespero” (p. 20), e que os estudantes devem confrontar os problemas teológicos que resultam de aceitar a evolução.

 

Acredite ou não, o pensamento crítico sobre tais assuntos teológicos também está em um ou outro dos sete passos que Johnson incluiria em seu currículo de biologia. Johnson quer colocar toda a culpa no naturalismo científico, mas este não é mais ou menos um “pressuposto” de qualquer outra ciência teórica ou aplicada do que é do darwinismo; se o currículo de Johnson é justificado para aulas de biologia, então por que ele não recomenda consistentemente que ele seja aplicado igualmente na aula de física ou na prática de mecânica?

 

Johnson diz aos estudantes do ensino médio que eles precisam “aprender a usar os termos precisa e consistentemente” (p. 57), mas que os biólogos são intencionalmente escorregadios em seu uso do termo evolução, de forma que quando o ouvirem “seus ponteiros no detector de mentiras devem apontar para ‘alerta de escamoteação'” (p. 116). Estudantes que leiam este livro vão ganhar muito apontando seus detectores de mentiras sobre ele, pois o uso que Johnson faz da terminologia não é exemplo das virtudes que ele acertadamente prega. Além do desleixo terminológico apontado acima, descobre-se que Johnson é similarmente desleixado com outros conceitos evolutivos quando é para sua própria vantagem. Um exemplo é o que ele chama de “erro de Berra”.

 

Em “Evolução e o mito do criacionismo” (1990), o zoólogo Tim Berra ilustrou uma ideia sobre a natureza de uma sequência evolutiva usando uma série de fotografias que mostram o desenvolvimento do [Chevrolet] Corvette ao longo de várias décadas. Johnson diz que Berra errou porque “[A] sequência do Corvette… não ilustra de forma alguma a evolução naturalista. Ela ilustra como projetistas inteligentes tipicamente atingirão seus propósitos adicionando variações ao plano básico do projeto” (p. 63). Mas é Johnson quem está sendo enganosamente ambíguo aqui, pois Berra nunca alegou que este era um exemplo de seleção natural, mas diz explicitamente que é uma ilustração de um tipo de descendência com modificação. Ele usa o exemplo para ilustrar como pequenas mudanças, onde o parentesco de formas intermediárias é facilmente reconhecível, podem se acumular em diferenças tais que o produto final é quase irreconhecivelmente diferente do ponto de partida. Para este propósito o exemplo do Corvette, usando seleção artificial em vez de seleção natural, funciona perfeitamente bem.

 

Além disso, é uma ilustração importantíssima e básica com um exemplo familiar, já que muitos criacionistas continuam a se agarrar à imutabilidade das espécies e insistem que a seleção cumulativa de pequenas variações numa espécie (microevolução) não pode se acumular para formar espécies novas a partir de espécies antigas (macroevolução). Jonhson enganosamente define a microevolução como “variação cíclica dentro do tipo” (p. 57) de forma que ela pareça se encaixar na ideia criacionista do fixismo dos tipos. Johnson alega que essas pequenas mudanças não podem se acumular formando novas espécies a partir de outras (macroevolução); e o exemplo familiar [do Corvette] serviu para ilustrar o contrário. Logo, é Johnson, não Berra, quem cometeu um erro. Além disso, devemos mesmo levar a sério a sugestão implícita sobre descobrir os propósitos divinos do projetista numa analogia com os projetistas de carros? Se é assim, o que deveríamos concluir sobre os propósitos de Deus para os seres humanos, chimpanzés, gorilas e os vários hominídeos fósseis dado que todos não passam de variações no “plano básico” primata? Parece que o Homo sapiens é apenas a última versão numa linha de montagem de modelos que falharam na maior parte.

 

A imprecisão e inconsistência de Johnson são ainda mais pronunciadas quando se trata dos conceitos filosóficos sobre os quais trabalha tanto. Por exemplo, sem levar em conta a distinção básica entre naturalismo ontológico e naturalismo metodológico, Johnson continua a falar genericamente do “naturalismo” como uma metafísica dogmática (veja Pennock 1996). A evidência que ele apresenta de que os biólogos estão comprometidos com o posição ontológica de que Deus não existe e que a natureza “é tudo o que há” vem da Declaração de Posicionamento da Associação Nacional Americana de Professores de Biologia (NABT) em 1995, que disse que a evolução era um processo “sem supervisão” e “impessoal”. O fato de a NABT ter retirado recentemente esses dois termos de sua declaração para permanecer apropriadamente agnóstica sobre o papel de Deus [na evolução] (como requer o naturalismo metodológico [das ciências]) repudia a acusação de Johnson.

 

Ao compor a tergiversação acima, Johnson também confunde o naturalismo científico com o materialismo. O materialismo mecanicista se tornou a ontologia naturalista dominante no século XVII, mas o naturalismo científico permite outras categorias explanatórias do ser, contanto que não violem as leis naturais. De fato, é mais comum na filosofia da ciência hoje falar em fisicalismo em vez de materialismo, de forma a não enfatizar exageradamente a matéria sobre o espaço-tempo, forças, campos e outras categorias básicas que foram adicionadas à física ao longo dos séculos, e de forma a não fazer petições de princípio definitivas sobre a metafísica.

 

Johnson corrige (temporariamente) um erro filosófico sério que cometeu no livro “Reason in the Balance“. Nele seu alvo principal foi o “modernismo”, mas ele descreveu incorretamente os modernistas como relativistas éticos e epistêmicos, e atribuiu ao modernismo características que na verdade pertencem ao “pós-modernismo”. Em Como derrotar o evolucionismo ele se sai melhor, escrevendo que “os modernistas acreditam numa racionalidade universal fundada na ciência; pós-modernistas acreditam numa miríade de racionalidades diferentes e consideram a ciência como apenas um dos modos de interpretar o mundo. Em outras palavras, mordenistas são racionalistas; pós-modernistas são relativistas” (p. 90). Mas depois de admitir essa diferença ele volta a misturar as duas coisas e critica o modernismo genericamente como a “religião estabelecida” subjetivista do ocidente (p. 97).

 

Interessantemente, a própria opinião de Johnson é claramente pós-modernista em vários de seus elementos centrais. Seus escritos estão eivados de linguagem pós-moderna sobre a “construção” do conhecimento por aqueles que estão no “establishment” e estão agindo para proteger seu “poder e riqueza” através da “doutrinação” das massas com uma “ideologia” opressiva. Não fiquei surpreso ao saber recentemente que o título original que Johnson tinha para “Darwin no banco dos réus” era “Darwinismo desconstruído”. Como os filósofos pós-modernos, Johnson parece pensar que o que é chamado de conhecimento nada mais é que narrativas culturais em voga sustentadas pela elite dominante. Um exemplo desta opinião em Como derrotar o evolucionismo é a ênfase que ele dá à peça teatral “O vento será tua herança” [ou “O Julgamento do Macaco”] – uma ficcionalização do julgamento de Scopes, que ele chama de uma “obra-prima da propaganda” (p. 25). Tecendo sua própria obra-prima da descontrução, Johnson tenta argumentar que a peça na verdade atinge seu efeito por empréstimo aos evangelhos e essencialmente por dar a Bert Cates (o personagem que representa o professor de biologia Scopes [condenado no Tennessee por ensinar evolução em 1925]) o papel moral de Jesus.

 

Bem, talvez, mas o que isso tem a ver com saber se a evidência científica nos diz ou não que a evolução é verdadeira? A resposta, é claro, é que, embora Johnson seja como os pós-modernistas em opor-se aos métodos científicos como tendo qualquer mérito especial para descobrir verdades sobre o mundo empírico, ele é na verdade um pré-modernista ao defender (embora nunca admitindo sem rodeios) que a única garantia de verdade é a Palavra de Deus. Johnson quer derrotar o evolucionismo “com mente aberta” para as possibilidades sobrenaturais dos modos que ele sugere e ignorar os critérios usuais de evidência. Como um antídoto para o chamado pós-modernista de Johnson para jogar fora desatentamente os métodos científicos, convém lembrar a recomendação sábia do filósofo Bertrand Russell – é bom manter a mente aberta, mas não tão aberta ao ponto do cérebro escapulir.

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*As páginas referenciadas no texto referem-se à edição original em inglês.

Resenha traduzida de Pennock, RT. Reports of the National Center for Science Education, 1997; 17(6): 36-38.

REFERÊNCIAS

Barbero Y. Interview With Phillip E Johnson. California Committees of Correspondence Newsletter 1993.

Berm T. Evolution and the Myth of Creationism. Princeton, NJ: Princeton University Press, 1990.

Pennock RT. Naturalism, evidence and creationism: The Case of Phillip Johnson. Biology & Philosophy 1996; 11(4): 561.

LIVRO RESENHADO

Phillip E. Johnson . Como derrotar o evolucionismo com mentes abertas. Editora Cultura Cristã, 2000.

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N. do T.: Este livro lamentavelmente está sendo recomendado para o ensino médio nas escolas confessionais adventistas.

Buracos negros, homo-sapiens e rock & roll.

Stephen Hawking está de volta à praça editorial com o seu ¨The Grand Design¨ Aguardo ansiosamente a edição brasileira sem erros de tradução como na primeira edição de ¨Uma Breve História do Tempo ¨.Em co-autoria com o matemático Ellis, Hawking produziu nos anos 70 um trabalho de grande importância para a física da gravitação ( Relatividade Generalizada, de Einstein ) ao demonstrar no seu ¨The Large Scale Struture of Space-Time¨ ( Cambridge, 1973 ) a inevitabilidade das chamadas ¨singularidades¨ no colapso de estrelas massivas no estágio final de seus ciclos de vida ( formação de buracos-negros ) onde até então especulava-se que essas singularidades seriam consequências teóricas sòmente das soluções com alto grau de simetria das equações de campo de Einstein. Hawking e Ellis mostraram, através de deduções puramente matemáticas, que essa condição não é necessária, assumindo uma série de outras hipóteses e demonstrando que conduziam aos mesmos resultados.Passaram-se mais de trinta anos e hoje podemos ver nas magníficas imagens do Hubble a atividade diferenciada de matéria-energia no centro das grandes galáxias e fenômenos que indiretamente indicam a atividade de um buraco-negro como, por exemplo, o jato de gás emitido pelo núcleo da incrível galáxia elíptica gigante M87, com 1 trilhão de estrelas ou mais. Nesse trabalho são estudados também aspectos relacionados à chamada ¨singularidade inicial ¨, popularmente mais conhecida como o ¨Big Bang¨, que teria dado origem ao espaço-tempo na forma como o conhecemos. As informações de que disponho até o momento é de que Hawking está vindo ao público em seu novo livro com uma versão moderma do ¨ Sir, je n´ai pas eu besoin de cette hypothèse-lá ¨, resposta de Laplace à Napoleão quando, ao presenteá-lo com sua obra máxima, este observou que Deus não fora mencionado em nenhum dos cinco volumes do seu monumental ¨Mecânica Celeste¨. Em The Large Scale… os ingleses fazem uso também de conceitos introduzidos pelo físico-matemático Roger Penrose, que chegou à especular que gravitação e auto-consciência estão intimamente relacionadas. À propósito do Big Bang, é instrutivo aqui destacar um episódio no mínimo surpreendente da vida do físico americano Richard Feynman. Certa vez, um rabino perguntou à este : ¨ Você realmente acredita na teoria do Big Bang ?¨. Feynman respondeu ao rabino : ¨Eu não acredito em nada !! ¨ ( possíveis interpretações aqui ficarão ao cargo do leitor…).Retornando ao Hawking, comento a seguir suas recomendações ou conselhos bem intencionados ( não, não é pleonasmo…) para que o homo-sapiens faça jus à sua designação técnica se quiser ter uma perspectiva à longo prazo de sua existência enquanto espécie. Estaria Hawking manipulando mentalmente suas equações envolvendo distribuições de probabilidades e chegando à estarrecedora conclusão de que já estaríamos não muito longe do fim, ou seja, à beira da extinção ?. Hawking menciona o terrível poder de destruição da tecnologia atual e daquelas que ainda possivelmente estarão ao nosso alcance nos próximos duzentos anos, o que aliás já era motivo de especulações e preocupações de Carl Sagan em seu devido tempo.Esse é o problema do crescimento exponencial : mal começamos e já estamos às voltas com nosso próprio destino ! Sonhos de ambos à parte, como por exemplo estabelecer descendência em outros lugares do universo, termino minha breve mensagem observando que Stephen Hawking, o da criação expontânea do mundo, Roger Penrose, o da origem gravitacional da consciência, Richard Feynman, o cético dos céticos, e Carl Sagan, o amante eterno da natureza e suas produções, assim como muitos outros, ( Dawkins e Jay Gould, por exemplo ) foram todos contemporâneos à época do rock progressista de minha juventude que produziu uma geração de intelectuais engajada e distante ainda do mundo virtual que nos é apresentado agora como uma nova classe de deuses de fato e que me parece definitivamente estabelecido.Contradição, eu sei. Nós sabemos.E espero sinceramente que as previsões de Hawking, como de tantos outros…, não se realizem.

Casais gays e formigas: a evolução pode explicar o altruísmo social?

Que semelhança notável há entre as formigas e a adoção de crianças por casais gays?

Não, não é que ambos causam urticária em muita gente. É que, ainda que haja controvérsia sobre quem pode adotar uma criança, não é surpresa que nós como seres sociais cuidemos dos filhos biológicos dos outros – assim como as formigas fazem.

A maioria das formigas que estão num formigueiro jamais terão descendentes. As operárias, todas filhas de uma mesma rainha, podem ter diferentes funções em diferentes castas, todas trabalhando de forma a manter ou expandir o formigueiro. Há inclusive as operárias que são babás, cuidam dos ovos e das jovens ninfas.

Um caso extremo está num tipo de formiga operária da espécie Myrmecocystus mexicanus, que regurgita o néctar guardado em seu abdômen expandido para alimentar suas irmãs em tempos de seca.

Já os casais humanos de orientação homossexual, incapazes de gerar descendentes biológicos por esta via, aparecem nas notícias todos os dias expressando o desejo de adotar crianças.

Pensando a seleção natural como a reprodução e sobrevivência diferenciais entre indivíduos, este mecanismo principal de mudança evolutiva proposto por Darwin parece ser insuficiente para explicar o comportamento social de “generosidade” das formigas e dos humanos. Se o que importa é ser mais apto (deixar mais descendentes), então parece que a evolução deveria gerar sempre comportamentos “egoístas”, não comportamentos “altruístas” como esses.

Se todos fossem egoístas, a sociedade ruiria, tanto a das formigas quanto a dos humanos. A característica em comum entre humanos e formigas, que pode ser chamada de “eussocialidade” (do grego “eu“, verdadeiro), representa então um problema a mais a ser resolvido pela teoria da evolução para explicar nossas origens.

A cooperação, então, é um elemento sine qua non do comportamento social. Como ela surgiu?

A teoria da seleção de parentesco era a mais badalada para explicar a origem deste comportamento até hoje. Esta teoria, desenvolvida por J. B. S. Haldane em 1955 e W. D. Hamilton em 1964, está fundada na noção de “aptidão inclusiva” e, como diz o nome, ela leva em conta o grau de parentesco. É um fato notável que a cooperação das formigas, por exemplo, é para com suas irmãs.

Atenção para o conceito: a aptidão inclusiva seria a soma entre o efeito da cooperação sobre a aptidão do agente (por exemplo a formiga doadora de néctar) e o efeito da cooperação sobre a aptidão do beneficiado (por exemplo as formigas nutridas pelo néctar) mutiplicada pelo parentesco entre o agente e o beneficiado.

Lembre: se estamos falando em mais apto e menos apto, estamos falando em seleção natural. O que este conceito veicula é que a seleção natural pode agir num tipo diferente de aptidão. E esta aptidão não é do indivíduo, é daquilo que o faz parente de outros indivíduos: os genes.

É por isso que o livro de divulgação “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins, dedica-se a explicar o altruísmo e também a defender a noção de que é o gene a unidade sobre a qual a seleção natural age, e também seu nível principal de atuação.

A teoria de Haldane e Hamilton prevê que a evolução dará origem à cooperação entre organismos quanto mais aparentados eles forem. Hamilton, como bom cientista tradicional, tratou de expressar esta ideia matematicamente.

A cooperação será favorecida pela seleção natural sempre que o grau de parentesco R, que é a fração de genes compartilhados, for maior que a razão entre o custo c e o benefício b:

R > c / b

Logo, para irmãos, com R = 1/2, o altruísmo é um resultado esperado da evolução sempre que o custo para o altruísta for mais de duas vezes inferior ao benefício para seus irmãos. No caso de primos em primeiro grau, com R =1/8, o benefício teria de ser mais de oito vezes superior ao custo.

Esta teoria fez bastante sucesso porque explica muito bem a eussocialidade de organismos haplodiploides como as formigas e as abelhas; em que os sexos são determinados pelo número de cromossomos dos organismos, sendo os machos originados de ovos não fecundados com “n” cromossomos (machos haploides) e as fêmeas de ovos fecundados “2n” (diploides). Este ciclo implica que o R para as fêmeas tem o valor exorbitante de 3/4 – e todas as operárias de um formigueiro, que trabalham de forma abnegada para o “bem comum”, são fêmeas!

Tudo bem fechadinho e plausível, não é? Mas, como dizia o filósofo Immanuel Kant, “a experiência sem teoria é cega, mas a teoria sem experiência é mera brincadeira intelectual”.

Seria a teoria da seleção de parentesco mera brincadeira intelectual? Segundo um artigo de Martin Nowak, Corina Tarnita e o famoso sociboiólogo Edward O. Wilson, publicado este mês na revista Nature, parece que sim.

Os autores lembram que existem espécies eussociais, como os cupins e os ratos-toupeiras, que não são haplodiploides, e que há famílias inteiras de himenópteros (ordem das formigas e abelhas), com até 70 mil espécies, que são haplodiploides mas não eussociais. Então, ao menos a hipótese de associação entre haplodiploidia e eussocialidade, decorrente da teoria da seleção de parentesco (TSP), parece não se sustentar.

Outro problema para a TSP é que foram detectadas circunstâncias em que a seleção age contra a homogeneidade genética. Por exemplo, se todos num formigueiro são ‘iguais’, uma mesma doença pode eliminar todos, então haveria vantagem na diferença genética, que é o contrário do parentesco, pois mais variedade significa mais chance de resistência a doenças.

Os autores também criticam os pressupostos da aptidão inclusiva como restritivos demais para a maioria dos casos em que se observa cooperação, e tentam demonstrar que usar a aptidão inclusiva é um desvio desnecessário que gera os mesmos resultados dos modelos que assumem seleção natural sobre aptidão simples. Ou seja, não é preciso complicar quando a teoria da seleção natural tradicional faz as mesmas previsões sem ser restritiva.

Mas nem tudo é crítica: Nowak, Tarnita e Wilson têm uma proposta alternativa para explicar a origem da eussocialidade:

  • Primeiro, a espécie deve formar grupos dentro de uma população, em casos como em localidades discretas atrativas para fazer ninhos ou procurar alimento, ou no caso de pais conviverem com filhotes, ou no caso de um rebanho seguir um líder; ou, ainda, grupos formados por acaso.
  • Depois, ocorre o acúmulo de características de predisposição à eussocialidade através da seleção natural comum. Por exemplo, certas abelhas solitárias dos gêneros Ceratina e Lasioglossum cooperam na busca de alimento, construção de túneis e armazenamento de recursos quando são forçadas experimentalmente à convivência. Outra predisposição seria a vigilância de ninhos como ocorre em várias vespas. Nesta etapa é invocada a “radiação adaptativa” – algumas espécies, uma minoria, serão propensas à eussocialidade (o que explica por que a eussocialidade é rara no número de espécies apesar dos organismos eussociais ocuparem uma fração enorme da biomassa do planeta).
  • Então, mutações e recombinação devem fixar genes ligados ao comportamento eussocial, servindo como gatilho para estabelecer as antigas predisposições em características estáveis de eussocialidade. Estes genes são desconhecidos, mas na formiga Solenopsis invicta, por exemplo, variantes do gene Gp-9 estão associadas à perda da capacidade de reconhecimento de operárias de outros formigueiros – o que explica as supercolônias dessa formiga no sul dos EUA.
  • Na quarta fase, a seleção natural favorece e estabiliza características emergentes de interação entre os organismos eussociais. Esta fase gera colônias que se comportam como superorganismos – as rainhas são como os gametas, e as operárias são como as células somáticas (as células de um organismo que executam funções variadas mas não passam seus genes adiante diretamente como fazem os gametas).
  • Finalmente, estes superorganismos podem sofrer seleção natural entre si (como acontece com os organismos comuns) – daí vem o refinamento das castas.

Mas por que, então, tanto parentesco entre organismos que cooperam, como nas formigas? O parentesco seria não a causa, mas a consequência da eussocialidade.

Se o modelo de Nowak, Tarnita e Wilson estiver correto, para que possamos compreender a evolução do comportamento social devemos adotar a noção de que há vários níveis para a seleção natural – dos genes aos superorganismos. Por isso, tratar apenas da fração de compartilhamento de genes, ou seja, parentesco, seria insuficiente.

E quanto aos humanos?

ResearchBlogging.org

Este modelo, como ficou claro, deve ser ajustado para falar de humanos. A primeira coisa a ser feita é perceber que não somos eussociais em sentido estrito – nossas sociedades não lembram superorganismos, e apesar da tentativa histórica da Índia, não nos dividimos em castas naturalmente.

Outra diferença é que, diferentemente dos insetos, nós temos cultura. Nossos hábitos culturais são há milênios fonte de pressões seletivas sobre nossos genes, e a cultura co-evolui com eles. Ter cultura pressupõe nosso aparato cerebral; e a complexidade das nossas culturas está diretamente relacionada a capacidades mentais como a “teoria da mente” e a empatia – e esta tem tudo a ver cooperação, principalmente quando se observa coisas como adoção de crianças por casais gays não aparentados a elas!

Não foi por acaso que escolhi o exemplo dos casais gays tentando adotar crianças. Já se tentou explicar a origem da homossexualidade pela teoria da seleção de parentesco – o comportamento homossexual seria selecionado positivamente em sua origem porque os gays cuidam de seus sobrinhos (aptidão inclusiva). Os psicólogos evolutivos Paul Vasey e Doug VanderLaan, da Universidade de Lethbridge, Canadá, observaram no povo da ilha de Samoa, no Pacífico, que os homens gays de lá cuidam mais de sobrinhos do que os homens heterossexuais e as mulheres. Em Samoa, a cultura local vê os homens gays como um terceiro sexo que chamam de fa’afafine. Os pesquisadores explicam o comportamento dedicado dos tios fa’afafine em termos da seleção positiva de genes ligados à atração sexual por pessoas do mesmo sexo, mas não sabem até que ponto isso também pode ser explicado pela baixa homofobia da cultura samoana.

Se as críticas do grupo de E. O. Wilson à teoria da seleção de parentesco procedem, as conclusões de Vasey e VanderLaan são mais fracas do que se pensava. Em caso contrário, a TSP poderá continuar sendo um recurso para estudar a origem de comportamentos humanos como a homossexualidade e o altruísmo. Só o tempo dirá.

Enquanto isso, outros modelos explicativos alternativos à TSP são aventados. Relatando em 2008 à revista científica PLoS ONE, os italianos Andrea Camperio Ciani e Giovanni Zanzotto, da Universidade de Padova, e Paolo Cermelli, da Universidade de Torino, explicam a origem da homossexualidade por um modelo baseado na ideia de seleção sexualmente antagônica, na qual fatores genéticos espalham-se na população ao conferir vantagem reprodutiva para um sexo enquanto causa desvantagens ao outro. Neste caso, vantagem ao sexo feminino – a homossexualidade masculina estaria associada a uma maior fecundidade feminina – mães com filhos gays teriam mais filhos que outras mães. São resultados que também necessitam de aprofundamento.

Voltando à adoção, que é o comportamento de altruísmo social que estamos tentando explicar, vale lembrar que, ainda que a cultura seja um complicador na análise das origens da socialidade humana, não se pode negar a participação dos genes – logo, da evolução biológica – em sua origem. Richard Ebstein e seus colaboradores lembram, na revista Neuron, que há uma clara associação entre o comportamento social humano e genes que codificam receptores de neurotransmissores como oxitocina, vasopressina, serotonina e dopamina. Mutações nesses genes foram ligadas a transtornos de comportamento como o autismo (em que a “teoria da mente” e a empatia mostram-se deficientes) e a esquizofrenia.

Qualquer que seja a explicação evolutiva para a origem da nossa sociabilidade, expressada em comportamentos altruístas como a adoção de crianças por casais gays, uma coisa já sabemos: não é recente nem exclusiva.

Christophe Boesch e colegas, na revista PLoS One, relataram 18 casos de chimpanzés adotando jovens órfãos. Sendo os chimpanzés nossos parentes vivos mais próximos, parece que o altruísmo para com indivíduos não aparentados em nossos grupos é algo com mais de 7 milhões de anos, tempo em que nossas linhagens se separaram.

Fazer o bem sem olhar a quem é coisa nossa, dos primatas. Já as formigas, continuam sendo exemplo de eficiência, mas não de individualidade.

Imagens:

Formiga: JEAN-PHILIPPE VARIN / JACANA / SCIENCE PHOTO LIBRARY

Esquema sobre aptidão: modificado de Nowak et al. 2010.

E. O. Wilson: Public Library of Science.


Referências:



Nowak MA, Tarnita CE, & Wilson EO (2010). The evolution of eusociality. Nature, 466 (7310), 1057-62 PMID: 20740005

Boesch C, Bolé C, Eckhardt N, & Boesch H (2010). Altruism in forest chimpanzees: the case of adoption. PloS one, 5 (1) PMID: 20111704

Laland, K., Odling-Smee, J., & Myles, S. (2010). How culture shaped the human genome: bringing genetics and the human sciences together Nature Reviews Genetics, 11 (2), 137-148 DOI: 10.1038/nrg2734


Vasey PL, & VanderLaan DP (2010). An adaptive cognitive dissociation between willingness to help kin and nonkin in Samoan Fa’afafine. Psychological science : a journal of the American Psychological Society / APS, 21 (2), 292-7 PMID: 20424059

Camperio Ciani A, Cermelli P, & Zanzotto G (2008). Sexually antagonistic selection in human male homosexuality. PloS one, 3 (6) PMID: 18560521


Ebstein, R., Israel, S., Chew, S., Zhong, S., & Knafo, A. (2010). Genetics of Human Social Behavior Neuron, 65 (6), 831-844 DOI: 10.1016/j.neuron.2010.02.020

Como varrer uma calçada no meio de uma multidão.

Não é nada fácil retirar um objeto de um lugar e colocá-lo em outro lugar. Se estiver em repouso em um referencial inercial é necessário, antes de mais nada, imprimir uma aceleração através da ação de uma força, o que implica um rearranjo na distribuiçao de energia em suas diversas formas e as consequentes modificações nas variáveis termodinâmicas do sistema físico em questão. Como é bem sabido, na estação do Inverno as calçadas e praças das cidades bem arborizadas ficam forradas de folhas sêcas com uma frequência além da esperada por donas-de-casa, prefeituras, etc.., e um breve contacto com esse problema basta para concluir que se trata de uma dor-de-cabeça para ambos na situação em que há uma grande movimentação de pessoas todos os dias e durante todo o dia. Há entretanto, como veremos logo a seguir, além de vassouras e jatos de água, uma outra maneira de resolver o problema que, reconheço, embora demande um tempo maior, pode ser realizado com um grau de eficiência aceitável : random walk !! . Inspirado em dois resultados relativos ao cálculo de probabilidades associadas a um grande número de perguntas que podemos fazer no estudo do ¨passeio ao acaso¨ unidimensional de uma partícula, passo, a seguir, ao assunto que nos interessa. As duas proposições seguintes, que chocam o senso-comum, referem-se ao passeio aleatório simétrico ( i.é., equiprobabilidade para a esquerda e para a direita ), e podem ser rigorosamente demonstradas.

Prop. I ) Em um passeio ao acaso simétrico, a probabilidade da partícula permanecer em um dos lados da origem é maior do que a probabilidade de ficar alternando entre os dois lados ( esquerdo e direito ).

Prop. II ) O valor esperado no tempo do primeiro retorno à origem é infinito.

A mensagem desses dois teoremas é muito clara e colide frontalmente com aquilo que julgaríamos esperar baseados em nossa ¨intuição primeira¨ após supor equiprobabilidades.Para nossos propósitos, a proposição II é ainda mais relevante e significa o seguinte : Sem tecer considerações a respeito da origem de moléculas pré-bióticas ou até mesmo já um pouco mais complexas, a hipótese de distribuição uniforme dessas moléculas por toda a superfície da Terra durante a maior parte do tempo antes do surgimento efetivo dos primeiros replicadores e subsequente aumento quase exponencial da biomassa terrestre é incompatível com a Prop. II , que pode ser interpretada como uma ¨tendência à dispersão¨ : por movimento browniano ou outros processos, a partícula se afasta cada vez mais de seu ponto de partida, a menos que…, e é aqui que entramos com a chave da questão : a menos que encontre uma barreira que a impeça de prosseguir o caminho. Das águas dos oceanos, córregos e lagos quentes da Terra primitiva, a tendência dessas partículas, diferenciadas das moléculas de água por suas massas e propriedades químicas,de permanecerem mais perto umas das outras através de aglomerações próximas à superfícies sólidas ou quase-sólidas implica evidentemente em um aumento significativo na frequência de colisões e no consequente aumento das probabilidades de reações químicas por pura colisão e/ou sob o estímulo de um grande número de outros fenômenos naturais .Se já foram formadas no lugar certo, então muito bem. Se não foram, um dia estarão lá.É flagrante aqui a analogia com a formação do petróleo: acumulando-se nas penínsulas, baias, fissuras de rochas ou qualquer configuração topográfica que implique em restrições na circulação de água e outros fluídos, essas moléculas estão destinadas a se encontrarem involuntariamente umas com as outras dando origem a um mundo de possibilidades muito interessante. É digno de nota também enfatizar o contraste entre visões de mundo adquiridas por modos de pensamento mutuamente excludentes onde alguns deles podem nos colocar, sem que o percebamos conscientemente, restrições à nossa capacidade de imaginação e consequente imagem do mundo.

Retornemos agora à nossa calçada forrada de folhas sêcas e nossa sugestão à dona-de-casa : a rigor, não é necessário intervenção alguma. Basta um pouco mais de paciência e aguardar que colisões involuntárias dos transeuntes em circulação e a ação dos ventos se encarreguem de deslocar a maior parte dessas folhas para os cantos dos muros ou próxima às guias. Aglomeradas, ficará então bem mais fácil recolhê-las e completar o serviço.

Borel-Cantelli

Algum tempo atrás, em um comentário, fiz referência ao Lema de Borel-Cantelli, um teorema dos mais interessantes e de grande importância para a Teoria das Probabilidades e suas ramificações. Pretendo aqui explorar este assunto sob o ponto de vista de sua importância para os tipos de questões que aparecem em grande parte das mensagens de blog, fóruns,comentários, etc…propostos e debatidos pelos membros deste sítio eletrônico.Evidentemente está fora de propósito aqui qualquer exposição dos detalhes técnicos e de sua demonstração, sendo que me restringirei a enunciar uma versão mais fraca ( Corolário ) através de um exemplo de um caso particular que é aquele que nos interessa.Dito isto, imaginemos um editor de texto digitando aleatòriamente no teclado de um computador durante um tempo infinito, contado a partir de um instante inicial, que chamarei de ¨Digitador Aleatório de Tempo Infinito ¨ e que abreviarei para DATI . A seguir visualizamos o Espaço de Probabilidades constituido de todas as possíveis sequências infinitas desses caracteres e, de uma maneira natural, postulamos equi-probabilidades para todas as teclas, ou seja, cada tecla tem a mesma probabilidade de ser digitada.Enunciado: Para QUALQUER sequência FINITA, S*, de caracteres, com uma probabilidade de ocorrência fixada e não nula a seguinte proposição é válida :

PROB[ S* ocorre infinitas vezes na sequencia infinita ] = 1 ( !! )

Considerem a primeira edição do A Origem das Espécies. O que vai acontecer ? O Lema de Borel-Cantelli afirma o seguinte : DATI irá digitá-la sem nenhum erro um número infinito de vezes com probabilidade igual a 1 ( UM ). Obras completas de Darwin, Shakespeare, A Grande HIstória da Evolução ( Dawkins ), etc…, qualquer texto com um número finito de signos, todos sem nenhum erro um número infinito de vezes com probabilidade 1. ( !! ). Digitará também ( para perplexidade de muitos ) instruções para a ¨manufatura¨ de qualquer criatura viva ( seja o que for o que isso signifique ), imaginada ou não, um número infinito de vezes. Digitará também ( para perplexidade de alguns ) qualquer texto criacionista um número infinito de vezes com probabilidade 1, sendo que neste dois últimos casos, como na biblioteca de Babel, de Borges, a maioria deles impregnados de imperfeições e de tempo de vida muito curtos. Há uma diferença. No texto de Borges temos um acervo de informações muito grande ou infinito imerso em um espaço muito grande ou infinito. No nosso caso uma sequência linear infinita de signos que deve ser lida durante um tempo infinito ao longo do eixo uni-dimensional do tempo. É interessante observar também que o próprio Lema de Borel-Cantelli estaria anunciado no texto de DATI em toda a sua generalidade e precisão um número infinito etc…etc….

Bem, pensemos agora em uma hipótese das mais sugestivas e inspiradoras, a saber, uma possível correspondência entre este fato matemático e os fatos do mundo real. Após a revolução da Teoria Quântica, sabemos agora ( e de uma maneira definitiva, na minha opinião ) que o determinismo clássico estará para sempre bem longe das teorias fundamentasi da física que já nos colocaram desde então não como meros observadores privilegiados de uma realidade objetiva e independente mas, antes, como participantes de um cenário coadjuvado por fenômenos que oscilam entre a sorte e o azar patrocinados pela natureza estocástica do jogo das interações entre partículas e campos quânticos associados. Um Universo probabilístico assim constituído, quando associado à mensagem do Lema de Borel-Cantelli, é possivelmente a resposta para a questão da emergência da vida na Terra e outros lugares, bem como classes de eventos que, por definição, ninguem ainda imaginou. Diante desse quadro otimista, torna-se perfeitamente possível, e até mesmo inevitável, o surgimento no mundo de ilhas de baixa entropia imersas em um caos aparente relativamente àquilo que convencionamos definir como sistemas ordenados ou não, já devidamente subtraída a natureza contingente de suas características próprias sem que entretanto descartemos qualquer contingência possível como um vir-a-ser enquanto potência. Soma-se ainda à estas pressuposições de máxima parcimônia os fenômenos aleatórios de natureza recorrente, dotados de memória, que introduzem acréscimos significativos nas probabilidades de eventos futuros.É claro que não chegarei ao ponto de afirmar que o texto de DATI contém tudo pois, no meu modo de ver, tudo é um lugar que não existe. ( Marcelo Gleiser marcou um ponto comigo no seu ¨Criação Imperfeita ¨ ( ed. Record ) ao afirmar que o sonho dos físicos, a ¨Teoria de Tudo¨ é uma espécie de ilusão infantil ). Esclareço aqui que estas últimas considerações não estão em contradição com o que escrevi desde o início, pois o Espaço de Probabilidades acima imaginado contêm também sequências de signos do tipo wwwwwwww… que pertencem a sub-conjuntos de medida nula nesse espaço, ou seja, uma classe de eventos possíveis de probabilidade zero !

Gostaria de terminar minha breve mensagem com uma observação : A diversidade não é monopólio do mundo vivo.As instruções codificadas no texto de DATI parecem encontrar neste nosso universo um lugar adequado para muitas de suas realizações na arena dos fenômenos que envolvem uma grande quantidade de matéria e energia, tais como na Astronomia, Astrofísica e Comologia. Estamos apenas começando e espero que continuemos assim, para bem longe no tempo, tão longe quanto o código de DATI permitir.

Sobre o texto “Evolucionismo” do site Brasil Escola

*** Parabéns ao BrasilEscola.com por ter mudado o texto criticado por mim abaixo.***

Há anos, por algum motivo, o Google tem dado como primeiro resultado para a busca da palavra “evolucionismo” o texto curto abaixo, de autoria de Rainer Sousa e hospedado no sítio Brasil Escola. O título do texto é “Evolucionismo – A Teoria do Evolucionismo” [sic]:
“A teoria evolucionista é fruto de um conjunto de pesquisas, ainda em desenvolvimento, iniciadas pelo legado deixado pelo cientista inglês Charles Robert Darwin. Em suas pesquisas, ocorridas no século XIX, Darwin procurou estabelecer um estudo comparativo entre espécies aparentadas que viviam em diferentes regiões. Além disso, ele percebeu a existência de semelhanças entre os animais vivos e em extinção.

A partir daí ele concluiu que as características biológicas dos seres vivos passam por um processo dinâmico onde fatores de ordem natural seriam responsáveis por modificar os organismos vivos. Ao mesmo tempo, ele levantou a idéia de que os organismos vivos estão em constante concorrência e, a partir dela, somente os seres melhores preparados às condições ambientais impostas poderiam sobreviver.

Contando com tais premissas, ele afirmou que o homem e o macaco teriam uma mesma ascendência a partir da qual as duas espécies se desenvolveram. Contudo, isso não quer dizer, conforme muitos afirmam, que Darwin supôs que o homem é um descendente do macaco. Em sua obra, A Origem das Espécies, ele sugere que o homem e o macaco, devido suas semelhanças biológicas, teriam um mesmo ascendente em comum.

A partir da afirmação de Charles Darwin, vários membros da comunidade científica, ao longo dos anos, se lançaram ao desafio de reconstituir todas as espécies que antecederam o homem contemporâneo. Entre as diferentes espécies catalogadas, a escala evolutiva do homem se inicia nos Hominídeos, com mais de quatro milhões de anos.

O Homo habilis (2,4 – 1,5 milhões de anos) e o Homo erectus (1,8 – 300 mil anos) compõem a fase intermediária da evolução humana. Por fim, o Homo sapiens neanderthalensis, com cerca de 230 a 30 mil anos de existência, antecede ao Homo sapiens, surgido há aproximadamente 120 mil anos, que corresponde ao homem com suas características atuais.

Mesmo cercada por uma larga série de indícios materiais sobre as transformações da espécie humana, a teoria evolucionista não é uma tese comprovada por inteiro. O chamado “Elo Perdido”, capaz de remontar completamente a trajetória do homem e seu primata original, é uma incógnita ainda sem resposta.”

ResearchBlogging.org

A primeira metade do texto está boa, porém do quarto parágrafo adiante o que se vê é confusão. Em primeiro lugar, a biologia evolutiva, como as publicações do Evolucionismo.org divulgam, é uma área muito maior do que simplesmente a busca por espécies que “antecederam o homem contemporâneo”. Os interesses dos biólogos evolutivos vão da história das plantas da família do maracujá a mostrar que eram infundadas as acusações contra cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestino, na Líbia, de terem supostamente contaminado as crianças de um hospital com HIV. Foi uma análise evolutiva das linhagens do vírus que inocentou o médico e as enfermeiras. [1] Estudar a origem da espécie e populações humanas é apenas uma das coisas que um biólogo evolutivo pode fazer.

Árvore de Darwin

Em segundo lugar, a ideia de uma “escala evolutiva” foi abandonada pelos biólogos há mais de um século. É a imagem de uma árvore, como a árvore desenhada por Darwin, que se deve ter em mente quando se fala em descendência com modificação de seres vivos, incluindo o ser humano. Não uma imagem de escala, escada, corrente ou aquela famosa fila de hominídeos com o homem na frente. (ESQUEÇA aquela imagem quando pensar em evolução!)
O último parágrafo destrói completamente qualquer tentativa de imparcialidade neste texto.
O autor fala em “tese” e “comprovada” demonstrando ignorância em filosofia da ciência, em que estes termos, principalmente o termo “prova”, caíram em desuso há pelo menos 40 anos.
Prova é um recurso da matemática (teoremas são provados com deduções). Em ciências usa-se o acúmulo de evidências e corroborações experimentais para hipóteses, e aquelas hipóteses que mais se corroboram e resistem a tentativas de refutação geram teorias científicas, que são as melhores explicações que a atividade científica é capaz de gerar [2]. A adequação das teorias científicas à realidade é o que está por trás da eficácia da tecnologia e da medicina, por exemplo. Inclusive, muitas atividades médicas, principalmente as de controle de epidemias, dependem da teoria da evolução.
O autor está mal informado sobre o nível de aceitação da teoria da evolução entre cientistas da área. A teoria da evolução é tão aceita entre biólogos quanto a teoria da relatividade é aceita entre físicos.[3]
Colocar um parágrafo dizendo que a teoria da evolução é uma “tese não comprovada” é desinformar o leitor por duas vias: passar a ideia equivocada de que ciências empíricas trabalham através de provas, e ignorar o consenso da comunidade de cientistas que trabalham com os seres vivos.
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Sobre a diferença entre teoria da evolução e evolucionismo, ver o manifesto de lançamento do Evolucionismo.org. Sobre o termo obsoleto “darwinismo”, conferir esta resposta no ‘Pergunte ao Evolucionismo’.
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Eli Vieira
Biólogo e estudante de pós-graduação em genética e biologia molecular pela UFRGS

Referências


1 – de Oliveira T, Pybus OG, Rambaut A, Salemi M, Cassol S, Ciccozzi M, Rezza G, Gattinara GC, D’Arrigo R, Amicosante M, Perrin L, Colizzi V, Perno CF, & Benghazi Study Group (2006). Molecular epidemiology: HIV-1 and HCV sequences from Libyan outbreak. Nature, 444 (7121), 836-7 PMID: 17171825

2 – Gregory, T. (2007). Evolution as Fact, Theory, and Path Evolution: Education and Outreach, 1 (1), 46-52 DOI: 10.1007/s12052-007-0001-z

3 – Confira o “Projeto Steve“, que numa ironia à famosa lista de cientistas criacionistas (nenhum deles biólogo), juntou um número exorbitante de cientistas que se chamam ‘Steve” e aceitam a evolução. O nome é uma homenagem a Stephen Jay Gould.