ABNER GOMES FLORENTINO

Archaeoraptor: o dinossauro de Piltdown

Archaeoraptor (Archaeoraptor lianingensis) foi o nome dado a um fóssil forjado e apresentado em um artigo de 1999 da revista National Geographic em um artigo chamado Feathers for T. Rex? de Christopher P Sloan. De acordo com o artigo da National Geographic sobre o Archaeoraptor a história da fraude começa em 1997 na região de Xiasanjiazi, na China, onde agricultores habitualmente escavam poços com o objetivo de achar fósseis para vendê-los a colecionadores, uma prática ilegal que na época era, e ainda é, comum .

Um agricultor encontrou um fóssil raro de uma ave com dentes e o fóssil se quebrou quando estava sendo recolhido. Foi então que, provavelmente, perto dali, o agricultor encontrou um outro fóssil, desta vez de uma cauda e patas traseiras com penas que o agricultor juntou ao pedaços do outro fóssil, criando a partir dos dois fósseis, um fóssil completo que valeria muito mais.

O fóssil foi construído com o corpo de um Yanornis (Yanornis martini), uma ave primitiva, e as pernas e a cauda, com as partes de um Microraptor (Microraptor zaoianus), um pequeno dinossauro terópode com penas.

O fóssil foi vendido em junho de 1998 a um colecionador anônimo e foi contrabandeado para os Estados Unidos. Já por volta do outono de 1998, rumores, circulavam na reunião anual de paleontologia de vertebrados no estado de Utah, de que um novo fóssil muito importante de uma ave primitiva que estaria em mãos de um colecionador que havia sido apresentado, pela primeira vez, num “gem show” em Tucson, Arizona. Em fevereiro de 1999, o museu dos dinossauros, que pertence a Stephen A Czerkas e a sua mulher Sylvia Czerkas, comprou o fóssil por 80.000 dólares. O casal, então, contactou o paleontólogo Phill Currie que, por sua vez, contactou a National Geographic Society. Currie concordou em estudar o fóssil com a condição de que seria devolvido à China.

A National Geographic Society pretendia que o fóssil fosse apresentado nas páginas da revista cientifica “Nature“, seguido por uma conferência de imprensa da National Geographic, mas o editor Bill Allen pediu a todos os membros do projeto que o fóssil fosse mantido em segredo, enquanto os Czerka pretendiam que o fóssil fosse a “jóia da coroa” do seu museu dos dinossauros e queriam expô-lo durante cinco anos. Sloan disse que viajou até o estado do Utah para convencer Stephen Czerka  a devolver o fóssil à China após ser publicado, caso contrário não o publicaria na revista e Currie não trabalharia nele. O Czerkas concordaram e Currie contactou o instituto de paleontologia de vertebrados e paleoantropologia (IVPP), em Pequim, na China, e a National Geographic trouxe o Dr Xu Xing do IVPP para o Utah para fazer parte da “Equipe Archaeoraptor“.

Durante o exame inicial por Phill Currie, em 6 de Março de 1999, já tinha se tornado claro para o pesquisador que o fóssil tinha sido construído colando pedaços de diferentes fósseis e que não havia qualquer ligação entre a cauda e o corpo. E 29 julho de 1999, Currie e o casal Czerka, submeteram o fóssil ao raio X de alta resolução, na universidade do Texas, através do qual foi confirmado que a parte inferior do fóssil, com a cauda e as pernas, não fazia parte do fóssil maior que era relativo ao corpo.

O Dr Timothy Rowe, fundador e coordenador das instalações de raio X de alta resolução da universidade, informou ao casal Czerka que havia a possibilidade do fóssil ser falso. Depois de uma discussão, Rowe e Currie, foram pressionados pelos Czerka para manterem em segredo suas suspeitas. Em setembro, Currie, mandou seu assistente Kevin Aulenback ao museu dos dinossauros para preparar o fóssil para estudá-lo melhor. Aulenback concluiu que o fóssil era “Um espécime composto por pelo menos 3 espécimes…com um máximo… de cinco… espécimes distintos”. O casal Czerka negou isso e infelizmente Aulenback apenas avisou Currie que, entretanto, não informou a National Geographic.

Em 20 agosto de 1999, a Nature rejeitou o artigo submetido (que seria de autoria conjunta dos Czerka, Rowe, Xu e Currie), avisando aos Czerka, que recusara a publicação por que, como os Czerka haviam recusado adiar a apresentação do achado, haveria muito pouco tempo para revisão de pares. Após este fato, os autores enviaram o artigo para a revista “Science” que também o rejeitou, com dois dos revisores informando que o fóssil tinha sido “contrabandeado da China e comprado ilegalmente” e que também havia sido “adulterado” “para aumentar o seu valor“. Sloan disse que os Czerka nunca informaram a National Geographic, e a ele, dos detalhes das duas rejeições e, por isso, o artigo, sobre o Archaeoraptor, acabou sendo realmente publicado na National Geographic, uma ótima revista de divulgação, mas sem nunca ter passado pelo processo de revisão de pares, um requisito fundamental do processo de avaliação científica.

O caso do Archaeoraptor foi, e ainda é, usado por muitos criacionistas para tentar ridicularizar a teoria da evolução e os biólogos e paleontólogos que a ela investigam (que não tiveram nada a ver com a fraude). Muitos criacionistas tentaram alegar que o Archaeoraptor era uma tentativa frustrada de evolucionistas para provar a evolução ou tentaram usá-lo para tentar mostrar que a ciência não funciona e que pode ser facilmente enganada e, por isso, que só a “ciência” da criação funciona. Esta fraude, entretanto, mostra que, de fato, a ciência funciona porque, através de minuciosa pesquisa, a fraude foi descoberta e a espécie de dinossauro, a que pertencia uma das partes do fóssil montado, Microraptor zaoianus, foi confirmada como sendo uma nova descoberta. Estes fatos renderam duas publicações, uma desmascarando a fraude e a outra descrevendo o novo fóssil e discutindo sua real importância.

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 Referências:

  • Archaeoraptor [última atualização em 8 de fevereiro de 2012] In: WIKIPEDIA: The Free Encyclopedia. Wikimedia, 2012. Acesso fevereiro de 2012.

  • Carroll, Robert T. [última atualização em 6 do junho de 2005] Archaeoraptor Dicionário do Cético [ A versão em inglês foi atualizada pela ultima vez em em 09 de dezembro de 2010 – Archaeoraptor]. Acesso em fevereiro de 2012.

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Para saber mais:

Para saber mais sobre o Microraptor zaoianus e sobre o Yanornis martini e sobre Pildown e outras fraudes em arqueologia e paleontologia veja aqui.

Duas novas espécies de dinossauros descobertas

Em 2010 foram descobertas, no monumento nacional Grand-staircase-Escalante nos Estados Unidos no sul do estado de Utah, duas novas espécies de dinossauros com chifres, em uma escavação liderada pelos paleontólogos Scott Sampson, do museu de historia natural do Utah, e Mark Lowen do departamento de geologia e geofísica  da universidade do Utah. A descoberta dos dinossauros foi anunciada na revista científica online de acesso livre http://www.plosone.org/ .

Os dois novos dinossauros,  Utahceratops getty e Kosmoceratops richardsoni, viviam em um continente “perdido” formado pela inundação da região central da América do Norte, conhecido como Laramidia, quando um um mar raso dividiu as costas leste e oeste da América do Norte e durante cerca de 27 milhões de anos, no período cretáceo. O continente de Laramidia tinha uma área de apenas 20% da América do Norte que conhecemos hoje em dia, contudo tinha muito mais espécies de dinossauros do que Appalachia, seu continente irmão, formado pela massa continental correspondente a costa leste da América do Norte .

O maior dos dois novos dinossauros, com um crânio de 2,3 de metros, foi chamado  de Utahceratops getty, com a primeira parte do nome sendo uma combinação do estado de origem dos fósseis com a palavra grega ‘ceratops’ que significa “cara com chifres” que é comum aos dinossauros herbívoros deste grupo chamado ceratopsídeos. Já a segunda parte do nome homenageia Mike Getty, o gerente das coleções de paleontologia do museu de historia natural do Utah e descobridor do dinossauro. O Utahceratops getty é conhecido a partir de seis espécimes, incluindo dois crânios parciais que juntos preservam cerca de 96% do crânio original. Além de um grande chifre no nariz, o Utahceratops  tinha chifres mais curtos e achatados sobre os olhos que eram apontados para os lados e não para cima muito, portanto, mais similares aos chifres de um bisão moderno.  Mark Lowen co-descobridor dos dinossauros comparou o Utahceratops  a um “rinoceronte gigante com uma cabeça anormal”.

              O segundo dos dois ‘novos’ dinossauros, recentemente descritos, é o Kosmoceratops richardsoni, cuja a primeira parte do nome combina a palavra “kosmos“, palavra latina para ornamentado, e, mais uma vez, o termo “ceratops“; enquanto a ultima parte parte do nome serve como homenagem a Scott D Richardson, um voluntário envolvido na descoberta dos dois crânios do dinossauro.

      O Kosmoceratops é conhecido a partir de quatro espécimes, incluindo um crânio quase completo. Assim como o Utahceratops, o Kosmoceratops  tem dois grandes chifres  sobre os olhos projetados para os lados mas que são muito maiores do que os do Utahceratops. O Kosmoceratops tinha ao todo quinze chifres um sobre cada “bochecha”, um sobre cada um dos olhos e dez chifres distribuídos em toda a margem da borda óssea do crânio, além de um chifre sobre o nariz que, em conjunto, o tornam o dinossauro mais ornamentado conhecido.

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Referências:

Boa parte do material foi retirado do blog Scott D Sampson e da matéria postada na revista online PLOS One.

Créditos das Imagens:

As imagens utilizadas foram retiradas do post de Scott Sampson dinossauros, inclusive as imagens do crânio e as reconstruções das cabeça que foram executada pelo colaborador Italiano dos autores do trabalho, Lukas Panzarin. A reconstrução do Cretáceo Superior da América do Norte por Ron Blakey.