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Teoria, Evolução, Fato e Cientificidade – Questões Epistemológicas (Parte II)

Hierarquização de Teorias

Como podemos dizer que uma Teoria Científica, como modelo de explicação de um fenômeno observável, é melhor ou nos confere um conhecimento superior a qualquer outra explicação teórica que possamos dar? Não temos uma régua absoluta que nos diga isso a priori.

Balizar a ciência como última palavra nas explicações que dá pra o mundo é querer que ela nos balize em toda nossa totalidade e na própria totalidade da realidade. Mas como querer isso se, conhecendo um pouquinho de ciências, sabemos que ela não pode sair do que pode ser observável se o fim dela, em nosso sistema político-econômico é a produção de tecnologia?
Ou abrimos mão desse finalismo da ciência dado pelo sistema a qual fazemos parte, ou encontramos outras epistemologias que respondam aos outros âmbitos de nossas vidas. Não me parece coerente tentar balizar a totalidade de minha existência a partir de conhecimentos que se reduzem a recortes modelares da realidade, abarcando apenas os aspectos que podem ser observados, controlados e reproduzidos. Nem tudo em nós pode ser observado, controlado e reproduzido, logo, nem todo conhecimento que podemos ter de nós mesmos pode ser reduzido ao conhecimento científico.
Claro é que se a totalidade da realidade pudesse ser reduzida a esses critérios, tudo estaria resolvido. Mas na impossibilidade da ciência abarcar essa totalidade, nos resta a percorrer terrenos não seguros balizados por outros critérios. Isso não significa ir contra a ciência, mas sim ir totalmente a favor daquilo que ela se presta a nos dar. Para o que foge de seu âmbito temos outros campos epistemológicos dos quais podemos nos servir.

Mais uma vez citando Gould, ele fala isso em seu livro Pilares do Tempo, quando introduz a palavra magistério em seu conceito de MNI (Magistérios Não Interferentes). Vale a pena lê-lo, até porque não é penoso, o que daria também outro artigo para falarmos sobre esse assunto. O fato é que a ciência é tanto mais digna quanto mais assume na figura de seus cientistas esclarecidos, que não tem todas as respostas e possivelmente não as terá. No entanto isso não interfere na pertinência e segurança do conhecimento que postula a partir do método que criou para cumprir suas intenções.

Se eu quero um propósito para viver, um sentido para a minha existência ou mesmo solucionar meus problemas sentimentais, preciso entender que a epistemologia científica trabalha com recortes modulares da realidade observável e não se presta a me fornecer isso, quanto mais talvez alguma tecnologia como ferramenta para que eu possa buscar através de outros magistérios.

É óbvio que aqui falo sobre as chamadas ciências naturais, mas mesmo nas humanas o aspecto modular descritivo não nos fornecerá o sentido que cada um de nós, como construtores de sentidos que nos valham para a vida, temos a responsabilidade e autonomia de construir.

Parece-me que o problema fundamental em torno dessa discussão é a tutela que o senso-comum precisa ou foi convencido que precisa para balizar sua forma de ser. Não queremos fragmentar nossa busca em caminhos distintos que nos dê uma resposta razoável naquilo que podemos construir de nexos por nós mesmos. Queremos coisas prontas, magistérios absolutos que nos dêem todas as respostas. Por isso temos de um lado positivistas absolutizando a ciência como resposta última de todos os problemas humanos e de outro as numerosas crendices que assolapam o bom senso para dizer, numa pretensão megalomaníaca, que o que ela diz é a verdade absoluta. Em suma, um exercício incoerente de interferências entre magistérios distintos.

Por termos sido convencidos que somos fragmentados e dicotômicos, nos recusamos a buscar nossas respostas em lugares distintos; queremos um kit epistemológico completo para nos suprir a fragmentação que a civilização nos faz sentir desde dentro de nosso ser.

Por fim, não me parece coerente estabelecer hierarquização entre explicações do mundo, desde que não haja interferência nos magistérios a que se prestam os diferentes ramos epistêmicos em que possamos nos basear para compor os nexos que tornam nossa vida suportável. Não abriremos mão do mais avançado antibiótico feito com base na amplamente corroborada Seleção Natural de Darwin, assim como não precisamos abrir mão do conforto psicológico ao ouvir palavras afáveis e que nos faz sentido de um clérigo qualquer.

Falemos então da Teoria Científica, cuja validade e prevalência entre as outras, que fique claro, se circunscreve naquilo a que ela se presta, sem invadir magistérios epistemológicos dos quais estariam fora de seu âmbito.


O que é Teoria Científica?


Pudemos, juntos, construir um certo entendimento do que significa Teoria em sua acepção real, original e como ela foi usada para designar uma Teoria Científica. Construímos também um entendimento do que viria a ser um fato. Agora precisamos responder o que diferencia uma Teoria, nesse sentido grego que agora entendemos, de uma Teoria Científica.

Em ciência não basta apenas teorizar, mesmo no sentido grego do termo. Em ciências é preciso não só descrever, interpretar e explicar um fato, mas torná-lo, em seus princípios, “apreendido”; de forma a poder prever a partir dele outros fatos e/ou reproduzi-lo e controlá-lo. Vale lembrar que tudo isso é feito dentro de um recorte epistemológico que se vale da pedra basilar chamada "observação", mesmo que esse termo possa nos dar margem para duvidar daquilo que podemos ver.

Não importa que não vemos tudo, em ciência vale o que pode ser visto. E quando se diz “ser visto”, muitas vezes não se vê o agente da ação e apenas seu efeito no espaço-tempo. A teoria científica entra para conjecturar como é esse agente a partir dos efeitos fenomênicos que podem ser detectados. Se essa conjectura prediz comportamentos que a observação do fenômeno reproduz, então é uma Teoria válida, e científica, corroborada.
A ciência pura constrói teorizações que podem prever fenômenos a partir de outros fenômenos, isto é, fatos de outros fatos a partir da explicação teórica de um fato. Exemplo é a física teórica. Por outro lado, a ciência aplicada constrói teorizações que podem prever fenômenos através da apreensão e controle do fato, manipulando-o e construindo a partir desse controle aplicações práticas, como por exemplo; a tecnologia e a produção de bens e serviços.
Logo, para uma Teoria ser científica, ela precisa fazer predições que possam ser verificadas e submetidas a testes empíricos que corroboram sua veracidade e acuracidade. A forma de tornar uma Teoria em científica é a aplicação do método científico, que a testa empiricamente naquilo que ela diz, tornando-a válida. Isso não significa que a torna eterna ou imutável (isso seria transformá-la numa doutrina), mas sim a estabelece como a melhor explicação de um fato até que surja outra. Uma Teoria Científica então é uma Verdade Provisória.

Teoria Científica é o ápice da prática científica e não tem nada acima dela hierarquicamente em termos de ciências. E isso não invalida de forma alguma qualquer outro tipo de conhecimento construído em outros campos epistemológicos. Mas não existe, em ciências, um conhecimento que seja mais alto do que uma Teoria.

É impossível falar em Teoria Científica no século XX sem falar de Sir Karl Popper. A demarcação popperiana do que seria um conhecimento científico não exclui a metafísica, por exemplo, como conhecimento legítimo, mas não a coloca na demarcação de cientificidade se submetida à lógica do critério de falseabilidade. Isso não significa que não seja conhecimento teorizarmos sobre alma ou mundo além túmulo para explicarmos algumas coisas que vemos e percebemos, mas jamais será um conhecimento científico enquanto não predizer fenômenos que possam ser falseados, isto é, contraditos pela observação. Se a predição não puder ser colocada à prova para que algo observável a corrobore, não possui cientificidade, mas não deixa de ser um conhecimento de um magistério distinto do científico.

Todas as críticas que recaem sobre a ciência, suas bases epistemológicas e seus critérios de verdade enquanto explicação do mundo, de Carnap a Kuhn, Lakatos, Derrida, Bachelard, Habermas, Feyerabend, servem apenas para apurá-la em sua prática. No entanto, em meu entender, o núcleo popperiano que requer corroboração naquilo que se fala (não importa como e de onde se falou), será por muito tempo paradigmático no fazer científico.

Com Popper, as teorias científicas deixaram de ter um status de verdade absoluta ou definitiva e passaram a ser verdades provisórias, determinadas pela capacidade preditiva daquilo que poderia ser observado. A questão da cumulatividade do conhecimento e das limitações dos modelos epistemológicos em que se baseiam, podem se constituir em dificuldades para novas abordagens que explicariam melhor a realidade, mas a questão aqui é que, independente do corpo teorético-base de um conhecimento, havendo rupturas ou não para outros campos, o novo campo deverá ser corroborado por fatos observáveis. Logo, Kuhn e Lakatos não anulam Popper; o complementam de maneira brilhante para quem se coloca acima de partidarismos reducionistas.

Posto todas essas considerações introdutórias, podemos então falar sobre a Evolução como Fato e Teoria Científica.

Teoria da Evolução e o Fato Evolução

Desde antes da formulação da Teoria da Evolução de Darwin, a evolução era tida como um fato. Isto é, os seres vivos mudam ao longo do tempo e isso é observável. Várias teorias tentaram explicar e interpretar esse fato e elas foram se sucedendo conforme sua capacidade de explicação não dava conta de explicar um olhar mais abrangente do fenômeno evolução.

Conforme a ciência e o método científico vão avançando, assim como as técnicas e instrumentos que podem corroborar as predições de uma teoria, elas vão caindo conforme não conseguimos as corroborações naquilo que elas predizem. Isto é, vão sendo falseadas. Cada teoria ao ser lançada é testada exaustivamente por todo cientista e por toda a comunidade científica, até que, corroborado de fato as coisas que ela prediz, ela seja considerada válida. Isso pode durar anos até, e ao longo desse tempo, mesmo se tornando robusta, fatos concretos que a contradiz podem derrubá-la.

Portanto, ao se ampliar nossa capacidade de observação e de testes, se as implicações do que ela diz não abarcar o novo escopo de realidade aberto, ela cai em desuso ou recebe complementações e novas interpretações, podendo ser substituída por outra que explique melhor o fenômeno e seja corroborada pelo método científico.

Assim se sucedeu com as teorias evolucionistas de Lamarck, Spencer e outros. Cada uma delas, em algum momento, deixou de explicar algum aspecto da realidade que fazia parte de seu escopo epistemológico. No entanto a Evolução nunca deixou de ser fato. Ela sempre foi um dado do mundo corroborado pelo fato dos seres mudarem ao longo do tempo.

Nesse contexto é que Darwin, como naturalista, após ter lido a Teoria das Populações de Malthus e mesmo sem ter lido os experimentos de Mendell com as ervilhas, começou a contrastar esses conhecimentos com sua observação da natureza, e após sua viagem a bordo do Beagle, começou a construir um entendimento, uma explicação, uma descrição do mecanismo em que se dá a evolução como fato.

Há lacunas? É bem possível que haja. Nenhuma teoria pode ser considerada completa. E não porque se for completa ela vira fato (já falamos que não existe relação hierárquica entre fato e teoria), mas sim porque a realidade é multifacetada e a própria existência é um conceito histórico e tudo o que fazemos é relativo a esse conceito. Mas ao longo de 150 anos desde sua reformulação, com corroborações constantes e complementos que ampliaram sua abrangência, ela se consolidou como a explicação mais completa que temos em mãos.

Se ela parte de pressupostos ou de uma visão de mundo que muita gente não concorda, ela não deixa de ser válida naquilo que ela se propõe, apenas deixa de ter a abrangência possível na cabeça dessas pessoas. Mas enquanto científica, ela goza de toda credibilidade que se espera da ciência.

Darwin nunca negou Deus. Alias, era teólogo formado em Cambridge e se não tivesse tido a guinada que teve em sua carreira, muito provavelmente ele teria se tornado um pastor ou presbítero (sacerdote), que era o desejo de sua esposa extremamente religiosa. Mas segundo seus diários, sempre o incomodou o dogma que dizia que os seres vivos tinham sido criados separadamente. E talvez esse fundo religioso tenha sido o mote de sua pesquisa que culminou em sua brilhante teoria.

Darwin explica o fato evolução através do mecanismo (teórico – estrutura de idéias explicativas) da Seleção Natural e do postulado de que existam mudanças constantes nos seres vivos de uma geração a outra. A Seleção Natural seria responsável pelo caráter cumulativo das mudanças na medida em que conferissem vantagens e possibilidade reprodutiva aos indivíduos que as tivesse. Tanto o mecanismo como o postulado estão amplamente corroborados e tem aplicação prática nas mais diversas áreas biológicas e médicas.

A conseqüência lógica de sua Teoria, isto é, o que ela prediz implicitamente, é que descendemos de um único organismo vivo e que toda a diversidade se deu no fenômeno chamado ESPECIAÇÃO; que em resumo é a mudança filogenética de um Ser em outro Ser que pudesse ser classificado em espécies diferentes. Lembrando que a classificação dos seres vivos em espécies é um critério histórico e não absoluto, e foi contestado por Darwin em sua obra máxima.

Logo, a Mudança "aleatória" filogenética, a Seleção Natural e a passagem de uma espécie a outra teriam que ser corroboradas por fatos e testes observáveis para que essa Teoria enquanto explicação do fato Evolução pudesse ser considerada científica. O avanço da pesquisa genética e o mapeamento do genoma, e testes reproduzindo com sucesso o mecanismo de Seleção Natural corroboraram em larga escala com esses postulados e suas conseqüências lógicas e hoje ela é Científica e comprovada.

É interessante notar que até mesmo as controvérsias das últimas descobertas científicas que colocam o gene de forma ativa sendo influenciado pelo ambiente, encontram guarida no livro de Darwin. Mais notável ainda é saber que à época em que escreveu ele nem fazia idéia do que seria a ciência que mais corroboraria com o que ele disse a partir de uma minúcia ímpar de sua diligente capcidade de observação a bordo do Beagle.

Por isso o criacionismo não é ciência, nem o DI pode ser considerado enquanto tal, por mais que esperneie os teístas e outros crédulos que querem que o mundo se encaixe em suas crenças. Eles podem ter uma teoria, mas não é cientifica. Enquanto eles se negarem a submeter ou proporcionar meios de testar e corroborar o que as idéias deles predizem, elas ficarão na instância teorética de outro magistério; da religião, do misticismo, seja lá o que for, menos do científico.

Por isso não tem o menor sentido tentarem empurrar o ensino do criacionismo nas escolas fora do escopo do ensino religioso, pois não é ciência e enquanto não cumprir o método científico nunca será. O método científico, por mais imperfeições que tenha, por mais reducionista que seja no que ele permite entendermos da realidade e por mais enrijecimento que promova nas diversas abordagens possíveis que um fato pode ter, é ele que garante, por exemplo, que eu suba num avião sem precisar contar com os poderes místicos de levitação do piloto.

Apesar de ameaças infundadas de processos em virtude do trabalho em apontar problemas de verissimilhança na argumentação da maioria dos que questionam Darwin, a luta pelo esclarecimento precisa continuar, sabendo que ele é dialético e não absoluto, e que nesse meio tempo podemos sim mudar nossas idéias.


Dica de leitura


Post de Osame Kinouchi no Blog SEMCIÊNCIA: Alguns pensamentos soltos sobre Ciência e Pseudociência.



Obras de Referência para esse artigo

DARWIN, Charles. A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural. Tradução: André Campos Mesquita. Vol. I. São Paulo, SP: Editora Escala.

GOBRY, Ivan. Vocabulário Grego da Filosofia. Tradução: Ivone C. BENEDETTI. São Paulo, SP: WMF Martins Fontes, 2007.

GOULD, Stephen Jay. “Evolution as Fact and Theory.” Stephen Jay Gould Archive. Maio de 1981. http://www.stephenjaygould.org/library/gould_fact-and-theory.html.

—. Os Pilares do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida. Tradução: F. Rangel. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2002.


KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Edição: Coleção os Pensadores. Tradução: Valério Rohden. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1996.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. Tradução: Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo, SP: Perspectiva, 2007.

LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. 3ª Edição. Tradução: Fátima Sá COrreia. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução: Carlos Alberto Ribeiro de Souza. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.

POPPER, Karl R. A Lógica da Pesquisa Científica. Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo, SP: Cultrix, 2006.

QUAMMEN, David. As Dúvidas do Sr Darwin: o retrato do criador da teria da evolução. Tradução: Ivo Korytowsky. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2007.

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Comentário de Gilberto Miranda Junior em 2 abril 2010 às 22:35
Puxa.... Não tenho como agradecer esse parecer. Eli, ha algum tempo atraz você fez alguns comentários em off de um artigo meu e gostaria de retomar aquelas observações, porém de lá para cá perdi meus emails pois tive que formatar meu PC. Se por acaso você lembrar, por favor, me reenvie. Agradeceria muito pode me corrigir naquilo que, à época, você me indicou...
Comentário de Eli Vieira em 21 março 2010 às 0:05
Reli este texto e sempre fico perplexo com a imensa qualidade dele.

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