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Teoria E O Argumento Da Definição Do Termo

O que é uma Teoria?


Muitas pessoas ao discutir sobre teorias científicas ou falar sobre ciência em geral, tem o costume de menosprezar alguma "teoria" pelo motivo de ser "apenas uma teoria!". Isso indica um desconhecimento da definição do termo teoria usada no meio acadêmico, que é diferente da usada no cotidiano.


Diariamente quando falamos que temos uma teoria para explicar alguma coisa, geralmente ela não é suportada por evidências e experimentos, simplesmente é uma hipótese, um "achismo". Cientificamente, teoria engloba um arcabouço de idéias lógicas de acordo com as já estabelecidas leis da natureza, evidências e experimentos ciêntificos.


A teoria é construída através da observação de fatos. Sendo assim, teoria é um modelo lógico e consistente que descreve o comportamento de um dado fenômeno natural ou social. Nesse sentido, uma teoria é uma expressão sistemática e formalizada de todas as observações prévias, que são previsíveis, lógicas e testáveis. Em princípio, teorias científicas são sempre tentativas, e sujeitas a correções ou inclusão numa teoria mais abrangente.


Quando a teoria passa a ser considerada fato?


Toda teoria cientifica válida tem sua existência confirmada e reforçada por milhares de observações e experimentações. Mas essas observações e experimentações não tem fim, sempre é possível avançar mais no entendimento de algum fenômeno. Sendo assim, ela é considerada a mais provável. Isso porque o método científico foi concebido para evitar ser dogmático e minimizar os erros humanos por preconceitos,
orgulho, vaidade, etc.. Então, desta forma, é anti-científico falar que essa teoria está 100% correta, mesmo não existindo nenhuma evidência contrariando-a; se realmente existir, a teoria será revista e modificada.

Apesar disso, existe muitas verdades absolutas na ciência. Por exemplo: quando começou-se com a hipótese de que a terra poderia ser "redonda", essa idéia não passava de uma hipótese. Mas depois de muitas evidências, experimentos e comprovações passou-se a ser uma teoria. Como nunca surgiu uma evidencia contra esta teoria e até o homem já foi ao espaço conferir com os próprios olhos, ela já é considerada um fato. Na verdade, extritamente falando, a Terra possui um formato chamado geóide. E
como os números são infinitos não existe um número exato do coeficiente de "esfericidade" da Terra; sempre é possível usar mais casas decímais para a medição, isso só depende da evolução dos quipamentos de medida. Desta forma nunca saberemos o formato exato da Terra. Mas isso não muda nada na nossa forma de compreender o universo. Ninguem deve perder o sono com isso, nem viver pensando que existe a chance de a Terra ser chata ou quadrada, por exemplo.


Outro exemplo é a Teoria da Evolução. Se alguém pensa e fala que "a teoria da evolução é só uma teoria", que o "próprio nome já diz que não foi comprovada ainda", essa pessoa não possui compreensão suficiente sobre o assunto nem sobre ciência. Usei o exemplo da evolução, porque é a teoria mais atacada com o
Argumento Da Definição Do Termo.


Podemos falar em Teoria da Gravidade do mesmo modo que em Teoria da Evolução, e mesmo assim ninguém vai duvidar da existência da gravidade. A gravidade existe do mesmo modo que a evolução, a única diferença é que a evolução possui mais resistência por conta de idéias dogmáticas e ocorre de forma gradual em espaços de tempo muito longos, além de não ser sentida de modo direto. Hoje em dia, não há
qualquer discussão no meio cientifico sério, sobre a validade ou não da Teoria da Evolução (ou Fato da Evolução, se preferir). Isso se dá pelo motivo de haver 150 anos de acúmulo de evidencias e provas, confirmando todas as observações da Teoria. Apesar do que se fala por aí, não existe nenhuma evidencia indicando que as idéias centrais da Teoria de Darwin, a seleção natural e a evolução, podem estar erradas. No mínimo essas idéias centrais já podem ser consideradas como fatos!


Do mesmo modo como ocorre com a precisão da medição da "esfericidade" da Terra, o entendimento cientifico sobre os detalhes da evolução estão sempre avançando, mas a idéia central não vai mudar. Por mais incrível que pareça, todos os animais e plantas são parentes em algum grau pois a vida surgiu de elementos inanimados (aqui na Terra ou em algum lugar do universo) e modificou-se durante 4 bilhoes de anos...


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Tags: Ciência, Evolução, Filosofia, Teoria, da

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Comentário de Rodrigo Véras em 2 agosto 2010 às 11:51
Gostei bastante do texto, Fernando. Ele é bem efetivo. Os textos do Gould e do Miranda Júnior, como o Eli comentou, enfatizam estes pontos e o artigo do T.R. Gregory é outro que vale a pena ser lido, citado e recomendado. Mas é como vc mesmo colocou. Nós temos sempre que buscar uma solução de compromisso entre a precisão e a facilidade do texto.

Creio que aqui no evolucionismo podemos usar várias abordagens, além de vários níveis de aprofundamento. É sempre bom ter textos mais diretos que vão sem firulas ao problema, deixando de lado alguns detalhes, mas garantindo que a mensagem principal fique clara. De forma complementar, é importante que existam textos explicando certos pontos e que apresentem os assuntos de forma mais "nuançada", na qual os detalhes sejam examinados de forma mais enfática, às vezes perdendo em generalidade. Este processo garante que haja espaço para diferentes interesses, por parte do público alvo, e que as pessoas fisgadas, por textos mais introdutórios, possam desenvolver a curiosidade por material mais técnico e avançado.


Abraços,

Rodrigo

P.S. Estive sem internet esta última semana toda, mas agora o problema parece estar resolvido aqui em casa. Devo postar um artigo com o selo do researchblogging ainda esta semana, sobre o segundo artigo lidando com conceitos problemáticos em evolução, escrito por Louise S. Mead e Eugene C. Scott no Evo Edu Outreach.
Comentário de Eli Vieira em 29 julho 2010 às 15:52
Gostei, Fernando, e o comentário do Rodrigo complementou bastante.

Só discordo quanto ao uso da palavra "prova", que na minha opinião deveria ser restrito à matemática e definido como pertencente à inferência lógica dedutiva, bem diferente da inferência indutiva que fundamenta o fazer científico como algo que amplia o conhecimento e não apenas o disseca como faz a lógica dedutiva.

Não esqueçamos que a rede tem também os textos de Gilberto Miranda Júnior e o texto de Stephen Jay Gould sobre este assunto.

Um artigo que gosto muito e já citei duas vezes aqui:

Evolution as fact, theory and path
[Evolução como fato, teoria e trajetória]


T. Ryan Gregory

http://www.springerlink.com/content/21p11486w0582205/fulltext.pdf

Traduzo a seção "Fato":

""Fato" é talvez o único termo na lista acima [hipótese, teoria, fato, lei] cujas definições comum e técnica são similares. A maior diferença está no grau de certeza expressado, que é simultaneamente mais alto e mais baixo no uso científico. Segundo a definição da National Academy of Sciences (NAS) (1998), uma das mais prestigiosas sociedades científicas do mundo, um fato científico é "uma observação que foi repetidamente confirmada, e, para todos os propósitos práticos, é aceita como 'verdadeira'." Ou, como Stephen Jay Gould (1981) colocou em seu estilo inimitável, "na ciência, 'fato' só pode significar algo 'confirmado a tal grau que seria viciosa a abstenção da concordância provisória'." É esta insistência na confirmação reiterada através dos dados - seja pela observação direta, seja pela inferência confiável - que faz uma alegação de 'fato' ser tão mais forte na ciência. Entretanto, como aponta a NAS, "a verdade na ciência nunca é final, e o que é aceito como fato hoje pode ser modificado ou até descartado amanhã". Detalhes em pequena escala são regularmente revisados enquanto observações mais precisas são feitas, enquanto que fatos bem estabelecidos de fundamental significância são muito raramente derrubados, mas em princípio, nenhum fato científico, de qualquer magnitude, está além da revisão ou da refutação. Como resultado, os cientistas devem manter um equilíbrio entre a confiaça que vem de conclusões reforçadas sobre o mundo com dados reprodutíveis e o entendimento de que a certeza absoluta não é algo que os métodos da ciência têm a capacidade ou a intenção de atingir."

Abraço.
Comentário de Fernando Wons em 27 julho 2010 às 22:46
Rodrigo, obrigado pelo comentário. Em várias ocasiões durante minha graduação fiquei chocado com a confusão que pessoas leigas e até mesmo colegas de graduação faziam sobre o termo teoria. Em várias ocasiões em que discutiamos sobre ciência e evolução ficou muito claro que meus colegas muito pouco sabiam sobre ciência. Isso me deixou triste, pois demonstra o quanto a educação cientifica é negligenciada durante o ensino básico... A partir daí percebi o quanto livros de divulgação cientifica haviam me ensinado e despertado o interresse por biologia e o quanto poderia contribuir para a formação cientifica dos jovens. Mas qual o nível de dificuldade que devemos usar para fazer divulgação? Acho que depende do assunto abordado e do público alvo. Porém a grande questão de quem tenta fazer esse tipo de trabalho, como todos sabem, é tentar não deturpar nem resumir muito o assunto e, mesmo assim, fazer com que ele seja bem compreendido. Sendo assim, cada texto é um desafio; é preciso tomar as decisões certas... Espero que não tenha errado tanto em meu texto e que ele tenha contribuído de forma positiva, do mesmo modo que seu comentario tambem contribuiu, aprofundando e esclarecendo mais sobre o assunto. Abraços
Comentário de Rodrigo Véras em 27 julho 2010 às 17:10
Parabéns pelo texto. Para mim nunca é demais esclarecer estas questões básicas definicionais e conceituais. O problema da confusão entre o uso técnico e o leigo do termo “teoria” é, sem dúvida, uma destas questões que merece contínua atenção. Sobretudo por causa desta ênfase que damos, no nosso dia a dia, ao significado de confabulação e especulação para este termo. Infelizmente, este significado, tem pouca semelhança ao que os cientistas e filósofos entendem por “teoria científica”. Lembro de ler um artigo comentando sobre a mesma questão. O autor ilustrava (jocosamente é claro) esta mesma questão, em relação a gravidade, ao afirmar que a gravidade, como a evolução, também era apenas uma teoria. O que existia, de fato, eram as maçãs caindo e os planetas em seu movimento pelos céus. :)

Algo semelhante pode ser dito sobre qualquer teoria, pois estas envolvem uma série de abstrações conceituais e princípios heurísticos, além de entidades não diretamente observáveis, postuladas como parte de seu esquema explanatório. No caso da gravitação, temos os fenômenos em si (as maçãs que caem e os planetas que giram) e as teorias que os explicam e os predizem. No caso da gravidade, a teoria Newtoniana e, mais recentemente (e de forma mais abrangente), a teoria de Einstein. As teorias unificam uma série de fenômenos e observações, assim como podem envolver várias leis (entendidas como regularidades naturais que podem ser formuladas de forma estatística ou matemática, contribuindo para a explicação e predição dos fenômenos em questão), mecanismos, princípios e relações causais. Por isso, mesmo assentindo que as observações, por exemplo, do periélio de mercúrio e o desvio da luz, quando esta passa próxima a corpos massivos, tornam a teoria newtoniana, para dizer no mínimo, imprecisa ou inadequada para a explicação destes fenômenos, ainda assim os fenômenos em si permanecem e os chamamos coletivamente de gravidade. Isso não é diferente para a teoria da evolução, cujos princípios, métodos, mecanismos e observações destinam-se a explicar toda uma série de fenômenos de história natural.

Então, além de compreender as diferenças, entre o uso comum e o emprego técnico-científico, do termo “teoria” é preciso perceber que a evolução em si não é uma teoria, pelo menos não mais do a gravidade ou o eletromagnetismo o são, mas sim um fenômeno natural, um fato que, como muitos outros, apenas é inferido de forma indireta. Este fenômeno é explicado e investigado por um amplo e engenhoso programa de pesquisa que lança mão de uma série de métodos observacionais, experimentais e analíticos e conta com várias teorias e modelos matemáticos e conceituais extremamente poderosas. Este conjunto metodológico-teórico é o que chamaríamos de teoria. Porém, quando observamos a biologia evolutiva em si, e suas diversas áreas de interface com outras disciplinas, percebemos que “teoria evolutiva” não faz jus a complexidade, refinamento e engenhosidade desta empreitada e a variedade de modelos, teorias e hipóteses envolvidas no estudo da evolução.

Creio, portanto, que outra das confusões é que existem mesmo dois sentidos científicos de “teoria”. O primeiro deles é facilmente constatado pelo fato de que, historicamente, a idéia de modificação hereditária transgeracional dos seres vivos - a começar pelas teorias transformacionistas e transmutacionistas pré-darwinianas – começou realmente como uma especulação, tentando dar uma explicação naturalista para certos padrões de semelhança entre seres vivos, mas sem um refinamento. Estas idéias buscavam avançar sobre o limbo científico que havia, devido a visão de mundo fixista, que “explicava” tudo sem explicar nada, ao fazer referência a criação especial e a vontade divina. Porém, com as idéias de “descendência com modificação” (e o modelo de evolução variacional) e ancestralidade comum, propostas por Darwin e Wallace, um cenário explicativo mais convincente se delineou, passando a constituir-se em hipótese científica, na forma de uma explicação abdutiva, para uma vasta classe de observações. Estes fenômenos e observações englobavam desde a distribuição dos fósseis na coluna geológica, passavam pelos padrões de homologia entre estruturas de organismos distintos (vivos e extintos), chegando até as correlações biogeográficas entre diferentes biotas de locais diferentes. Além disso, a hipótese de Darwin e Wallace oferecia um método de estudo, o chamado método comparativo, e um mecanismo hipotético, baseado em várias observações consensuais (variação natural, hereditariedade, sobrevivência e reprodução diferencial entre variantes) e em uma poderosa analogia com o processo de seleção artificial. Estes fatos fizeram com que, rapidamente, esta hipótese passasse a ser aceita, ganhando o status de um fato, graças ao acúmulo de obervações que mostravam que os padrões de semelhança (e a estrutura hierárquica e aninhada destas semelhanças, i.e. o padrão genealógico arborescente das relações entre os seres vivos) se estendiam aos sistemas fisiológicos, bioquímicos e as próprias seqüencia de DNA e proteínas. Portanto, a evolução é, sim, um fato, apenas, diferente de alguns fatos do dia a dia (mas não de todos), inferido de forma indireta pela investigação e análise de uma enorme gama de evidências obtidas por vários métodos diferentes.

Por outro lado, a idéia de seleção natural, um dos pontos chave da teoria de Darwin e Wallace, sofreu grande resistência, principalmente pela ausência de uma teoria de hereditariedade apropriada. Apenas nos anos 30/40, com o desenvolvimento da teoria sintética, é que se iniciou um programa de pesquisa científico quantitativo e qualitativo incrivelmente robusto e refinado, unificando elementos da paleontologia, ecologia, anatomia e fisiologia comparativa, sistemática montadas, em um arcabouço ditado pela genética de populações e genética quantitativa. A unificação entre a genética mendeliana e a biometria tradicional, através da genética de populações, é que deixou claro como a seleção natural poderia funcionar, juntamente com outros fatores evolutivos, como as mutações e recombinação, migração e deriva genética.

O ponto importante aqui é que, mesmo neste período na infância da biologia evolutiva, o fato da evolução não era mais posto em dúvida, ou seja, não era mais concebido como uma hipótese ou teoria (a não ser em um sentido filosófico muito amplo). Havia, sim, uma enorme disputa sobre como a evolução se daria, existindo pelo menos três teorias, além do neo-darwinismo (evolução por seleção natural baseada na visão de Weisman e outros que expurgaram a pangênese e herança de caracteres adquiridos, presentes originalmente na obra de Darwin), disputando pela hegemonia científica, como a ortogênese, o neo-lamarckismo e o mutacionismo. Por isso, desde o começo do século XX, a descendência com modificação e a ancestralidade comum já eram tidas como fenômenos cientificamente não controversos, restando apenas a definição de um programa de pesquisa mais unificado e quantitativo, que ocorreu com o advento da síntese moderna, além de um acordo mínimo em relação a quais mecanismos estariam em jogo na evolução e, portanto, deveriam ser estudados.

Hoje estamos em um estado ainda mais avançado e o campo de pesquisa sobre a evolução é uma realidade que se infiltra na ecologia aplicada e biologia conservação, na pesquisa biomédica (evolução de parasitas e da resistência a antimicrobianos) e inspira novos campos como as ciências da computação, com os algorítimos genéticos e a computação evolutiva de modo geral.

Abraços,

Rodrigo

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