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Introdução: criadores e criatividade

Acredita-se que o Criador bíblico, por sua própria atividade direta ou indireta através dos ambientes, fez as criaturas "segundo sua espécie" e de acordo com categorias (como “animais aquáticos”). Isso revela uma predileção por tipos, por classes, em contraposição à maior criatividade que estaria numa singularidade absoluta de cada criatura, pois uma maior criatividade reside em obras sem repetições. É a qualidade que determina a criatividade, não a quantidade. Por isso, um artesão costuma ser mais criativo que uma linha de produção mecânica.



Estamos acostumados a ver cópias no nosso mundo, como na reprodução, então não seria de se estranhar que um criador fizesse os seres vivos “segundo sua espécie”. Tomamos a reprodução por garantida, sequer ousamos imaginar outra forma de o criador perpetuar a criação. Entretanto, pode-se imaginar, nem sempre no passado tomamos a reprodução como algo tão certo. Já acreditamos, como os vitalistas, que a natureza gera criativamente formas vivas por geração espontânea. Já houve quem acreditasse, inclusive, que todos nós viéssemos de pessoinhas minúsculas que residiam nos gametas. Esses homúnculos teriam sido plantados pelo criador nas gônadas de Adão e Eva [1]. Isso recebia, ironicamente, o nome “evolução” (hoje, “pré-formacionismo” [2]): a “teoria” de Albrecht von Haller da primeira metade do século XVIII.



Como mentes livres, assim como podemos imaginar que os bebês sejam trazidos pela cegonha, podemos imaginar também um criador que tenha ojeriza à repetição pouco criativa, e faça cada organismo de uma forma única e singular, sem repetir um único órgão, uma única cor, uma única forma, não usando a cópia que acontece na reprodução. Se no mundo os organismos fossem assim, talvez poderíamos ter certeza de que são fruto de um projeto inteligente.



Mas acreditar que o artífice cria cada organismo individualmente, por métodos que diminuem a participação da cópia automatizada da reprodução, é se deixar levar por um sobrenaturalismo maior que o do livro do Gênesis – pouca gente ou ninguém hoje acreditaria nisso, afinal temos coisas como o teste de DNA para corroborar uma reprodução “mecânica”. O que é revelador é que, em comparação a esse criacionismo absoluto tão tolo quanto a lenda da cegonha, o texto do Gênesis se mostra mais comprometido com o mundo material ao invocar a predileção da mente do criador pelas categorias, pela repetição tanto na reprodução dos organismos dentro das espécies quanto nos “nichos” ocupados por várias espécies.



Não se pode dispensar uma óbvia extensão dessas categorias bíblicas às categorias da taxonomia, a arte de classificar os seres vivos, como faz Carolus Linnaeus (Carlos Lineu) em seu Systema Naturae: Reino, Filo, Classe, Ordem, Família, Gênero e Espécie.

Inclusive, Lineu criou esse sistema de classificação "para a maior glória de Deus". Classificar, para Lineu, nada mais era que aumentar nosso panorama da quantidade de categorias escolhidas pelo criador. A obra sistematizada por Lineu revelava a sabedoria de um artífice cósmico. Entretanto, o primeiro dos taxonomistas se achava perdido para separar o homem do macaco de uma maneira que não atraísse a “sanha dos eclesiásticos”. [3]

As classes e o Inferno Naturae


450px-Dante_StatueA criação está dividida em classes, assim como está dividido, na obra de Dante Alighieri, o Inferno.



Da mesma forma que um taxonomista qualquer separa os seres vivos de acordo com a quantidade de características que compartilham em níveis hierárquicos de semelhança, Dante separa o inferno em níveis concêntricos em que o núcleo recebe os piores pecadores (e.g. blasfemos e sodomitas), enquanto o limbo, o círculo mais externo, recebe os que cometeram pecados leves (e.g. pagãos virtuosos). As classes de pecados definem o destino da alma do pecador no Inferno.[4]

Classes, como nos ensina David Hull, são categorias “espaço-temporalmente indefinidas” construídas a partir de leis definidas.[5] Leis definem que átomos dotados de dois prótons são necessariamente membros da classe “Hélio”, mesmo que todos os representantes dessa classe sumam do universo. Leis morais da mente divina, por sua vez, definem punições particulares para pecados particulares, mesmo que nenhum pecado do tipo que condena as almas ao sexto círculo (onde está Epicuro e seus seguidores) seja cometido.

Tanto o Inferno de Dante quanto o Systema Naturae estão provavelmente comprometidos com uma idéia: classes como representações de essências. A associação do pensamento essencialista do criacionista ao essencialismo de Platão é clara, quando ambos usam atributos comuns dos seres vivos para inferir projeto inteligente. E este projeto inteligente (ou intelligent design, termo usado no sentido moderno pela primeira vez numa carta de Charles Darwin para John Herschel) é nada menos que a concretização das essências da mente do Criador, no primeiro caso, e da arte do Demiurgo entre o mundo real e o mundo das formas, no segundo. [6]



Por causa dessa herança intelectual, ainda hoje vê-se a atividade da taxonomia e mesmo da descrição de espécies biológicas como ligar seres vivos, através de características necessárias, à sua essência através de uma classe. A própria conceituação do que é alguma entidade biológica muitas vezes é feita de uma forma essencialista.



Para John Locke, a atividade da classificação fundamenta todo entendimento. Mas as classes que fazemos, as idéias abstratas que derivamos dos nomes que damos a coisas como o homem ou o cavalo, não são casos particulares de essências que estejam em qualquer lugar fora da nossa mente. [7] Criar classes para auxiliar o conhecimento, portanto, não necessariamente precisa ser ligá-las a uma instância superior que lhes defina a partir de essências.



Tentarei mostrar, utilizando o ornitorrinco como caso particular desse “Inferno Naturae”, que o criacionismo não sobrevive a uma análise racional e cética das evidências físicas relativas aos seres vivos - esses pecadores que expiam por uma forma de pensar obsoleta.



O ornitorrinco no inferno da criação



Quando a Bíblia conta que Deus criou os animais, ele o fez muitas vezes de acordo com classes (categorias). Cria os que rastejam pela terra, cria os que voam pelos ares.

Por isso, quando um criacionista observa dois mamíferos, por exemplo um cão e o homem, ele vê o compartilhamento de características como algo que corrobora a criação, pois "mamífero" (ou seja, produzir leite, ter pêlos) nada mais seria que uma das categorias ou classes da criação.

Por puro capricho o criador fez várias espécies que rastejam pela terra, e por puro capricho fez várias espécies que produzem leite e têm pêlos.

Não é à toa que em Filosofia a definição clássica do que seria um conceito é feita a partir de "características necessárias e suficientes", numa lógica essencialista que foi herdada tanto do pensamento religioso quanto do pensamento filosófico que não contrariava o pensamento religioso (leia-se Platão e Aristóteles, que não por acaso desfrutam da posição central na pintura de Rafael no Palácio Apostólico do Vaticano há quase 500 anos).

O conceito de mamífero, nestes termos, seria delimitado por uma linha rígida que separa os animais que possuem um conjunto de características necessárias e suficientes para ser mamíferos e os que não possuem. Isso significa que haveria um "tipo mamífero" ideal ao qual os animais mamíferos do mundo real 'prestam tributo'.

Por isso, em princípio, as características compartilhadas (ou seja, homologias) entre os animais não precisam, a priori, ser interpretadas como evidência de compartilhamento de um ancestral comum entre as espécies (se tiveram um ancestral comum e hoje são diferentes, isso já implicaria que evoluíram).



Frente ao conhecimento acumulado da moderna Biologia, entretanto, os criacionistas precisariam postular classes de criação muito numerosas, refletindo os caprichos do criador em que acreditam. Seriam necessárias mais classes de criação do que níveis do inferno de Dante. Outro problema além desse é que as fronteiras entre as classes de criação seriam nebulosas demais, obscurecendo e tornando absurdos os desígnios do criador. Um artista pode manter um mesmo estilo em várias criações, mas fazer todas as criações compartilharem “cores”, ou características em suas “causas formais” pode ser visto como capricho, ou seja, uma escolha pouco criativa, preguiçosa, repetitiva e injustificada.



Tomemos como exemplo o ornitorrinco, um animal de uma espécie Ornithorhynchidae-00 única que hoje só é encontrada no leste da Austrália e na ilha da Tasmânia, e façamos um experimento mental de adesão ao criacionismo. Vamos fingir que acreditamos que todas as espécies vivas, incluindo essa, foram fabricadas diretamente por um Criador.



Numa racionália criacionista, precisaríamos atribuir várias classes de criação ao ornitorrinco, à maneira com que Dante separa o inferno em níveis, em que cada nível diz respeito à qualidade de pecado a ser expiado. Mas no nosso caso, cada "nível" diz respeito ao compartilhamento de características desse animal com outros seres vivos.

O ornitorrinco tem um código genético idêntico ao que é encontrado em praticamente todos os seres vivos sobre a Terra. Isso seria o primeiro capricho da criação. Existem códigos genéticos entre seres unicelulares que são diferentes, ou seja, o do ornitorrinco não é indispensável.

Como em amebas, samambaias, coelhos, cangurus, águas-vivas, as células dos ornitorrincos têm núcleos. Outro capricho e outra classe de criação.



Juntamente com coelhos, cangurus, lagartos, sapos, estrelas-do-mar e humanos, o embrião do ornitorrinco apresenta um orifício em uma das primeiras fases de desenvolvimento que delimita mais tarde o ânus. Isso também não é indispensável, pois em outros animais esse orifício (o blastóporo) se torna posteriormente a boca.

Seguem-se outras classes de criação, outros níveis no nosso “inferno” da natureza: o ornitorrinco é cordado como o fóssil Pikaia, vertebrado como o surubim, tem quatro membros como o elefante.

Como as quatro espécies de equidna que vivem também apenas na Oceania, o ornitorrinco bota ovos , e usa um mesmo orifício (a cloaca) para excreção, defecação e reprodução; e seus esqueletos também compartilham várias características.ovoequidna

Em conjunto, as quatro espécies de equidna e a única espécie de ornitorrinco formam o grupo chamado Monotremata (que significa literalmente “um buraco” - a cloaca). A classe dos monotremados é a última “classe de criação” que mencionarei no nosso experimento mental de aderir ao criacionismo.

Nosso caprichoso criador não quis ser criativo fazendo todas as classes separadas e independentes. O nosso inferno da criação, cujo núcleo é o ornitorrinco, apresenta uma escolha peculiar do Criador: economia de idéias. Temos bonecas russas encerradas cada uma menor dentro de outra maior, em vez de obras independentes e “absolutamente criativas”.

No inferno de Dante, o primeiro círculo, o mais externo, é dedicado à expiação dos pecados pequenos, como daqueles pagãos virtuosos, que estão ali no limbo por não terem aceitado (ou mesmo conhecido) Cristo. No primeiro círculo das classes de caprichos do criador, está o código genético. Seriam as bactérias que se situam fora desse círculo meros “esboços”, como de um aprendiz de caligrafia gótica, que foram abandonados em favor de uma caligrafia ideal repetitiva? Um criador perfeito precisaria de ensaios, aprendizado, esboços?



Quando o ornitorrinco foi descoberto pela tradição da história natural européia, no final do século XVIII, pensou-se que os exemplares empalhados eram fraudes. Houve até quem procurasse os pontos de costura que ligariam bizarramente o bico àquele corpo que parecia pertencer a algum tipo de castor. Um naturalista, Blumenbach (1800), até o batizou de Ornithorhynchus paradoxus. Só ornithorhynchusanatinuspoderia ser um paradoxo para a criação que um animal que se encaixava nos círculos 'infernais' das classes até o nível dos mamíferos, diferente de todos os outros animais que ali - à maneira com que os caídos expiam seus pecados - exibem suas evidências de projeto divino, zombasse a Razão (Logos) botando ovos, ferroando com seu esporão venenoso e brandindo seu bico escarnecedor.

O conceito essencialista de mamífero de tempos anteriores sofreu um baque.

Mas paremos aqui, transtornados e abatidos por essa aporia natural, o nosso experimento mental de fingir que somos criacionistas. Comecemos outro experimento: agora somos céticos.

Somos céticos e conhecemos Guilherme de Occam, que disse que ao nos defrontarmos com fenômenos inexplicados, devemos optar por hipóteses mais simples, econômicas, prováveis e racionais. Isso, afinal de contas, não é uma afronta ao nosso ceticismo, é uma metodologia defensável. É a navalha de Occam, que nos serve como guilhotina para o que afronta o nosso ceticismo.



A definição essencialista de conceito não nos serve mais, como céticos que somos. Não podemos continuar pulando de essência em essência, para dizermos "ah, bem, de vez em quando os mamíferos podem botar ovos...". Vamos fazer diferente: escolhemos um protótipo para o conceito de mamífero: um coelho, por exemplo. Mas não vamos dizer que só entrará no conceito de mamífero quem desfrutar de condições necessárias e suficientes para ser mamífero. Não vamos criar uma essência de mamífero. Nosso coelho vai servir apenas para comparação. Então vamos definir que é mamífero quem tem uma certa semelhança familiar com o coelho. Não haverá uma linha imóvel delimitando nosso conceito de mamífero. As fronteiras entre o conceito de mamífero e outros conceitos serão nebulosas. Quem propõe essa definição de conceito prototípico e semelhança familiar é um filósofo chamado Ludwig Wittgenstein. [5]

Um ornitorrinco é um mamífero porque produz leite, que escorre por seu pêlo e é lambido pelo filhote que acabou de sair do ovo. Ele não tem mamilos. Mas produzir leite é uma coisa raríssima no nosso inferno natural. Ter pêlos também, e esse bicho tem pêlos. Portanto, no meio de várias características que unirão o nosso ornitorrinco ao nosso protótipo, o coelho, estarão os pêlos e o leite - não apenas a sua aparência, mas as suas características mais íntimas, como a composição da queratina do pêlo e a composição da albumina do leite. Como céticos queremos ver até o limite mais íntimo das coisas antes de fazer afirmações e estabelecer nosso conceito de mamífero.

O conceito prototípico nos servirá melhor do que o conceito essencialista agora, pois duvidamos que seja preciso haver uma essência de mamífero. Mas céticos não precisam negar as evidências, e são as evidências a base do conceito prototípico que criamos.



Mas não estamos satisfeitos. De onde vieram a albumina e a queratina que o coelho e o ornitorrinco compartilham? Sabemos que há genes nos DNA's dos dois animais, mas isso não explica por que esses genes geram resultados praticamente idênticos nas proteínas ao serem traduzidos nas células da pele.

Sabemos que ornitorrincos vêm de ornitorrincos e coelhos vêm de coelhos, então os genes desses animais são passados dos pais para os filhos. A razão da os genes de albumina e queratina do filhote serem idênticos aos genes dessas mesmas proteínas contidos na mãe é a herança, a cópia. Não é um grande salto para um cético pensar, agora, que a razão de tanto o coelho quanto o ornitorrinco compartilharem esses mesmos genes e essas mesmas proteínas seja a cópia e a herança, ou seja, a ancestralidade comum em alguma espécie que viveu no passado. Então, a semelhança familiar deve ser o resultado de um parentesco real.

Então, a razão de o ornitorrinco compartilhar características com o Pikaia, com o coelho, com o ser humano, com águas-vivas, com plantas, pode ser uma ancestralidade comum em tempos diferentes e circunstâncias diferentes, por isso os conceitos prototípicos podem ser aplicados a cada círculo do inferno da natureza, mas o motivo disso não parece ser capricho do criador, mas um grande nexo genealógico, de níveis de parentesco trespassando os níveis infernais!



ResearchBlogging.org

Para acreditarmos nessa enorme inversão de valores para com nossa posição anterior, precisaremos de evidências de que o ornitorrinco não foi sempre ornitorrinco: de que o próprio conceito de "ornitorrinco" seja prototípico. Sabemos que o ornitorrinco moderno nasce com um dente efêmero que o ajuda a sair do ovo, depois cresce alguns dentes na fase jovem, e na fase adulta perde todos os dentes. No passado seria possível que os ancestrais do ornitorrinco preservassem dentes na fase adulta, como acontece com o coelho? A resposta é sim, temos evidências disso, e os nomes dessas evidências são os fósseis Obdurodon obdurodon (~26 milhões de anos), Steropodon (~110 milhões de anos), e Teinolophos (~120 milhões de anos), todos com dentes na fase adulta. Todos de uma linhagem que foi mudando e um dos resultados é hoje o ornitorrinco sem dentes na fase adulta.[8]



Uma vez que essas espécies extintas eram ornitorrincos um pouco diferentes do ornitorrinco moderno, de onde veio essa linhagem de ornitorrincos? O círculo infernal dos monotremados, os mamíferos que botam ovos, é bem mais largo que essa linhagem. Inclui as linhagens dos equidnas. As homologias denovo nos servirão para usar a navalha de Occam e abandonar os caprichos do criador e aceitar racionalmente a ancestralidade comum. Temos evidências de que os equidnas mudaram também, porque temos fósseis de ~106 milhões de anos [9] e análises de relógio molecular.[8]

Nosso pensamento cético não se contraria também em aceitar que a razão pela qual os monotremados botam ovos é porque eles fazem parte do círculo infernal dos tetrápodos que botam ovos, como os chamados répteis. Isso também por um conceito não-essencialista, prototípico, que reflete as evidências observadas.



Temos outras vias além dos fósseis para satisfazer nosso ceticismo. Por exemplo, já temos mapeado o genoma do ornitorrinco, publicado na revista científica Nature em maio de 2008. O genoma do ornitorrinco tem características de réptil e de mamífero. Indica que a mesma família de genes que deu origem ao "veneno" do esporão do ornitorrinco foi responsável também, seguindo outra rota, pela origem dos venenos das serpentes.[10]

Nossa análise cética dos círculos infernais da natureza é tão precisa que podemos concluir que o bico do ornitorrinco, por outro lado, não é evidência de que o ornitorrinco e as aves herdaram seus bicos de um ancestral comum que tinha bico. O "bico" do ornitorrinco é uma estrutura com consistência de borracha, cheia de órgãos que percebem a eletricidade das presas que se escondem no fundo dos lagos, enquanto o bico das aves é uma estrutura dura, córnea. O bico do ornitorrinco não pertence ao conceito prototípico de bico das aves.



Conclusão



Agora, pela navalha de Occam e pelo ceticismo, pela razão e pela parcimônia, podemos optar pela melhor explicação para o porquê de as espécies terem mudado e transitado entre os círculos infernais da natureza ao longo do tempo, mudando de conceito em conceito, revolucionando a si mesmas, evoluindo. Temos algumas explicações complicadas, e uma explicação simples.



As complicadas são: o criador, apesar de não ter tido o trabalho de dar sempre pinceladas na formação de sua obra, participou do processo, como um artífice insatisfeito que gosta de fazer ajustes de tempos em tempos - que é o deus de Newton; ou o criador apenas foi responsável por sintonizar leis gerais que dariam os resultados que ele esperava (apesar de isso ser contraditório com a noção de contingência e imprevisibilidade da evolução) - que é o deus de Leibniz; ou então temos uma linha de montagem de leis gerais ou de intervenções intermitentes no mundo natural, com vários criadores fazendo reuniões periódicas para aprovar o que vai passar e o que vai ser reprovado na linha de produção; entre outras explicações complicadas, formuladas pelas mais diversas religiões no decorrer da história humana. É difícil, quando não impossível, ter um critério para descartar uma explicação complicada em favor de outra complicada.



E temos a explicação simples: o que fez a evolução acontecer foram processos puramente naturais, dentro os quais o principal é seleção natural - a sobrevivência não-casual de variedades que surgem casualmente. É uma explicação simples, provável e econômica, então será poupada pela navalha de Occam. Quanto a criadores ou interventores, nós os ignoraremos. Não precisamos dessas hipóteses, como teria respondido Laplace à pergunta de Napoleão, que queria saber por que Deus não era mencionado em seu tratado de mecânica celeste. Que os criadores fiquem, caso existam, no espaço que sobrar entre os mundos, como quis Epicuro de Samos.[6]



Referências



1 – Stephen Jay Gould. Darwin e os grandes enigmas da vida. Martins Fontes, 1987.


2 – Richard Lewontin. A tripla hélice – gene, organismo e ambiente. Companhia das letras, 2002.


3 – Carl Sagan. Os dragões do éden: especulações sobre a evolução da inteligência humana. F. Alves, 1987.


4 - Dante Alighieri. A divina comédia. EDUSP, 1979.


5 – Hull, D. (1978). A Matter of Individuality Philosophy of Science, 45 (3) DOI: 10.1086/288811


6 – Clark, B., Foster, J., & York, R. (2007). The critique of intelligent design: Epicurus, Marx, Darwin, and Freud and the materialist defense of science Theory and Society, 36 (6), 515-546 DOI: 10.1007/s11186-007-9046-9 (Artigo incorporado no livro: John Bellamy Foster, Brett Clark & Richard York. Critique of Intelligent Design – Materialism versus Creationism From Antiquity to the Present. Monthly Review Press, 2008.)


7 – John Locke. Of General Terms in An Essay Concerning Human Understanding. http://etext.library.adelaide.edu.au/l/locke/john/l81u/B3.3.html, 2007


8 - Rowe, T., Rich, T., Vickers-Rich, P., Springer, M., & Woodburne, M. (2008). The oldest platypus and its bearing on divergence timing of the platypus and echidna clades Proceedings of the National Academy of Sciences, 105 (4), 1238-1242 DOI: 10.1073/pnas.0706385105


9 - Pridmore, P., Rich, T., Vickers-Rich, P., & Gambaryan, P. (2005). A Tachyglossid-Like Humerus from the Early Cretaceous of South-Eastern Australia Journal of Mammalian Evolution, 12 (3-4), 359-378 DOI: 10.1007/s10914-005-6959-9


10 - Warren, W., Hillier, L., Marshall Graves, J., Birney, E., Ponting, C., Grützner, F., Belov, K., Miller, W., Clarke, L., Chinwalla, A., Yang, S., Heger, A., Locke, D., Miethke, P., Waters, P., Veyrunes, F., Fulton, L., Fulton, B., Graves, T., Wallis, J., Puente, X., López-Otín, C., Ordóñez, G., Eichler, E., Chen, L., Cheng, Z., Deakin, J., Alsop, A., Thompson, K., Kirby, P., Papenfuss, A., Wakefield, M., Olender, T., Lancet, D., Huttley, G., Smit, A., Pask, A., Temple-Smith, P., Batzer, M., Walker, J., Konkel, M., Harris, R., Whittington, C., Wong, E., Gemmell, N., Buschiazzo, E., Vargas Jentzsch, I., Merkel, A., Schmitz, J., Zemann, A., Churakov, G., Ole Kriegs, J., Brosius, J., Murchison, E., Sachidanandam, R., Smith, C., Hannon, G., Tsend-Ayush, E., McMillan, D., Attenborough, R., Rens, W., Ferguson-Smith, M., Lefèvre, C., Sharp, J., Nicholas, K., Ray, D., Kube, M., Reinhardt, R., Pringle, T., Taylor, J., Jones, R., Nixon, B., Dacheux, J., Niwa, H., Sekita, Y., Huang, X., Stark, A., Kheradpour, P., Kellis, M., Flicek, P., Chen, Y., Webber, C., Hardison, R., Nelson, J., Hallsworth-Pepin, K., Delehaunty, K., Markovic, C., Minx, P., Feng, Y., Kremitzki, C., Mitreva, M., Glasscock, J., Wylie, T., Wohldmann, P., Thiru, P., Nhan, M., Pohl, C., Smith, S., Hou, S., Renfree, M., Mardis, E., & Wilson, R. (2008). Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution Nature, 453 (7192), 175-183 DOI: 10.1038/nature06936

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Comentário de Félix Maranganha em 5 março 2011 às 21:51

E eu só tiha desabafado. Sou Evolucionista, e não Criacionista, mas apenas desabafei. Porém, tudo bem. Gosto muito dos comentários do Eli e do Rodrigo, tanto que o Ciências da Linguagem que criei foi motivado por trabalhos e gente como eles. No Ciências da Linguagem já fomos vítimas de criacionistas tb, digo vítimas pq os criacionistas não sabem simplesmente criar uma teoria solida, contentam-se simplesmente em atacar as existentes.

 

Mas, tudo bem. Resolvam-se.

Comentário de Eli Vieira em 5 março 2011 às 13:27

"paradoxxx" disse:

 

"Percebí que existe um desgosto acerca do que Eli Vieira chama de Criacionistas, não só aqui mas em outras pronunciações."

 

O único "desgosto" que eu tenho é com quem acha que pode afirmar que a história da vida se sucedeu de maneira X mas não consegue mostrar evidências do que afirma.

 

A partir do momento que uma pessoa quer afirmar que o mundo é assim ou assado, esta pessoa deve se responsabilizar por apresentar evidências de que é assim. Isso não é apenas parte da ciência, é parte do que se convencionou chamar de honestidade intelectual.

 

"Com dificuldade comecei a estudar a evolução, ler A origem das espécies entrar numa faculdade de biologia."

 

Meus parabéns por essa iniciativa. Certamente é uma melhoria nesses dois anos desde que você se manifestou por aqui anteriormente.

 

Agora convido a editar seu perfil e torná-lo um perfil condizente com sua identidade real. Não admito perfis falsos por aqui, pela simples razão de que a Constituição Federal veda o anonimato para que todas as pessoas se responsabilizem pelo que dizem.

 

"Creio que não há motivos para articulação política de religiosos contra a teoria da evolução ou o contrário."

 

Novamente te parabenizo pela posição, e lembro que os únicos motivos que qualquer religioso de qualquer religião pode ter para atacar a teoria da evolução serão políticos/ideológicos, jamais científicos.

 

"Vim a este blog procurando assunto científico, mas me senti atingido não só pela ciência mas pela ideologia."

 

Onde? Este texto sobre o ornitorrinco é uma argumentação de ceticismo científico. Se alguém diz que o ornitorrinco foi criado, deve mostrar evidência de que isso aconteceu. Tudo o que eu fiz neste texto foi mostrar que não há motivos para aceitarmos supostos criadores dos seres vivos. Não há em qualquer parte desta rede ataques a religiões, eu já adverti inclusive alguns ateus por usarem a rede desta forma. Se você se sente atacado com o conteúdo neutro desta rede ou ainda das minhas postagens de blog, acho que o problema não está no que argumentei mas sim na compatibilidade entre o que você acredita e o que a biologia evolutiva tem como conhecimento.

 

"Não entendo porque atacar a idéia de um Criador dizendo que se foi criado por um ser inteligente, ele não era criativo. (vc tem todo direito de não apreciar a natureza, mas é subjetivo. A grande maioria das pessoas considera a natureza muito admirável e variada)."

 

O que argumentei na presente publicação foi que criadores são desnecessários para explicações sobre as origens dos seres vivos. Esta é a postura básica de alguém que aceita a teoria da evolução. Em momento algum eu disse que criadores não existem. Eu não acredito, mas não uso este blog para argumentar pela minha opinião, mas para divulgar conhecimentos estabelecidos. Ainda assim, quem acredita em criadores e, além disso, pretende introduzi-los na ciência, deve ficar bem ciente de que é de sua responsabilidade provar que eles existem.

 

"vejo que vocês não gostam de cristianismo e lamento ficar sabendo disso num blog de ciência em nome da ciência."

 

Em primeiro lugar, não generalize. Certamente há membros cristãos aqui, jamais a rede usou o critério da ideologia religiosa para admitir membros, porque, como está escrito na página inicial, o Evolucionismo é laico e dedicado à divulgação científica. Portanto, não vem ao caso se eu ou alguém mais por aqui gosta ou deixa de gostar do cristianismo, porque o cristianismo simplesmente não é o assunto em pauta.

 

Se quer afirmar que o Evolucionismo promove esse tipo de coisa em  nome da ciência, é melhor começar a provar.

 

"Não existe problema algum entre o cristianismo e a ciência, tudo não passa de mal-entendido, quem acha o contrário está atacando alguém ou enxergando só o que parece óbvio."

 

Novamente, o cristianismo não está em pauta. O assunto deste blog é a biologia evolutiva. Mostramos um pouco do que tem sido feito na área, e nos defendemos contra ataques de fundamentalistas. Simplesmente não nos interessa se o budismo, o cristianismo, o xintoísmo ou o taoísmo são compatíveis com a ciência. Compatibilizar essas visões de mundo com a ciência é tarefa dos filósofos budistas, cristãos, xintoístas e taoístas; não a minha tarefa como divulgador da biologia evolutiva.

 

Por fim, você diz que aceita a solidez científica da teoria da evolução e seus desdobramentos no século XX, mas logo depois se diz criacionista. Sua definição de criacionismo é idiossincrática e contrasta com a mais comum. Criacionismo é a crença de que a criação dos seres vivos pode substituir a evolução como uma explicação para a origem das espécies. Ao aceitar a solidez científica da teoria da evolução, você automaticamente deixa de ser criacionista.

 

Você é na verdade um evolucionista teísta. Sugiro que pesquise mais sobre o evolucionismo teísta na internet.

 

Abraço.

Comentário de paradoxxx em 5 março 2011 às 12:35

Olá, gostei muito da matéria e do comentário de Félix Maranganha;

 

Gostaria de dar algumas impressões que tive sobre o texto.

 

Percebí que existe um desgosto acerca do que Eli Vieira chama de Criacionistas, não só aqui mas em outras pronunciações. Quero dizer que sinto algo inversamente proporcional, pois me considero criacionista, e tive muita dificuldade de lidar com as implicações do tema Evolução.

Não se tratando da ciência em sí, mas receoso pelo cenário "religiosos vs. céticos e ateístas". Com dificuldade comecei a estudar a evolução, ler A origem das espécies entrar numa faculdade de biologia. Fiz tudo de mente aberta e tomando cuidado com a minha postura, pensando justamente no que félix apontou no seu comentário. Certamente tive que reescrever o que eu entendo por biogenia separando o que a gente recebe da interpretação que os pais e/ou os líderes religiosos nos passaram da ciência ----> Fábula/história natural adquirindo uma cosmovisão peculiar (embora tratem do mesmo assunto são coisas diferentes).

Creio que não há motivos para articulação política de religiosos contra a teoria da evolução ou o contrário.

Sou cristão e pretendo me formar em biologia. Vim a este blog procurando assunto científico, mas me senti atingido não só pela ciência mas pela ideologia. Parabéns pelo assunto científico, mas eu gostaria de sugerir que se fizesse uma separação maior entre estas temáticas.

Certamente que a ciência nos mostra que todos os seres vivos são aparentados.

Certamente que o fixismo está errado.

Certamente o neodarwinismo é a melhor explicação até o momento acerca dos fenômenos evolucionários.

Mas com realação à como um criacionista classificaria um ornitorrinco:

Depende: Um criacionista como eu classificaria o ornitorrinco de acordo com o seu cladograma. Mas a classificação que um criacionista bíblico vai utilizar critértios antiquados e rudimentares, meio:ar, agua. terra. porte: pequeno, médio, grande. insetos:classificados por numero de patas e outras poucas coisas. alimentação:ruminante ou não locomoção: 4 patas, 2 patas, nadadeiras, asas.

Acho que são quase todos estes os critérios que aparecem no antigo testamento.

Estes criterios certamente foram invocados do concenso do meio. 

Se a Bíblia fosse escrita hoje certamente gênesis seria bem diferente, (mas também não iria concordar totalmente com a ciência do séc. XXV!).

Não entendo porque atacar a idéia de um Criador dizendo que se foi criado por um ser inteligente, ele não era criativo. (vc tem todo direito de não apreciar a natureza, mas é subjetivo. A grande maioria das pessoas considera a natureza muito admirável e variada).

vejo que vocês não gostam de cristianismo e lamento ficar sabendo disso num blog de ciência em nome da ciência. Não existe problema algum entre o cristianismo e a ciência, tudo não passa de mal-entendido, quem acha o contrário está atacando alguém ou enxergando só o que parece óbvio.

att.

Comentário de Félix Maranganha em 13 novembro 2010 às 23:52
Apesar de não considerar o descarte das hipóteses pelo simples fato de sintonizá-lo com o ceticismo, eu concordo que devemos procurar explicações mais simples. Obviamente, religiosos estão tão cansados dos ataques dos céticos quanto os céticos dos ataques dos religiosos, e se não aprendermos a equilibrar as implicações éticas e ontológicas de ambas as visões, podemos estar fadados ao fracasso enquanto civilização. O maior problema gerado pela guerra Criacionismo x Evlucionismo é que o modelo cristão (lê-se modelo Monoteísta) é usado como estereótipo para todas as outras religiões do mundo indiscriminadamente e sem conhecimento de causa da maioria dos envolvidos nessa disputa.

Apesar de ser budista, sempre concordei com uma frase do cientista Howard van Till, que é cristão: "o acaso não elimina o propósito", ou seja, o criacionismo, assim como o ceticismo extremado, pecam em não procurar uma conversa equilibrada. Os criacionistas não aceitam o acaso por acharem que isso elimina a postura ético-ontológica do monoteísmo. Por outro lado, os céticos têm dificuldades em entender a postura ético-ontológica dos religiosos. Ao meu ver, não passa de uma guerra de pressupostos.

Outro problema aqui é que a guerra Criacionismo x Evolucionismo vem criando reverberações em quem nunca teve a ver com essa guerra: Budistas não são criacionistas, mas sofrem ataques dos céticos por serem religiosos e, portanto, são prejulgados como criacionistas. Ao mesmo tempo não somos cientistas, mas sofremos ataques dos cristãos por não vermos problemas na Evolução, e por acharmos até que ela entra em sintonia com algumas de nossas idéias. Ou seja, sofremos ataques porque cada um dos lados envolvidos nessa disputa gerou em si mesmo um conjunto de estereótipos de como pensa e se comporta um religioso ou um evolucionista, colocando Religioso e Evolucionista como mutuamente anulativos.

E se eu dissesse que existem religiões que não acreditam em um Deus Criador? Ou que pelo menos não se preocupam com esse dado? O budismo, que eu pratico, é uma religião sem deuses, sem dogmas, sem proselitismo (ou seja, sem chatos pregando de porta em porta), que não acredita na existência da alma, em um pós-morte ou na imortalidade, e que coaduna com o método cientifico sem problema algum! Nem mesmo precisamos que o Buda Histórico tenha realmente existido, pois o que nos importa são seus ensinamentos. E não precisamos concordar com todos os ensinamentos, pois o próprio fundador histórico nos aconselhou a sempre duvidar do que ele próprio nos ensinou. De igual modo, mesmo sem esses dados, somos uma religião tão eticamente estruturada quanto o cristianismo: valorizamos a vida e a morte, e temos idéias de iluminação, salvação e emancipação similares aos do cristianismo, idéias essas que não sofrem nenhuma perda se nos encararmos como macacos-pelados ou filhos de Deus.

O ornitorrinco neste texto, obviamente, é um exemplo de como podemos encarar as coisas com calma e, mesmo assim, não eliminar posturas religiosas. Podemos encarar o ornitorrinco como uma criação caprichosa de um Deus, obra do acaso, resultado de uma reunião de deuses ou produto da ciência dos loiros pleiadianos e, mesmo assim, não nos contradizermos em relação aos achados da ciência. Porém, acho extremamente complicado quando se criam posturas ético-metafísicas baseando-se em apenas dados de uma ciência fria e mutável, até porque, se existe um Deus Criador, que transcenda todas as coisas, então não há ciência, em lugar nenhum do universo, criado por nenhuma inteligência, por mais avançados que sejam, que responda à pergunta se há um Deus ou não!

Por fim, concordo com o texto escrito, mas "meio que" deixo meu protesto enquanto vítima indireta dessa briga: somos estereotipados enquanto religiosos por aqueles que são céticos e por aqueles que são cristãos, que acham que o modelo cristão da existencia de deuses, almas, pós-vida e outras firulas outras são universais e pertencentes a todos os povos e modos religiosos existentes.
Comentário de Francisco Quiumento em 5 julho 2009 às 21:55
Ótimo texto Eli. Possui muitos elos com meu texto sobre o argumento de Paley, no Knol.

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