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Muitas pessoas possuem dificuldade em compreender como funciona à Evolução das Espécies e então a deixam de lado – não dando assim a devida importância ao fenômeno. A evolução é o fenômeno natural, dependente da reprodução, que é responsável pela enorme variedade de espécies existentes no Planeta Terra (incluindo os seres humanos). Não há alternativa científica à Teoria da Evolução, pois ela perpassa transversalmente todos os campos de estudos sobre os seres vivos, e é bem-sucedida na explicação de origem das entidades e fenômenos biológicos como nenhuma outra abordagem. A evolução ocorre pela necessidade de sobrevivência das espécies nos mais diferenciados ambientes - onde os mais adaptados têm mais chances em sobreviver, ter filhos e, assim, garantir que essa adaptação seja geneticamente herdada por seus descendentes.

É possível citar não dezenas, não centenas nem milhares, mas milhões de evidências que favorecem a idéia evolutiva das espécies. Essas evidências podem ser encontradas nos mais variados meios de estudo, como: fósseis, embriologia comparada, formas intermediárias, órgãos análogos e homólogos, fisiologia comparada, bioquímica comparada, anatomia comparada, deriva continental, órgãos vestigiais, datação radioativa e genômica (DNA). A evolução também pode ser evidenciada facilmente quando observamos nosso próprio corpo, sua morfologia e suas funções. Nesse álbum mostrarei um exemplo:




1 - Você já se perguntou sobre o porque de sua pele ficar estriada e seus pelos ficarem arrepiados quando você sente frio ou pavor?




2 - Por mais incrível que pareça cada pelo está ligado a um músculo liso chamado “Músculo eretor do pelo”. A contração desse músculo puxa a cavidade em que o pelo fica alojado, causando o levantamento do pelo – isto é, deixa-o perpendicular à superfície da pele e causa abaulamento na pele defronte a cavidade, produzindo a chamada “pele de ganso” ou “pele de galinha”, que se forma em reposta ao frio ou a situações apavorantes.




3 - Em animais cujos corpos são densamente cobertos de pelos, a ereção dos pelos aprisiona ar entre eles e a superfície do corpo, assim produzindo um efeito de isolação do ar quente (como um efeito estufa) e reduzindo a perda de calor do corpo.




4 - Outro uso interessante do sistema ocorre quando um animal peludo se sente ameaçado (apavorado). Em situações assim o animal eriça os pelos, aumentando ilusoriamente de tamanho para parecer, a seu oponente, um inimigo mais ameaçador do que é. Isso ocorre porque quando um animal como esse se sente ameaçado, entra em ação seu sistema nervoso simpático – arrepiando seus pelos para causar medo no adversário. Essa resposta do sistema nervoso funciona de maneira semelhante com os seres humanos.




5 - Tal mecanismo não tem utilidade relevante em nós, pois nossos corpos são carentes de pelagem, e nossos pelos - com exceção da cabeça, das axilas e da região do períneo - estão distribuídos pelo corpo de forma bem esparsa. A camada córnea de nossa pele está sempre exposta ao meio! Então o efeito de isolação térmica ao arrepiar os pelos é inútil em nós, assim como o de parecer mais ameaçador para inimigos – já que não somos suficientemente ‘peludos’ para isso e também não somos uma espécie perseguida por predadores naturais.




6 - Certo! Então para que temos esses tais “Músculos Eretores do pelo” se eles não nós tem serventia? Porque um ser vivo seria criado com algo que lhe é inútil? Será que foi um erro de projeto? Bem, em primeiro lugar, nós, humanos, não fomos criados. Nós evoluímos de seres ancestrais e primitivos, esses, por sua vez, evoluíram de ancestrais mais primitivos ainda. Esse processo, às vezes, pode demorar alguns dias – como em bactérias – mas pode demorar milhões de anos, como em elefantes, golfinhos ou em seres humanos.




7 - Há 3 milhões de anos atrás (aproximadamente), vivia na África um ancestral direto de nossa espécie: O Australopithecus afarensis. Ele era capaz de, assim como nós, andar sobre duas pernas. Porem, diferente de nós, eles eram baixos (pouco mais de 1m), tinham cérebros pequenos e os corpos cobertos de pelo. Já que seus corpos eram densamente cobertos por grossa pelagem, eles sim faziam uso eficaz dos “Músculos Eretores do pelo”.




8 - Então, 1 milhão de anos depois, o Australopithecus afarensis originou 3 novas espécies: o Paranthropus boisei (acima), o Homo habilis (no centro) e uma variação do Homo habilis, o Homo rudolfensis (abaixo). Porém, todos os 3, ainda possuíam densa pelagem em seus corpos.




9 - Quando então finalmente, aproximadamente 500 mil anos depois, o Homo habilis se derivou em uma nova espécie: o Homo ergaster. O H. ergaster era semelhante a nós em muitas coisas. Já possuíam um cérebro muito desenvolvido e, possivelmente, a capacidade de se comunicar através de ‘palavras’ - adaptações que foram fundamentais para sua sobrevivência. No entanto, a adaptação que interessa aqui é outra: os H. ergaster perderam pelo!




10 - Estando na áfrica, um milhão e meio de anos atrás, poderíamos ver as sementes de humanidade se desenvolvendo nesses homens. Mesmo em temperaturas altíssimas dos desertos africanos, os H. ergaster percorriam grandes distâncias a uma boa velocidade. Isso porque eles desenvolveram o mais sofisticado sistema de arrefecimento de todos os animais da Terra. O longo nariz - de aspecto moderno - arrefecia e umedecia o ar enquanto respiravam. O corpo sem pelos deixava escapar o ar mais facilmente e milhões de glândulas minúsculas na sua pele faziam com que transpirassem para controlar a temperatura. Essas adaptações foram muito úteis para a sobrevivência deles naquela região, pois enquanto outros animais se sentavam a sombra, o H. ergaster poderia andar a vontade ao sol.




11 - Assim a evolução seguiu seu curso por mais algumas centenas de milhares de anos e, de geração em geração, a arvore da vida foi ganhando mais galhos. Outras espécies como o Homo erectus e o Homo neanderthalensis também fazem parte desta história até nós – Homo sapiens. Alguns desses antepassados são nossos ancestrais diretos e outros não, mas essa parte da historia não precisa ser retratada aqui.




12 - Dessa forma - nós - os homo sapiens, não possuímos mais a densa pelagem no corpo que há muito foi perdida devido a adaptações de nossos antepassados e a sua luta pela sobrevivência. Porém ainda guardamos ativas, em cada uma de nossas células, as instruções gênicas responsáveis pela produção e funcionamento dos músculos eretores do pelo em nosso corpo. Apesar de na prática não tirarmos proveito desses músculos, eles são uma herança - não eliminada pela seleção natural - que herdamos de nossos antepassados peludos.

Os músculos eretores do pelo são um exemplo de característica anatômica que tinha importante funcionalidade para nossos antepassados, mas hoje, para nós, não têm utilidade prática. São apenas um vestígio - ou quem sabe até uma janela - janela essa por onde podemos observar nosso passado e entender nossa historia. Porem, em formas de vida atuais, não só os músculos eretores possuem tais peculiaridades. Apresento-lhes os Órgãos Vestigiais.







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Créditos das imagens:

Ancestrais humanos: Documentário WALKING WITH CAVEMEN (BBC)

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Tags: arrepio, eretor, evolucionismo, evolução, músculo, pelo, pêlo

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Comentário de Nelson Góes em 15 janeiro 2011 às 2:10

Rodrigo, muito obrigado pelo primeiro link.  Aprendi muito mais sobre a AAT/H ali e apesar de discordar em certa medida da lógica utilizada pelo Jim Moore, é evidente que não podemos aceitá-la.

Tenho uma racionalidade limitada, diria que suficiente para aceitar resultados de ensaios bem feitos, mas suficientemente imaginativa para aceitar uma boa idéia por meioo de evidências que não puderam ser refutadas ainda. A idéia de que o desenvolvimento do nosso gênero passa por uma fase aquática evidentemente é exagero, mas acredito que por conta da AAT/H a visão acadêmica quanto a importância da água no nosso processo evolutivo mudou.

Não acho mesmo que se deva gastar os parcos recursos das bolsas científicas para tentar provar a AAT/H, mas estou certo que muitos aspectos dela merecem uma investigação.

Novamente, Rodrigo, agradeço a fonte repleta de informações boas e úteis.

Comentário de Rodrigo Véras em 13 janeiro 2011 às 2:30

Oi, Nelson. Bem vindo ao evolucionismo. Antecipando-me a resposta do José e já metendo o meu bedelho, eu já tive contato com a AAT/H (Aquatic Ape Theory/Hypothesis) e, infelizmente, não a tenho em alta conta. Ainda que creia que ambientes litorâneos possam realmente ter sido muitos importantes em parte de nossa evolução, mas nada tão radical como a AAT/H propõe.

 

Ela é uma proposta muito pouco parcimoniosa, sem evidências robustas diretas e, além disso, muitos de seus defensores distorcem as evidências e atacam caricaturas das hipóteses paleoantropológicas tradicionais, o que indica (para dizer o minimo) pouca seriedade em tentar compreender a evolução dos hominídeos.

 

Aconselho os sites abaixo, especialmente o de Jim Moore (o primeiro) que destrincha em detalhe e com grande precisão os problemas da AAT/H:

 

http://www.aquaticape.org/index.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Aquatic_ape_hypothesis
http://johnhawks.net/weblog/topics/pseudoscience/aquatic_ape_theory...

 

Abraços,

 

Rodrigo

Comentário de Nelson Góes em 12 janeiro 2011 às 14:18

Excelente texto, parceiro.

Já ouviu falar na Teoria do Primata Aquático? Dei uma palestra sobre a evolução do homem em uma disciplina de paleontologia na UFS no ano de 99. Apesar do vasto material sobre a origem nas Savanas que recebi da professora, em pesquisas de conteúdo que fiz encontrei algo sobre a teoria aquática e achei muitíssimo interessante. Palestra terminada e não só os colegas como a professora, todos ficaram fascinados pelo assunto.

O seu texto foi o pontapé para a minha inscrição no grupo. Obrigado por compartilhar e parabéns a todos pelo excelente material que podemos encontrar aqui.

Comentário de Karina Fonseca Azevedo em 13 junho 2010 às 23:36
Parabéns!
Comentário de José Carneiro Ribeiro Neto em 2 outubro 2009 às 18:44
Muito obrigado 'pelo' apoio Eli!
Comentário de Eli Vieira em 2 outubro 2009 às 15:47
Isso é que é divulgação científica de qualidade!

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