Para acessar os artigos relatando e analisando a descoberta de 1500 fósseis, encontrados em um sistema de caverna sul africano e atribuídos a nova espécie humana, Homo naledi, veja aqui e aqui.

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Novos fósseis de uma antiga divergência

Existem vários mistérios e enigmas sobre o nosso passado sobre os quais ainda temos poucas pistas, mas isso não deveria nos impressionar. Disciplinas que nos permitem vislumbres em nossa história profunda, como a biologia evolutiva e a paleontologia, são relativamente recentes, tendo menos de 200 anos de idade, com a moderna síntese da biologia evolutiva tendo cristlizado-se apenas nos anos 30 e 40 do século passado. Mesmo o que hoje convencionamos chamar de ciência moderna não emergiu antes dos séculos XVI e XVII, com os trabalhos de Copernico, Kepler, Galileu e Newton, durante a chamada revolução científica. São estes mistérios que alimentam nossa curiosidade e é a busca por solucioná-los que leva ao avanço das ciências e do conhecimento de maneira geral. Não saber não é motivo para vergonha, apenas não querer descobrir e aprender é que deveria nos envergonhar.

Um destes enigmas é a evolução dos macacos africanos, hoje representados por dois grandes grupos, os cercopitecoides e hominoides, este último, o clado ao qual nós, seres humanos, pertencemos. Enquanto os fósseis mais antigos de espécimens representantes destas linhagens tem por volta de 20 milhões de anos, os estudos filogenéticos moleculares, ou seja, aqueles que empregam a comparação de biomoléculas de organismos vivos modernos como forma de reconstruir as relações de parentesco evolutivo, indicam que estas linhagens devem ter se dividido entre 25 e 30 milhões de anos atrás, bem dentro do Oligoceno. Isso sugere que devem ter existido linhagens fantasmas neste ínterim, ou seja, linhagens que não deixaram vestígios fósseis. Porém, às vezes, fantasmas aparece, pelo menos neste sentido metafórico [1, 2].

Acima temos uma recriação, feita pelo artista Mauricio Antón, dos primatas fósseis recém-descobertos, Rukwapithecus (frente, centro) e Nsungwepithecus (direita) [2, 3]. No estudo publicado online, na revista Nature, no dia 15 de maio, os autores descreveram aquele que, até o momento, é o mais antigo fóssil conhecido 'macaco sem cauda', ou seja, hominoide. Este fóssil constitui-se em um fragmento de mandíbula no qual foram preservadas as características dentárias distintivas que permitiram aos cientistas colocarem este espécimem na linhagem tronco [sobre grupos tronco e copa veja aqui] dos hominoides 'nianzapitecines'. À direita podemos ver, em perspectiva lateral, um fragmento da madíbula (que constitui o espécimem holótipo desta espécie)  de Rukwapithecus fleaglei, exibindo os quatro dentes pré-molares inferiores, os primeiros e segundos molares, e um terceiro molar, parcialmente, imrrompido (crédito: Patrick O'Connor, da Universidade Ohio) [3].

Os autores do artigo, também descreveram o mais antigo membro da linhagem tronco dos cercopitecoides, os 'macacos do velho mundo', representado por um terceiro molar inferior. Além do estado de preservação dos fragmentos, que mantiveram claras as características de diagnóstico dos dois grupos, a resolução do enigma foi tornada possível por que, ambos fósseis, foram recuperados de um estrato, no Rift Rukwa, no Leste Africano, na Tanzânia. que havia sido precisamente datado como tendo cerca de 25,2 milhões de anos [1]. Abaixo podemos ver uma comparação dos dentes de primatas da formação Nsungwe com os dentes de outros representantes de linhagens tronco e copa de catarrínes [1].

Estes novos achados estendem o registro fóssil dos macacos sem cauda e dos macacos do velho mundo, na África, até o Oligoceno, corroborando as estimativas moleculares anteriores. Segundo os pesquisadores responsáveis pelo artigo, isso pode sugerir uma ligação entre a diversificação dos catarrines copa, o grupo ao qual pertencem os cercopitecoides e hominoides, e a mudanças geográficas na paisagem africana que haviam sido causadas pela atividade tectônica, previamente desconhecida, no sistema do rift no Leste do continente africano.

Veja a animação feita pela universidade de Ohio e pelo NSF sobre as descobertas apresentadas no artigo da Nature:

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Referências:

  1. Stevens, Nancy J. Seiffert, Erik R. O’Connor, Patrick M., Roberts, Eric M., Schmitz, Mark D. Krause, Cornelia, Gorscak, Eric, Ngasala, Sifa, Hieronymus, Tobin L., Temu, Joseph. Palaeontological evidence for an Oligocene divergence between Old World monkeys and apes. Nature, 2013; DOI: 10.1038/nature12161
  2. Yong, Ed Oldest Fossil of Ape Discovered The Scientist, May 15, 2013.
  3. Scientists discover oldest evidence of split between Old World monk... Ohio University Alert Ohio

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