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Na semana passada postei no Biorritmo uma matéria intitulada A retroevolução humana segundo Bouvet e só agora me dei conta da importância de se discutir o assunto com os nossos amigos do Evolucionismo. Em seu livro Mutants – à quoi ressemblerons-nous demain? (Mutantes – como seremos amanhã?. em tradução livre), lançado em março deste ano e sem tradução em português, o biólogo francês Jean-François Bouvet reúne uma série de dados de pesquisas feitas ao redor do mundo para mostrar que o homem passa por uma evolução inédita - batizada por ele de retroevolução - que pode estar prejudicando seu desenvolvimento. Para ele, as transformações ambientais feitas pelo homem nas últimas décadas têm hoje mais influência em nossa biologia que a seleção natural. Em entrevista à Veja, Bouvet contesta os progressos atuais da ciência moderna e preconiza um futuro de velhos, gordos e inférteis. O biólogo francês já desenvolveu pesquisas em neurobiologia na Universidade Claude Bernard, em Lyon, na França, por mais de 10 anos e também é autor de outros 4 livros publicados na Europa e Estados Unidos.

Considerando as afirmações do cientista, surgem involuntariamente uma série de perguntas, algumas pertinentes, outras não: existe retroevolução? Até que ponto as mudanças ambientais e culturais podem modificar a intensidade da seleção natural? A seleção natural pode atuar em sentido reverso, fazendo com que as espécies "involuam'? Alguém tem exemplo de alguma espécie que tenha sofrido esse processo? E por aí vai. O espaço está aberto para as respostas e, claro, para as discussões.

Pouco otimista em relação ao nosso futuro, Bouvet explica os fundamentos dessa evolução inédita do ser humano. Segundo a Veja, " para ele, a explosão de novas moléculas criadas pelo avanço da ciência e da indústria modificou permanentemente o sistema endócrino e hormonal dos seres humanos. Os efeitos de químicos como o do pesticida DDT, de antibióticos ou de substâncias presentes em nosso cotidiano, como o bisfenol A, os parabenos ou os ftalatos revolucionaram nossa biologia em uma escala jamais vista. O número de casos de obesidade dobrou desde os anos 1980, meninos e meninas ao redor do mundo entram na puberdade por volta dos 7 anos e, o que é mais grave, a concentração de espermatozoides no sêmen foi reduzida em 40% nos últimos 50 anos, em todo o planeta. Se o objetivo da evolução é selecionar os mais aptos a gerar descendência, esses indícios reunidos indicariam que ela está enfrentando problemas."
Na entrevista, Bouvet faz uma triste constatação. Diz o biólogo: "Pela primeira vez na história há outro fator mais importante que a seleção natural para a evolução: o ambiente modificado pelo homem. Até a Revolução Industrial não tínhamos a capacidade técnica de transformar quimicamente a natureza. Modificamos o ambiente que, por sua vez, devolve essas alterações, perturbando-nos com os químicos que inventamos e que agora agem de maneira deletéria sobre nós. Esse processo em que a natureza manda de volta o que fizemos a ela é o que chamo de retroevolução."
Quando perguntado sobre quem seriam os mutantes do título de seu último livro, Bouvet respondeu: "Talvez a melhor definição para o novo homem que habita nosso planeta não seja nem mutante nem Homo sapiens, o 'homem sábio'. Acredito que hoje ele seja um Homo perturbatus, o 'homem perturbado'. Nossa biologia está passando por distúrbios e a maior parte delas nos faz muito mal."
Ao longo da entrevista, o cientista forneceu dados sobre envelhecimento, obesidade e infertilidade da espécie humana atual: "O indicador que mede a expectativa de vida sem incapacidade [Disability Free LifeExpectancy, em inglês, usado pela Comissão Europeia] permanece estável nos últimos dez anos. Ou seja, o aumento dos anos de vida significa uma sobrevida sem saúde. Na França, temos 25 novos casos de Alzheimer diagnosticados por hora: são 860 000 doentes e a previsão é de 2 milhões até 2020. Isso nunca nos aconteceu e não pode ser considerado um progresso. "
Em relação à obesidade dos povos, Bouvet assinalou: "Uma pesquisa de 2012 com cerca de 4.000 americanos mostra que a porcentagem de obesos em uma população aumenta quando a taxa de bisfenol A cresce nos organismos. No país, mais de 95% dos adultos apresentam o químico na sua urina e um terço das mulheres e 30% dos homens são obesos. Em todo o mundo, a obesidade, relacionada a doenças crônicas como diabetes e hipertensão, dobrou desde os anos 1980. Não dá para ser muito otimista em um cenário como esse."
Em outro ponto da entrevista, o biólogo francês fala sobre as alterações na fertilidade das populações atuais: " Outra pesquisa, publicada em maio do ano passado, também aponta uma queda de espermatozoides de 2% ao ano, na última década, em homens do sul da Espanha. As causas são várias. Diversos estudos relacionam o bisfenol A a dificuldades reprodutivas e um estudo feito nos Estados Unidos com homens que procuravam programas de fertilidade mostrou que, quanto mais ftalatos, químicos presentes em plásticos, desodorantes ou tintas, existiam no organismo, menor era a concentração de espermatozoides. Entretanto, essa transformação faz parte de uma mutação mais profunda, em que as moléculas agem alterando nosso sistema endócrino e a produção de hormônios. Elas atuam impedindo o hormônio masculino testosteronade se manifestar. Isso altera não só a sexualidade, mas toda a biologia humana, com efeitos transmitidos por gerações."
Esse prognóstico sombrio de Bouvet, segundo a matéria, parece não ter consenso na comunidade científica. " Os que defendem essa  proposta partem do princípio de que um dos componentes fundamentais da evolução, a seleção natural, que elege os mais aptos a produzir descendentes, foi superada. Afinal, a ciência e medicina modernas permitem não só que os menos capacitados sobrevivam como também tenham filhos para perpetuar seus genes", diz a revista. O biólogo Stephen Stearns, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, um dos principais nomes da biologia evolutiva, disse à Veja que " "É inquestionável que a cultura — que compreende a tecnologia, a medicina e a indústria — está mudando a intensidade da seleção natural e as características mais afetadas por ela. Transformamos de tal modo o ambiente que a cultura se tornou um agente importante para a seleção".

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