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Publicado originalmente no jornal Folha Biológica n. 11, disponível em http://www.cursoimagem.com.br/jornal.php
Autor das bases da teoria que revolucionou o pensamento científico e social era contra a conotação de "melhoria" associada ao termo evolução, e evitou usá-lo em sua obra, além de defender idéias lamarckistas,consideradas contrárias ao darwinismo moderno.
"Ninguém defendeu a lei do uso e do não-uso tanto quanto eu". Esta frase, escrita por Darwin, entre tantas outras que fazem coro com as bases da teoria de Jean-Baptiste Lamarck, fazem parte da obra do naturalista inglês, autor de A Origem das Espécies, publicada 150 anos atrás. Charles Darwin formulou as bases da teoria da evolução, apesar de não usar este termo em sua obra. Ele admitia apenas a "descendência com modificação", e descartava que o processo de mudanças naturais entre os seres vivos ao longo do tempo era uma melhoria contínua em busca da perfeição. Para Darwin, uma ave de hoje não é melhor que uma ave de 20 ou 30 milhões de anos atrás. É apenas diferente, adaptada a um diferente ambiente.
Darwin cita o naturalista francês Jean baptiste Lamarck logo na primeira página de sua obra, reforçando o fato de que foi o primeiro que tirou conclusões sérias sobre as causas da evolução. Chamou-o então de "sábio justamente célebre", o que demonstra sua admiração.
As idéias de Lamarck tem por base dois aspectos centrais: a lei do uso e desuso (não-uso, para Darwin), e a transmissão hereditária de caracteres adquiridos. Segundo Lamarck, quanto mais um órgão fosse exigido pelo ser que o apresentasse, mais tenderia a se desenvolver. Em caso contrário, seria condenado à atrofia. Esta regra só pode ser aplicada a órgãos de natureza muscular. Se fosse regra geral, quem usa a vista com freqüência deveria ter uma visão cada vez mais acurada, o que não acontece na prática. O normal é passar a ter problemas visuais.
O segundo aspecto do lamarckismo afirma que as características obtidas pela primeira regra seriam transmitidas hereditariamente, nunca comprovado.
Apesar de citar inúmeras vezes as premissas do lamarckismo, Darwin teve o mérito de apontar o verdadeiro mecanismo central do processo pelo qual as espécies se modificam ao longo do tempo: a seleção natural. Segundo o naturalista inglês, o ambiente seleciona as modificações que melhor adaptam o organismo àquele ambiente e elimina aquelas desnecessárias.
Para um, o ambiente estimula as modificações que virão a ocorrer. Para outro, o ambiente seleciona aquelas que já ocorreram.
O problema maior do darwinismo é que não explica a origem daquilo que seu autor chama de variabilidade. Ele escreve de forma categórica sobre "a nossa ignorância total sobre as razões de cada variação particular". Estas razões são explicadas hoje pelas leis da hereditariedade ditadas por um contemporâneo de Darwin, Gregor Mendel, e pela natureza do material genético. E elas complementam bem a teoria darwiniana, se fundindo hoje em uma teoria sintética mais ampla, o neodarwinismo.
Em A Origem das Espécies podem ser encontradas diversas citações aos pressupostos de Lamarck: "Os fatos não admitem dúvida: o uso reforça e desenvolve certas partes, enquanto o não-uso as diminui e, além disso, que essas mudanças são hereditárias."
Em outros trechos Darwin afirma que "muitos animais possuem órgãos cuja presença somente se explica pelos efeitos do não-uso." e "a seleção natural vem completar o trabalho iniciado pelo não-uso do órgão".
A evidente importância da teoria da evolução se mostra nas variações que a civilização moderna a aplica, como na economia, na sociologia ou mesmo na lingüística. As dificuldades que Darwin encontrou foram abordadas e discutidas na própria obra, em capítulo específico, e as contestações foram analisadas uma a uma.
Apesar de buscar em equívocos de Lamarck elementos para preencher as lacunas de sua própria teoria, Darwin não precisa que evidenciem seu valor escondendo seus erros. Contrapor as idéias de Darwin e Lamarck em sala de aula como se fossem opostas não é a expressão da verdade. Uma verdade que, assim como Darwin, todos nós buscamos, e descobrimos que, em ciência, ela sempre vai mudar .
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Permalink Responder até Rodrigo Véras em 10 janeiro 2012 at 16:05
Realmente Darwin defendeu tais posições e até propôs um modelo de hereditariedade que se opunha ao modelo canônico de mistura, a pangênese, através do qual caracteres adquiridos pelo uso e desuso poderiam ser herdados. Mas o maior problema é que mesmo assim isso não faz de Darwin Lamarckista, em senso restrito, por um simples motivo, a teoria da herança suave (isto é, a herança de caracteres adquiridos) e o uso e desuso não são conceitos originais de Lamark, mas sim visões de senso comum e compartilhadas pelos naturalistas do século XVIII e XIX sobre a herança biológica. Quando Darwin se opunha a Lamarck, se opunha ao caráter progressista e direcional do modelo transformista de Lamarck e o seu lado quase-intencional. O modelo de evolução Darwin e Wallace é como diz Mayr variacional, diferente do tipo de transformismo progressista que Lamarck propunha.
O termo 'lamarckismo' deve ter se tornado atrelado à herança de caracteres adquiridos por uso e desuso, provavelmente, por causa dos chamados Neo-Lamarckistas Americanos que durante o período conhecido como "Eclipse do Darwinismo" no final do século XIX e começo do século XX ganharam terreno, junto a outras escolas de pensamento evolutivo, como a Ortogênese e o Mutacionismo.
Os Neo-Lamarckistas enfatizavam sim o papel do ambiente como indutor direto de modificações herdáveis e adaptativas, enquanto os Neo-Darwinistas (pré-síntese) inspirados na visão de Wallace e especialmente de August Weismann haviam expurgado a herança suave do modelo de evolução variacional por seleção natural de Darwin e Wallace. É deste período que provavelmente veio a contraposição moderna e simplista entre "Darwinismo", de um lado, e "Lamarckismo", de outro, que acabou por distorcer e ocultar as particularidades de pensamento tanto de Darwin como de Lamarck.
Isso parece apenas picuinha minha, mas é exatamente por que concordo com a questão da precisão histórica e com a apresentação mais fidedigna das ideias e posições dos cientistas que faço esta ressalva ao texto.
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Abraços,
Rodrigo Véras
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