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Um espaço para agregar ciência e filosofia sobre evolução biológica. Contribua!

Memética como hipótese evolucionista para a cultura

Se entendermos a evolução biológica como reprodução diferencial de replicadores genéticos, poderíamos aplicar analogamente este pensamento à cultura?

Seria a cultura capaz de evoluir?
A evolução cultural pode ser reduzida a unidades de aprendizado?
Essas unidades podem ser bem explicadas pelo conceito de meme?

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Respostas a este tópico

Bom, primeiro vou fazer observações de cunho mais geral, e depois entrar nos exemplos dados sobre 'linguagem', que é devidamente 'my cup of tea', como dizem os Ingleses...ehauheaue

No que diz respeito a definição de 'cultura', também acho que seja uma etapa essencial de compreensão destes fenômenos. Entretanto, vale lembrar que como qualquer conceito embebido em uma teoria científica qualquer, uma definição particular de 'cultura' não é melhor nem pior que outra em princípio mas apenas em virtude do sucesso explanatório/descritivo de uma teoria na qual essa definição particular esteja inserida. Um exemplo conhecido: a noção de 'massa'. Na mecânica Newtoniana, clássica, a massa de um corpo é invariante, independente da energia desse corpo, da sua posição em um campo de forças quaisquer, etc. Na mecânica relativística, aprendemos que a massa de um corpo pode variar em função da velocidade com que esse corpo descreve uma trajetória qualquer, se essa velocidade for 'extrema'. Agora, no que tange a explicação do que se chama de fenômenos cotidianos da nossa experiência, não há problema algum em se usar a noção Newtoniana de massa, muito embora ela seja em algum sentido 'errada' ou ao menos 'limitada'.

Um ponto pacífico em relação a 'cultura', e que reflete uma estratégia epistemológica de grande sucesso nas ciências cognitivas (o 'estado da arte' em ciências da mente e do comportamento) é aquele segundo o qual podemos assumir que a cultura é, no mínimo, uma propriedade de indivíduos. Isso é algo que podemos tomar como um ponto de entrada na discussão. Nós aprendemos como indivíduos e "objetos culturais" só tem existência na mente de agentes particulares. Como suposição relacionada, e que parece chocante para alguns, concluimos que o grande desafio consiste em explicar como e em que sentido a 'cultura' é também a propriedade de um conjunto, ou grupo de indivíduos ou agentes. Bom, tomando isso como base, o que me parece mais apropriado, do ponto de vista do meu conhecimento e formação em ciências cognitivas (e também do que a meu ver é o melhor trabalho sobre evolução cultural existente: o de Robert Boyd e Peter Richerson, cf. (2005) Not by Genes Alone: How Culture Transformed Human Evolution) é o de se tomar um conceito cognitivo ou psicológico de cultura. Seguindo Richerson & Boyd: cultura são padrões de informação, crenças, estados mentais, estratégias de processamento de informação, etc...que os indivíduos adquirem através de aprendizado social (e existem inúmeras formas de 'aprendizado social').

Bom, em segundo lugar, eu sou um tanto quanto cético com relação a 'memética', em parte porque o que se considera como 'cultura', o campo de aplicação dessa área (ou dessa 'perspectiva') não parece ser um todo coeso, parecem ser um série de fenômenos que, quando analizados em detalhe, se mostram muuuuuuuuito diferentes. Me explico brevemente.

Podemos pegar o caso da linguagem. Posso afirmar com certeza que sobre nenhum outro fenômeno considerado "cultural" (nos termos digamos, "pré-teóricos" do senso-comum) conhece-se tanto sobre a natureza do fenômeno em si, e sobre a relação entre esse 'pedaço de cultura' e a biologia. E bom, o previsível aconteceu: quando uma ciência se desenvolve demais, perguntas simples e diretas tornam-se desconcertantes e mesmo quase ininteligíveis. "cultura ou biologia?" bom...não sabemos ao certo, mas linguagem (línguas naturais) são objetos mais biológicos do que culturais. Melhor dizendo, o objeto de estudo da linguistica também não se coaduna com a noção senso-comum do termo 'linguagem' (em nenhuma ciência é assim, por que na minha seria?). Ao invés de entrar nos detalhes de linguistica aqui, em consideração a discussão ai envolvendo "palavras", "sons" e "escrita" vale dizer pelo menos isso: escrita é uma coisa, sua língua natural e o sistema gramatical que você desenvolveu, por mera exposição (sem 'aprendizado' no sentido tradicional do termo) e que lhe permite compreender e produzir um número infinito de sentenças estruturadas a partir de um número finito de objetos mais simples (fonemas, itens lexicais, traços (termo técnico..ehauea)) são oooooutra coisa. Escrita e sistemas ortográficos são objetos claramente culturais: algumas sociedades humanas os tem , outras não; o desenvolvimento não é espontâneo e subconsciente como é o da sua língua nativa: requer esforço, motivação e atenção direcionada conscientemente; e, crucialmente, é algo que demonstra enorme variação interindividual: alguns aprendem bem mais cedo, ou com muito mais facilidade a escrever e ler do que outros, e os estados finais do processo de desenvolvimento também parecem ser algo distintos. Ao passo que, as capacidades descritas pelas gramáticas (novamente, em sentido técnico da linguistica) de linguas individuais, descrevendo a competência linguistica de individuos, são basicamente invariantes (i.e., o estágio final de desenvolvimento), além é claro, do estado inicial de aquisição, que compreendemos como um conjunto inato de principios de estruturação gramatical (cuja teoria é a Gramatica Universal) contendo parâmetros de variação permissível, que definem de fato a noção de "língua natural possivel" e que são "fixados" durante o processo de aquisição (isso é claro, não existinto 'predisposição "racial"' ou étnica para a aquisição de uma língua qualquer...séculos e séculos de imigração funcionam como experimentos naturais demonstrando isso...todas as línguas são igualmente fáceis de serem aprendidas como linguas nativas, demostrando o mesmo padrão de desenvolvimento em qualquer lugar do mundo).

Um outro fato de natureza 'antropológica' é interessante: não existem línguas (ou tecnicamente na linguistica: gramáticas ou sistemas gramaticais) mais ou menos complexos. Povos ágrafos, sem agricultura, vivendo de caça-e-coleta e com mitos animistas tem línguas tão complexas quanto e estruturadas com base nos mesmo principios invariantes e universais do que o línguas de povos que vivem em sociedades urbanas, megalópoles ocidentais do século XXI e etc. Uma outra evidência de que língua é algo diferente do que se entende por 'cultura' quando nos referimos a culinária, religião, vestimentas, etc. ;)

Então, o que corresponde a algo que parece ser um 'domínio' do fenômeno cultural, é na verdade algo muito mais complexo, com fronteiras entre o 'cultural' e o 'biológico' que não são claramente marcadas.
Sua "língua nativa", sua competência gramatical (desenvolvida naturalmente por qualquer ser humano neurológicamente normal) são mais como algoritmos e heuristicas perceptuais, isto é são processos computacionais extremamente complexos porém subconscientes e qualitativamente invariantes. Entretanto, eles tem algo que "parece cultural": populações diferentes tem linguas diferentes. Difícil de entender né? Nem me diga....ehauehauehua

Bom, acho que isso é suficiente por agora...=)
Creio que eu deveria ter começado este fórum com um texto meu, que publiquei em meu blog pessoal em março de 2008. Este texto pretende ser introdutório para a hipótese memética. Reproduzo-o abaixo.

___

No último capítulo do livro "O Gene Egoísta" de Richard Dawkins, um conceito importante é introduzido: o meme.

O termo meme surgiu como uma analogia ao gene. Da mesma forma que o gene seria a unidade mais básica da informação do DNA, acumulada durante 3,8 bilhões de anos de descendência com modificação dos seres vivos terrestres, o meme seria a unidade replicante básica da cultura. Cultura pode ser vista como o conjunto de informações que não estão presentes no DNA e são passadas através de aprendizado, e se encontram armazenadas na memória ontogenética dos cérebros, nos livros, nos sites, nos artefatos de engenharia, etc.

A Biologia Molecular sabe muitas coisas sobre um gene: que seqüências de nucleotídeos indicam onde começa e termina, e onde será cortado (editado) caso o ser vivo seja dotado do tal "Splicing Alternativo", como o gene é transcrito para RNA e traduzido na seqüência de aminoácidos, etc.

As neurociências não têm ainda tanto a dizer sobre unidades de memória ontogenética. Sabemos que órgãos e comportamentos estão ligados à memória: hipotálamo e hipocampo são centros de organização e armazenamento, o sono é uma sucessão de eventos de consolidação.

Obviamente, não se pode apontar ainda o que exatamente na memória corresponde aos memes. Mas a Memética ajuda a elucidar a evolução das culturas assim como a Genética elucida a evolução biológica. Se a segunda pode ser entendida como a alteração na freqüência de genes através das gerações, a primeira pode ser entendida como a alteração na frequência de memes através do tempo (com nível substancial, mas não obrigatório, de hereditariedade).

O meme pode ser definido como uma idéia, um hábito, um "algoritmo" artificialmente construído, uma forma de pronúncia, e seu conjunto pode ser visto como blocos sustentados sobre bases que já possuímos.

Por exemplo, Noam Chomsky propõe um "órgão da linguagem" inato que consiste em nossa predisposição a falar. Alguns experimentos, como o do faraó Psamético I relatado por Heródoto, poderiam mostrar como uma língua nasce a partir de um conjunto de seres humanos que nunca tiveram contato com nenhuma outra língua. O "órgão da linguagem" não seria constituído por memes, mas por genes. Alguns genes, como o Foxp2, foram associados à linguagem.
Sobre a base do órgão da linguagem é que se sustentam os memes da língua, que dependem de aprendizado e conhecimento acumulado na cultura: como chamar um alimento rico em amido de trigo de "pão" ou "bekos" (como relatado do experimento do faraó).

___


A Filologia já trabalha com a hipótese memética (sob outras designações) há tempo.
Antropólogos, por exemplo, usam palavras similares de várias línguas para dizer se há uma língua ancestral comum entre elas, e, por conseguinte, uma cultura ancestral comum entre as culturas que apresentam essas línguas.

E isso corresponde muitas vezes ao padrão de distribuição de populações humanas previsto por análises biológicas (biogeográficas).
Por exemplo, em 2007 foi publicado um artigo de Kumar e colaboradores mostrando similaridades genéticas entre populações asiáticas falantes das línguas da família lingüística austro-asiática.

O meme se replica usando mentes, assim como um vírus só se replica usando o metabolismo de uma célula. Os genes do vírus, assim como um gene isolado no genoma humano, não se replicam por si mesmos - a partícula viral solitária, mesmo num ambiente rico em nutrientes biológicos, é inerte, diferente de uma célula bacteriana. (O modo como os genes passaram a ser, em conjunto, verdadeiramente auto-replicantes, é uma questão a ser respondida no contexto da origem da vida.)

Memes, assim como genes, também podem se extinguir: toda a língua da cultura Xi Xia, destruída por Gêngis Khan, bem como o modo como se lêem suas escrituras, como se pronunciam seus signos, são exemplos de memes extintos.
___

História e exemplos

Uma parte fundamental dos memes tem origem há cerca de 150 a 200 mil anos na África, junto com o surgimento do Homo sapiens. Alguns dos memes são muito antigos, como vestir roupas (data do Pleistoceno), e o uso de ferramentas, enquanto outros são muito recentes, como gritar "ah eu tô maluco!" no estádio de futebol (este último tem caído vertiginosamente no pool mêmico nos últimos cinco anos).

É possível traçar esboços de clados de memes lingüísticos, melhor ainda, de etimologia das palavras (dado que é difícil saber o quanto mudou o significado por trás do termo).

Por exemplo, a palavra do inglês contemporâneo thwart (atravessar, barrar, frustrar).

Segundo o site YourDictionary.com, thwart tem origem na língua germânica comum. Talvez impossível saber que forma tinha inicialmente.

Mas os descendentes do ancestral comum da palavra thwart se encontram em todas as línguas germânicas (definições em inglês entre parênteses).
No alemão, zwerch. ("athwart")
No norueguês, tvers. ("over")
No sueco, tvär. ("crossways")
No dinamarquês, tværs.("across")

Com um estudo mais aprofundado, talvez seja possível para o filologista traçar como cada uma dessas formas se aparenta com outras, e é proposto também que essas palavras compartilhem parentesco com o torquere do latim (contorcer), que teria nos dado também palavras da raiz de tortuoso.

Por mais imprecisas que sejam essas hipóteses, a idéia principal é que isso mostra como os memes evoluem com o passar das gerações.

Como pode acontecer também com genes, nem sempre a forma encontrada numa dada população é fruto de seleção.

Tvär é tão bom quanto tværs, o mesmo pode ser dito quanto às diferenças quanto ao uso e significado dessas palavras. A explicação mais parcimoniosa é que essas formas se encontram como são hoje em suas respectivas línguas porque houve DERIVA do meme - estão aí por fatores estocásticos, resultantes de aleatoriedade.

A hipótese de deriva diz que a palavra (ou o meme) se encontra como está porque

1 - Os fundadores da primeira população falante da língua em questão (por exemplo, o norueguês) pronunciavam "por acaso" essa palavra de um modo um pouco diferente de como costumava ser pronunciada na cultura de seus pais. Isso é o efeito do fundador. (Pensem em como se pronuncia a letra R em "porta" dependendo da região do Brasil.)Esse modo de pronúncia já direcionou mudanças com o passar das gerações de modo à palavra atual ser tvers.

2 - Dentro da população que falava a língua germânica comum, outros modos de pronúncia foram desaparecendo, porque as pessoas que os usavam não tinham muita visibilidade social. Permaneceu a pronúncia mais usada na primeira população da Noruega e esta se assemelhava mais a tvers. Isso é o efeito do gargalo de garrafa (bottlenecking).(Pensem em como é considerado "deselegante" que apresentadores de telejornal pronunciem poRRta como se faz no interior de São Paulo e em Uberlândia.)

A diferença entre os dois efeitos é que o 1 parte de uma baixa freqüência do meme para uma alta freqüência do meme conforme a população falante da língua norueguesa cresceu. (A cultura se expandiu.) E o 2 presume que a presença do meme atual se deve mais à extinção de outros memes.

Além dos fatores estocásticos, pode ter acontecido também seleção.

Não estamos falando de seleção natural, dado que estamos tratando de cultura.

A seleção dentro da Memética acontecerá de acordo com princípios lamarckistas, pois uma pessoa pode deixar de usar memes durante sua vida e pode adquirir novos memes, além de poder criar novos memes. Uso e desuso.

Falando denovo em palavras, como uma palavra que se encontra hoje em alguma língua pode ter sido selecionada?

É aí que entra o que os linguistas chamam de "lei do menor esforço" - passar mais informação pronunciando menos fonemas, o que pode ter uma vantagem dependendo da cultura analisada.

Exemplo de palavra que mudou de acordo com a lei do menor esforço a seguir.

Na língua inglesa predominam palavras curtas, monossílabos, dissílabos e trissílabos principalmente no uso coloquial. Algumas palavras grandes comuns em línguas latinas como o português são consideradas palavras "difíceis" (aquelas de menor uso, mais freqüentes em dicionários que em uso coloquial).
No Brasil o uso da palavra "adquirir" é comum, mas nos EUA é raro o uso da forma "acquire", sendo preferida o sinônimo condicional "get" (que também substitui como sinônimo muitas outras palavras maiores, como "understand").

No português brasileiro, diríamos que um viciado vai para a clínica de reabilitação. No Reino Unido, "clínica de reabilitação" é simplesmente rehab.

Rehab tem uma origem muito clara, que é rehabilitation - uma palavra grande para os padrões da língua inglesa. De acordo com a "lei" do menor esforço, aposto que "rehab" é muito mais utilizada pelo falante coloquial do que "rehabilitation", portanto há seleção do meme que diz respeito à utilização dessa palavra.
Principalmente depois da música "Rehab" de Amy Winehouse. :-D

Estou falando do surgimento de novidades evolutivas culturais no nível dos memes, mais particularmente nos memes que dizem respeito ao uso de palavras para expressar significados.

Outra fonte de novidade evolutiva é mutação.

Como um meme sofre mutação?

Dou mais um exemplo para tentar compreender:

Os memes referentes a fast food cresceram muito no século XX. Tomemos a expressão "Cheese Burger".

Burger já é uma forma mutada. Sofreu seleção da "lei" do menor esforço a partir do ainda usado hamburger.

Hamburger também é uma forma mutada, não na grafia mas no significado - no passado era usado apenas para designar algo ou alguém originário da cidade alemã de Hamburgo.

Agora a forma derivada usada em lanchonetes brasileiras por aí: X-burguer.
O X vem da pronúncia levemente incorreta (mutação!) da palavra cheese, que é idêntica ao nome da letra no português. Por isso, de acordo com a lei do menor esforço, que serve também para a grafia, Cheese virou X (mutação!).
___

Música como caso especial de complexo de memes

Se o "órgão da linguagem" de Chomsky é a base genética sobre a qual se fundam os memes da língua, haveria bases genéticas para sustentar os memes da música?

Estamos, acredito, pré-dispostos geneticamente para encontrar padrões sonoros e vocalização para reforçar sentimentos e estimular um mesmo estado mental para um conjunto de mentes ao mesmo tempo.

O conhecimento é precário quanto a como essa pré-disposição teria surgido. Temos apenas hipóteses, entre elas, a de que a música surgiu para nós como a cauda do pavão: seleção sexual. Mas não se observa (aparentemente) diferença de aptidão musical entre homens e mulheres, e isso traz um problema para esta hipótese, dado que apenas o macho teria o que se chama de "display" (exibição) a sofrer a atuação da seleção sexual.

A nossa musicalidade pode ter sido também um subproduto de outras aptidões. A vocalização, a produção de som em geral é muito útil e tem papéis claros na evolução: espécies com comunicação interindivíduos têm claras vantagens evolutivas: agregar os filhotes em volta da mãe, afastar predadores e competidores, etc.

O nosso cerebelo, antes ligado apenas ao equilíbrio e habilidades motoras, foi descoberto como um região encefálica importante durante a interação com a música.

Uma notícia da Nature diz que "culturas africanas que têm cantos similares tendem a ser geneticamente próximas", um indício de que existe mesmo esta pré-disposição:
http://www.nature.com/news/2007/071210/full/news.2007.359.html
Assim, se há bases genéticas para formas de se fazer música, a letra de "Garota de Ipanema", por exemplo, seria um meme (ou conjunto de memes) sustentado por essas bases.

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Fontes e Bibliografia Relacionada
Alberts, Bruce et al. Molecular Biology of The Cell. Garland Science, 2002.
Dawkins, Richard. O Gene Egoísta.
Dennett, Daniel. A Perigosa Idéia de Darwin.
Kumar, Vikrant et al. Y-chromosome evidence suggests a common pater...
Ridley, Mark. Evolução.
YourDictionary.com
EXTRA! EXTRA! EXTRA!!!
.
Acabou de sair há poucos dias um artigo na renomada publicação Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) falando em Memética!
.
Repeated learning makes cultural evolution unique
Pontus Strimlinga, Magnus Enquista, and Kimmo Erikssona.
.
http://www.pnas.org/content/106/33/13870
.
Leiam este parágrafo delicioso:
.
Arguably, the most popular recent evolutionary hypothesis
about culture is memetics, which maintains that cultural evolution
is the playing field of selfish memes; simply put, the idea is
that the success of cultural traits is determined by their inherent
power to spread between human minds (1, 4, 9). This is a powerful
idea that potentially explains observations of irrational behavior
and strange beliefs and is in line with human susceptibility to persuasion
and irrelevant stimuli (such as that in advertisements).
Rational-choice theories of human behavior lend more power to
the individual, who is assumed to be capable of making rational
choices among existing cultural alternatives; theorists in this tradition
tend to seek rational explanations to seemingly irrational
elements of culture (10).
Opa, bom dia pra vocês.

Esse artigo do Dan Sperber mostra os problemas que vão se acumulando na idéia de uma evolução cultural a medida que se tenta deixar mais rigorosos os termos e os processo.
http://www.dan.sperber.fr/wp-content/uploads/2009/09/meme.pdf
Sempre bom lembrar que a idéia de uma visão de evolução memética não tem como grande vantagem a analogia com a genética, mas sim a possível utilização de mecanismos mais gerais da seleção natural, o hipotético darwinismo universal, com "aplicações" em vários outros fenômenos mais distantes ainda da genética, tipo isso aqui
http://en.wikipedia.org/wiki/Fecund_universes_theory
(não consegui botar os hiperlinks no post, ficou feio mesmo).
E em relação ao exemplo da memética como mecanismo pra explicar mudanças nas linguas naturais, é bem o que o Fernando falou, se trata de um fenômeno bem mais "biológico" do que cultural, onde mesmo algumas das alterações históricas seguem regularidades atípicas (lei de Verner, de Grimm) em um processo de seleção natural. O quanto a disseminação de palavras e expressões seguiu um padrão análogo às populações humanas ao longo do tempo é realmente interessante (e empiricamente testável, o que é raro em memética) mas não se pode excluir a priori mecanismos outros que não darwinistas, como um modelo epidemiológico, por exemplo. Além disso, restringir a idéia de evolução cultural à mudanças no léxico parece ser bem pouco pra uma teoria de explicação da "cultura".


Eli Vieira disse:
Creio que eu deveria ter começado este fórum com um texto meu, que publiquei em meu blog pessoal em março de 2008. Este texto pretende ser introdutório para a hipótese memética. Reproduzo-o abaixo.

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No último capítulo do livro "O Gene Egoísta" de Richard Dawkins, um conceito importante é introduzido: o meme.

O termo meme surgiu como uma analogia ao gene. Da mesma forma que o gene seria a unidade mais básica da informação do DNA, acumulada durante 3,8 bilhões de anos de descendência com modificação dos seres vivos terrestres, o meme seria a unidade replicante básica da cultura. Cultura pode ser vista como o conjunto de informações que não estão presentes no DNA e são passadas através de aprendizado, e se encontram armazenadas na memória ontogenética dos cérebros, nos livros, nos sites, nos artefatos de engenharia, etc.

A Biologia Molecular sabe muitas coisas sobre um gene: que seqüências de nucleotídeos indicam onde começa e termina, e onde será cortado (editado) caso o ser vivo seja dotado do tal "Splicing Alternativo", como o gene é transcrito para RNA e traduzido na seqüência de aminoácidos, etc.

As neurociências não têm ainda tanto a dizer sobre unidades de memória ontogenética. Sabemos que órgãos e comportamentos estão ligados à memória: hipotálamo e hipocampo são centros de organização e armazenamento, o sono é uma sucessão de eventos de consolidação.

Obviamente, não se pode apontar ainda o que exatamente na memória corresponde aos memes. Mas a Memética ajuda a elucidar a evolução das culturas assim como a Genética elucida a evolução biológica. Se a segunda pode ser entendida como a alteração na freqüência de genes através das gerações, a primeira pode ser entendida como a alteração na frequência de memes através do tempo (com nível substancial, mas não obrigatório, de hereditariedade).

O meme pode ser definido como uma idéia, um hábito, um "algoritmo" artificialmente construído, uma forma de pronúncia, e seu conjunto pode ser visto como blocos sustentados sobre bases que já possuímos.

Por exemplo, Noam Chomsky propõe um "órgão da linguagem" inato que consiste em nossa predisposição a falar. Alguns experimentos, como o do faraó Psamético I relatado por Heródoto, poderiam mostrar como uma língua nasce a partir de um conjunto de seres humanos que nunca tiveram contato com nenhuma outra língua. O "órgão da linguagem" não seria constituído por memes, mas por genes. Alguns genes, como o Foxp2, foram associados à linguagem.
Sobre a base do órgão da linguagem é que se sustentam os memes da língua, que dependem de aprendizado e conhecimento acumulado na cultura: como chamar um alimento rico em amido de trigo de "pão" ou "bekos" (como relatado do experimento do faraó).

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A Filologia já trabalha com a hipótese memética (sob outras designações) há tempo.
Antropólogos, por exemplo, usam palavras similares de várias línguas para dizer se há uma língua ancestral comum entre elas, e, por conseguinte, uma cultura ancestral comum entre as culturas que apresentam essas línguas.

E isso corresponde muitas vezes ao padrão de distribuição de populações humanas previsto por análises biológicas (biogeográficas).
Por exemplo, em 2007 foi publicado um artigo de Kumar e colaboradores mostrando similaridades genéticas entre populações asiáticas falantes das línguas da família lingüística austro-asiática.

O meme se replica usando mentes, assim como um vírus só se replica usando o metabolismo de uma célula. Os genes do vírus, assim como um gene isolado no genoma humano, não se replicam por si mesmos - a partícula viral solitária, mesmo num ambiente rico em nutrientes biológicos, é inerte, diferente de uma célula bacteriana. (O modo como os genes passaram a ser, em conjunto, verdadeiramente auto-replicantes, é uma questão a ser respondida no contexto da origem da vida.)

Memes, assim como genes, também podem se extinguir: toda a língua da cultura Xi Xia, destruída por Gêngis Khan, bem como o modo como se lêem suas escrituras, como se pronunciam seus signos, são exemplos de memes extintos.
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História e exemplos

Uma parte fundamental dos memes tem origem há cerca de 150 a 200 mil anos na África, junto com o surgimento do Homo sapiens. Alguns dos memes são muito antigos, como vestir roupas (data do Pleistoceno), e o uso de ferramentas, enquanto outros são muito recentes, como gritar "ah eu tô maluco!" no estádio de futebol (este último tem caído vertiginosamente no pool mêmico nos últimos cinco anos).

É possível traçar esboços de clados de memes lingüísticos, melhor ainda, de etimologia das palavras (dado que é difícil saber o quanto mudou o significado por trás do termo).

Por exemplo, a palavra do inglês contemporâneo thwart (atravessar, barrar, frustrar).

Segundo o site YourDictionary.com, thwart tem origem na língua germânica comum. Talvez impossível saber que forma tinha inicialmente.

Mas os descendentes do ancestral comum da palavra thwart se encontram em todas as línguas germânicas (definições em inglês entre parênteses).
No alemão, zwerch. ("athwart")
No norueguês, tvers. ("over")
No sueco, tvär. ("crossways")
No dinamarquês, tværs.("across")

Com um estudo mais aprofundado, talvez seja possível para o filologista traçar como cada uma dessas formas se aparenta com outras, e é proposto também que essas palavras compartilhem parentesco com o torquere do latim (contorcer), que teria nos dado também palavras da raiz de tortuoso.

Por mais imprecisas que sejam essas hipóteses, a idéia principal é que isso mostra como os memes evoluem com o passar das gerações.

Como pode acontecer também com genes, nem sempre a forma encontrada numa dada população é fruto de seleção.

Tvär é tão bom quanto tværs, o mesmo pode ser dito quanto às diferenças quanto ao uso e significado dessas palavras. A explicação mais parcimoniosa é que essas formas se encontram como são hoje em suas respectivas línguas porque houve DERIVA do meme - estão aí por fatores estocásticos, resultantes de aleatoriedade.

A hipótese de deriva diz que a palavra (ou o meme) se encontra como está porque

1 - Os fundadores da primeira população falante da língua em questão (por exemplo, o norueguês) pronunciavam "por acaso" essa palavra de um modo um pouco diferente de como costumava ser pronunciada na cultura de seus pais. Isso é o efeito do fundador. (Pensem em como se pronuncia a letra R em "porta" dependendo da região do Brasil.)Esse modo de pronúncia já direcionou mudanças com o passar das gerações de modo à palavra atual ser tvers.

2 - Dentro da população que falava a língua germânica comum, outros modos de pronúncia foram desaparecendo, porque as pessoas que os usavam não tinham muita visibilidade social. Permaneceu a pronúncia mais usada na primeira população da Noruega e esta se assemelhava mais a tvers. Isso é o efeito do gargalo de garrafa (bottlenecking).(Pensem em como é considerado "deselegante" que apresentadores de telejornal pronunciem poRRta como se faz no interior de São Paulo e em Uberlândia.)

A diferença entre os dois efeitos é que o 1 parte de uma baixa freqüência do meme para uma alta freqüência do meme conforme a população falante da língua norueguesa cresceu. (A cultura se expandiu.) E o 2 presume que a presença do meme atual se deve mais à extinção de outros memes.

Além dos fatores estocásticos, pode ter acontecido também seleção.

Não estamos falando de seleção natural, dado que estamos tratando de cultura.

A seleção dentro da Memética acontecerá de acordo com princípios lamarckistas, pois uma pessoa pode deixar de usar memes durante sua vida e pode adquirir novos memes, além de poder criar novos memes. Uso e desuso.

Falando denovo em palavras, como uma palavra que se encontra hoje em alguma língua pode ter sido selecionada?

É aí que entra o que os linguistas chamam de "lei do menor esforço" - passar mais informação pronunciando menos fonemas, o que pode ter uma vantagem dependendo da cultura analisada.

Exemplo de palavra que mudou de acordo com a lei do menor esforço a seguir.

Na língua inglesa predominam palavras curtas, monossílabos, dissílabos e trissílabos principalmente no uso coloquial. Algumas palavras grandes comuns em línguas latinas como o português são consideradas palavras "difíceis" (aquelas de menor uso, mais freqüentes em dicionários que em uso coloquial).
No Brasil o uso da palavra "adquirir" é comum, mas nos EUA é raro o uso da forma "acquire", sendo preferida o sinônimo condicional "get" (que também substitui como sinônimo muitas outras palavras maiores, como "understand").

No português brasileiro, diríamos que um viciado vai para a clínica de reabilitação. No Reino Unido, "clínica de reabilitação" é simplesmente rehab.

Rehab tem uma origem muito clara, que é rehabilitation - uma palavra grande para os padrões da língua inglesa. De acordo com a "lei" do menor esforço, aposto que "rehab" é muito mais utilizada pelo falante coloquial do que "rehabilitation", portanto há seleção do meme que diz respeito à utilização dessa palavra.
Principalmente depois da música "Rehab" de Amy Winehouse. :-D

Estou falando do surgimento de novidades evolutivas culturais no nível dos memes, mais particularmente nos memes que dizem respeito ao uso de palavras para expressar significados.

Outra fonte de novidade evolutiva é mutação.

Como um meme sofre mutação?

Dou mais um exemplo para tentar compreender:

Os memes referentes a fast food cresceram muito no século XX. Tomemos a expressão "Cheese Burger".

Burger já é uma forma mutada. Sofreu seleção da "lei" do menor esforço a partir do ainda usado hamburger.

Hamburger também é uma forma mutada, não na grafia mas no significado - no passado era usado apenas para designar algo ou alguém originário da cidade alemã de Hamburgo.

Agora a forma derivada usada em lanchonetes brasileiras por aí: X-burguer.
O X vem da pronúncia levemente incorreta (mutação!) da palavra cheese, que é idêntica ao nome da letra no português. Por isso, de acordo com a lei do menor esforço, que serve também para a grafia, Cheese virou X (mutação!).
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Música como caso especial de complexo de memes

Se o "órgão da linguagem" de Chomsky é a base genética sobre a qual se fundam os memes da língua, haveria bases genéticas para sustentar os memes da música?

Estamos, acredito, pré-dispostos geneticamente para encontrar padrões sonoros e vocalização para reforçar sentimentos e estimular um mesmo estado mental para um conjunto de mentes ao mesmo tempo.

O conhecimento é precário quanto a como essa pré-disposição teria surgido. Temos apenas hipóteses, entre elas, a de que a música surgiu para nós como a cauda do pavão: seleção sexual. Mas não se observa (aparentemente) diferença de aptidão musical entre homens e mulheres, e isso traz um problema para esta hipótese, dado que apenas o macho teria o que se chama de "display" (exibição) a sofrer a atuação da seleção sexual.

A nossa musicalidade pode ter sido também um subproduto de outras aptidões. A vocalização, a produção de som em geral é muito útil e tem papéis claros na evolução: espécies com comunicação interindivíduos têm claras vantagens evolutivas: agregar os filhotes em volta da mãe, afastar predadores e competidores, etc.

O nosso cerebelo, antes ligado apenas ao equilíbrio e habilidades motoras, foi descoberto como um região encefálica importante durante a interação com a música.

Uma notícia da Nature diz que "culturas africanas que têm cantos similares tendem a ser geneticamente próximas", um indício de que existe mesmo esta pré-disposição:
http://www.nature.com/news/2007/071210/full/news.2007.359.html
Assim, se há bases genéticas para formas de se fazer música, a letra de "Garota de Ipanema", por exemplo, seria um meme (ou conjunto de memes) sustentado por essas bases.

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Fontes e Bibliografia Relacionada
Alberts, Bruce et al. Molecular Biology of The Cell. Garland Science, 2002.
Dawkins, Richard. O Gene Egoísta.
Dennett, Daniel. A Perigosa Idéia de Darwin.
Kumar, Vikrant et al. Y-chromosome evidence suggests a common pater...
Ridley, Mark. Evolução.
YourDictionary.com
Olá amigo , olha, segundo Wittgenstein a informação-comunicação se dá via Jogos de Liguagem,'estes e as Formas de Vida a que correspondem são a condição de possibilidade para o uso da linguagem e, portanto, de tudo que decorre deste uso. Neste sentido até mesmo a escrita estaria condicionada a esta interação coloquial. Claro que esta relaçäo oralidade X escritura ainda não está bem equacionada. Mas, eu, pessoalmente, penso que a elefanta e seu grupo que ensina o elefantinho a usar a tromba, transmitem esta cultura. O humano na minha opinião segue este impulso ( genético. ?) de transmitir comportamento, apenas que usamos vocábulos e por isto mesmo nosso comportamento é extraordinariamente complexo.

Eli Vieira disse:
Olá Roberto, fico feliz por seu interesse nesse debate. Roberto Alves de Almeida disse:
A primeira pergunta é bem complexa e remete a segunda.
Acho que para começarmos o debate é preciso em primeiro lugar definir exatamente o que é "evolução biológica". Se for apenas e simplesmente mudança, então cultura efetivamente evolui posto que muda. Mas se evolução biológica é 'algo mais' do que mudança, ai cabe discutir se há ou não alguma analogia entre os dois processos. Ou seja, o chute inicial está em dar a defininição de evolução biológica. A partir dai a discussão pode fluir. Ah, é calro, depois desta definição inicial, é preciso também definir cultura, o que já é bem amis complicado.

Roberto, a definição de evolução não carece dos mecanismos evolutivos. Como diz Rosana Tidon, pode-se imaginar até que seja um deus controlando, mas o processo da evolução simplesmente acontece e ele é definido como pura mudança. Mas não qualquer tipo de mudança. Por isso, apresento duas definições, dos glossários de dois livros famosos da Biologia evolutiva:

Glossário de "Evolução", de Mark Ridley (Artmed, 2006):

"evolução - Darwin definiu-a como "a descendência com modificações". É a mudança, entre as gerações, nas linhagens das populações."



Glossário de "Biologia Evolutiva", de Futuyma (Punpec 2003):

"EVOLUÇÃO
Em sentido amplo, a origem de entidades possuindo diferentes estados de uma ou mais características e as mudanças em suas proporções ao longo do tempo. Evolução orgânica ou evolução biológica é a mudança ao longo do tempo das proporções de organismos individuais diferindo geneticamente em uma ou mais de suas características; tais mudanças expressam-se através da origem e subsequente alteração da frequência de alelos ou genótipos de geração para geração dentro de populações, pela alteração das proporções de populações geneticamente diferenciadas de uma espécie ou pelas mudanças no número de espécies com diferentes características, alterando, desse modo, a frequência de uma ou mais características em um táxon superior."


Portanto, a definição de evolução biológica independe dos mecanismos propostos pela Teoria (Sintética) da Evolução.

Sobre cultura, conta-se uma piada muito comumente: que se você perguntar a 10 antropólogos o que é cultura, obterá 10 respostas diferentes.

A definição que nos interessa seria: conjunto de comportamentos aprendidos, que não são ditados pelos genes. Comportamento engloba aí, creio, memória ontogenética. Nossas memórias, por exemplo, sobre quem foi Getúlio Vargas, são coisas aprendidas, não há genes para Getúlio Vargas nos nossos cérebros.

Há, é claro, genes que controlam o ganho de memória, a seleção das memórias, a reverberação na memória recente, a consolidação em memória de médio e longo prazo, etc. Uma coisa importante a ser definida é que nem toda memória ontogenética é cultura. Podemos imaginar muitas memórias que temos e não são parte da nossa cultura, pois não as ensinamos, não as escrevemos, não as transformamos em informação cultural.

Partindo daí, devemos nos perguntar: de que modo evoluem esses comportamentos aprendidos? Que eles evoluem, para mim não há dúvida. Mas não é, obviamente evolução biológica, e sim cultural.

A Memética entra na história quando propõe que a evolução cultural é análoga à biológica no quesito de ser dotada de replicadores.

Podemos dividir a informação cultural em replicadores? Fica a pergunta.

Perguntas para Memética como hipótese evolucionista para a cultura

Sobre a possibilidade de analogias entre codificação genética e codificação memética, arrisco pela afirmativa, apostando no estudo de propriedades emergentes da complexificação da natureza, que acontece em sequência cronológica :

Um Mundo Físico do qual emerge o Mundo Químico, do qual emerge o Mundo Biológico, do qual Emerge o Mundo Cultural, do qual Emerge o quê?. Que outro fenômeno ou nível fenomênico?

Em cada Emergência acontece: Complexificação. Perguntaria: Ocorreria também uma Estabilização? O que mais? Que é emergência? E mais que tudo: Como e em que medida um nível posterior age no nível anterior? Toda ação seria retroação? A mente e a ação psiofísica são epifenômenos?

Nas últimas duas emergências (do químico para o biológico e do biológico para o cultural), aconteceriam processos de inFORMAtização, com formas físicas, formações orientadas, ou informações fisicalizadas sendo representadas por marcadores (genes e memes). Completando, poderíamos estar no início de uma terceira informatização e numa possível quarta emergência: do cultural para o ultra-tecnológico, à partir do qual, retroagiríamos decisivamente no mundo original, o físico. O Mundo 1 de Popper seria o suporte primeiro de tudo isso, sendo que o Mundo 2 começaria a emergir na terceira emergência, com a criação de um sujeito vivo, ainda animal sem cultura, mas já sujeito, ou proto-sujeito, no mínimo. Com a emergência dos Memes e pela capacidade de abstração e comunicação objetiva entre sujeitos, surge o Mundo 3, onde as informações (habitantes do mundo 3) e os sujeitos (senhores do mundo 2) poderiam retroagir nos mundos "anteriores/inferiores", assim como também as reações biológicas e químicas já transformariam o mundo físico. Nesse contexto, nosso grande salto como humanos seria a passagem de um sujeito genética, psicológica (como em outros animais superiores) e historicamente determinados, para sermos também simbolicamente constituídos. A primeira objetivação, o primeiro nome, provavelmente: "Eu", inauguraria uma dimensão ou instância, o próprio mundo 3, onde passamos a habitar e nos determinar para além do mundo físico e subjetivo.

Partindo das perguntas iniciais de Eli, destacaria “aplicar analogamente este pensamento” , "cultural pode ser reduzida a unidades de aprendizado" e "bem explicada". Isso porque me pareceu ser recorrente e nucleares dois pontos na discussão aqui:

 

Unidade memética

Para pensar a individuação do meme, a identificação de sua unidade, vejo esclarecimento nas duas possibilidades citadas: “Memética digital (caso discreto ) e Memética analógica (caso contínuo)”. No primeiro caso, teríamos uma concepção mais precisa e artificial e na segunda, uma perspectiva mais orgânica? Os dois caminhos podem ser seguidos, por mais de uma corrente de pensamento, que não precisam ter uma relação de oposição. Em todo caso, em que medida e pra quê seria mesmo preciso uma unidade no conhecimento memético e na sua definição? Não conviveriam e interagiriam bem os "objetos sintáticos¨ e ¨objetos semânticos¨, cada um descrevendo uma visão do mesmo objeto?  A descrição memética que pretendesse desenvolver analogias com a genética teria que dar conta da epigenética.  Entre outras possibilidades de conceber essa disciplina, o desenvolvimento genético seria observado e concebido em suas efetivas consequências fenotípicas, ligando ou desativando instruções com algum tipo de feedback do ambiente. Isso para tentar dar conta da complexidade envolvida na passagem da realidade microscópica do gene para o reino macroscópico da unidade viva. Nesse encontro dos estudos da cultura com uma genética avançada em epigenética poderia estar uma solução elegante para caracterizar equivalências nos níveis biológico e cultural. Os genes, ou melhor, a informação que formam em conjunto, pode ser desligada em partes e recombinada ainda mais complexamente com essas novas possibilidades de arranjo. Poderíamos falar de polissemia ou poli, pluri ou multicodificação genética e memética? Já arriscando uma analogia, perguntaria: A expressão genotípica está para a expressão memética assim como a expressão fenotípica está para o quê? Em última análise, ao investirmos em analogias desse tipo, corremos que tipo de risco exatamente?

 

 

Sobre cultura e vida

Considero a cultura como fenômeno emergente da vida, que é determinada em camadas. Assim, para pensar a cultura numa perspectiva biológica, seria preciso considerar suas camadas evolucionárias (camada primata, camada mamífera, camada cordada, etc); além de perceber as camadas físicas e químicas, anteriores e suportes da camada da qual emergiu a cultura. A própria vida é configurada por superposição de memória. O cérebro, habitáculo especial da cultura, é a melhor ilustração: 3 camadas de tecido, um no centro, responsável por funções básicas, encimado pelo sistema límbico, que complexifica a informatização do comportamento animal por meio da emoção e cobrindo as duas primeiras, a terceira camada, o cortex, uma central de processamento de dados e registro de memória altamente complexa e independente, embora integrada aos dois sistemas anteriores. O cérebro triuno explicado por Paul MacLean, oferece um desenho de como a vida constrói (-se?) em camadas. Leonardo Da vinci, para pintar a Mona Lisa, também usou uma técnica de camadas, que demandaram tempo e precisão. Um resultado cobre um primeiro resultado, não anulando as formações anteriores, mas compondo com elas, complexificando, aprimorando e dilatando os resultados. A cultura, fenômeno ainda mais complexo que a vida, também é determinado em superposição de memória em movimento, história e acontecimento. Se a genética é apenas parte do fenômedo biológico, a memética também é pedaço de um estudo mais amplo da cultura.

 

Sobre matemática nos estudos de cultura, vejo: Quanto mais a complexidade é descrita pelas matemáticas avançadas mais temos uma descrição abstrata e mais mediada se torna a relação com o fenômeno, pois ele é tomado como objeto, percebido como objetivação. Por outro lado, uma descrição subjetiva tanto mais será concreta, no sentido de que está presa às percepções imediatas e no tratamento direto da presença. Teríamos uma construção despregada e mais objetiva e outra mais presa ao fenômeno e subjetiva. Em uma, o sujeito percebe mais clara e distintamente as fronteiras, entre ele e outras realidades, inclusive, e na outra construção, a pessoa confunde-se com o conhecimento. Não vejo porque abrir mão de um dos dois tipos de pensar. Nesse sentido, a objetivação estaria para a realidade digital e para a genética assim como a subjetivação estaria para a realidade analógica e para a fenotípica? Em todo caso, o humano, mesmo que não tenha sua subjetividade transmutada para uma realidade não física (O mundo 1, não o paraíso!), parece ser determinado, constituído mesmo, pela realidade não só genética, histológica, mas também memética, simbólica.

 

Outras analogias e conteúdos relevantes:

Definições de Cultura, cultura como objetivação e informatização 

Diversidade e equivalência memética em arte e na ciência 

Meio ambiente genetico (vida), meio ambiente memetico (cultura)

Ecologia cultural e responsabilidade social da Enunciação

Magia primordial¨ como adaptação psiquica à emergênia da cultura como fenômeno extra-biológico

¨Filosofia, Ciência e Arte como ramificações na Magia Primordial

Macacos e gatos já seriam sujeitos psicofísicos (se tem psique), mas não sujeitos abstraidos?

Como funciona um meme para um cão?

Informação genética e memética construídas em camadas ao longo do tempo

Máquinas abstratas (Deleuze)

Ação da Superestrutura (Marx)

Vida como informatização, Vida artificial e consciencia em simulações

Neurociência e neurolinguística

 

Sobre história e evolução, antes de tudo, penso imediatamente na dureza da vida e na sua guerra contra a entropia*. Em termos de evolução, o que funciona é o que fica. Assim, genes e/ou memes, não escapamos da seleção por eficiência. O movimento de evolução acontece nesse sentido: do aperfeiçoamento e adaptação. Sobre a Origem dos Memes¨, penso sempre na emergência da cultura no universo biológico. Ali está o elo perdido, o hiato de entendimento.

Sobre: B) definições claras e precisas dos vários termos e objetos e “GRAU DE CORRESPÔNDENCIA¨, penso em:

 

Natureza do diálogo trans/multi/interdisciplinar

Nesses encontros, logo, surge a demanda pela definição dos termos e clareza na descrição dos objetos. No caso das ciências da natureza, os fluxos acontecem mais livremente, mas quando chegamos ao nível da cultura, existe um hiato seguido de paralisia, precipitação ou aposta.

Poder-se-ia continuar a pesquisa química usando apenas as leis “conhecidas” (inventadas!) da mecânica quântica e da termodinâmica? Se sim, seria prático e viável? Não foi preciso estabelecer parâmetros e definir conceitos aportando-se nos próprios fenômenos desse nível? Seria a mesma demanda de criação para a cultura? Passar de um conhecimento químico para um conhecimento biológico é simples extensão?  Que fazer com a descontinuidade na linha de conhecimentos: física>química>biologia>X>cultura?

 

Aposto no diálogo e convivência produtivos entre Ciência e  Filosofia, ficando a primeira com a difícil tarefa de lidar com conceitos, métodos e resultados claros e distintos. O risco sempre presente de “Cair em anacronismos , reducionismo determinístico da informação a unidades rígidas” pode ser remediado com uma perspectiva filosófica sempre vigilante e mais flexível. Na academia, pela necessidade de parâmetros de avaliação compartilhados, costuma-se usar o rigor científico até nas Artes. Na filosofia também, essa tendência é dominante. O problema é que essas outras áreas tem suas próprias exigências, que ficam prejudicadas pela importação e aplicação direta de metodologias e conteúdos.

 

Em Memética, tratada como a transdisciplina por excelência, deveríamos atentar, ao menos, para a possibilidade de rever a própria gnoseologia. Como dialogar, afinal? Em que medida precisaríamos de idéias apenas cartesianamente (claras e distintas) desenhadas? Em que medida as "noções moles", rizomas talvez, podem ser tomados, ainda que imprecisos, como "nuvens" ao invés de "mapas", como presenças que ajudam a pensar? Os muros entre as disciplinas que ainda permanecem de pé, logo serão substituídos por fronteiras borradas. Apenas entre os territórios do pensamento cultural e o pensamento da natureza física, química e biológica, impera ainda o obstáculo do hiato. Um abismo ainda separa o entendimento de corpo e mente. Uma psicofísica sem cisão está sendo desbravada definitivamente nos laboratórios de neurociência e simulação digital de inteligência?

A filosofia corre atrás e ainda deve uma proposta de compreensão que dê conta dos primeiros vinte anos de grandes descobertas sobre o cérebro. Pensar em memética como fenômeno análogo ao genético, me parece tão natural quanto comparar a órbita de planetas e eletrons. Vejo como continuidades, extensões da mesma história de emergências e complexificações.

 

Minha tendência é pensar cada tipo de conhecimento em suas próprias fronteiras, respondendo tão somente aos parâmetros de sua área, mas deixando o pensamento aberto para todo tipo de conteúdo. Procuro engrossar fileiras para defender o valor, independência e autonomia de sapiências não cientificas. Ao veto reacionário, prefiro entender conexões interdisciplinares e eixos transdisciplinares para pensar as integrações entre as sabedorias diferentes e procuro identificar objetos comuns nas diversas formas de disciplinaridade e pesquisa sistemática. A Arte, a Ciência e a Filosofia (ficando de lado a Religião e o Esoterismo, para evitar, ao menos inicialmente, maiores pelejas) trato como tipos diferentes de conhecimento, sendo todos, inclusive os excluídos, válidos. Assim, mantenho uma visão ampla, aceitando bem e tentando conectar e comparar diferentes tipos de memes. Minha formação é na área de Cultura, com mestrado e licenciatura em Artes Cênicas e meu interesse acadêmico maior é pensar a biologia como aquilo do qual emergiu meu objeto de pesquisa: a cultura. Diferenças podem e devem conversar, aposto. Colocando-me assim, mais afeito às noções moles (Bião**) do que aos conceitos duros, e apresentada minha posição, retomemos os seus pontos!

 

* Sobre emergencia da vida, interessantíssimo ver Matéria na Revista Ciência Hoje: "Uma Abordagem Termodinâmica da Vida" , em pdf aqui:

http://www.leb.esalq.usp.br/aulas/lce5702/termodinamicavida.pdf

 

 

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http://www.google.com.br/search?q=bi%C3%A3o+%22no%C3%A7%C3%B5es+mol...

Pessoal, sobre esse assunto recomendo muito duas palestras do TED. 20 minutos cada uma. Já viram? Vale a pena.

http://www.caldinas.com.br/2011/05/curso-referencias-sobre-memes-e.... 

Boa discussão pessoal, pena que só vi agora...
Eu teria muitas coisas a acrescentar a discussão, mas vamos ao que tange ao comportamento dos organismos.
Acho que esse paradigma dos memes não está sozinho nas tentativas de explicação utilizando pressupostos ou conceitos da biologia...
. O behaviorismo radical e a análise experimental do comportamento de B. F. Skinner, é uma proposta explicativa selecionista, evolucionista para o comportamento e para a cultura.

Sumarizando, na interação organismo ambiente não somente padrões genéticos variam e são replicados, selecionados, mas a este nível de integração se sobrepõe (sobrepõe no sentido de que só é possível dado que o primeiro ocorrer) outros dois níveis de integração. A seleção comportamental e a seleção cultural. O que o autor chamou de seleção por consequência (ver journal of the experimental analysis of behavior).
Na seleção comportamental padrões de atividade do organismo são selecionados na interação com o ambiente, o que varia nesse nível de integração não são genes e sim respostas de um organismo (padrões neurobiológicos públicos ou privados/encobertos). o que esse organismo aprende seja essa aprendizagem social ou não, planejada ou por mera exposição é o resultado da seleção (por consequência).É uma população de comportamentos que muda, que evolui....em um único organismo.

por ex: Pense a primeira vez que você chega a um banheiro em uma estrada desconhecida. Você está com as mão sujas e busca água na pia. Você abre a torneira da esquerda e não sai água, na da direita a mesma coisa e por fim a torneira do meio sai água e você consegue lavar as mãos. Na próxima vez que você for exposto a essas condições, nesse banheiro qual a probabilidade de você tentar a primeiro a torneira do meio?

Se no exemplo a água continuar saindo o padrão de comportamento, de atividade do organismo tenderá ser a escolha do meio, essa mudança é um exemplo da mudança seletiva que o autor se referia. O reforçamento positivo é o processo que descreve essa mudança. Tudo que geralmente se conhece como adestramento seria um tipo de seleção artificial do comportamento e o que se aprende naturalmente um tipo de seleção natural do comportamento.

Já a seleção cultural só é possível na interação de muitos organismos se comportando, é a interação entre comportamentos selecionados. O que varia é o tipo de coordenação entre indivíduos que é aprendida pelos membros do grupo na interação com o ambiente. O falar e ser compreendido, ou escrever e ser compreendido são exemplos de coordenação que são selecionadas nesse nível de integração. Tanto o falar como o escrever não é selecionado na ausência de um ambiente social. 
Assim, são os padrões de interação entre operantes (operante é o termo técnico para esse comportamentos que são aprendidos e evoluem na interação com as consequências)  dos membros do grupo que variam e são selecionados. Os moldes de se vestir, de cantar, de falar ou mesmo de ensinar - replicar padrões de comportamento - evoluem na interação com as consequências que produz.
Se uma estratégia  x entre membros de uma organização da certo ela tende a recorrer e os membros do grupo passam a combinar seus comportamentos diante de condições similares. Se práticas se espalham ou se  somem são devido a interação funcional com o ambiente físico ou social. 
Assim:

Na seleção Comportamental
O que varia e é selecionado - atividade do organismo/ classes de respostas
Qual o replicador  - cadeias neurais que uma vez ativadas são modificações no organismo que permitem a aprendizagem, a recorrência do comportamento em condições parecidas.
O que seleciona - O evento subsequente temporalmente próximo que afeta o organismo - Reforço

Na seleção cultural
O que varia e é selecionado - padrões de interação entre operantes de mais de um organismo ( ou tecnicamente contingências comportamentais entrelaçadas)
O replicador -  aprendizagem social / padrões de interação selecionadores de comportamento operante. Bem descritos na psicologia experimental. (imitação ou modelação, modelagem e aprendizagem por instrução). O que é replicado é o comportamento similar no outro organismo.

 O que seleciona - Eventos subsequentes temporalmente próximos a ocorrência de uma dada interação entre os comportamentos - Consequência cultural.

Espero ter contribuído é uma sumarizada e tanto...
Uma parte dessa literatura pode ser encontrado no site dessa pesquisadora. Sigrid S. Glenn.
http://sigridglenn.org/publications.html

Além disso tem um enorme literatura experimental sobre transmissão e evolução cultural inclusive brasileira, se alguém quiser depois passo.

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